O Grito dos Escravos da Web

«Somos o novo proletariado»

Manifesto contra a precaridade na Nova Economia

Um pouco de vermelho-vermelhão sobre a euforia do e-sucesso
trazido por Bill Lessard e Steve Baldwin

Jorge Nascimento Rodrigues com a colaboração de Ruben Eiras
e ilustração panfletária de Paulo Buchinho

ENTREVISTA EXCLUSIVA JANELA NA WEB / IDEIAS E NEGÓCIOS
PARA OS ALQUIMISTAS DO DIGITAL

Depois da gargalhada mais famosa da Web (Jeff Bezos), vem o GRITO de dois quase anónimos, transformados em PORTA-VOZES de um mal-estar emergente. Não é nenhuma sequela de filme de terror. É um pouco de VERMELHÃO sobre a euforia da Nova Economia bilionária neste mês de Maio em que fomos encontrar em Yonkers (Nova Iorque) a dupla Bill Lessard e Steve Baldwin às voltas com a FAMA de um livro que começou como uma recolha numa página da Web de casos-denúncias e acabou em papel num quase-manifesto PERTURBANTE. A História do Digital também é feita destes alquimistas ANÓNIMOS. Ouça o que eles têm para LHE dizer. Se é um «escravo» da Web como eles, entende-os rapidamente. Se está do outro «lado», tome boa nota do AVISO. Uma grande FRACTURA social poderá estar a germinar. Não entre os deserdados da «velha» sociedade e as gentes de sucesso da Nova Economia. Mas DENTRO desta última.

 O livro da Polémica: 'Net Slaves' | O site do livro 
O par de escravos | Conselhos aos incautos

 SE SENTE QUE É O SEU CASO ENVIE-NOS A SUA HISTÓRIA 
COMO «ESCRAVO DA WEB» EM PORTUGAL

São os «temporários-permanentes» - uma categoria do mercado de trabalho conhecida de todos os precários de longo prazo - do El Dorado da Economia Digital. «Criou-se a grande ILUSÃO de que somos emprendedores de nós próprios votados ao sucesso. Com este livro, com todos esses casos que recolhemos - e o nosso próprio testemunho - viemos desfazê-la», clama esta dupla de «escravos da Web» em entrevista exclusiva à Ideias & Negócios e à Janela na Web.

O livro «Net Slaves - True Tales of Working the Web» (compra do livro) começou como uma tentativa frustrada, recebendo «a recusa de todo e qualquer agente literário e editor da área», começa por nos contar Bill Lessard e Steve Baldwin, que vivem em Yonkers, Nova Iorque.

O projecto saltou, então, para a Web, em finais de 1998, entrevistou muita gente, recebeu mais de 500 mil visitas por semana, alojou-se na plataforma da Desobey.com (o próprio nome é significativo), e assistiu a uma enxurrada de denúncias comprovativas da nova escravidão que eles revelavam. Os dois amigos tornaram-se de «idiotas anónimos em idiotas descobertos com umas ideias malucas que toda a gente passou a ouvir», nas próprias palavras dos nossos entrevistados.

O livro em papel acabaria por ser publicado pela respeitável McGraw-Hill em finais de 1999 e continua todos os dias a sua saga na Web em www.disobey.com/netslaves/ com as «Histórias de Horror de quem trabalha na Web».

O PAR DE ESCRAVOS
Parece que são um jogo de troca de números na idade. Bill Lessard tem 34 anos e Steve Baldwin 43. É claro que o trocadilho de números só se vai repetir de 11 em 11 anos.
São de duas gerações diferentes - uma mais jovem do que a outra. «Mas em tempo Internet, estamos já anciãos», reclama Bill, que aos 31 anos já tinha «pifado», depois de 7 anos loucos de trabalho paranóico em sete empregos diferentes, tendo passado pela Prodigy, pela Pathfinder e mais outras cinco 'start ups' que faliram. «Nesse ponto, já não conseguia imaginar-me a trabalhar para mais uma empresa Web. E estava farto de todo o 'hype' em torno dos negócios da Web e da suposta riqueza em que todos estávamos a nadar!. Queríamos deitar cá para fora a nossa história e a de gente como nós - assim nasceu o projecto dos 'NetSlaves'», acrescenta o nosso interlocutor.
O livro começou como um projecto para o papel, mas com as «negas» todas que levou acabou por ir parar à Web, alojando-se na Disobey de «Morbus», aliás Kevin Hemenway, de seu nome verdadeiro. Aqui funcionou como catalisador e acabou por permitir a publicação do livro em papel na respeitável McGraw-Hill que lhes trouxe a fama mundial.
Mas apesar da projecção de 'NetSlaves', continuam a «esgaravatar» os cheques de final do mês fazendo consultadoria e escrevendo em regime de «freelancers».
O pedaço mais famoso da actual intervenção deles na Web é «The Real Web» na Wired News e a possibilidade de ouvir de viva voz algumas partes do livro em MP3.
Bill escreve uma coluna para The Industry Standard, um magazine de tecnologia com versão papel e web. E Steve escreve para a Time Digital - mas apesar do «local» da escrita, «não ganha nenhuma fortuna». Tem, também, na Disobey uma rubrica famosa «Ghost Sites of the Web».
Bill pode ser «acordado» (por favor não o façam a qualquer hora da noite) em Orooney@aol.com e Steve em steve_baldwin@hotmail.com.

Apesar da fama, Bill e Steve continuam «freelancers» a não saber de «onde virá o próximo cheque» e a perder a paciência nas cobranças à espera do «cheque do mês passado».

Vamos ouvi-los como se de um Manifesto se tratasse.


1. SOMOS O NOVO PROLETARIADO

Tal como os balconistas do «fast food» ou as miúdas das caixas registadoras dos hipermercados, os escravos da Web são o quê?

Somos o novo proletariado. Olhem para o modelo dos modelos - a Microsoft...

Agora está um pouco em desgraça...

Mas continua a ser o modelo. Cerca de 1/3 dos seus empregados são o que chamamos aqui na América de «perma-temps», temporários permanentes, que trabalham ano após ano sem segurança na doença, férias pagas ou qualquer segurança de emprego que se veja.

Na Economia Digital, esses «escravos» fazem o quê?

Estão na produção, no design e na administração de sistemas. Muitos dos escravos da Net são engenheiros das funções de suporte técnico. É pessoal da qualidade que mata os «bugs» no software, são designers que pululam de trabalho em trabalho e de cliente em cliente, e administradores de sistemas que não têm horas, que têm de se levantar a meio da noite para reiniciar um servidor.

2. A GRANDE ILUSÃO - OS EMPREENDEDORES DE SI PRÓPRIOS

E esta gente não se organiza e revolta? Ou sente-se bem na pele que veste?

Por enquanto, esta malta vê-se a si própria como empreendedores da sua própria carreira, e não como trabalhadores. Por isso, crêem que vão ficar ricos com as opções sobre acções e, por isso, para quê organizarem-se. Mas, a nosso ver, esta percepção pessoal vai mudar em breve, se o mercado de capitais continuar a ir pelo cano abaixo. As pessoas deixarão de querer imitar o Bill Gates, descerão à terra para darem mais atenção às realidades das suas próprias vidas.

Em que regiões do mundo e do vosso país coligiram mais casos?

Coligimos, de facto, histórias de todo o lado e ouvimos gente dos mais diversos cantos do mundo. De gente tão distante - aqui de nós - como da Islândia e da Nova Zelândia. Nos States, os Escravos da Net estão, naturalmente, nas principais regiões «hi-tech», no Silicon Valley, em Austin (no Texas) e na Route 128 à volta de Boston.

3. OPÇÕES SOBRE ACÇÔES - TRABALHAR QUE NEM CÃES

Mas as opções sobre acções são uma pura ilusão? Ou são parte de um novo tipo de empresa que distribui a riqueza na base de uma parceria?

Meu caro, a não ser que você seja um dos fundadores ou um dos investidores principais, não vai ficar rico de certeza com isso. É mais ajuizado que encare as stock options com algum cepticismo - na nossa experiência, elas apenas serviram como «cenoura» para pôr o pessoal a trabalhar como cães.

4. TRABALHADOR DO CONHECIMENTO - TRETAS

O trabalhador do conhecimento é uma realidade ou uma invenção literária de Peter Drucker? O tal novo trabalhador detentor do seu conhecimento ganhou capacidade de manobra para impor o seu poder em relação aos CEO e aos investidores?

Isso é treta pura e simples - buzzwords! A tecnologia mudou, mas a natureza humana não. Uma nova forma de fazer as coisas, não significa automaticamente que as pessoas passarão a tratar-se melhor umas às outras e a serem investidas de poder. Revejam a História assim: onde está o pessoal que construiu os primeiros automóveis ou que trabalhou na indústria eléctrica nascente como trabalhadores do conhecimento da altura? Conseguiram alterar a hierarquia da sociedade industrial? Nem pensar! É o mesmo velho drama humano.

Reafirmam - como o escrevem com todas as letras no vosso livro - que os CEO da Web são como os velhos Barões-Ladrões?

Sim, sem tirar nem pôr! E penso que o Departamento norte-americano da Justiça concordará.

5. PUTOS BILIONÁRIOS - GANÂNCIA É DOENTIA

Gente muito nova, por vezes abaixo dos 16 anos, trabalha no duro para alcançar na Web um ideal de riqueza rapidamente. O que é que está errado nisso? Porque é que os putos não hão-de seguir o exemplo do canadiano Michael Furdik que se tornou rico aos 17 anos?

Meu caro, os putos devem é ir é para a rua e divertir-se! Mas se nos saem uns bastardos gananciosos logo em pequeninos que querem ficar ricos nessa idade, tudo bem! O problema é que o pessoal mais velho endeusa esses casos e espalha a ganância por todo o lado, e começa inclusive a cozinhar na cabeça: «Porque é que eu não hei-de ser rico também? Porque é que toda a gente é rica, até esses miúdos, menos eu?». Ouvi isto mil vezes, e é completamente doentio. Porque em vez de gozarem o que têm, esta malta fica cada vez mais infeliz. E isso generalizado nos miúdos passa a ser uma doença social grave!

Mas que há casos de sucesso, há!

Claro que há. Mas o problema é que se cria a ilusão de que TODA a gente que trabalha na Web é um bilionário, como se todos os que vão a Las Vegas saem do casino ricos. Não sei as vezes sem conta que, em festas, tive de explicar aos curiosos que, apesar de trabalhar nesta área, não sou rico e provavelmente nunca o serei.

Mas, ao fim e ao cabo, o que é que há de errado com este clima em torno da Nova Economia?

É simples - sempre que as pessoas esperam demasiado de algo, arriscam-se a ficar desapontadas! Nos últimos anos, invadiram a Web à espera de ficarem ricas em seis meses e quando isso não acontece, ficam na pior.

6. TELETRABALHO - GEROU-SE UM MERCADO DUAL

O teletrabalho é pintado como uma das novas formas emancipadoras de trabalho. Mas vocês torcem o nariz e sugerem que é onde se reproduzem mais os escravos da Web...

O teletrabalho já criou uma dualização no mercado de trabalho. Muita gente que trabalha na tecnologia não fica rico, ainda que ganhe relativamente mais do que as pessoas noutras «velhas» indústrias. A diferença não é de substância - porque, apesar da liberdade que o teletrabalho aparentemente cria, a qualidade de vida é péssima e a falta de estabilidade é total.

7- AVISO (SOFT) AOS BARÕES

Que futuro poderemos esperar com um cenário desses?

Meu caro, as pessoas vão ficar cansadas de tanto trabalhar para tão pouco benefício. Vão acabar por verificar que só os «bosses» e os principais investidores se enchem e começarão a exigir pagamento das horas extra e férias mais prolongadas, em vez da treta das opções. Pelo menos, é isto que esperamos.

Uma reacção muito «soft», ou é precaução vossa?

Um começo.

CONSELHOS AOS INCAUTOS
Seja realista. E perspicaz. Tome em consideração CINCO conselhos que lhe dão Bill e Steve, quando fizer a escolha da empresa da Nova Economia em que quer dar o litro.
  • O plano de negócio da empresa faz sentido?
  • A empresa está solidamente financiada?
  • Os gestores dela sabem efectivamente do que falam e dirigem, ou estão armados em CEOs?
  • O pessoal que já lá trabalha aparenta ir cair de morto? (Há empresas que chegaram a instalar sofás nos cubículos em que esse pessoal trabalha - se for o caso é o PIOR dos sinais para quem não tenha virado paranóico!)
  • Pelo sim pelo não, consulte um consultor financeiro a propósito do plano de stock options que lhe propuserem.
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