O CEO Virtual Apresenta-se

«Foi um 'bug' íntimo que transformei em vantagem», diz Randy Komisar, a estrela de um novo tipo de carreira escolhida pela Harvard Business Review
Um «modelo» de conglomerado pessoal para o século XXI

Jorge Nascimento Rodrigues com Randy Komisar, o «incubador» ambulante de start-ups, visto pelo traço de Paulo Buchinho

Outra versão própria para a Ideias & Negócios, série dos Alquimistas do Digital

Artigo de Randy Komisar na Harvard Business Review | O Perfil de Randy
 Elogio de um falhado | Compra do livro de Randy «The Monk and The Riddle»
 

O «escritório» preferido de Randy é o CAFÉ Konditorei em Portola Valley, perto de Palo Alto, no Silicon Valley. Ele aparece aos proponentes de ideias e negócios Web em jeans, t-shirt, botas à «cowboy» e blusão de «motard», emoldurando um tipo completamente calvo.
Andou 25 anos a saltitar de emprego em emprego e de carreira em carreira. Se tivesse que escrever hoje um «CV» era «um DESASTRE», diz ele, aos 46 anos, exagerando manifestamente.
A experiência que adquiriu naquilo que ele chama uma não carreira em 11 empregos, dá-lhe hoje uma VANTAGEM «competitiva» - ele consegue ser o CEO na sombra para os primeiros meses ou anos de vida de uma start-up.
É uma espécie de «incubador» intelectual (não no sentido literário do termo), cujo apoio aos negócios se baseia no CONHECIMENTO.
Em troca, vai coleccionando participações em empresas californianas promissoras. Transformou-se num CONGLOMERADO andante.
Pode muito bem ser um «modelo» para si, leitor, que está a pensar em dar uma volta na sua vida - ele INVENTOU UMA CARREIRA que não se esgota no estafado papel do «consultor» franco-atirador.

É uma figura, no mínimo, original, se olhada, da cabeça aos pés, segundo os cânones convencionais. Mas o mais original de tudo em Randy Komisar não é o que o leitor está a pensar - é o facto de este personagem do Silicon Valley, um tipo verdadeiramente dos sete instrumentos, ter «inventado» uma nova carreira com pernas para andar na actual fase de descolagem da Nova Economia.

Um quadro quarentão, aparentemente «falhado» em 25 anos de empregos sucessivos, passa a convidado da prestigiada revista Harvard Business Review (edição de Março-Abril de 2000). Esta dá-lhe a coluna «First Person» para ele discorrer sobre «Adeus Carreira, Olá Sucesso» (no original «Goodbye Career, Hello Success»).

E o que Randy nos diz é, aparentemente, um paradoxo em relação a toda esta fama que granjeou ultimamente: o currículo dele ao saltar por 11 empregos não daria para alinhavar algo coerente em termos de carreira - ele escreve mesmo que é «um desastre».

Mas, esta viagem caótica de onze anos armou-o com um conjunto de «competências nucleares» (diriam os gurus de gestão Gary Hamel e C.K. Prahalad) que, fabricaram, aos 42 anos de idade - em 1996 - um novo Randy, que se revelou muito útil ao «boom» de start ups da então nascente Economia Digital. À falta de melhor, ele cozinhou um título para colocar no cartão de visita - «CEO virtual»! Perceber o que é esta nova carreira - que é um negócio pessoal e uma outra forma de empreender - foi o motivo da nossa conversa com mais este Alquimista do Digital.

Capa do livro The Monk and the Riddle Conversa tanto mais oportuna quanto Randy acaba de lançar nos Estados Unidos um livro com um título original: O Monge e a Adivinha, editado pela Harvard Business School Press em finais de Maio, e que é hoje um dos livros mais populares na região de Palo Alto, segundo as estatísticas da Amazon.com em Maio de 2000, quando esta entrevista foi feita. Nas próprias palavras de Randy, o título inspirou-se «numa adivinha que me foi contada por um monge budista que encontrei, por acaso, numa viagem de bicicleta na Birmânia»...

Não vamos destapar o véu da história - o leitor terá de ler The Monk and The Riddle (compra do livro) para saber «qual é a adivinha, a solução dela, e como ela se aplica à sua própria vida». A mensagem principal é que «devemos construir uma vida com sentido enquanto ganhamos a vida; os negócios são uma poderosa instituição não só para ganhar dinheiro, mas sobretudo para criar um futuro».

ELOGIO DE UM «FALHADO»
Randy Komisar vem de um subúrbio confortável, pequeno burguês, de Rochester, em Nova Iorque. O pai nunca teve uma carreira digna desse nome - foi dono de um restaurante, de uma bomba de gasolina, foi vendedor de tintas e de joalharia e de tudo o mais.
Randy licenciou-se em 1976 na Brown University, onde a par de estudar, fez de tudo um pouco no activismo escolar, desde sindicalismo estudantil, direitos humanos, teatro, musica, cinema e escrita. Quando acabou o curso, não tinha ideia nenhuma sobre o que fazer a seguir.
Tentou entrar na Harvard Business School. Mas esta rejeitou-lhe a candidatura - ironia da história é a própria Harvard Business Review, a revista editada por esta Escola de élite da gestão, que hoje faz eco do caso de sucesso dele!
Depois tentou entrar na Banca, mas bateu com o nariz logo na porta de entrada e, em desespero total, tentou a IBM, e também aí foi liminarmente rejeitado...por um teste à personalidade.
Acabaria por arranjar emprego num município - em Providence, Rhode Island - como responsável de planeamento. Depois foi promotor de rock de noite e ao fim de semana. E professor de adultos veteranos do Vietname.
Decidiu, então, que tinha de ter uma carreira «séria» e conseguiu acabar uma gradução na Harvard Law School em 1981. Começou, então, a dedicar-se à advocacia de negócios, sobretudo de litígios empresariais em Boston.
Mas o acaso trouxe-o em 1983 para o Silicon Valley, na outra costa da América, pela mão da mulher, que viera trabalhar para a Hewlett-Packard. Tudo o que ele sabia do famoso «Vale» resumia-se a uma história da revista «Time» sobre a Apple. Na Bay Area de São Francisco saltou de um firma de advogados para outra, até que deu com...a Apple no seu caminho.
Entrou em 1986 na Apple como «advogado especializado em tecnologia» e mais tarde numa spin off desta, a Claris, onde foi co-fundador. Algum tempo depois, foi director financeiro de uma start-up, a GO (criada pelo tipo que havia criado a Claris), e, mais tarde, entrou noutra start-up criada por George Lucas (que ele conhecera antes quando este vendera a Pixar a Steve Jobs, que saíra da Apple), a LucasArts Entertainment, onde foi CEO e Presidente.
Até que em 1996 estava «farto» de saltitar. Por essa altura, começou o «boom» das dot com e Randy poderia, muito bem, ter aceite mais um cargo numa delas.
Mas disse não! «Time out», exclamou ele.
O perfil do que viria a fazer daí em diante começou a desenhar-se-lhe na cabeça quando aceitou o desafio de apoiar directamente, em «part-time», Steve Perlman, o fundador da Web TV, entre 1995 e 1997.
A seguir ao desempenho de «sombra» de Perlman, seguiu-se uma enxurrada de papeis semelhantes em outras dot com, como na Mondo Media, na IQ Commerce e na Magnifi. Se lhe agrada um projecto de um empreendedor, ele embarca nele - o princípio fundamental do seu negócio de CEO virtual é tão simples quanto isto.

E, para fechar com chave de ouro este aperitivo à entrevista, diz-nos Randy: «Especialmente neste mundo de start ups em plena euforia, em que o risco financeiro é enorme, se não estamos imbuídos de um alto propósito, podemos descobrir, depois, que andámos a desperdiçar o nosso precioso tempo. Devemos dar um sentido ao nosso trabalho que faça valer a pena, mesmo quando o risco de falhar é enorme».

1ª Adivinha
Que estranha profissão é esta?

Randy pode explicar-nos o que é que faz exactamente no dia-a-dia?

Em geral trabalho junto de empreendedores para transformar ideias em negócios. Tendo a trabalhar com quatro ou cinco casos ao mesmo tempo, cada um deles num estádio diferente do seu desenvolvimento. Tento permanecer no barco da direcção por um ano ou dois, até que tenhamos conseguido construir um núcleo duro, arranjado dinheiro, criado um produto ou serviço, explorado um mercado e concluído que temos uma empresa para o longo prazo. No fundo, eu sou como um mentor dos fundadores, particularmente do executivo fundador. Ajudo a recrutar a equipa, a definir uma estratégia e um modelo de negócio, apoio na descoberta de relacionamentos estratégicos e na obtenção de fundos.

Isso soa a uma espécie de CEO temporário na «sombra»?

Eu chamo-lhe um executivo sénior virtual, um CEO virtual, incutindo visão e dando conselhos em todos os aspectos do negócio. Sublinho «virtual» porque, em larga medida, trabalho «off-site», fora do local do empreendedor, através de correio electrónico, telefone e fax. As minhas interacções físicas com os empreendedores são, em regra, curtas e muito focalizadas - sobretudo com o CEO e com a equipa sénior. É claro, que assisto a reuniões de direcção, com parceiros ou com o pessoal, sempre que necessário. Costumo comunicar com cada uma das minhas «incubadas» pelo menos uma vez por dia de um modo ou de outro. Estou disponível 24 horas sete dias por semana e, não é raro, atender um telefonema ou responder a um «email» às tantas da madrugada ou nos fins-de-semana.

2ª Adivinha
Como se ganha dinheiro na «sombra»?

E como remunera o seu trabalho?

Em larga medida, sou pago com participações no capital das start-ups em que me envolvo Assim, fica claro que fico «condenado» a trabalhar para o sucesso do projecto.

Mas isso prende-o aos altos e baixos do mercado de valorização dessas empresas. O seu portfolio fica muito «sensível» à volatilidade hoje em voga, ou você tem alguma poção mágica para evitar isso?

Se não for inteligente, é claro que fico muito «sensível», que fico nas mãos da volatilidade! Mas acho que a natureza do meu trabalho e do meu relacionamento com cada uma das empresas é melhor representado por uma participação de capital. Eu nado ou afundo-me com a equipa do projecto! Assim, os nossos incentivos estão alinhados e fico altamente motivado. É claro que procuro gerir o meu portfolio com sabedoria (risos).

3ª Adivinha
Que personagem está a emergir daqui?

Se se dedica a coleccionar participações em diferentes start-ups, e se encara esse portfolio a médio e longo prazo, o Randy está a transformar-se numa espécie de conglomerado pessoal...

Exactamente. Um das vantagens que retiro disso é que crio um pequeno portfolio que me protege dos caprichos do mundo das start-ups. Na realidade, prefiro esta solução, não tanto pelo atractivo financeiro, mas porque me permite «experimentar» uma variedade de ideias e interagir com empreendedores absolutamente talentosos e inspiradores. E esta minha «listinha» cresce com o tempo.

Em certo sentido, o Randy actua como um «incubador» de start-ups. Não tanto no aspecto tradicional do termo, mas mais como um mentor intelectual que se apoia no seu saber, que rentabiliza esse seu conhecimento acumulado. E como é que se relaciona com a gente do capital de risco, quer sejam «business angels» ou empresas de «venture capital»?

Cada um desses desempenha o seu papel. Os «angels» tendem a estar na primeira fase, avançam com dinheiro e com poucos conselhos. Os capitalistas do «venture» vêm a seguir com mais dinheiro e, novamente, com poucos conselhos. Eu, pelo meu lado, dou o máximo de atenção e de conselhos, apoio a equipa directamente e, por vezes, até ponho algum dinheiro. No fundo, estou em sinergia com os homens do capital de risco - arranjo-lhes negócios e eles, por seu lado, financiam as minhas «incubadas» e arranjam-me projectos novos para eu analisar. Funcionamos totalmente num sistema de vasos comunicantes que se baseia no boca-a-boca.

Mas estamos a falar do Silicon Valley, onde todo esse tipo de actuação funciona, pois há aqui uma cultura total de empreendedorismo. Acha que esse tipo de CEO virtual poderá funcionar noutras paragens?

Porque não? A acção de mentor, de apoiar a definição da estratégia, de aconselhamento, aplica-se a qualquer negócio, grande ou pequeno, em qualquer parte do mundo, não? É certo que a fluidez do que eu faço e a aceitação disso são, certamente, mais fáceis aqui, no Silicon Valley, onde a infraestrutura existe e as pessoas têm uma cultura empresarial aberta a novas formas de ver e fazer as coisas.

4ª Adivinha
Que tipo de carne e osso está por detrás disto?

Mas como é que nasceu o Randy «incubador»? Que carreira lhe abriu estas portas?

Carreira?! (risos) Eu tive foi uma não-carreira durante 25 anos!!! Nunca consegui seguir as regras do jogo da carreira. Mas esta «incompetência» deu-me uma vantagem - a da flexibilidade, da vontade de criar coisas e de aceitar a mudança, uma enorme curiosidade e desejo de aprender, e uma base de conhecimento e de experiência muito larga que me permite compreender o «novo». Isto deu-me uma enorme vantagem. Agarrar-se a uma carreira tradicional - em vez deste meu saltitar caótico por 11 empregos - já não dá vantagem nenhuma.

E como é que «descobriu» subitamente esta sua competência?

Foi um «bug» (risos)...que transformei em valor pessoal. Em vantagem. Eu adoro sintetizar e trabalhar em movimento. Gosto de criar a partir de uma folha de papel em branco. Sou um viciado no jogo das ideias - gosto de jogar com ideias e criar oportunidades.

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