UM FUTURISTA EM GUERRA CONTRA A 'INVASÃO' DIGITAL

«Os Humanos são analógicos. Ponto final»

O 'Ser Digital' é para as MÁQUINAS. Por favor deixem-no ficar aí.
As pessoas são biológicas, são analógicas. NÃO TÊM de ser feitas
à imagem do software nem da Web.
A revolução em curso não é informática, nem digital, nem económica.
É social - do que se trata é de desenvolver a interacção social HUMANA.
Um histórico do Silicon Valley lança a ideia do computador INVISÍVEL
e fala do PECADO ORIGINAL da informática.
Já lhe chamam o papa do movimento pós-PC (computador pessoal, obviamente).

Jorge Nascimento Rodrigues com Donald Norman do outro lado da linha
em Chicago, ilustrado por Paulo Buchinho

O lançamento de O Computador Invisível por Don Norman
 Compra de The Invisible Computer | A página pessoal de Don Norman na Web 
A página na Web da Unext

É uma figura simpática, de 63 anos, e por debaixo das barbas desponta um longo sorriso. Não se importa de trocar por correio electrónico algum diálogo, mas não dispensa uma boa conversa ao telefone, na impossibilidade de um face-a-face em Chicago.

Actualmente, aceitou o desafio de dirigir a UNext Learning Systems, um projecto de sistemas de ensino à distância acabadinho de lançar, que o levou a abandonar a sua vida de consultor na Califórnia no Nielsen Norman Group fundado com Jakob Nielsen e vir apanhar o frio do Lago Michigão.

Norman é reconhecido como um perito mundial em ciências cognitivas, tendo começado nos anos 60, em Harvard, nesta área. Foi fundador da Cognitive Science Society americana e, mais recentemente, criou na Universidade da Califórnia em San Diego um Departamento de Ciências Cognitivas.

Cursou em jovem engenharia electrotécnica e psicologia matemática, e começou a carreira, imagine-se, como psicólogo e psicofísico experimental. O Silicon Valley desde cedo o atraiu e por lá andou nos anos 70 e 80 entre o Xerox PARC e a Apple, tendo regressado a cargos de destaque na Apple em 1995/97, onde foi vice-presidente do Grupo de Tecnologias Avançadas, e na HP em 1997/98, onde foi chefe do Centro de Design de Utensílios.

Celebrizou-se com livros como «As coisas que nos fazem mais inteligentes» e «O desenho das coisas de todos os dias». Recentemente deu à estampa o título polémico «O Computador Invisível», um título estranho que motivou esta entrevista.

Apesar da sua aversão à ideologia «digitalista» agora em voga, Normam é mais um dos Alquimistas modernos sonhando com um mundo em que o «digital» está discretamente por detrás da cortina ao nosso serviço no dia-a-dia.


A tão louvada 'economia digital' não faz sentido? A chamada Sociedade da Informação está no caminho errado?

DONALD NORMAN - Sim, absolutamente. A Sociedade da Informação está a enterrar-nos debaixo de tanta informação, forçando-nos a agir mais como máquinas do que como humanos. O adjectivo digital está a servir para nos subjugar a uma lógica que não é nossa. E o pior disto tudo é que fomos nós que nos metemos nesta armadilha. A nova Revolução não deve ser sobre economia, nem sobre computadores. Ela é acima de tudo uma revolução na interacção social humana. A convergência dos telefones com o sem fios, a disponibilidade permanente de conexões e o poder computacional permitem hoje uma interacção social humana muito mais rica. É para isto que deve servir a economia - para nos levar a uma sociedade humanamente mais rica.

Esse anti-digitalismo quer dizer que o 'Ser Digital' (um célebre título de um dos livros de culto da ideologia digital) é contra-natura? Que Nicholas Negroponte, o seu autor, está completamente errado?

D.N. - O digital é para as máquinas. As pessoas são biológicas, analógicas. Analógico, quer dizer análogo com a realidade. As pessoas não são máquinas. Ponto final. O comportamento analógico é muito mais adequado para os humanos do que o digital. Deixemos as leis digitais para as máquinas e facilitemos é uma melhor interacção dos próprios humanos com as máquinas. Porque é que nos queremos forçar a agir como máquinas? Nós devemos criar as máquinas para apoiar as pessoas, e não empurrar as pessoas para agirem à imagem das máquinas.

Acha que Taylor continua a influênciar a filosofia e a lógica prática da mudança tecnológica nesta Terceira Vaga? O digitalismo é uma espécie de taylorismo modernizado?

D.N. - Deixe-me juntar mais um ponto à resposta anterior. Pode escandalizar os fieis, mas Ser Digital é mais uma emanação do taylorismo, efectivamente. O que Taylor tentou foi o mesmo - em nome da eficiência, esqueceu o Homem. Transformou o trabalho numa coisa horrível. Tornou a vida intolerável. Por quantas mais décadas vamos continuar a pagar esta factura? Voltando à sua questão: o taylorismo continua de facto a influenciar a mudança tecnológica, a forma como ela é encarada pelos tecnólogos. Ora a Internet e a Web - o tal mundo 'digital', como é corrente dizer-se - é claramente contra Taylor. CONTRA (levantou a voz), escreva bem isto. O que a Net e a Web fazem é encorajar a pensar. Mais 'brain', menos músculo, para todos. Frederik Taylor não gostaria mesmo nada.

Já nos disse que os humanos não devem imitar as máquinas. E as máquinas, deverão ser desenhadas mais à semelhança dos humanos? A estratégia do 'user-friendly' (amigável com o utilizador) dos tempos áureos da Apple, em que você também esteve, era o caminho certo?

D.N. - A estratégia da Apple era excelente há 10 ou 15 anos atrás. Mas hoje já não é suficiente. A minha abordagem é mais radical - é indispensável uma tecnologia centrada no ser humano, desde o princípio ao fim do processo de inovação e criação. As necessidades das pessoas vêm em primeiro lugar, a tecnologia depois. Eu sou um tecnólogo entusiasta, mas o meu objectivo é humanizar a tecnologia. Estou farto de viver num mundo mergulhado em máquinas com uma complexidade desnecessária, irritante. Lançei a escola de um design centrado no Homem. Nós devemos desenhar a tecnologia que as pessoas precisem e possam usar. E, para isso, por mais estranho que pareça, precisamos de novos modelos conceptuais. O problema não é técnico, começa por ser ideológico (na forma como pensamos), e é também social, político e organizacional. A indústria informática colocou a tecnologia primeiro durante todos estes anos. As reais necessidades dos consumidores eram ignoradas.

Provavelmente no início teriam de forçar o mercado um pouco, não?

D.N. - A alta tecnologia era orientada pelas necessidades de consumidores muito sofisticados tecnicamente, se quiser. Hoje podem contar-se como anedotas a visão que muitos tecnólogos tinham sobre o futuro da sua tecnologia - jamais pensariam que se massificaria. Mas quando a alta tecnologia amadureceu, tudo mudou de figura. A massificação é feita pelo utilizador comum. A indústria das tecnologias da informação respondeu a esta mudança com mais do mesmo! Você já pensou porque é que é tudo tão difícil de usar? O meu ponto é que tudo tem de começar pelas necessidades do consumidor comum e acabar na engenharia - ou seja o processo actual tem de ser invertido.

A quem deve ser atribuído esse pecado original da informática, de criar uma indústria assente numa dinâmica centrada na tecnologia e nos tecnólogos?

D.N. - Não faça cara de admirado, mas o pecado da alta tecnologia vem de trás, de Thomas Alva Edison.

De Edison? Eu julguei que tínhamos uma grande dívida para com ele?

D.N. - Ele até foi dos primeiros na convergência (como hoje chamamos) do processamento da informação com as comunicações e o entretenimento. Ele foi o inventor da 'alta tecnologia'. Mas o pecado dele foi julgar saber melhor do que os consumidores o que estes queriam. Criou esta 'escola', esta 'cultura' entre os tecnólogos.

Eu sei que o 'ser digital' lhe provoca alguma náusea, mas um programa de investigação como o das 'Coisas que Pensam' no Media Lab dirigido por Negroponte, não é um caminho interessante para 'aproximar' as máquinas das necessidades humanas?

D.N. - É um excelente programa. Mas não é a única resposta. Haverá várias. O meu ponto de vista é que o ideal é que a tecnologia se torne INVISÍVEL (sublinhou com a voz). Literalmente: tirá-la da nossa vista. Fazer o mesmo que aconteceu ao motor eléctrico na Revolução Industrial. O computador deve estar por detrás e não pela frente dos aparelhos que usamos. Daí o título do meu mais recente livro - O Computador Invisível. O título original começou por ser 'Domesticando a Tecnologia', depois mudou para 'Utensílios de Informação', dentro da minha ideia de que temos de inundar a nossa vida quotidiana com aparelhos fáceis de aprender, de usar, utensílios agradáveis focalizados nas tarefas que temos de fazer no dia-a-dia. A ferramenta tem de ser levada à tarefa, e não o contrário, como hoje acontece. Se quer que lhe diga a minha visão pessoal, o meu desejo, seria ter um 'server' em casa que nunca se vê mas que distribui a computação por diferentes utensílios e aparelhos que eu uso no meu dia-a-dia.

O agora tão falado 'tempo Internet' que acaba por ser uma corrida paranóica (para parafrasear Andy Grove, ex-líder da Intel) auto-alimentada pela indústria informática e da web é mesmo uma exigência da lucidez ou é um passaporte para a cegueira estratégica?

D.N. - Gosto dessa última expressão - passaporte para a cegueira estratégica! Você acha que o melhor para a nossa vida é sermos todos paranóicos? Eu posso não gostar, mas a questão é que ser o primeiro a chegar e abocanhar rapidamente a parte do leão de um novo mercado, mesmo que com prejuízos prolongados, parece ser a norma nas empresas da web...

Haverá alternativa a esta loucura?

D.N. - É uma questão complexa. Os casos da AOL e da Amazon.com parecem ser bons exemplos disso. Mas terão de equacionar a questão dos lucros mais tarde ou mais cedo.

Para finalizar, o 'bug' do ano 2000 é um dos filhos dessa estratégia auto-centrada na tecnologia e nos interesses egoístas dos informáticos?

D.N. - Sim e não. Porquê esta minha resposta ambivalente, está você já a interrogar-se? Porque no início da informática uma estratégia centrada na tecnologia era a única forma possível. Há 30 ou 40 anos, isso era compreensível quando não se imaginava o que viria a acontecer. Ainda nos anos 70, seria tolerável. Mas nos anos 80 já não fazia qualquer sentido. E não se agiu no tempo certo, mas com grande atraso.

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