O génio de Sausalito auto-exilado no Japão

O pai (esquecido) do Hipertexto

Auto-intitula-se «CONSTRUTOR DE PARADIGMAS».
O SONHO que persegue há 40 anos (sim, não é gralha) é o de levar o mundo... ... a escapar da SINA DO PAPEL,
... a cortar esse PACTO COM O DIABO,
... a substituir o paradigma de GUTENBERG.
Eis o homem que a Nova Economia deixou no ESQUECIMENTO.

Jorge Nascimento Rodrigues em Sausalito (Califórnia) com Ted Nelson em Kanagawa (Japão), visto pelo traço de Paulo Buchinho

Um projecto editorial em conjunto com a revista portuguesa Ideias & Negócios

Descubra Ted Nelson | O Perfil de um revolucionário
Outra entrevista a Ted Nelson pela CyberSpace Report (1996)
O livro Literary Machines na Web | O livro The Future of Information na Web
História de uma Revolução | O site de Xanadu
Um artigo no The Economist sobre Ted Nelson

Um dos frisos de habitações-barcos em Sausalito
Um dos frisos de habitações-barcos em Sausalito

Sausalito fica do outro lado de São Francisco, depois de se atravessar a célebre Golden Gate - a tal que é parecida com a Ponte sobre o Tejo, em Lisboa. A pequena cidade-marina funciona como uma espécie de Cascais para alguma élite são-franciscana e para gente singular que se espalha pelos chalés espreitando no meio de encostas repletas de vegetação e pelos barcos-casa sobre a Baía.

Estas últimas habitações semi-palafíticas são, ainda, hoje o paraíso imobiliário de artistas, escritores, inventores, consultores, empreendedores e teletrabalhadores; uns gente rica, outros apenas remediados. Os músicos que gravam, ininterruptamente, no The Garden (o estúdio assim baptizado por John Lennon e Yoko Ono em 1972), passam nelas as horas que sobram dormindo sobre a água azul da Baía.

O cenário

Foi num destes barcos-casa que Theodor Holm Nelson congeminou boa parta da vida adulta de «Xanadu» - o nome de código para o seu sistema de hipermedia, que pretende ser uma forma (nova) de escrita, em que nada se perde (funcionando como uma memória literária viva) e em que tudo está interligado com tudo (nos dois sentidos).

Xanadu é um local exótico na Mongólia, cantado num poema inglês que fala de um palácio mítico de Kubla Khan (Cublai Can). O autor, Samuel Taylor Coleridge (1772-1834), perdeu parte do poema original que lhe passava pela cabeça, devido a ter adormecido por efeito de um medicamento contra uma indisposição. Como evitar esta maldição?

Na cabeça do jovem Teodoro dos anos 60, a alegoria de «Xanadu» transformou-se no, até à data, mais ambicioso – e ainda inacabado em termos «comerciais» - desafio ao domínio do papel impresso, ao paradigma de Gutenberg.

Ted considera o triunfo das letras impressas - como estas que o leitor agora está a ler - como a nossa condenação a uma ditadura, a uma forma de estruturar espacialmente de um modo linear o nosso pensamento, que é algo, por natureza, não sequêncial.

Escapar à sina do papel tem sido a sua batalha de 40 anos, desde que inventou o termo «hipertexto» quando ainda tirava um mestrado em sociologia em Harvard (perto de Boston, nos Estados Unidos) no princípio dos anos 60... quando ainda não se sonhava sequer com computadores pessoais.

Ted daria a conhecer publicamente o conceito em 1965 numa Conferência da Association for Computing Machinery (ACM), que ainda hoje reune a comunidade da «informática». A sua comunicação «A file structure for the complex, the changing and the indeterminate» faria algum furor.

HISTÓRIA
Pedaços da Revolução do Hipertexto
Na origem desta aventura do hipertexto está Vannevar Bush, um ex-presidente do Massachusetts Institute of Technology (MIT) e ex-director do Office of Scientific Research and Development no tempo da IIª Guerra Mundial, nos Estados Unidos.
Bush tinha escrito em Julho de 1945 um artigo que ficaria célebre na revista de Boston The Atlantic Monthly (vol.176, nº1). Levava o título de «As we may think». Ele concebia uma máquina foto-electromecânica designada por «Memex» que conseguia produzir referências cruzadas entre documentos microfilmados, através de um processo de código binário, de fotocélulas e de fotografia instântanea.

Leia aqui o artigo sobre o «Memex» de V. Bush na «The Atlantic Monthly»
de Julho de 1945 (volume 176, nº1)

Ao longo das décadas, este projecto de Bush influenciaria muita gente, e nomeadamente o jovem Ted Nelson em meados dos anos 60. Ele transformaria, inclusive, aquele artigo de 1945 num dos capítulos do seu livro Literary Machines em 1965.
Também Doug Engelbart (o inventor do «rato»), um investigador da Universidade de Stanford, que ainda hoje vive em São Francisco, demonstraria nos anos 60 um espaço de trabalho colaborativo inspirado nas ideias de Bush e que baptizou de NLS (ou oN Line System - sitema «online»).
Contudo, foi Tim Berners-Lee no final dos anos 80 que conseguiu trazer para a ribalta esta ideia de «um espaço de ligação de tudo com tudo». «Vannevar, Ted e Doug estavam demasiado avançados para a sua época. Coube-me a mim ‘casar’ as ideias deles», afirmou o inglês criador da WWW no seu livro Weaving the Web (compra do livro), publicado em 1999. Tim visitou Ted na casa-barco de Sausalito.
Apesar da obra inacabada, Ted já influênciou outros projectos, além do de Berners-Lee. Nomeadamente, afirma-se que o Lotus Notes teria surgido de uma discussão entre Ray Ozzie (o seu criador) com Ted. O «Hypercard» criado por Bill Atkinson também teria sido influênciado pelas ideias de Ted, bem como os «links» paralelos no «Microcosm» de Wendy Hall e Hugh Davis (Inglaterra), ou a transclusão no «HyperWave» de Herman Mauren e Frank Kappe (Áustria).

O comum dos mortais utilizadores da World Wide Web associa o hipertexto - em termos simples, a possibilidade automática que o leitor tem no seu «browser» de passar de um assunto para outro através de ligações («links», como se popularizou no original em língua inglesa), algo que não se consegue fazer numa revista impressa - ao sistema concebido pelo inglês Tim Berners-Lee em 1989 no Laboratório Europeu de Física das Partículas (mais conhecido por CERN) na Suíça.

Contudo Berners-Lee inspirou-se em «Xanadu». Mas fez do conceito «uma brilhante simplificação, muito ao género das simplificações que o pessoal da computação gosta de fazer», segundo a crítica branda de Ted.

E, ao simplificar, amputou o hipertexto da sua ambição de derrotar o paradigma do papel impresso. «A literatura electrónica, com a massificação da Web, desenvolveu-se rapidamente na última década, mas fê-lo mal», clama o nosso interlocutor. A Web transformou o hipertexto numa ferramente unívoca (os «links» obrigam-nos a um processo obrigatório de saltar de uma página para outra na programação em HTML) que, por vezes, noz faz perder o fio à meada. Ultimamente, inclusive, tem havido uma aproximação gráfica e de formatação de conteúdos escandalosamente a imitar o papel impresso ou o teletexto.

O pecado original começou com o próprio conceito de «processador de texto» (o célebre «word» hoje popularizado), que não passou de «um pacto com o Diabo», já escreveu Ted.

O protótipo em que ele (e várias equipas que o acompanharam ao longo dos últimos vinte e tal anos) tem trabalhado permite uma funcionalidade que estrutura a escrita de um modo paralelo, algo que nenhum «browser» até à data nos ofereceu. Os «links» de hipertexto ficam visíveis ligando directamente páginas distintas apresentadas em paralelo no écran do «browser».

A ferramenta ainda está em versão «beta» num domínio secreto de um «livro cósmico» criado por Ted e Iam Heath na Universidade de Southampton, no sul de Inglaterra. O código de programação ainda precisa de ficar mais «robusto» e adaptado para massificação. Precisa de alguma «cosmética» («ícones, ícones, ícones!») e «polimento» no programa de edição, ironiza o nosso entrevistado.

O facto de se tratar da mais longa história de um protótipo da Era da Informação, atraíu a chacota. Ted seria o exemplo dramático do génio criador de projectos sempre inacabados, o que se deveria a uma sua desordem psicológica. Um longuíssimo (e cruel) artigo na revista «Wired» («The Curse of Xanadu») em 1995 sobre Ted e «Xanadu» desenha um personagem perturbado com detalhes de particular morbidez, o que revoltou o criador do hipertexto contra esse «assassinato intelectual» e o fez provavelmente auto-exilar-se quase aos 60 anos de idade no Japão na Universidade de Keio.

PERFIL
O berço no cinema
Logo Xanadu Theodor Holm Nelson nasceu em 1937 num berço quase de ouro. O seu pai era realizador de cinema e a mãe era actriz. A vida em família era distante, mas o garoto conheceu de perto artistas como Richard Burton.
Ted licenciou-se em filosofia e tirou depois um mestrado em sociologia em Harvard (perto de Boston). Estávamos no começo dos anos 60. Foi, então, que foi tocado pelo virus do hipertexto. Escolheu o termo em 1963 e publicou-o em 1965 na Conferência da ACM. Em 1967 desencantou a metáfora «Xanadu».
Os seus heróis eram Richard Buckminster Fuller, cientista, filósofo, inventor e designer (que morreu aos 98 anos em 1983), o filósofo Bertrand Russell (Prémio Nobel da Literatura em 1950 e que faleceu em 1970 também com 98 anos) e o actor Orson Welles. Conheceu também o guru psicadélico Timothy Leary (já falecido em 1996), a dado passo considerado estupidamente por Nixon de «o homem mais perigoso da América». De todos eles fala num livro em construção intitulado sugestivamente Encontros com os Grandes.
É um personagem curioso - foi cantor profissional em Miami e taxista em Manhattam, em Nova Iorque.
Em 1979 criou-se, finalmente, um grupo de design em seu redor, com Roger Gregory e Mark Miller. O projecto teria um sopro forte com a aquisição em 1988 da Xanadu Operating Company (XOC) pela Autodesk, então liderada pelo seu fundador John Walker.
Mas a Autodesk viria a desinteressar-se do projecto quatro anos depois, quando uma reviravolta interna afastou o fundador e colocou Carol Bartz na liderança.
A XOC continuou o seu trabalho e em 1999 tornou o código de «Xanadu» aberto e mudou de nome para Udanax.com.
A revista «Wired» em Junho de 1995 resolveu publicar um artigo «assassinando» intelectualmente Ted. Ele acabaria por ir como professor visitante para a Faculdade de Informação na Universidade de Keio, perto de Tóquio, no Japão. Até hoje encontra-se ali em «auto-exílio».
Os seus principais livros são Literary Machines (1965), o duplo Computer Lib/Dream Machines (1974) e, mais recentemente, The Future of Information (1997). Todos estes livros estão hoje esgotados.

Versões na Web:
Literary Machines | The Future of Information

Não foi, por isso, ao som dos Madredeus numa mesa do café Starbucks da rua principal de Sausalito que a entrevista se deu. Nem com sofisticados meios de vídeo-conferência, nem virtualmente por correio electrónico - simplesmente através desse vetusto meio de comunicação que é o telefone.

Ted gosta de ouvir o som do interlocutor e não é fácil convencê-lo a dar entrevistas. Mais dificil ainda é apanhá-lo no seu gabinete da Faculdade de Informação na Universidade de Keio, no «campus» de Shonan-Fujisawa, em Kanagawa, a uma hora de combóio de Tóquio. «Quatro em cinco jornalistas espetam-me a faca nas costas», argumentou.

A entrevista

Ted Nelson Ted, como é que avalia hoje aquele seu artigo pioneiro de 1965, apresentado na conferência da ACM, que levava um título estranho, mas sugestivo - «Uma estrutura de ficheiro para o complexo, o mutável e o indeterminado»?

T.N. - Muito bom, continuo a achá-lo muito bom (risos). Continua correcto e continuo a procurar implementar o modelo.

Mas em que pé é que está hoje o seu projecto mais de trinta anos depois?

T.N. - Estou a procurar criar um modelo que se «encaixe» hoje nos «browsers» da Web. Não sei se isso vai durar mais seis meses ou alguns anos mais. Tenho de combater em várias frentes. O design da coisa está a ocupar incrivelmente imenso tempo.

A Web ocupou-lhe o espaço que o seu projecto «Xanadu» ambicionava?

T.N. - Vamos lá a ver, eu até creio que a verdadeira Web foi criada pelo Marc (Andreessen). Se ele não tivesse colocado as imagens no «browser», a Web não se teria tornado popular. Eu até sou amigo do Tim (Berners-Lee). Não é uma questão pessoal. Mas o conceito está errado.

Mas o que é que está errado no hipertexto e no media gerado pela Web criada pelo Tim Berners-Lee?

T.N. - Foi uma simplificação, uma brilhante simplificação. Mas é muito limitada. O que eu sempre pretendi evitar foi exactamente o que a lógica da Web criou.

Como assim?

T.N. - Os «links» que ele criou funcionam numa só direcção. Eu não concordo com o HTML, com o facto de ser unívoco. A minha solução é uma estrutura mais rica do que as páginas HTML. Permite duas coisas: ligações visíveis e explícitas entre conteúdos que são diferentes e cópias virtuais – acto a que eu chamo de transclusão – de conteúdos que são idênticos. Permite, também, a gestão de várias versões e dos direitos da propriedade intelectual dos conteúdos.

A essência da sua ideia é que o pensamento não é sequêncial (ao fim e ao cabo, na Web actual continuamos a estar amarrados a uma sequência de «links» numa só direcção), mas paralelo... Mas isso é díficil de perceber. Quer explicar?

T.N. - O pensamento é intrisecamente paralelo. Por isso, eu desenhei uma estrutura que permite a apresentação paralela de documentos no «browser» e a construção de uma estrutura paralela de dados. O que é muito mais funcional do que o actual sistema de «janelas». Também, criei uma forma de intercomparação em massa. É possível a massificação de um sistema bidireccional de «links» por parte de uma pluralidade de autores. E ainda um método de hiperpartilha virtual de conteúdos idênticos, que evita o sistema tradicional de cópia. É um sistema de edição totalmente aberto, em que qualquer um pode «linkar», reutilizar materiais de qualquer tipo no seio da rede. É um sistema de todos para todos, sem centralismo editorial, e sem roubo.

Esse tema está agora na berra. Como é que o seu sistema de micropagamentos funciona?

T.N. - A ideia foi criar algo que está a meio, entre os sistemas pesados e complexos de copyright e a divulgação gratuita. Baptizei-o de transcopyright. Trata-se de algo no meio desses dois extremos, que torne o copyright, que é absolutamente legítimo, em algo benigno e flexível. Este sistema estenderá os benefícios de citação, antologia e reutilização de conteúdos de outros, sem precisar de negociação prévia. É automático. O autor original recebe o seu honorário e o editor a royalty pela transclusão (como eu lhe chamo) de um pedaço qualquer do seu material por mais pequeno que seja.

É um sistema de sindicação por medida?

T.N. - Por exemplo, a unidade de sindicação do conteúdo não é o livro, ou a revista, ou mesmo o artigo todo. Mas pode ser a frase, o parágrafo, o texto de um subtítulo, uma «caixa», que pode ser microcomprada do modo que o cliente quiser – e não na forma imposta por quem vende. Não se impõe um formato de compra, o cliente é que decide. Este é o modelo de direitos desenhado por «Xanadu». Está pensado para serem vendidas fracções ou porções de qualquer conteúdo de media «online». Chamei-lhe de «hypercoin». É provável que ainda leve algum tempo até às grandes empresas perceberem isto.

Mas, apesar do «desvio» feito por Berners-Lee, agora não há outra solução do que se «adaptar» o pé ao sapato?

T.N. - Desde o disparo da Web de 1994/95 começei a estudar a forma de adequar estas minhas ideias e transpô-las para o ambiente da Net de hoje. Creio que, com a explosão actual de conteúdos na Web, um sistema de hipertexto eficaz começa a ser vital.

Nicholas Negroponte, vinte anos depois de si (em 1985), criou o conceito de multimedia, e aparentemente nada diferenciaria da sua ideia de ruptura com o paradigma de Gutenberg?

T.N. - Coloquemos o problema assim, em termos de resposta curta: ele disse que não haveria diferença alguma. Mas multimedia e hipermedia (que é o meu conceito) não têm relação nenhuma. Não somos amigos, sequer.

Não lhe parece que os portais e «sites» actuais estão cada vez mais a copiar o formato do papel impresso ou do teletexto. Há mesmo quem tenha suprimido os «links» no corpo do conteúdo...

T.N. - É completamente estúpido! Os tipos da programação e do design não conseguem ter outras ideias? O papel é a repetição de pensamentos. O problema central é como estruturar o pensamento.

Porque decidiu auto-exilar-se aí no Japão?

T.N. - É um povo simpático. Estou cá optimamente com a minha namorada (risos). Mas é como uma profecia. Tornamo-nos mais visíveis se estivermos fora - do que se eu estivesse aí na Califórnia. O Arthur Clarke não está no Sri Lanka?

RECURSOS NA WEB
  • O leitor poderá encontrar tudo sobre Ted Nelson
    em www.sfc.keio.ac.jp/~ted ou em http://ted.hyperland.net.

  • Sobre «Xanadu» pode consultar em www.xanadu.com e
    em www.xanadu.com.au
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