Um português no Vale

«Falhar não é uma mancha negra»

António Dias criou a Tympani Development Inc. para lançar no mercado americano um software
de «agente» inteligente para a Web. Com 50 anos é um português radicado no Silicon Valley
há mais de 20 anos. Vindo da Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto nos anos 70, acabou por entrar na «vaga» da Web há três anos e criou esta pequena empresa portuguesa
em Sunnyvale, no coração do Vale.


O que levou um português a estabelecer uma empresa no Silicon Valley?

ANTÓNIO DIAS - A razão de fundo é este português que tem à sua frente ser formado em engenharia, ser doutorado pela Universidade de Stanford e ter 20 anos de experiência na indústria daqui, incluindo novas empresas de alta tecnologia. Para além disso, tendo jogado no terreno e gostado, estava pronto para organizar equipa própria.

Quais são os atractivos do Vale para um empreendedor de origem estrangeira?

A.D. - Já sou parte do Vale há mais de 20 anos, tenho, por isso, neste momento uma perspectiva "de dentro". Mas tem havido casos de empreendedores estrangeiros que vieram para o Vale para começar empresas atraídos por vantagens estruturais, incluindo o acesso ao talento fomentado por várias universidades de primeiro plano (Stanford, Berkeley e outras) numa área geográfica muito próxima, o espírito empreendedor do local, serviços de apoio profissional e o acesso directo ao mercado americano. Uma característica única neste Vale é o ambiente colegial que o permeia. Mesmo num ambiente de grande competição é relativamente fácil estabelecer contactos e iniciar um diálogo.

Que instrumentos financeiros tem um empreendedor à sua disposição para o nascimento e adolescência da sua empresa no Silicon Valley?

A.D. - Os mecanismos de financiamento de "start-ups" são conhecidos - Capital de Risco («Venture Capital») e investidores individuais - «Business Angels». No entanto continuam a formar-se muitas empresas financiadas nas etapas de conceito e protótipo pelos próprios fundadores, família e amigos. Continua a ser comum o empreendedor hipotecar o seu futuro económico e investir todas as suas economias no empreendimento, entrando o capital de risco na fase de desenvolvimento dos produtos e mercados.

Que comparação faz deste ambiente com a situação em Portugal?

A.D. - A formação de empresas é um "estado de espírito" que permeia o Silicon Valley. Pode-se mesmo dizer que na área de alta tecnologia, engenheiros, homens de negócios e investidores estão constantemente num fluxo de formação de empresas. E note-se que o sucesso deste processo está longe de ser garantido. De facto apenas 1 em 20 «start-ups» existem ao fim de dois anos. Um ponto importante é que o empreendedor poderá atrair respeito se tiver sucesso, mas não perde respeito se falhar num bom esforço. No Vale, e nos EUA em geral, a falha dum empreendimento não é uma mancha. É comum alguém falhar hoje e começar outra empresa para a semana. Ao mesmo tempo, embora o investidor de capital de risco seja altamente selectivo, está consciente de que para conseguir grandes sucessos tem de assumir o risco de que alguns dos investimentos falhem.

Que recomendações faria para a criação de um ambiente similar em Portugal?

A.D. - Tem havido na Europa, e até em Portugal, esforços guiados por indivíduos determinados a replicar o Vale sob a forma de parques industriais, parques tecnológicos ou parques científicos. Tais iniciativas são importantes, mas penso que é preciso que haja algo mais a nível de espírito empreendedor. Parece-me fundamental que na mente dos empreendedores haja uma abertura para uma intercâmbio franco de ideias e de cooperação para que as empresas não existam num vácuo, e se crie de facto um todo sinergético que seja maior que a soma das partes.


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