5 portugueses que fazem a diferença

Ardina na Web revela Gente Singular

Em tempos de aniversário da revista portuguesa Ideias & Negócios, fomos à procura de gente lusa, radicada em Portugal, que, pela sua investigação em economia e gestão, estivesse a deixar uma marca. Não temos a pretensão de criar nenhuma galeria de honra, uma espécie de "Nobel" dos pequeninos. Os cinco nomes que encontrámos são um mero exemplo. Não seguimos o critério dos que mais citações de artigos científicos têm, que é recomendável para outro tipo de trabalhos, nem tivemos em conta o grau "VIP", de "colunável" social. Não foram naturalmente candidatos a postos políticos ou lugares de governo. São gente comum, mas curiosa, como o leitor depois verificará.

Há-os de todas as idades - dos 62, um físico dedicado ao estudo dos ciclos, até aos 35, o "benjamim" desta escolha que anda embrenhado - imagine-se - em "inteligência de enxames". Uns usam identificações curiosas no correio electrónico - como "fractal" e "magma" - outros são aventureiros nos Himalaias ou na Gronelândia, ou apaixonadas da Arrábida, nos tempos livres. O que estudam - ciclos económicos longos, comportamento dos decisores, estratégia militar na gestão, improviso e inteligência aplicada à tecnologia - está na vanguarda das novas correntes internacionais no campo da gestão e da economia, pelo que convém que o leitor - que não é distraído - tome nota.

© Eliezer de Azevedo, Jorge Nascimento Rodrigues e Ruben Eiras (*), Outubro 2002
Coordenação: Jorge Nascimento Rodrigues

(*) Uma investigação das Produções Janela na Web.com para o 5º Aniversário
da Ideias & Negócios

AS NOSSAS ESCOLHAS 2002
Rui Rosa, 62 anos
José Fonseca, 40 anos
Francisco Abreu, 39 anos
Miguel Cunha, 37 anos (só disponível na edição em papel)
Vitorino Ramos, 35 anos

 

O físico dos ciclos económicos
Rui Namorado Rosa
62 anos

O "magma" das causas ambientais "Os ciclos económicos estão aí em força, desde que se tenham os olhos bem abertos"

Rui Namorado Rosa é natural de Lisboa. É um daqueles homens que transmite muita energia, mesmo depois dos 60, ao contrário das fontes naturais que diminuem as suas capacidades a olhos vistos (veja-se o caso do petróleo, que ele estuda). A formação em Física e a investigação que desenvolve na área da Energia dá-lhe a base para descortinar um futuro não muito promissor para as gerações vindouras, se a tendência civilizacional não for invertida. Preocupa-se em acompanhar os estudos e reflectir sobre sistemas integrados sociedade-tecnologia e homem-planeta. Partilha, por isso, com os seus colegas do Centro de Geofísica de Évora a preocupação de estudar e compreender melhor a estrutura do nosso planeta, o funcionamento dos fenómenos planetários e regionais, mormente os climáticos e as alterações em curso, a antecipação de impactos e de riscos naturais.

Bilhete de Identidade
- Rui Rosa é licenciado em Física pela Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa e doutorado pela Universidade de Oxford em 1968, tendo então vivido quatro anos em Inglaterra.
- Trabalha na Universidade de Évora desde 1983, depois de ter passado pela Junta de Energia Nuclear e pelo Laboratório Nacional de Engenharia e Tecnologia Industrial em Lisboa. É professor convidado do Instituto Superior Técnico em Lisboa.
- Tem familiares e amigos de diferentes nacionalidades.
- Não tem livros publicados, mas sim artigos ou mesmo capítulos em diversas publicações especializadas nacionais e estrangeiras.
- Nos tempos livres cultiva conviver com os amigos.
- O momento mais decisivo para a sua carreira foi quando recebeu o convite para trabalhar na Junta de Energia Nuclear, ainda como estudante finalista da Faculdade.
- Para os próximos dez anos, perspectiva continuar a trabalhar sem se importar onde. O que será importante é saber o que estará a fazer.
- Defende o contacto personalizado, mas privilegia o correio electrónico para amenizar as perdas de energia que podem ser melhor distribuídas em outras funções. Assim em magma@netc.pt a comunicação é constante.
- Mantém «Olhar de um Físico», uma coluna de intervenção cívica em www.janelanaweb.com/digitais/rui_rosa.html.

Personagem que o marcou
KING HUBBERT (e a sua curva)
O homem que previu o pico do petróleo

Rui conheceu pessoalmente Hubbert numa breve passagem dele por Portugal e os artigos científicos que ele lhe passou para a mão marcaram-no para sempre.
Hubbert estudou matemática, física e geologia na Universidade de Chicago, nos Estados Unidos. Fez carreira em Geologia Económica, trabalhou em prospecção geofísica para algumas empresas petrolíferas e depois como explorador e analista para o US Geological Survey. Foi, ainda, professor em Stanford e Berkeley, na Califórnia. Antes de qualquer outro, formulou a ideia do carácter excepcional e transitório dos ciclos económicos de uma civilização alimentada por recursos finitos e escassos. Ficou célebre por ter feito em 1949 a desconfortável previsão de que a indústria petrolíferas norte-americana atingiria a sua capacidade máxima de extracção entre 1966-1971, o que, de facto, se veio a verificar. E anteviu, também, que essa capacidade máxima seria atingida, a nível mundial, por volta do ano 2000. «Em suma, a geração nascida cerca de 1960 assistirá no decurso da sua vida à extracção e consumo de cerca de 80% das reservas mundiais de petróleo convencional - o petróleo de extracção barata que ainda hoje conhecemos", resume Rui Rosa. Esta análise de evolução foi baptizada de "curva de Hubbert» e o seu alerta motivou o termo "pico de Hubbert", que deu origem à Association for the study of Peak Oil, a que Rui pertence.

À conversa com Rui Rosa

O PANO DE FUNDO. «As transformações sociais profundas aparecem historicamente associadas a alterações também profundas no recurso a novas fontes de energia primária, na inovação dos instrumentos que se utilizam - a que hoje chamamos motores e máquinas -, e no estabelecimento de suportes materiais para a sua utilização extensiva - aquilo a que hoje chamamos infra-estruturas. A intensidade e extensão da utilização de todos estes meios tem evidentes impactos ambientais, que estão, agora, a confluir para impactos globais de natureza climática. A globalização não se circunscreve apenas à esfera do comércio, da diplomacia, da economia e da guerra».

O ALERTA. «As tendências históricas permitem duvidar da viabilidade da imposição voluntarista de limites ou objectivos pré-definidos - de consumo de energia e/ou de emissões atmosféricas - baseados na substituição de fontes primárias de energia e na inovação das tecnologias energéticas. Isso não chega. Pretende-se fazer crer que se fará por essas vias o que não se quer fazer nos planos social e económico, designadamente na contenção dos crescimentos económicos e demográficos. As políticas oficiais procuram transferir as soluções dos graves problemas civilizacionais para o plano técnico, aguardando resultados provavelmente impossíveis de alcançar ao ritmo desejado».

O INCONTORNÀVEL KONDRATIEF. «As vagas económicas longas, também conhecidas por ciclos de Kondratief, foram reconhecidas por se manifestarem através de vários indicadores macro-económicos em espaços económicos suficientemente amplos. São ciclos com pouco mais de meio século de duração, ou seja ao ritmo de duas gerações biológicas, em que se sucede uma fase de expansão e outra de contracção da actividade económica associadas - mas não coincidentes - a oscilações de índices de preços, de endividamento, de investimento e outros. Joseph Schumpeter foi o mais reconhecido teórico deste fenómeno, identificado inicialmente pelo russo Kondratief duas décadas antes».

O APELO. «O mais importante seria que o poder político e a opinião pública estivessem mais informados e disponíveis para aceitar e escutar com atenção os enunciados dos problemas graves que existem no relacionamento do Homem com o Planeta que habita. A mentalidade do poder político na esfera mundial não é favorável a esta necessidade, provavelmente porque o que está em causa são alguns dos fundamentos do próprio edifício do poder. Por isso, o ambiente não é ainda favorável a dar a importância devida a realidades incómodas, bem pelo contrário. Só posso desejar que a Administração Pública decida atribuir mais importância ao sector energético, em todos os seus aspectos. Seria bom que as políticas parcelares já fixadas no papel passassem à prática e que seja retomado o esforço de investigação, desenvolvimento e demonstração quer em relação aos nossos recursos nacionais quer quanto à nossa capacidade de inovação tecnológica, sobretudo em bens de equipamento».


O «outsider» do management
José Manuel da Fonseca
40 anos

Um "fractal" nascido na mina de São Domingos (onde hoje se fazem 'spots' publicitários com as guerras do futuro)

Nascido entre mineiros em São Domingos, perto de Mértola, no Alentejo, José Fonseca veio para Lisboa com quatro anos de idade, mas ainda mantém "uma orgulhosa relação familiar e histórica com aquela região". O gosto de ser alentejano traduz-se hoje na ambiguidade e ambivalência na sua relação com o mundo; numa dose de conformismo (com o país) por optar em não emigrar de vez; na tolerância com os alunos e, ao mesmo tempo, num sentido de insatisfação, de subversão e de risco que o faz ser uma espécie de "outsider" dentro do sistema. Esse modo de ser levou-o a interessar-se por teorias pouco ortodoxas e muito pouco "digeridas" em Portugal no mundo académico. Não consegue ser como os que escrevem vários artigos científicos sobre uma mesma pequena investigação e os apresentam em conferências sucessivas. Não morre de amores por conferências e "papers", mas tem predilecção pela docência e pelo contacto com os alunos. Acima de tudo aceita o desafio de contribuir para que se assuma que no mundo académico "todos os reis vão nus".

Bilhete de identidade
- José Fonseca é licenciado em Gestão pelo Instituto Superior de Economia e Gestão, de Lisboa, e tirou um mestrado em comportamento organizacional no Instituto Superior de Psicologia Aplicada. É professor da Universidade Lusíada e da Universidade Nova de Lisboa.
- Durante 15 anos, antes de enveredar pela vida académica, realizou estudos e trabalhos de consultoria em Portugal e no estrangeiro. Tem três livros publicados sobre gestão.
- O gosto pelo windsurf, basket e artes marciais (shotokai) ainda é partilhado pela fotografia e pela literatura.
- Tem como momento decisivo da sua carreira a decisão de suportar um doutoramento em Inglaterra contando apenas com recursos próprios e o apoio da família e amigos.
- Daqui a 10 anos, pensa em continuar a ensinar e a ser feliz.
- Contacta normalmente com as pessoas por "e-mail", identificado pelo curioso e bem humorado endereço fractal@netcabo.pt.
- Tem uma interessante página pessoal em www.faculdadedigital.com/jmf.

Personagem que o marcou
RALPH STACEY
Outro "outsider" do management

José Fonseca reconhece que foi influenciado de várias maneiras por Ralph Stacey, um professor inglês especialista na teoria da complexidade aplicada à gestão. Stacey dirige o Centro de Complexidade e de Management da Universidade de Hertfordshire, em Inglaterra. Recorda-se de ter lido o primeiro livro de Stacey e de ter ficado surpreendido com «a frontalidade com que desmitificava as noções de valor e de outros critérios de tomada de decisão (alegadamente racionais), literalmente gozando com as acrobacias justificativas que em gestão financeira e análise de projectos se produzem para legitimar cenários em que ninguém (de bom senso e no seu juízo) acredita». Como José Fonseca tinha já feito inúmeros projectos de investimento e no início de carreira era da área financeira, a influência de Ralph Stacey tornou-se mais marcante ainda.
Mais sobre Ralph: www.janelanaweb.com/digitais/stacey.html.

«Nunca obtive dinheiro nem para o meu mestrado, nem para o doutoramento, nem para a investigação. Pelo que me habituei a produzir a minha reflexão predominantemente do meu bolso. E a tentar rentabilizá-la na esfera privada. É a minha costela escocesa - do lado do meu avô materno»

À conversa com José Fonseca

NO INÍCIO ERA O CAOS. «Comecei por considerar as implicações que vinham da Física e da Biologia para as teorias da gestão e das organizações. Era muito apelativo rejeitar o espartilho da linearidade redutora das teorias que até ali conhecia, e que são as tradicionais de management. Já Henri Poincaré tinha, segundo palavras suas, 'recuado com horror' ao antever o caos e os seus estados potenciais de estabilidade até à ossificação, de instabilidade até à desintegração e de instabilidade limitada e de estabilidade instável, palavrões que deram volta à minha cabeça. Comecei, então, por volta de 1993-94, a estudar a teoria do caos. A elegância das propostas de Ilya Prigogine sobre estruturas dissipativas e sobre a emergência de uma nova ordem em condições de auto-organização ressoavam com a experiência concreta que no nosso grupo de investigação existia sobre a vida profissional e empresarial».

DEPOIS VEIO A DÚVIDA. «Enamorado com o caos, durante algum tempo estudei os modelos computacionais de algoritmos genéticos e de vida artificial saídos de Santa Fé e de Los Alamos, no Novo México - no Instituto de Complexidade de Santa Fé e do Los Alamos National Laboratory. Contudo, esta abordagem pareceu limitada por um factor fundamental - os seres humanos foram evoluindo e desenvolvendo um mecanismo muito especial de sobrevivência. Qual? A linguagem e a comunicação. Ora, nos computadores que simulam o caos, os 'agentes' auto-organizados evoluem para multiplicação de tipos e naturezas, sem a retórica, a negociação, a hipocrisia, a mentira e a verdade. Não são constrangidos por fenómenos de poder e de ideologia, através do valor ou da moral, ou da sua negação. Assim, abandonámos a dimensão meramente metafórica, até porque em ciências sociais não podemos manipular as variáveis - que são as pessoas. Então o grupo de investigação em que me insiro lançou-se na construção das bases de uma teoria psicológica e sociológica da interacção e da evolução humana, que já está expressa numa colecção de seis livros editados em Inglaterra pela Routledge entre 2000 e 2002, em que contribuí com um».

A PROPOSTA DA "CONVERSAÇÃO CRIATIVA". «Hoje estamos distantes daqueles que ficaram por essa metáfora do caos, ou que a racionalizaram em mais uma moda e um conjunto de 'buzzwords' sem sentido, e que, agora, na consultoria de empresas afirmam que, como nos sistemas naturais, tudo o que temos a fazer é levar uma empresa ou uma organização a situar-se na dinâmica criativa da crista do caos. Uma insensatez. Pelo contrário, partindo de George Herbert Mead, de Norbert Elias, de Ilya Prigogine, do 'nosso' António Damásio, de Kant e de Hegel e da nossa própria investigação no grupo de doutoramento de Ralph Stacey, entre 1994-1998, começámos a estabelecer uma proposta baseada na interacção comunicacional humana. A questão é esta: o que fazemos quando ainda não desenvolvemos uma ferramenta segura para qualquer problema realmente novo? Bom, basicamente conversamos. Com quem? Com aqueles que nos estão próximos. Depois viramo-nos para aqueles com quem já conversámos e gostámos de conversar. Depois trazemos para um círculo mais reduzido uma série de palavras novas sobre as quais não estamos muito seguros. E, então, podemos conjuntamente descobrir novas ideias e novas soluções. Depois, as palavras novas tornam-se habituais, e começamos a utilizá-las em acções materiais. Finalmente conseguimos reduzi-las a escrito e a proposições».


O «Clausewitz» luso da gestão
Francisco Abreu
39 anos

O legado de Sun Tzu em defesa da Arrábida

Contrariado com as fórmulas meramente mercantilistas com as quais se vendem conceitos de gestão tipo chave-na-mão, Francisco Abreu abraçou a defesa da "inteligência estratégica". As relações entre estratégia militar e estratégia empresarial, e a busca do sucesso em contextos de conflitualidade e competitividade constituem a base do estudo que desenvolve desde há cinco anos. Com dois livros publicados em português sobre a estranha relação entre as o campo de batalha e a gestão, Francisco Abreu pretende ver o tema debatido no nosso país fora do mundo castrense. O facto do seu doutoramento estar a ser feito em Portugal pode vir a contribuir para que a comunidade científica ligada aos temas de gestão intervenha mais e se manifeste com sentido crítico, discutindo os resultados obtidos. Não se sabe se, armado dos ensinamentos do chinês Sun Tzu e do europeu Clausewitz, vai desenvolver algum estratégia em defesa da sua amada Arrábida.

Bilhete de identidade
- Francisco Abreu nasceu em Lisboa. Mas vive na cidade de Setúbal desde muito novo.
- É licenciado em Organização e Gestão de Empresas, tem o mestrado em Estratégia e prepara actualmente o doutoramento em Filosofia das Ciências - Epistemologia.
- É um ecologista nato e, mesmo sem ser membro de qualquer associação ambientalista, continua a intervir no terreno. A candidatura da Arrábida a Património Mundial é um processo que lhe tem merecido atenção, desde que integrou a equipa que estruturou a ideia. Acredita que o património ambiental da Arrábida reúne as condições para receber tal distinção, mas defende maior celeridade nas negociações frente ao perigo de se perder a oportunidade.
- Em termos profissionais, é director de um grupo empresarial de Comunicação Social sedeado em Setúbal. Antes, adquiriu experiência internacional quando foi Project Manager da segunda maior empresa italiana do sector da pré-fabricação em betão, intervindo na execução e gestão de um dos projectos de investimento com vista à internacionalização. É consultor de empresas e de diversas entidades sem fins lucrativos.
- Publicou dois livros: "Estratégia - O Grande Debate: Sun Tzu e Clausewitz" e "Fundamentos de Estratégia Militar e Empresarial".
- É coordenador editorial de uma colecção de livros sobre os grandes nomes do pensamento estratégico, a ser lançada ainda este ano.
- O momento decisivo na sua carreira ainda está por acontecer.
- Dentro de 10 anos quer ver melhorada a sua performance naquilo que mais lhe dá satisfação em termos profissionais e intelectuais: gerir empresas e reflectir sobre a problemática do saber estratégico.
- O correio electrónico está sempre disponível em fagest@mail.telepac.pt.

«Que se perceba de uma vez por todas que o futuro não pode ser determinado, nem sequer antecipado. Que se atirem para o caixote do lixo as grotescas charlatanices que têm contaminado esta área disciplinar».

Quem o influenciou
KARL POPPER
O filósofo que ajudou a separar o trigo do joio

Francisco Abreu tem uma dívida de gratidão para com o filósofo Karl Popper. O seu legado pode resumir-se, no âmbito dos seus contributos para a filosofia das ciências, em duas palavras: "falsificacionismo" e indeterminismo.
Explica que o primeiro conceito o ajudou a perceber, em definitivo, que todo o conhecimento é conjectural. O "falsificacionismo", apesar de ser um palavrão intelectual, «é talvez o mais eficaz critério de demarcação até hoje concebido e, nesse sentido, permite-nos separar o trigo do joio no que se refere ao trabalho científico - isto é, faz com que consigamos distinguir um cientista de um charlatão, o que no domínio pantanoso da estratégia empresarial é absolutamente fundamental», sublinha.
Quanto ao indeterminismo, tornou possível deitar por terra as perigosas fantasias do planeamento dito estratégico e da prospectiva baseada no método dos cenários. Ou seja, é «com base no indeterminismo que caem os mitos heróicos da capacidade para determinar o futuro e da capacidade para antecipar o que o futuro nos reserva», conclui o nosso interlocutor.

À conversa com Francisco Abreu

O DESAFIO. «Será possível pensar a estratégia no contexto empresarial, sem ter em conta o vastíssimo acervo de reflexões e experiências que ao longo dos últimos dois milénios e meio foi sendo acumulado por todos aqueles que ao fenómeno estratégico, lato sensu, e à estratégia militar, em particular, dedicaram o melhor das suas capacidades? É claro que não!» O ESTUDO EM CURSO. Ao longo dos últimos cinco anos, os estudos de Francisco Abreu resultaram na publicação de dois livros que vieram enriquecer o quadro bibliográfico sobre os meandros do pensamento estratégico militar e da estratégia empresarial. Actualmente a preparar-se para o doutoramento, Francisco Abreu pretende contribuir para «a consolidação de um novo paradigma que enquadre com realismo acrescido o estudo dos fenómenos sociais e estratégicos».

A NOVIDADE. Sobre as relações entre a estratégia militar e a estratégia empresarial, e que tenha conhecimento, «nada de relevante existe publicado no nosso país». Quanto ao desafio de conceber um modelo de abordagem estratégica que seja aplicável ao contexto da rivalidade inter-empresarial e que incorpore os ensinamentos decorrentes do pensamento estratégico de raiz militar, pensa que «ainda ninguém o tinha assumido, pelo menos publicamente».

MANIFESTO DE MUDANÇA. Quanto às mudanças que considera importantes num futuro próximo nas áreas dos seus estudos aponta, em primeiro lugar, «que se abandonem em definitivo as perigosas fantasias do planeamento dito estratégico e da prospectiva baseada no método dos cenários. Ou seja, que se perceba de uma vez por todas que o futuro não pode ser determinado, nem sequer antecipado". Em segundo lugar, "que se cultive uma postura de grande seriedade nos planos epistemológico e metodológico. Ou seja, que se atirem para o caixote do lixo as grotescas charlatanices que têm contaminado esta área disciplinar». Em terceiro lugar, «que se compreenda que os sistemas que se envolvem em relacionamentos do tipo conflitual ou competitivo estão sujeitos a um percurso evolutivo marcado pela não-linearidade e pela imprevisibilidade».


O detective dos formigueiros
Vitorino Ramos
35 anos

O cientista viajante radical

«A sociedade actual ganharia muito se encarasse o pensamento como uma forma de brincadeira»

Vitorino Jorge Castelo Ramos, nasceu em Portimão. Mas do Algarve saltou para Lisboa, onde terminou a sua licenciatura em Engenharia de Materiais no Instituto Superior Técnico em 1993, especializando-se no desenvolvimento de algoritmos para Análise e Reconhecimento de Imagem, tendo sido convidado a partir do segundo ano do curso para realizar investigação nesta área, para alguns departamentos do IST. Viajou, depois, para França, onde frequenta, entre 1993 e 1995, o DEA (Diplome D'Études Approfondies) de Mecânica Computacional de Estruturas e Materiais na Universidade Pierre et Marie Curie, em Paris. Aí desenvolve a sua tese na aplicação de Redes Neuronais ao Comportamento de Estruturas, trabalhando em simultâneo para a Samtechs-France e para a Société Européene de Propulsion. Ainda em Paris, é a partir de 1994 que realiza também os seus primeiros desenvolvimentos e aplicações de Computação Evolutiva. A partir de 1995 retorna a Lisboa, ao IST, ingressando no CVRM - Centro de GeoSistemas, desenvolvendo desde então investigação em Inteligência Artificial e Análise de Imagem para variados projectos Nacionais e Internacionais. Em simultâneo ingressa em estudos para um segundo Mestrado, terminando em 1997 com a tese "Evolução e Cognição em Análise de Imagem".
De momento desenvolve estudos de Doutoramento em Ciências da Engenharia sob o título "Towards a Biologically Inspired Mathematical Morphology", reunindo conceitos diversos nas áreas de Inteligência e Vida Artificial, Análise e Processamento de Imagem. Utiliza paradigmas novos nestas áreas como Algoritmos Genéticos, Redes Neuronais, Autómatos Celulares, Sistemas "Formigueiro" e Morfologia Matemática. Em conjunto com Leonel Moura, é co-fundador do aLife Art Architecture Lab - aAAL, um atelier de trabalho que visa a aplicação de Vida Artificial nas áreas da Arte e Arquitectura, defendendo uma abordagem multi-disciplinar entre Arte e Ciência.

Bilhete de identidade
- Vitorino Ramos desenvolve a sua actividade profissional em três locais. No CVRM-IST (Centro de GeoSistemas), de que se diz satisfeito pelo dinamismo e elevado grau de multidisciplinaridade ali existente. Na empresa Variograma.com, pela possibilidade de poder conferir importantes mais-valias a uma excelente equipa de software. E, finalmente, na Faculdade de Engenharia da Universidade Católica, pela possibilidade de transmitir aos licenciados da pós-graduação, de forma sintética, aquilo que tem «a muito custo, mas com agrado, apreendido nos últimos anos».
- Já publicou três livros para a série Lecture Notes in Computer Science da Springer-Verlag (Alemanha).
- Como hobbies, gosta de viajar para sítios "inóspitos". Já foi de moto ao Himalaia, a pé à Gronelândia, e sonha com a Patagónia chilena. Dedica-se ainda à leitura, à música étnica e ao jogo de xadrez. Mas gosta mesmo de pensar a tempo inteiro. Acredita que a sociedade actual «ganharia muito se encarasse o pensamento como uma forma de brincadeira».
- O momento decisivo da sua carreira foi quando o orientador do seu primeiro mestrado, numa curta conversa e a passear pelas ruas de Paris, lhe apresentou o paradigma da Computação Evolutiva. «Foi um verdadeiro 'clique' no meu cérebro», garante.
- Dentro de 10 anos, espera criar com colegas um centro transdisciplinar de ciências e co-dirigir trabalhos de investigação de ponta explorando em simultâneo as suas consequências práticas, algo na linha do que se faz no Santa Fé Institute (em Santa Fé, no Novo México, nos EUA) ou no Media Lab Europe (na Irlanda). Acredita que os centros multidisciplinares de estudo serão os grandes pólos de atracção do futuro.
- Com toda a ocupação diária, está sempre em linha no correio electrónico em vitorino.ramos@alfa.ist.utl.pt.
- A sua página pessoal na Web merece ser visitada pelo design atractivo e principalmente pelo vasto conteúdo: http://alfa.ist.utl.pt/~cvrm/staff/vramos/.

Quem mais o influenciou
UM TRIPÉ DE ACADÉMICOS

Restringe a lista a três nomes, principalmente no seu percurso académico. A começar, o professor Amaral Fortes, do IST, pela sua «prodigiosa inteligência»; depois, o professor Fernando Muge, ex-director do CVRM-IST, pela sua «ampla visão científica e tremenda capacidade de reunir diferentes ramos da ciência sem nunca perder a coerência», e, finalmente, o professor Juan J. Merelo, da Universidade de Granada, pela sua «extraordinária imaginação e fulgurante rapidez de raciocínio, sendo um dos actuais líderes mundiais da investigação em Vida Artificial».

À conversa com Vitorino Ramos

INSPIRAÇÃO NOS SISTEMAS NATURAIS. «Quando nos deparamos com problemas simples as receitas tradicionais que existem mentalmente no programador podem e devem ser aplicadas, mas o mesmo já não é verdade para problemas que envolvem uma forte complexidade. E, então, os sistemas naturais podem ser úteis. Muitos destes sistemas tornam-se estruturados pelos seus próprios processos internos formando verdadeiros sistemas colectivos auto-organizados. A emergência de ordem dentro de si é um dos fenómenos complexos mais intrigantes e apaixonantes estudados por muitos ramos da ciência actual, incluindo o da Vida Artificial, que o faz pelo desenvolvimento e pesquisa de algoritmos computacionais bio-inspirados. A minha investigação actual decorre em redor destes últimos fenómenos, tentando criar sistemas e estratégias bio-inspiradas que adquirem por si próprias facetas e caracteres de vida, como percepção, adaptação, cognição, evolução. Nesse sentido, utilizo o computador como habitat, e para implementar e verificar o comportamento de tais sistemas auto-organizados».

EXEMPLOS ABUNDAM. «Entre alguns exemplos desses padrões naturais encontra-se a formação de arquitecturas complexas em insectos sociais, o comportamento de grupos presa-predador, a evolução da configuração de dunas e suas texturas, a dinâmica de compra e venda de títulos em bolsa, o modo de propagação de um fogo florestal ou da lava vulcânica num terreno, a formação de trilhos e pisoteios em campo aberto, o movimento de bandos de aves ou de cardumes, os reagentes químicos formando espirais, as células que por re-arranjo formam tecidos altamente estruturados, a emergência de engarrafamentos de trânsito, ou comportamentos colectivos caóticos como na saída em massa de pessoas de um estádio de futebol, ou no modo como se movem pelos corredores de um supermercado».

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