NOVA ECONOMIA A 3 VOZES


Uma mudança inacabada

Depois da primeira pedra atirada pelo académico Michael Porter à Nova Economia num artigo polémico publicado na revista Harvard Business Review (edição de Março 2001; traduzido na revista Executive Digest de Maio 2001, nº79, acusando-a de se ter alheado da estratégia e do modelo competitivo, começou a formar-se um coro de críticos que ameaçam «deitar o bébé com a água do banho», para usar uma expressão popular.
A revista portuguesa Dirigir (editada pelo IEFP-Instituto do Emprego e Formação Profissional) foi ouvir três reputados especialistas que acham, pelo contrário, que a revolução da Web está inacabada. O trabalho «duro» começou justamente agora depois do esvaziar da «bolha» especulativa.

Jorge Nascimento Rodrigues

Versão condensada publicada na revista Dirigir



W. Brian Arthur (um dos «pais» da Nova Economia) contra os mitos

Não defina a economia emergente
pela última tendência

É considerado o académico sénior de referência da Nova Economia. Professor no Instituto de Santa Fé (Santa Fe Institute), no Novo México, vive no Silicon Valley californiano. Desde os anos 80 que publicou artigos científicos na Harvard Business Review e no The Economic Journal sobre o novo tipo de economia emergente. O seu livro de 1994 «Increasing Returns and Path Dependence in the Economy» (compra do livro) é considerado um texto de referência. Em defesa da Nova Economia, insiste em que o conceito deve ser «descolado» como exclusivo das «dot-com» ou da tendência tecnológica mais recente («the next hot thing», como lhe chamam os americanos).

Entrevista anterior publicada na Janelanaweb.com

A Nova Economia merece todos esses ataques de que está a ser vítima? Uma parte da academia parece estar agora a acordar de um «mau sono» e a transformar as «dot-com» no bombo da festa, a começar por Michael Porter. Os pioneiros da Internet violaram quase todos os preceitos de uma boa estratégia, como acusa o guru de Harvard num recente artigo na Harvard Business Review (edição de Março 2001)? Deitaram a estratégia às urtigas e embebedaram-se com dinheiro fresco?

BRIAN ARTHUR - Não li ainda o artigo de Porter. (Risos). Mas vou ler. Mas a crítica depende do que se entende por «nova economia». Muita gente, aqui na Califórnia, criou um mito, pintando a Nova Economia como apenas baseada nas «dot-com». Tenho dificuldade em associar exclusivamente a nova economia à Internet. Eu venho dizendo que a alta tecnologia dos últimos dez a vinte anos - e não só a sua manifestação digital - criou, está a criar, uma economia muito diferente da industrial. É verdade que as «dot-com» deram com os burros na água, nesse sentido Porter pode ter razão. De facto, a economia ligada à Web foi muito exagerada há um ano e meio atrás. Criaram-se expectativas excessivas, e, nesse sentido, falhou. Mas, de uma coisa estou seguro, a alta tecnologia e a economia digital não desaparecerem, estão muito activas e continuarão a ser o motor de crescimento durante muito tempo.

Então o que esteve errado?

B.A. - Associar a mudança económica sempre à ultima «next big thing». Ora, não é boa ideia definir a economia pela última tendência «quente». Recordando a história económica: veja o que era termos tido uma «economia da electricidade» (para tentar criar uma expressão popular: uma economia eléctrica!), depois uma «economia do rádio» (uma economia radialista!), e por aí adiante. Nos últimos cinco anos criámos uma «economia internetiana», como se estas tecnologias mudassem a economia de pernas para o ar ao ritmo de uma década para outra. Veja bem, no final do século XX assistimos mesmo a coisas novas de 5 em 5 anos, ou mesmo de 3 em 3 anos, ou mesmo, dirão alguns, de dois em dois anos. Isso é natural, porque as tecnologias estão a interagir cada vez mais umas com as outras. Como é o caso da genómica - é tanto um produto da computação digital como da biologia molecular. Eu falo de um movimento mais longo, de uma nova economia baseada na alta tecnologia desde há uns 20 anos.

E, agora, foi interrompida?

B.A. - Tanto quanto continuo a observar, o mundo dos negócios continua a digitalizar-se. O segredo, trazido pelos últimos anos, é a conectividade entre negócios, sejam pequenos ou grandes. Este é, a meu ver, o facto mais importante. Os próprios negócios estão a começar a ser «conversações estendidas», ampliadas. Isto vai mudar radicalmente os negócios. O que vai haver nos próximos 20 anos é necessariamente trabalho duro para desenvolver estas altas tecnologias até elas se transformarem em virtualmente invísiveis, generalizadas. Em geral, decorrem muitas décadas entre a excitação das primeiras manifestações e o pleno funcionamento das novas tecnologias.

Mas a quem devemos atribuir «culpas» desta situação?

B.A. - Há um conjunto de acontecimentos, mais do que um grupo de gente «culpada». As vagas da tecnologia funcionam por ciclos. Estas coisas acontecem - são parte do ciclo. Há sempre um período de grande frenesim seguido de um «crash». Não é isso que nos diz a História? Em meados de 1800 começou a mania dos caminhos de ferro no Reino Unido; em 1847 veio o «crash». Este filme é conhecido. A massificação da Internet e a Web tornaram-se na «coisa quente» dos anos 90 e toda a gente, depois, quiz entrar a bordo. Muitos pensaram que se tinha entrado numa nova Era. Chegaram-se a valorizações estratosféricas das acções. As expectativas subiram tão alto, tão alto, que, depois, começou a ver-se que muita coisa não foi para a frente como se pensava. Então, caiu. Houve o «crash». Primeiro o NASDAQ e depois veio o resto. Ora, o que nos ensina a história, é que isto acontece no período inicial de uma tecnologia. Nestes períodos infantis há sobre-investimento. Com o «crash» cai-se na «real». O «culpado» é o ciclo, se quiser (gargalhada).

«A grande revolução no mundo dos negócios é esta: todos vão estar conectados entre si. Os negócios vão ser cada vez mais conversações»

O que é que poderá reacender a alma dos empreendedores, no meio desta hecatombe psicológica derivada do ciclo ter entrado na «correcção» dos excessos?

B.A. - Estando aqui sentado no meio do Silicon Valley, diria que há, por aqui, muitas especulações (risos). Bom, isto é uma maneira delicada de lhe responder que não sei. Mas, concedo, há por aqui duas especulações muito fortes. Primeiro, que a biotecnologia será a tecnologia de maior impacto neste princípio do século XXI, como a computação o foi nos últimos 50 anos do século passado. Toda essa sopa de letras em volta da biotecnologia: genómica, proteómica (mas que palavrão mais difícil para a fileira das proteínas), farmacêutica em geral e agro-business. A segunda ideia é que a história mais profunda do mundo da computação e do digital tem a ver com as interconexões. A grande revolução no mundo dos negócios é esta: todos vão estar conectados entre si. Os negócios vão ser cada vez menos circuitos de «inputs» e «outputs» e mais «conversações» (como eu lhe chamo), interacção.

Para um pequeno empreendedor, o que é que recomendaria para esta aparente «travessia do deserto»?

B.A. - É um momento difícil, de facto. Há más noticias - se tentar depender dos capitalistas de risco e do mercado financeiro, do célebre IPO (ida à bolsa). A boa noticia é que se pode criar um negócio mesmo nesta atmosfera. Aliás, é a melhor altura para se testar um negócio sólido - se se «safar» agora, então estará ainda mais forte quando o ciclo virar.

E a uma grande empresa, o que diria?

B.A. - Bom, as grandes empresas, se tiverem alguma idadezinha já viram isto antes (risos). As grandes já passaram por recessões assim. O meu conselho é velho: apertar o cinto e esperar, continuar a fazer o que se faz bem e não descurar a inovação. É como um mau inverno para os agricultores.



Daniel Quinn Mills (Harvard Business School) aponta o dedo

Os verdadeiros culpados

Subitamente toda a gente começou a «desancar» nas «dot-com» e a apedrejar a Nova Economia. Muitos dos críticos de hoje foram «estrelas» nos títulos de jornal e nos telejornais quando era «chique» ser investidor «dot-com». Mas quem são os reais culpados? Foi a essa questão que um reputado académico da Harvard Business School respondeu sem peias na língua - muitos dos críticos de hoje são os incendiários da «bolha» de ontem. Daniel Quinn Mills é professor naquela escola de Boston. O seu curto, mas incisivo, artigo na revista Harvard Business Review (edição de Maio 2001, intitulado «Who's to Blame for the Bubble?») provocou já alguma polémica. Alguns já enfiaram o barrete. O seu mais recente livro «e-Leadership» (compra do livro) está a transformar-se em «bestseller» e a mudar o clima psicológico.

Entrevista anterior publicada na Janelanaweb.com

Com esta reacção recente contra a Nova Economia há o risco de deitar fora o «bébé» com a água suja do banho?

QUINN MILLS - Exactamente. Grande número de empresas «decentes» com planos de negócio a evoluir razoavelmente e com boas perspectivas estão a pagar indevidamente a factura por causa da super-especulação nos mercados financeiros. Mas não são só más noticias para as «start-ups» com a etiqueta «dot-com» - pode colocar em causa a inovação num período tão crucial de progresso tecnológico como é o actual.

Mas quem é que temos de condenar pela exuberância irracional e pela «bolha» do mercado financeiro?

Q.M. - Os protagonistas principais dos mercados financeiros - em primeiro lugar, o sistema do Federal Reserve Board [o Banco Central norte-americano liderado por Alan Greenspan], as firmas de capital de risco, os bancos de investimento e as casas de «brokerage» financeiro. Este «complexo» de artistas ao instigarem a loucura das «dot-com» puseram toda a Nova Economia em risco. Por isso, colocar o labéu de «culpados» nas próprias «dot-com» é, a meu ver, um erro.

No seu artigo na Harvard Business Review de Maion (2001) aponta mesmo o dedo a uma parceria «perversa»...

Q.M. - Sim, a uma parceria público-privado (como, agora, está na moda falar-se) orquestrada pela Wall Street e pelo FED. Este inundou a economia com demasiado dinheiro no final de 1999 na ideia de «contra-atacar» o alegado impacto deflacionário do vírus do ano 2000. Os bancos e os «brokers» usaram este excesso de liquidez para incendiar a bolha subsequente. No últimto trimestre de 1999, o FED aumentou a massa monetária a uma taxa anual de 22%! Depois, no último trimestre de 2000, aumentou-a apenas em 9,2% (depois do ajustamento sazonal, tratou-se de um decréscimo de -2,8%). As desgraçadas das «dot-com» foram as primeiras beneficiárias e depois as primeiras vítimas, também, deste acordeão de forças económicas.

Para os que sobreviverem ao dilúvio das «dot-com», qual é a principal lição?

Q.M. - A principal lição, a meu ver, é que novos modelos de negócio não se podem tornar lucrativos num período tão curto. Não há milagres. Leva tempo fazer estas coisas novas - e fazê-las bem, em grande parte porque há muito a aprender numa situação nova de mercado.



Walid Mougayar (consultor canadiano) avisa

O trabalho duro apenas começou

Walid Mougayar é um canadiano que ascendeu à galeria de gurus da Economia Digital logo no início, com um livro muito prático intitulado «Opening Digital Markets» (compra do livro), publicado em 1997 pela McGraw-Hill, quando o assunto começou a ser falado e que foi apresentado, então, na Janelanaweb.com. Dirige a CYBERManagement e começou a editar recentemente uma «newsletter» por correio electrónico sobre a tendência mais recente da computação, o P2P («peer to peer»). Ele adverte para não se voltar as costas à Nova Economia - dentro de dois anos, quando a poeira tiver assentado e os novos modelos de negócio estiverem mais maduros, as empresas que tiverem continuado a apostar é que terão vantagens competitivas. É colunista na revista «Business 2.0».

Ficou surpreendido com a severa «correcção» a que continuamos a assistir no NASDAQ depois do «crash» de Abril de 2000?

WALID MOUGAYAR - Para muitas empresas, o que sucedeu é que foram vítimas dos seus próprios exageros. E foi essa bebedeira colectiva que tornou as coisas ainda piores. Muitas empresas ligadas à Internet têm um problema de credibilidade junto dos investidores hoje em dia. A única coisa que pode salvar as «dot-com» são clientes satisfeitos e fidelizados que verão os benefícios obtidos, a par de um crescimento bem controlado.

Acha que a «correcção» vai ser breve?

W.M. - Não creio que retornemos tão cedo aos picos das acções ou aos rácios de valorização das empresas pelo menos nos próximos três anos. Esse tipo de subidas são fenómenos que sucedem de dez em dez anos provavelmente. Agora, começou o tempo do trabalho duro. O trabalho duro apenas COMEÇOU - sublinhe isso. Agora, chegou a altura de perceber bem o que faz uma boa empresa ou que gera uma má.

Depois deste dilúvio e da fuga do dinheiro, a Nova Economia está morta?

W.M. - Morta? (risos). Não. O «hype» é que está morto e enterrado. Agora, são os resultados, os lucros e os casos provados que contam. E, por outro lado, as grandes empresas não deverão usar este mau clima como desculpa para nada fazerem no «e-business». Quanto a mim, dentro de dois anos, ficará muito claro que as empresas que continuaram as desenvolver as suas capacidades de «e-business» terão ganho uma clara vantagem competitiva. A Internet traz benefícios óbvios, se bem aplicada nos negócios - exactamente como os trouxe as tecnologias de informação. Ou já se esqueceram disso?

Quais são as tendências que estão a reanimar a Nova Economia?

W.M. - Seguramente o P2P («peer to peer») no quadro da computação distribuída, mas que está ainda na sua infância. O P2P envolve muitas tecnologias de ponta que ainda estão à procura de aplicações com significado. Neste campo, há umas 150 empresas apenas que, ainda, estão de fraldas, tentando consolidar os seus primeiros clientes. Outra área emergente será a interacção entre cadeias de fornecedores, sobretudo a gestão do risco na cadeia de abastecimentos dentro e fora da empresa com os outros parceiros.

A gestão do risco vai ser outra das «next hot things»?

W.M. - Todas as cadeias de fornecimentos estão envoltas em imensa incerteza e incluem péssima informação. Por isso, são indispensáveis técnicas de optimização do risco, como nos seguros. Esta gestão do risco permite a dois ou mais parceiros numa cadeia de valor partilhar o risco, limitando os prejuízos financeiros que advém de fornecimentos em excesso, ou de atrasos na reposição dos stocks, ou inclusive de escassez em certas partes da cadeia de valor. Todas as indústrias vão necessitar de uma gestão do risco muito rigorosa aplicada à cadeia de fornecimentos.

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