Os Filhos dos 15%

Um mergulho no universo dos "teimosos" da 3M e das coisas
que andam a congeminar nos laboratórios

Muitas das novidades nas áreas da optoelectrónica, das redes, da farmacêutica e da energia que estão a ser cozinhadas nos bastidores dos laboratórios da 3M em St.Paul, no frio Minnesota, e em Austin, no quente e húmido Texas, são "filhas" do famoso direito aos 15% de tempo para projectos pessoais por parte dos cientistas e dos quadros da multinacional.

Obviamente que a percentagem é "um pouco subjectiva", reconhece o vice-presidente para a I&D, Paul F. Guehler. Mas a ideia central é que "não podemos matar um projecto se o pessoal julga que vale a pena", refere, por seu lado, Robert DeMaster, director do Centro de Investigação Científica, que conta com 70 cientistas em 15 áreas de conhecimento considerado "estratégico" e "emergente". «As pessoas aqui têm uma hipótese de carreira muito rica, podendo mudar entre 5 a 10 vezes numa vida na empresa, graças à diversidade que temos em tecnologias, o que gera imensas oportunidades para a criatividade», remata.

E, de facto, os inventores ouvidos têm todos imensos anos de casa, para muitos sendo o primeiro e único emprego até à data. «Com os recursos que temos aqui não é fácil desejar trocá-los por uma 'start-up', apesar da atracção por ser bilionário», confessa Dwayne LaBrake, de 38 anos, há sete na 3M desde que acabou o seu doutoramento. Ele próprio acaba de concluir em Austin um projecto com uma nova tecnologia de encapsulação para componentes ópticas que foi "filho" dos célebres 15% e já tem na manga outro "de que o chefe ainda nem sabe".

Sywong Ngin, de 44 anos, e há uma vintena na 3M, começou a pensar num sensor para uma cadeira de automóvel que permitisse determinar se se tratava de uma criança com menos de oito anos ou não e em função dessa avaliação da massa do corpo humano impedir ou não o disparo do "air bag" em caso de acidente. O desenvolvimento do protótipo enquadrou-se nos tais 15% e depois passou para o quadro de um projecto para a NEC Technologies. Em 2003, a legislação americana exige que 25% da nova frota automóvel e de camiões já disponha deste mecanismo que discretamente será enfiado na
Andy Ouderkirk junto ao espelho hiper eficiente divulgado pela revista Science em Março de 2000base do assento.

O lançamento de um espelho hiper eficiente que "quebrou uma das leis da reflexão da luz", segundo a revista científica Science, de Março passado, foi obra dos 15% de Andy Ouderkirk, um cientista que desde 1991 andava a trabalhar em St.Paul em torno destas películas plásticas que reflectem em todos os ângulos.

Raymond Chiu com o seu chefe junto a um painel do novo vidro fabricado a partir de tecnologias de replicação O caso de Raymond Chiu é um dos mais recentes. A pequena fábrica limpa que vai produzir o painel de vidro especial criado por tecnologias de microreplicação (uma nanotecnologia) destinado a écrans de plasma ainda está em fase de acabamento no laboratório em St.Paul e as fotografias são estritamente proibidas. Os painéis planos de plasma poderão atingir 14% do mercado em 2002. Chiu tem 34 anos, e trabalha há nove na 3M, frisando, com orgulho, que a tecnologia que inventou com o seus 15% de tempo para projectos pessoais reduziu o processo de produção de 50 para 3 minutos!

Thomas Miller, o criador dos laser verdes Os laser são outra das prioridades da 3M. Thomas Miller, de 38 anos, com seis anos de casa, está na vanguarda dos protótipos de lasers verdes e azuis, no Centro de Investigação Científica de St. Paul. «A vista humana responde melhor ao verde do que ao vermelho», frisa, salientando que trabalha no projecto desde 1991, ano em que «por 3 a 5 segundos consegui operar um laser verde, no meio de uma grande dose de adrenalina».

Por seu lado, Mark Debe, já tem 53 anos, e vinte e dois de casa, mas não perdeu o gostinho pela inovação. Ele sente-se "no meio de uma revolução, a da futura economia do hidrogénio", e trabalha em membranas absolutamente críticas para as células (ou pilhas) de combustível que poderão representar um mercado de 1 bilião de dólares (um milhão de milhões) em 2010, segundo a Bloomberg.

Gregg McPherson com uma componente para sequenciação de ADN Finalmente, Gregg McPherson é o lider do projecto bioinformático. Uma das coisas que está na calha são os "chips" de DNA, que ele espera poderem chegar ao mercado daqui a dois anos. «Estes 'chips' ainda estão muito caros, a 500 dólares por unidade, e estamos a trabalhar para reduzir drasticamente o custo», refere, salientando que a 3M domina uma tecnologia de "encolhimento" que permite reduzir em 25 vezes o circuito inicial. Uma das coroas de glória do seu projecto é uma das componentes críticas para o sequenciador da Applied Biosystems que permitiu à Celera Genomics concluir a descodificação do genoma humano este ano.

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