Dois talentos lá fora - viajando
de Houston ao Kuwait

Conversas do Ardina na Web com a Diáspora

Por Jorge Nascimento Rodrigues, editor de Janelanaweb.com, Janeiro-Março 2008

Outros Portugueses lá fora

1. Petróleo no feminino - Lena, a CEO da Techdrill

Entre Paris, Aberdeen e Houston, Lena Ribeiro-Daget dirige uma das empresas mundiais de software de nicho para cortar custos na produção do ouro negro

Aos 64 anos, esta portuguesa continua a manter a mesma paixão pelo ouro negro e um calendário de viagens apertado, em que tanto podemos encontrar esta "nómada" sexagenária em Aberdeen, na Escócia, a capital europeia do crude, como em Houston, ainda reconhecida como capital mundial, ou em reunião com algum cliente no México ou na China.

Num mundo de negócios e de operações esmagadoramente masculino, Maria Helena Ribeiro-Daget, mantém há quinze anos o seu toque pessoal como CEO de uma empresa de software para a optimização da perfuração de poços de petróleo. Não são poucas as histórias anedóticas que guarda. "Mas foi mais fácil do que eu pensava ser aceite neste mundo de petróleo profundamente machista", confessa Lena Daget, como é conhecida no sector.

Lena emigrou para França em 1971 e casaria com um engenheiro do sector, Patrick Daget, e com ele percorreu várias partes do mundo. A sua vocação para empresária e gestora viria duas dezenas de anos depois. A Techdrill nasceu em Paris, num exíguo escritório, quando o marido, ao fim de vinte anos como responsável e director de operações na Total e na Shell, a convenceu "de que tinha criado um software único para cobrir todas as etapas de engenharia de perfuração" e que "como tenho horror a essas coisas do management, lhe entregava o negócio nas mãos". O filho mais velho, Miguel Alexandre, que era quadro superior da Thomson, aderiu, também, entusiasmado.

A originilidade

Assim apareceu, em 1992, o conceito de "All in one" num pacote de perfuração (que dá pelo nome de Drilling Engineering Software Platform-DSP), que até hoje as empresas líderes de software e de consultoria do sector - como a Halliburton e a Schlumberger - não quiseram imitar. O DSP, que continua a ser a jóia da coroa da oferta da empresa, integra quase uma centena de módulos! "A primeira venda ocorreu no final desse ano, junto da Wintershall, uma operadora alemã. A partir daí rapidamente nos internacionalizámos. Dois anos depois já estávamos a vender em 10 países, incluindo a China", recorda. A Galp conta-se entre os clientes de uma das soluções da empresa, que vende, actualmente, em 50 países.

A Techdrill vive justamente de ter criado este nicho exclusivamente para si; e com as duas tendências altistas, quer do preço do barril - desde meados de 1999 -, como, mais recentemente, dos custos ligados a uma perfuração e produção cada vez mais exigente, a janela de oportunidade não tem parado de alargar-se. "Com custos no "upstream" (produção) que aumentaram entre 2002 e 2006 na ordem das 3 vezes por barril de petróleo bruto equivalente, a redução dos riscos e a optimização na perfuração tornou-se crítica", explica-nos Patrick Daget, 65 anos, o fundador.

Para estar mais perto dos centros de decisão, em 1995, a Techdrill deslocalizou a sede para o parque tecnológico de Aberdeen, na Escócia, em 1998 abriu uma filial em Houston, no Texas, e no ano seguinte um escritório em Londres. De momento, os alvos geoestratégicos centram-se na América Latina, na África Ocidental e em algumas partes do Médio Oriente. O fenómeno da emergência das grandes petrolíferas nacionais criou novas oportunidades.

À primeira vista, parece uma empresa familiar. Mais tarde, seria a vez de Filipe, licenciado em direito de negócios e direito internacional, entrar na empresa. Até a filha Daphné, especialista em finanças, entrou a bordo: "tem sido a nossa verdadeira CFO, controlando as finanças", recorda Lena Daget, que, no entanto, faz questão de sublinhar: "Mas somos apenas uma empresa semi-familiar. Criei, desde o princípio, o que eu chamo o meu "dream team"". A empresa agregou na sua administração nomes-chave dos petróleos que Lena e Patrick conheciam de longa data, em que se inclui o português Augusto Carmona da Mota (ex-Shell e especialista mundial em equipamentos de perfuração).

Formação de engenheiros

Desde 2003, que a empresa decidiu atacar o segmento da formação de engenheiros para o sector. Numa parceria com a Pemex, mexicana, a Techdrill criou uma escola de diplomados em tecnologias de perfuração associando o domínio do software em Villahermosa, conhecida como a 'Esmeralda do sudoeste', a capital petrolífera do país. "Já formámos mais de 300 engenheiros de petróleo com um "master" em perfuração", diz Lena Daget.

O sonho de Lena é de conseguir criar em Portugal uma escola do mesmo tipo: "Com a falta dramática de engenheiros qualificados no sector a nível internacional, Portugal podia ser um viveiro importante de gente qualificada que poderia ser colocada, em menos de um ano, em várias partes do mercado mundial do petróleo, incluindo os países de língua portuguesa associados ao sector".

2. O nosso doutor no Kuwait

Rodrigo Magalhães foi escolhido pela Maastricht School of Management para organizar a escola de gestão daquele pequeno emirato de petrodólares onde reina a família Al-Sabah

Foi o seu mais recente desafio - criar do zero um corpo docente estável, desenvolver as regras e procedimentos académicos e os sistemas de informação de uma escola de gestão, que hoje conta com 500 alunos de MBA (mestrado em gestão de empresas) e pré-MBA, num país culturalmente muito diverso, a umas oito horas de voo de Lisboa. Rodrigo Magalhães, 57 anos, respondeu a um anúncio internacional para director académico de uma escola de negócios privada...no Kuwait, e ficou colocado.

A Kuwait-Maastricht Business School (KMBS) havia sido criada em 2003 numa iniciativa conjunta da Maastricht School of Managament, uma escola holandesa muito globalizada, e de um grupo privado árabe local ligado ao imobiliário, num momento em que o ensino de gestão naquele pequeno país petrolífero do Médio Oriente começou a disparar. O projecto de direcção académica duraria de 2005 a 2007, mas Rodrigo foi convidado para continuar. Acumulando com a direcção académica, dá aulas de sistemas de informação e comportamento organizacional, dirige um curso em Métodos de Investigação e supervisiona o processo académico de cerca de 160 teses de mestrado anuais.

Não se chocou com o contexto cultural - apesar do peso asfixiante da gestão de influências numa sociedade árabe e da estratificação acentuada ligada a um emirato onde reina uma dinastia que vem do século XVIII. O passado recente, também, não o assustou. O Kuwait havia sido invadido e ocupado entre 1990 e 1991 pelo Iraque, o vizinho a norte que se veria envolvido, depois, numa guerra desde a decisão da Administração Bush em deitar abaixo o regime de Saddam Hussein.

Revolução em curso

Além de ter feito uma profunda remodelação no corpo docente, alargando-o e internacionalizando-o (hoje conta com 80% de professores vindos de todo o mundo), este português acabou por ser protagonista de uma revolução em curso em toda esta região que nada numa liquidez multimilionária de petrodólares. "Há uma explosão de ensino superior estrangeiro nesta parte do Médio Oriente com oferta de diplomas de alto nível, numa tentativa de levar o talento local a estudar em casa e a fixar-se", refere Rodrigo, que concretiza em relação ao Kuwait: "Além da criação por privados da nossa escola de negócios, há uma escola americana e estão em curso de abrir mais escolas privadas ligadas a iniciativas americanas, australiana e inglesa". Com o crescimento do número de alunos de MBA, a KMBS vai construir, até final de 2009, um novo "campus".

"Aprendi a montar de raiz uma escola de negócios com uma perspectiva internacional e com uma exigência de gestão intercultural", conclui Rodrigo de Magalhães como principal balanço desta experiência num país em que os expatriados se entretêm ao fim de semana a assistir a corridas de camelos no deserto ou a dar uma 'escapadela' ao outro emirato, o célebre Dubai.

Psicólogo de origem, formado na África do Sul, acabou por se especializar, mais tarde, na gestão de sistemas de informação e na ligação dos temas das tecnologias de informação às questões do "management" das organizações com um doutoramento tirado na London School of Economics no final dos anos 1990. Natural da Beira, na antiga colónia de Moçambique, Rodrigo acabaria por ter uma vida profissional diversificada. Começou como professor de psicologia numa escola do Magistério Primário há 30 anos em Portalegre, tendo passado por responsável de Marketing no Instituto Nacional de Estatística em Lisboa, até que enveredou pela carreira académica na Universidade Católica Portuguesa, onde se focalizou na gestão dos sistemas de informação, no comportamento e teoria das organizações e na gestão da mudança. Publicou livros nestas áreas, com destaque para 'Fundamentos da Gestão do Conhecimento Organizacional' (Sílabo, 2005).

Continuando a sua vocação para a ponte entre as tecnologias de informação e a gestão das organizações, desenvolve hoje uma linha de investigação com José Tribolet, no Departamento de Sistemas de Informação do Instituto Superior Técnico, em Lisboa, em torno do que baptizaram como "engenharia organizacional".

Um Emirato que já atraiu treinadores e jogadores portugueses, juntou, agora, à sua pequena galeria de expatriados lusos um doutor.

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