Xeque-mate à «concorrência»

Os alvos de longo prazo da nova estratégia de segurança e de política energética dos Estados Unidos estão muito para além dos inimigos públicos actuais nascidos com o 11 de Setembro. O objectivo é bloquear a emergência de concorrentes geo-estratégicos e permitir o «século americano».

Jorge Nascimento Rodrigues, Novembro 2001

Documentos indispensáveis de leitura em www.whitehouse.gov
The National Energy Policy Development Group Report, de Maio de 2001
(relatório Cheney)
The National Security Strategy of the USA, de Setembro de 2002
(apresentado ao Congresso norte-americano)

Livros a publicar em 2003
Power Trip, de John Feffer | Blood and Oil, de Michael T. Klare

Série da Janelanaweb.com/Gurusonline.tv
A Caixa de Pandora do Crude | Entrevistas em inglês Pandora Oil Box Series

O debate sobre a geo-estratégia da Administração Bush tem estado centrado na política anti-terrorista e numa tentativa ideológica de criar um novo paradigma sobre a visão do mundo baseado na ideia de que «tudo mudou depois do 11 de Setembro». O grande corte com o pós-guerra não teria sido a queda do Muro de Berlim, mas definitivamente os atentados nos EUA. O inimigo público número um foi erigido em torno das redes terroristas globais e de alguns estados à margem da lei com capacidade de gerar turbulência regional.

TRÊS IDEIAS-CHAVE DA NOVA POLÍTICA AMERICANA
  • manter um mundo unipolar, impedir por todos os meios o multilateralismo
  • bloquear concorrentes estratégicos, impedindo-os de alcançar o estatuto de superpotência
  • permitir uma ofensiva geral pelo controlo dos recursos energéticos
  • Contudo, uma observação mais cirúrgica verifica que se trata de «um arquipélago disperso» em que a própria capacidade de conexão táctica entre os bandidos não é provável, afirma-nos John Feffer, um analista norte-americano que vai lançar em breve Power Trip, uma obra colectiva polémica sobre as razões da deriva neo-imperial do seu país.

    Oportunidade histórica

    Apesar da perigosidade destes alvos, a guinada geo-estratégica dada pela nova Administração norte-americana não os visa a longo prazo - as reais «forças de bloqueio» no século XXI são outras. Depois de dez anos de hesitação, em particular por parte da Presidência Clinton que jogou a maioria dos trunfos na globalização «benigna» e no boom da Nova Economia, a liderança norte-americana apercebeu-se da oportunidade que o fim da Guerra Fria abriu aos EUA.

    Ao vazio deixado pela luta hegemonista das duas superpotências no pós-guerra poderiam suceder dois cenários centrais - ou uma multilateralização do mundo, com a renovação e emergência de novos «pares» e a afirmação de uma balança de poder assente nas instituições internacionais, ou a afirmação do que passou a ser chamado de «unilateralismo» aproveitando a vantagem militar, económica e moral da superpotência que sobrou.

    Esta viragem visa permitir aos EUA a passagem de uma situação de defensiva estratégica face à emergência de um mundo multipolar para uma contra-ofensiva que permita a neutralização dos verdadeiros «concorrentes».

    Como refere o próprio relatório da Administração norte-americana ao Congresso sobre a estratégia de segurança nacional, apresentado em Setembro passado, os EUA têm de «tirar partido de uma oportunidade histórica». A janela de oportunidade que se abriu tem uma a duas décadas. O que o 11 de Setembro veio permitir foi a criação de um largo espectro de apoio do eleitorado americano e junto de diversos países colhidos pela novidade da tragédia, para o que os analistas de Power Trip classificam de estratégia assumida de controlo ou «cerco» das regiões estratégicas do mundo por parte dos Estados Unidos.

    Esta viragem visa permitir aos EUA a passagem de uma situação de defensiva estratégica face à emergência de um mundo multipolar para uma contra-ofensiva que permita a neutralização dos verdadeiros «concorrentes». «Estamos atentos à possível renovação de velhos padrões de competição entre superpotências. Algumas grandes potências estão hoje no meio de uma transição - sobretudo a Rússia, a Índia e a China», diz o mesmo relatório. A que se deverá juntar a União Europeia, que progressivamente se está a afastar estrategicamente do parceiro transatlântico, afirma Robert Kagan, analista da Carnegie Endowment for International Peace (ver caixa).

    Artigo de Robert Kagan publicado na Policy Review: «Power and Weakness»

    A política do petróleo

    No meio desta estratégia global, o controlo das regiões ricas em recursos é uma das peças indispensáveis. Alguns dos alvos da estratégia militar e de «projecção de poder» (eufemismo para capacidade de intervenção em áreas distantes) são inclusive escolhidos em função da questão hiper-crítica da dependência estratégica crescente dos EUA em relação ao ouro negro e, também, da dependência de outros «concorrentes» como a Europa Ocidental e a China.

    Foi o professor norte-americano Michael Klare que veio trazer para a ribalta esta nova «corrida», com o seu livro Guerras pelos Recursos publicado no ano passado. A expectativa é grande em torno da sua próxima obra sugestivamente intitulada Sangue e Petróleo: As implicações de segurança internacional da dependência crescente dos EUA em petróleo importado.

    Uma das conclusões de Klare fala por si: os EUA dependiam da importação do petróleo em 37% em 1980, depois dos «choques» petrolíferos de 73 e 79, evoluíram para 50% de dependência em 2000 e estima-se que cheguem aos 66% em 2020, me virtude da recusa em mudar mais profundamente diversos aspectos da política energética doméstica. Um «salto» de 10,4 milhões de barris diários importados hoje em dia para 16,7 daqui a 18 anos. A dependência geográfica em relação a duas regiões de grande turbulência - o Médio Oriente e as Caraíbas - atinge os 41% das importações. Não admira, por isso, a «corrida» a outras latitudes como o recente frenesim em torno da África Ocidental e do Mar Negro e a necessidade de pôr sob controlo o cartel da OPEP (o problema da manipulação dos preços), o Golfo Pérsico (principal região de reservas de longo prazo) e as Caraíbas (Venezuela e Colômbia).

    O célebre «relatório Cheney» de Maio de 2001 sobre a política energética dos EUA, baptizado a partir do seu inspirador Richard Cheney, o vice-presidente de Bush, é particularmente claro no seu capítulo 8: a questão do petróleo tornou-se «uma prioridade do nosso comércio e da nossa política de negócios estrangeiros».

    Por outro lado, a China vai ver a sua dependência estratégica do petróleo aumentar em mais de 40% até 2020, e o peso das importações do Médio Oriente vão «saltar» dos 60% actuais para os 90%. Controlar a região do Golfo Pérsico é, por isso, vital para os EUA como meio de contenção do possível «concorrente estratégico».

    John Feffer é, no entanto, pessimista sobre os resultados a prazo desta nova geo-estratégia norte-americana: «Historicamente tem sido muito difícil para os impérios evitar prevenir a ascensão de pares concorrentes. As políticas que são adoptadas para matar no ovo as aspirações de potências concorrentes, regra geral, falham», afirma-nos o autor de Power Trip, um título sugestivo que ilustra a recente «viagem» encetada pela América sob influência da droga do poder global.

    CERCO À EURASIA
    diz John Feffer
    Um dos alvos da estratégia americana será o «cerco» ao espaço europeu e euro-asiático. Também aqui a oportunidade histórica sorri aos EUA: a Europa tem perdido a sua centralidade estratégica, apesar do seu voluntarismo em torno do projecto da União Europeia; e a Rússia ainda não se refez da queda da União Soviética. Acresce que a tensão transatlântica vai crescer. «É tempo de deixar de pretender que europeus e americanos partilham uma mesma visão do mundo, ou mesmo que ocupam o mesmo mundo», diz Robert Kagan, do Carnegie Endowment for International Peace.
    Robert Kagan fala mesmo de um «cisma» em progressão entre os dois lados do Atlântico Norte. Este analista americano chega ao ponto de admitir que «esta tendência de divisão talvez se torne impossível de inverter».
    Uma das consequências será o ataque frontal por parte dos grupos americanos às posições das multinacionais e grupos europeus no próprio espaço europeu, nos espaços históricos da antiga colonização europeia (África e América Latina), nas «bordas» do antigo bloco soviético e nas outras regiões estratégicas do mundo (nomeadamente nas do petróleo).
    Por outro lado, o espaço euro-asiático sempre foi um bolo apetecível. «O controlo da Euroasia tem sido um dos traços marcantes da história da geo-política e da geo-economia», diz-nos John Feffer, que vai abordar o assunto no livro Power Trip. Foi um estratego militar britânico do início do século XX, Halford Mackinder, que elevou o controlo desta vasta massa continental a uma «lei da geo-política». As duas Grandes Guerras Mundiais e a Guerra Fria no século XX tiveram esta massa continental como teatro central.
    Mais tarde, o americano Nicholas Spykman adicionou-lhe um novo ingrediente: o controlo naval das regiões costeiras da Eurasia, incluindo o cerco pelo lado do Pacífico. O romancista britânico Eric Blair - mais conhecido por George Orwell, o «pai» do «Big Brother» - transformou o termo num dos espaços geo-políticos de ficção na obra 1984 publicada em 1949. A «Eurasia» era um dos membros da tríade completada pela «Oceânia» (as Américas, África do Sul e Austrália) e a «Ásia Oriental» (China). Curiosamente, é Zbigniew Brzezinski que desenterra, recentemente, o tema no livro The Grand Chessboard em 1997.
    «Mas não acredito que a China e a Rússia aceitem uma excessiva influência dos EUA neste espaço. Esses dois grandes já criaram o Conselho de Cooperação de Xangai, conhecido por 'os seis de Xangai', dado incluir mais quatro estados da Ásia Central», afirma Feffer, que adianta a possibilidade da Ásia-Pacífico do Norte (Rússia, China, Japão, Coreias) «vir a criar um mercado comum e estabelecer uma ligação à Europa, algo que poderá desafiar a hegemonia norte-americana». A própria Europa «não está morta geo-estrategicamente», alega o analista.

    AS ALTERAÇÕES DE DOUTRINA MILITAR
    O livro Power Trip dedica alguma atenção à questão militar. A nova doutrina estratégica estipula alguns princípios que rompem com a linha seguida desde o pós-guerra.
    A nova linguagem é feita das seguintes máximas:
  • ataque antecipado («act preemptively»): actuar contra as ameaças emergentes antes de elas se terem formado totalmente; actuar antecipadamente alargando o conceito de «ameaça iminente» (*); de facto, o que a Casa Branca pretende é tornar aceitáveis «ataques preventivos» sem ameaça iminente; a Administração usa aqui uma típica «dupla linguagem» (ao estilo de Orwell)
  • inversão operacional: a melhor defesa é o ataque (o que historicamente tem sido usado como argumento de guerras de agressão ou nas guerras revolucionárias a partir do momento em que há condições de passar à ofensiva estratégica)
  • 'power projection': capacidade de intervenção militar em áreas distantes
  • direito de requisição: os EUA requisitarão bases dentro e fora da Europa Ocidental e da Ásia do Nordeste, tal como acordos temporários para movimentos de tropas a longa distância
  • ameaça nuclear ofensiva: uso de armas nucleares em primeiro lugar
  • direito de ingerência: provocar mudanças de regime nos estados adversários através do uso de intervenção militar directa
  • prioridade: a procura de fornecimentos de petróleo tornou-se prioridade para a política comercial e de negócios estrangeiros

  • NOTA (*): Um debate tem sido travado entre especialistas sobre a diferença entre agir «antecipadamente» («preemptive war») ou agir «preventivamente» («preventive war»). Para Bruce Russett, da Yale University, a acção «antecipada» surge num contexto de escalada em espiral, quando o risco é iminente em termos de dias ou horas, trata-se de agir por auto-preservação. Isso aconteceu com a guerra dos seis dias em 1967 quando Israel atacou os árabes. Mas este tipo de guerras são raras. No caso agora falado do Iraque não há qualquer ameça iminente, pelo que se trata de algo «preventivo», daí a necessidade de manipular o conceito de «iminente» (de um momento para o outro) confundindo-o com «eminente» (alto grau de probabilidade). O relatório da Casa Branca é claro quando diz: «temos de adaptar o conceito de ameaças iminentes às capacidades e objectivos actuais dos adversários». Bruce comenta que «das 20 guerras preventivas lançadas por grandes potências nos últimos 300 anos nenhuma foi desencadeada por uma democracia».
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