Venture Capital: Outlook para 2003

Operadores portugueses dispõem de 350 milhões de euros

Apesar do clima económico depressivo e dos mercados bolsistas continuarem a conviver com um "urso" implacável contra a herança da "bolha", os operadores do capital de risco no mercado português estão moderadamente optimistas sobre as oportunidades em 2003. Com condições: desde que as empresas que procuram financiamento nestes fundos tenham projectos realistas e sustentáveis.

Research de Isabel Vicente, jornalista de economia do semanário português Expresso, e texto de Jorge Nascimento Rodrigues, editor de www.janelanaweb.com e colaborador do Expresso

Versão resumida publicada no semanário português Expresso, Janeiro 2003

Painel de especialistas ouvido
PORTUGAL: Mário Pinto da Change Partners, Luís Féria do BCP Capital, Paulo Caetano, da APCRI, Rui Ferreira do BPI, André Ribeiro, analista português em Espanha;
INTERNACIONAL: Professor Robert Shiller, de Yale, Marcos Baptista, da Intel Capital (Europa), David J. Ezequelle, da Alloy Ventures (Silicon Valley), Adam Hamilton, editor da Zeal Intelligence (EUA), Gerry McGovern da New Thinking (Irlanda), Frank Verschoor, NeSBIC (Holanda)

As entrevistas originais em inglês aos membros do painel internacional podem ser lidas no "mirror" em inglês de www.gurusonline.tv

Fontes consultadas
National Venture Capital Association (EUA)
 European Venture Capital Association (Europa) 
APCRI, PriceWaterhouseCoopers

Sítios na Web das capitais de risco e analistas estrangeiros
 Alloy Ventures | NeSBIC | Intel | GerryMcGovern | Zeal Intelligence 

Sítio do Professor Shiller | Entrevista com o prof. Shiller em 2000

Recomendações aos novatos | Conselhos às start-ups
Estatísticas de referência

Ano de transição é como Mário Pinto, fundador e administrador da Change Partners, uma capital de risco independente sediada no Porto, classifica o ano de 2003, apesar de «não nutrir ilusões sobre uma recuperação económica rápida». Opinião similar partilhada por Rui Ferreira, que dirige a área deste tipo de investimentos no grupo BPI. Ainda que, «com alguma prudência no primeiro semestre», este responsável sublinha que é provável que estejamos a mudar de sentido, «depois dos investidores terem estado virados para dentro em 2002». À escala internacional, o brasileiro Marcos Baptista - responsável europeu da Intel Capital, o braço de capital de risco da multinacional que já investiu em Portugal -, salienta com um tom optimista «que as boas ideias não param por causa de um período de declínio. Mesmo através de momentos financeiros difíceis, a inovação continuou, e nós estamos cá para a avaliar». O histórico mais recente do capital de risco não é famoso - o movimento de declínio continuou. Nos capitais investidos, o montante baixou de 63% entre 2000 e o quarto trimestre de 2002 em Portugal, de 89% em igual período nos EUA e de 53% na Europa (ver quadros).

No caso português, o optimismo moderado para 2003 deriva de um lote disponível de mais de 350 milhões de euros, 251,5 em fundos disponíveis em entidades de capital de risco e 100 no novo Fundo de Sindicação de Capital de Risco gerido pelo IAPMEI. A este "bolo" podem juntar-se as oportunidades abertas pelas oito áreas (sete delas temáticas em sectores tecnológicos e abertas a PME) do 6º Programa-Quadro de Ciência, Tecnologia e Investigação da União Europeia que irá vigorar até 2006, e que a Unidade de Missão para a Inovação e o Conhecimento vai divulgar no final deste mês. O lançamento pelo BPI de um novo Fundo designado "Caravela" com 20 milhões de euros é um sinal recente desta disponibilidade financeira. Mário Pinto vê com bons olhos «o desenvolvimento deste tipo de fundos especializados» e alerta para um aquecimento da concorrência nesta área com a entrada mais activa de fundos pan-europeus, inclusive através de Espanha. A animação deste mercado de investimentos poderá também beneficiar «das melhorias introduzidas ao nível do enquadramento legal e fiscal português das sociedades e fundos de capital de risco», afirma Paulo Caetano, secretário-geral da Associação Portuguesa de Capital de Risco (APCRI). Praticamente no final do ano, através do decreto-lei 319/2002, o actual governo modificou as disposições datadas de 1991 e 1999, aliviando alguns espartilhos a esta actividade.

Sucessões & Sectores

As oportunidades de intervenção do capital de risco poderão encontrar-se no campo da resolução de problemas de liquidez de accionistas de empresas que se revelem boas aquisições para um portfólio ou por razões de sucessão difícil em grupos e empresas de raiz familiar. Neste último caso, o controlo pode mudar de mãos com a entrada de capital de risco em associação com gestores e quadros de dentro ou fora da empresa. «O mercado dos 'buy-outs' e 'buy-ins' vai estar em alta», refere Mário Bolota, fundador e administrador do BIG, um jovem banco português que tem servido de catalisador de investidores para empresas interessantes. Na Europa, sublinha Paulo Caetano, da APCRI, a actividade de "buy-outs" representou 69% do investimento do capital de risco nos primeiros três trimestres de 2002, segundo um estudo da PriceWaterhouseCoopers e da Thomson Venture Economics

Luís Féria, administrador do BCP Capital e presidente da APCRI salienta que o capital de risco «olha mais a empresas do que a sectores» eventualmente em moda. E, garante, que, na avaliação dos projectos, o capital de risco vai voltar aos critérios de análise anteriores à "bolha". No entanto, o painel português ouvido pelo Expresso chama a atenção para os serviços às empresas, energia, saúde, turismo, ambiente, componentes automóvel e retalho especializado. As que recolhem mais votos são as áreas da saúde e turismo.

A nível internacional, estão muitos "quentes" áreas mais "tecnológicas", como os sistemas de segurança, a tecnologia sem fios, a biotecnologia e o "outsourcing" de processos de negócio. Mas, David Ezequelle, da californiana Alloy Ventures, que mantém um olho atento sobre a Europa, adverte que o problema é que «há muitos cães ao mesmo osso - são áreas que estão cheias de projectos tentando captar as mesmas oportunidades». No caso de capitais de risco de multinacionais, como a Intel Capital, os seus interesses na Europa dirigem-se para a infra-estrutura da Net, incluindo serviços e conteúdos, o mercado do sem fios, tecnologias do silício e optoelectrónica. Estar desatento ao que se passa no mundo da chamada "Nova Economia" poderá ser um erro, diz-nos Gerry McGovern, um irlandês que percorre o mundo a difundir «o novo pensamento» de investimento inteligente na Web: «Começarão a desenvolver-se modelos de retorno do investimento na área da Web e o princípio de cobrar pelos dados consultados ou enviados vai impor-se. A arquitectura de informação nas empresas subirá de importância. As intranets reforçarão o seu papel crítico».

Recomendações aos novatos
Se for bater à porta do "venture capital" tenha em conta o que move a mente analítica dos homens do risco.
1. As empresas sob observação serão as que apresentarem uma série de características:
- vocação/expressão internacional;
- potencial de domínio do sector;
- vantagens face à concorrência;
- gestão profissional;
- sistema de informação adequado;
- modelo de negócio viável.
2. Os argumentos que poderão convencer são os seguintes, na opinião do brasileiro Marcos Baptista, da Intel Capital:
- focalize-se numa tecnologia que resolva um problema;
- o seu plano de negócios dever ser simples;
- ão queira ser um pequeno artista num grande mercado, prefira ser um protagonista de relevo num pequeno mercado;
- xplique-se como vai passar de 0 para o seu primeiro 1 milhão de dólares/euros de facturação. Os números "gordos" para o futuro não convencem.

O urso não hibernou

Um conselho claro dos homens do capital de risco é que não faça o seu plano a pensar numa ida à bolsa a curto prazo. A tendência do pós-"crash" vai manter-se. A quebra nos IPO (entrada em bolsa) nos Estados Unidos foi de 75% entre 2000 e 2002 em termos de valor envolvido e de 83% em numero de operações, segundo a Renaissance Capital/Greenwich/ipohome.com.

O clima bolsista vai continuar negativo neste período dominado pelo "urso" ("bear market" na linguagem dos analistas, por oposição ao "bull market", de crescimento), «o que significa que não pode haver ilusões», diz André Ribeiro, um analista financeiro português radicado em Espanha. Adam Hamilton, um dos especialistas internacionais mais ouvidos nos EUA, é peremptório: «O ano não vai ser nada agradável para os mercados financeiros. Os períodos do 'urso' existem para eliminar os excessos especulativos das bolhas que os precederam e para trazer as valorizações para valores históricos médios. O 'urso' não hiberna enquanto essa missão não estiver concluída, como é o caso». E acrescenta contra as ilusões que continuam a ser expandidas: «Se a história serve de guia, ainda temos pela frente pelos menos uma década até regressarmos a uma nova bolha tecnológica».

Frank Verschoor, da NeSBIC, uma capital de risco sediada na Holanda que já investiu em Portugal, opina no mesmo sentido: «Creio que as bolsas continuarão a explorar a batida no fundo por mais algum tempo, com algum iô-iô intermédio, ou seja os altos e baixos a que estamos a assistir». No mesmo sentido vai a voz autorizada do professor de Yale, Robert Shiller, que antecipou o "crash" bolsista de 2000 na sua obra Exuberância Irracional. «Vai ser difícil restaurar a confiança por algum tempo. O fim de uma bolha não é um acontecimento de um dia. Leva tempo às pessoas recuperarem psicologicamente. Por exemplo, durante 16 anos não se reganhou a confiança depois de 1966 e o retorno anual do portfólio investido foi negativo entre aquela data e 1982. Depois de 1929, levou 20 anos», sublinha-nos. As cautelas são reforçadas com a opinião vinda da geo-política. «Todos os cenários moderadamente optimistas poderão ser deitados para o lixo se houver guerra no Iraque ou um outro atentado terrorista de relevo nos EUA», conclui David Ezequelle, da Alloy Ventures.

CONSELHOS ÀS «START-UPS»
- A recomendação unânime do painel: a estratégia a seguir pelas "start-ups" é a aposta nos rounds institucionais ou nos "business angels" - e procure sempre se possível investidores internacionais - ou na utilização de apoios públicos, e depois crescer organicamente;
- A hipótese IPOs é remota em virtude da situação das bolsas, e pelo facto de exigir cada vez um patamar europeu de dispersão de uns 20 milhões de euros (quatro milhões de contos, na moeda antiga portuguesa), para uma capitalização posterior de uns 100 milhões, sublinha André Ribeiro. Verschoor, da NeSBIC, por seu lado, afirma mesmo que «não fará qualquer sentido para qualquer empresa tecnológica fazer um IPO em 2003 se não tiver um mínimo de 10 milhões de euros (2 milhões de contos, na moeda antiga portuguesa) de rendimentos por trimestre - ou seja uma facturação anual de 40 milhões de euros - e se não estiver perto da lucratividade»;
- A hipótese de serem adquiridas, também pode ser equacionada na estratégia, apesar do movimento de fusões e aquisições estar também em declínio na Europa, com uma quebra de 63% em valor e de 30% em número de operações entre 2000 e o final de 2002; os sectores com maiores movimentos deste tipo têm sido telecomunicações, serviços financeiros e ultimamente "utilities". Gerry McGovern vaticina inclusive que «em 2003 vamos começar a assistir ao retrocesso de algumas mega-fusões, voltando a dividir as áreas de modo a torná-las mais eficientes e lucrativas»;
- Tenha em conta que as capitais de risco portuguesas, por seu lado, vão continuar a tendência de desinvestimento em sectores da moda nos anos 90: portais, media, comunicações, electrónica. O movimento de saída, de venda directa de participações do portfólio, das capitais de risco aumentou em 2001 e 2002 - os desinvestimentos passaram de 71 milhões de euros em 2000 para 90 milhões no ano seguinte e 91 milhões nos três primeiros trimestres de 2002, podendo acontecer que neste último ano os desinvestimentos ultrapassem os investimentos.

ESTATÍSTICAS DE REFERÊNCIA

Quadro I
Capital de Risco e capital privado investido (1998-2002)
Unidade: mil milhões de dólares (bilhões)
Anos19981999200020012002 (*)
Mundo82155199100n.d.
EUA5611614663n.d.
EUA (só cr+)20541023817
Europa1626322215
Portugal0,050,120,180,110,07
Nota: (*) Três trimestres; (+) Só capital de risco na definição da National Venture Capital Association dos EUA
Fontes: European Venture Capital Association, Thomson Venture Economics, PriceWaterhouse Coopers study of private equity and venture capital, Setembro 2002; dados portugueses fornecidos pela Associação Portuguesa de Capital de Risco, Janeiro de 2003
Obs: Valores arredondados
Web: www.europeanvc.com/figures.htm
CONCLUSÕES
1. O ano de viragem foi em 1999 em todo o mundo, com um crescimento de 90% no capital de risco investido, acompanhando a emergência da Nova Economia
2. O ano de 2002 continuou o movimento de quebra iniciado em 2001
3. Os Estados Unidos representam mais de 50% do capital de risco investido, com uma posição mais forte do que a Europa, em particular no pico histórico em 2000
4. No entanto, nos valores para os três primeiros trimestres de 2002, os valores do CR da Europa e EUA aproximam-se
5. Portugal representou no máximo 0,5% do capital de risco investido na Europa
6. Em Portugal o crescimento foi de 140% entre 1998 e 1999
7. Mais de 50% do montante mundial de CR é investido em tecnologia

Quadro II
Movimento de Fusões & Aquisições na Europa
Anos1999200020012002 (*)
Número de operações980711915106108290
Valor envolvido (mil milhões/bilhões euros)8341481697559
Nota: (*) Até 12 de Dezembro de 2002
Fonte: EVCA Barómetro, Dezembro 2002
APÊNDICE
Sectores europeus com maior volume financeiro envolvido na F&A (por ordem decrescente)
1999: finanças e seguros; telecomunicações; química e farmacêutica
2000: telecomunicações; papel/impressão/maquinaria/metalurgia; finanças e seguros
2001: finanças e seguros; telecomunicações
2002: finanças e seguros; "utilities"
CONCLUSÕES
1. O movimento quebrou de 2000 para 2001 e manteve a tendência de declínio em 2002
2. Mantém-se um movimento consistente de concentração nas finanças e seguros de 1999 a 2002 envolvendo montantes anuais sempre elevados
3. Finanças e seguros e telecomunicações são os dois sectores de maior volume de F&A; as telecomunicações movimentaram a fatia maior, com 696 mil milhões/bilhões de euros, logo seguida do sector financeiro com 674 mil milhões/bilhões
4. O pico de montantes envolvidos deu-se em 2000

Quadro III
Capital de Risco em Portugal (1998-2002)
Unidade: milhões de euros
Anos19981999200020012002 (*)
Fundos levantados4771152118n.d.
Investimento total5011918310868
Saídas76797190 91
Nota: (*) Três trimestres
Fonte: Associação Portuguesa de Capital de Risco, Janeiro 2003
Obs: Valores arredondados
CONCLUSÕES
1. O ano de 2000 representou o pico histórico
2. A partir de 2001, os movimentos de saída (desinvestimento) do capital de risco dos projectos em que se envolveu sobem significativamente (27% entre 2000 e 2001) e em 2002 tudo indica serão superiores aos investimentos

Quadro IV
Tipo de operações do capital de risco em Portugal
Unidade: número de operações
Anos19981999200020012002 (*)
Total68951618772
Start-ups19204618nd
Expansão41427038nd
Outras indústrias2424267nd
Outros serviços6151925nd
Nota: (*) Três trimestres
Fonte: APCRI
CONCLUSÕES
1. O CR português investe mais em projectos de expansão de empresas já existentes
2. A maior parte das operações não se realiza em empresas de base tecnológica ou mesmo de intensidade tecnológica média; nas "outras indústrias" não estão incluídas as comunicações, informática, electrónica, biotecnologia, química e materiais, automação, energia e saúde

Página Anterior
Topo da Página
Página Principal