Talento encolheu em Portugal

O nosso país foi o único da União Europeia que viu a sua classe criativa diminuir nos últimos anos. Os trabalhadores do conhecimento são menos
de 15% da população empregada e estiveram em regressão entre 1995
e 2000, segundo o Relatório "Europe in the Creative Age", da autoria
de Richard Florida e Irene Tinagli, editado no Reino Unido pela Demos,
um "think tank" inglês de projecção internacional.

Relatório disponível em PDF

Jorge Nascimento Rodrigues, editor de janelanaweb.com, Março 2004

O nosso país está na fronteira entre um estado de atraso crónico em termos de economia baseada no talento e uma fase de emergência criativa, como ocorreu com a Irlanda em décadas anteriores. Mas, apesar dessa boa notícia dada pelo estudo "A Europa na Idade da Criatividade" divulgado em Londres, pelo "think tank" Demos, o ponto de partida é muito negro. A classe criativa em termos de população activa encolheu em Portugal entre 1995 e 2000, ao contrário de toda a restante União Europeia, e a nossa matriz cultural revela o último lugar em termos de afirmação das ideias pessoais e o segundo lugar em tradicionalismo dos valores (pior, só a Irlanda).

Posição de Portugal no Índice Europeu de Criatividade
 Classe criativa - último lugar (apenas 13,14% da população empregue)
 Capital humano - antepenúltimo lugar (à frente de Dinamarca e Áustria) 
 Talento científico - penúltimo lugar (à frente da Grécia)
 Patentes por milhão de habitantes - último lugar
 I&D - penúltimo lugar (à frente da Grécia)
 Atitude face às minorias - 5º mais intolerante
 Afirmação pessoal - último lugar
 Valores tradicionalistas - segundo lugar (depois da Irlanda)
 Fonte: Europe in the Creative Age, 2004

A classe criativa em Portugal - tal como em Itália - tem um peso social inferior a 14% da população empregada, quando a "média" europeia é superior a 22%. Países como a Bélgica, Holanda e Finlândia aproximam-se dos 30%, o valor dos Estados Unidos. Para agravar, temos talento na prateleira - os diplomados e pós-graduados (mestrados e doutorados) são já oficialmente 7% da massa de desempregados portugueses, perto de 40 mil quadros sem trabalho no nosso país.

Estes aspectos negativos são mais graves do que os que habitualmente se discutem - o facto de estarmos em último lugar em patentes por milhão de habitantes, ou em penúltimo em termos de talento científico ou investigação & desenvolvimento (pior, só mesmo a Grécia). "Portugal está muito mal posicionado no índice do talento, e isso é preocupante, pois se trata de um factor crítico nos tempos actuais", comenta Irene Tinagli, um dos autores do estudo, da Heinz School of Public Policy and Management da Universidade de Carnegie Mellon, nos Estados Unidos.

O nosso país tem de fazer um esforço em quatro áreas fundamentais: criar algum tipo de pólo de excelência de conhecimento a nível europeu; difundir a cultura científica; massificar o uso da língua inglesa; e criar uma sociedade menos provinciana nos valores.

A fraqueza na geração da nossa classe de criativos - profissionais, artistas, músicos, cientistas, economistas, arquitectos, engenheiros, gestores, e outros trabalhadores do conhecimento, como os designou Peter Drucker - e a falta de um ambiente de abertura e cosmopolitismo cultural (a que o estudo dá o nome de índice de tolerância) são questões "estruturais" muito mais decisivas do que a análise tradicional em termos de indicadores de tecnologia, desenvolvimento de "clusters" (agregação espacial de actividades económicas relacionadas) ou disponibilidade de capital de risco.

Para aquela especialista, o nosso país tem de fazer um esforço em quatro áreas fundamentais: criar algum tipo de pólo de excelência de conhecimento a nível europeu; difundir a cultura científica; massificar o uso da língua inglesa; e criar uma sociedade menos provinciana nos valores.

Tinagli, italiana de origem, de 29 anos, colaborou, neste estudo, com o professor Richard Florida, que é autor de uma metodologia que permite criar um índice de criatividade baseado na avaliação de diversos indicadores ligados a três "t" - talento, tecnologia e tolerância. A avaliação de indicadores de tolerância, regra geral ignorados nas análises convencionais, é um dos pontos distintivos desta metodologia, que foi divulgada no livro O crescimento da classe criativa (The Rise of the Creative Class), escrito por Florida a pensar na situação dos Estados Unidos, há dois anos atrás (2002). Agora, Florida e a sua aluna de doutoramento Tinagli aplicaram-na à Europa.

"Corrigir" Michael Porter

O estudo propõe um passo adiante em relação à metodologia tradicional de Michael Porter para a avaliação da competitividade das nações ou das regiões. "A análise tradicional esquece frequentemente as pessoas, os talentos. O recurso económico chave hoje em dia é a gente criativa, que é altamente móvel, e que gravita em direcção a países e regiões que tenham determinadas condições. Os líderes económicos do futuro serão países e regiões que são capazes de atrair gente criativa e em resultado disso criar a próxima geração de produtos e de processos de negócio", afirma-nos Tinagli.

O trabalho de Florida e Tinagli constatou que houve uma inversão em relação aos anos 80: "Em vez de serem as pessoas a moverem-se para onde está concentrado o investimento e a tecnologia, tal como a literatura da competitividade nos ensinava, hoje passa-se o contrário - as firmas deslocam-se para onde vive o talento, para os locais escolhidos pela classe criativa".

Em vez de serem as pessoas a moverem-se para onde está concentrado o investimento e a tecnologia, tal como a literatura da competitividade nos ensinava, hoje passa-se o contrário - as firmas deslocam-se para onde vive o talento, para os locais escolhidos pela classe criativa.

Dito de outro modo, segundo Tinagli, há uma viragem de fundo na vantagem competitiva das empresas e das nações no sentido de uma abordagem centrada na "envolvente", ou seja nas características do ecossistema que dão um vantagem territorial ou jurisdicional em certos locais. "Isto poderá ocorrer certamente a nível nacional, mas é mais provável que suceda em aglomerações espaciais mais pequenas, as cidades e as regiões".

O Directório político da criatividade

O estudo constata, com preocupação, que os Estados Unidos estão a perder neste terreno, nos últimos anos, tendo sido ultrapassados pela Suécia (considerado o país mais criativo) e tendo a Finlândia quase ombro a ombro.

De facto, um bloco de pequenos países europeus centrados nos Mares do Norte e Báltico - Suécia, Finlândia, Holanda e Dinamarca - ocupam quatro posições no Top 5 do índice da criatividade. Uma parte da Europa está a capitalizar claramente esta janela de oportunidade, conclui o relatório elaborado nos EUA. Os países "latinos" - França, Espanha, Itália e Portugal - estão claramente na segunda divisão da criatividade, tal como a Grécia, a Irlanda (o que pode admirar os leitores) e a Áustria.

Contacto de Irene Tinagli: itinagli@andrew.cmu.edu.

 Índice da Criatividade Europeia 
Suécia
Finlândia
Holanda
Dinamarca
Alemanha
Bélgica
Reino Unido
França
Áustria
Irlanda
Espanha
Itália
Grécia
Portugal
Fonte: Europe in the Creative Age, 2004

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