Descida bolsista provável até 2005

Um geofísico francês radicado em Los Angeles aplica fractais ao estudo dos ciclos bolsistas e lança um prognóstico preocupante - retoma das bolsas pouco provável antes de 2005. E convém preparar-se para batidas no fundo ainda mais dolorisas até lá. Didier Sornette revela no livro que lançou agora os mecanismos cíclicos e a psicologia dos investidores.

Sítio na Web de Didier Sornette com os prognósticos
Livro lançado: «Why Stock Markets Crash» (compra do livro)

Jorge Nascimento Rodrigues com Didier Sornette, Fevereiro de 2003

Capa do livro Why Stock Markets Crash A retoma bolsista nos Estados Unidos provavelmente não ocorrerá antes de finais de 2004 e mesmo assim não estenderá logo o tapete para um período de alta consistente. Até lá, vai haver uma descida forte, que poderá ter um ou dois comportamentos em io-iô, com altos e baixos seguidos. E, como a sincronização das bolsas mundiais, é hoje maior do que nos anos 30 ou 80 do século passado, o efeito "dominó" será instantâneo.

O prognóstico é de um geofísico francês que trabalha no Departamento das Ciências da Terra e do Espaço na Universidade da Califórnia em Los Angeles (UCLA). Didier Sornette, que também é director de investigação no Laboratório de Matéria Condensada no CNRS (organismo francês de investigação científica) em Nice, é sismólogo de profissão, e "brinca" frequentemente com complexos algoritmos e com uns objectos geométricos e matemáticos que dão pelo nome de "fractais". A sua paixão pela teoria da "complexidade" - que ele aplica na sua área profissional, a sismologia - tem-no, também, ajudado a desenvolver os modelos de análise destes curiosos fenómenos sociais, que são os mercados financeiros.

Didier Sornette Estas brincadeiras matemáticas têm permitido a Didier e ao seu colega Wei-Xing Zhou fazerem prognósticos na área dos sistemas financeiros, tendo antevisto o "crash" do Nasdaq de Abril de 2000. O histórico acumulado em diversos artigos científicos publicados em revistas como a Quantitative Finance, já chamou a atenção de media tão diferentes como o New Scientist, a BBC ou o Financial Times. Com base nesse acervo, Didier Sornette publicou, agora, Why Stock Markets Crash?, publicado pela Princeton University Press. O sítio na Web do professor (em www.ess.ucla.edu/faculty/sornette/) tornou-se num lugar de romaria para os investidores mais astutos. Os prognósticos que ele publica periodicamente são analisados ao detalhe.

O gatilho da guerra

O livro caiu nos escaparates na altura certa . Os sinais de guerra no Iraque e de crise na península coreana estão a deixar os mercados financeiros extremamente nervosos e os analistas oficiais dos bancos de investimento começam a abandonar o discurso da "retoma bolsista no segundo semestre", que tem permitido criar algumas corridas em alta momentâneas. "Grande turbulência pela frente" e "risco de serem violados os (pontos) baixos recentes" são, na linguagem da análise técnica, a confirmação de que "o período do urso está para ficar em força". O indicador que está sob permanente escrutínio é o S&P 500, que representa as maiores empresas cotadas em bolsa. O patamar em que se tem segurado entre os 782,96 (ponto mais baixo em 7 de Outubro do ano passado) e os 830-840 pontos em que tem andado este mês de Fevereiro parece agora correr o risco de "ser violado".

A multidão dos investidores em bolsa não age por estupidez colectiva, sublinha Didier Sornette, mas porque a euforia ou o pânico é muitas vezes "a opção mais racional em virtude de se possuir informação imperfeita", mesmo quando - como acontece com muitos analistas e "traders" - se julga "que se sabe tudo".

O factor geo-político surge como determinante na psicologia dos analistas e dos investidores. "Mas a causa instantânea dos colapsos são sempre secundárias", afirma-nos Didier Sornette. Os períodos de "urso" tal como os período de "touro" têm sempre "origem interna - os fenómenos externos funcionam como gatilhos", afirma o cientista francês. "Os 'crashes' são construídos progressivamente pelo mercado, como se se tratasse de um processo auto-organizado", sublinha o professor de sismologia, que acompanhou a evolução do indicador S&P 500 desde 2000, verificando desde Agosto desse ano cinco "crashes" num processo de descida em io-iô que teve batidas no fundo em Outubro e Dezembro de 2000, Abril e Setembro de 2001 e Julho de 2002. A modelização matemática até à data continua a apontar para a continuação da descida.

A antecipação das rochas

As batidas no fundo nunca são "a última" quando se vive no que o cientista designa de período "anti-bolha". Tal como nos períodos de "bolha", o que funciona é um comportamento colectivo que Didier Sornette classifica de efeito de "multidão". Os psicólogos e os investigadores em ciências cognitivas chamam a atenção para o papel da imitação, um processo de aprendizagem usado "por nós e por alguns animais muito inteligentes, como os golfinhos, os macacos e alguns pássaros", diz Sornette.

A multidão não age por estupidez colectiva, sublinha Didier, mas porque a euforia ou o pânico é muitas vezes "a opção mais racional em virtude de se possuir informação imperfeita", mesmo quando - como acontece com muitos analistas e "traders" - se julga "que se sabe tudo". A única forma de escapar à sina das multidões é ser-se capaz de ter um espírito a contra-corrente, um sólido conhecimento dos mecanismos fundamentais dos mercados e uma memória histórica que ajude a perceber os sinais dos ciclos.

O leitor, neste ponto, aceitará que a psicologia das multidões poderá ter interesse operacional para compreender os mercados financeiros, mas interrogar-se-á o que tem tudo isto a ver com sismologia ou física da matéria condensada. Didier ri-se: "Pois, parece que as rochas não antecipam". Mas não. "Há algo de similar entre a Natureza e a Sociedade. A primeira das quais é a luta entre a ordem e a desordem", explica, para depois dizer que períodos de transição entre equilíbrio e desequilíbrio, fracturas, crises, terramotos, sinais que podem ser lidos antecipadamente, etc., "tudo tem algo em comum".

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