Presidente do Grupo Shell

Preço alto não serve ninguém

O que mais preocupa o líder de uma das quatro maiores petrolíferas do mundo é a frustração que saiu à rua. O preço do crude baixará entretanto, assegura, mas o que motiva a revolta poderá continuar. Mark Moody-Stuart é "Sir", fez 60 anos neste encontro com jornalistas europeus, e foi nomeado pelo G8 para co-presidir a um comité sobre o desenvolvimento sustentado juntamente com um ex-ministro italiano do ambiente, Corrado Clini.

Jorge Nascimento Rodrigues em Paris, em Setembro 2000

Site da Shell | Posição da Shell sobre os aumentos do preço do crude
A estratégia para as alternativas estratégicas
Outros artigos sobre a crise petrolífera de 2000

Mark Moody-Stuart Preços do crude tão altos não são bons para ninguém na indústria petrolífera, resumiu com voz tranquila, mas semblante preocupado, Mark Moody-Stuart, o presidente do comité de directores do grupo anglo-holandês Royal Dutch/Shell, que naquela tarde havia reunido em Londres com o primeiro ministro inglês Tony Blair e inesperadamente com o presidente da Nigéria.

«No médio prazo, podem ser um tiro no pé», disse este "Sir", cavaleiro de São Miguel e São Jorge, durante uma roda de jornalistas da Europa "latina" e mediterrânica, à mesa de um jantar, em Paris, no Automóvel Clube de França, o mais antigo do mundo.

Preços assim acabarão, mais tarde ou mais cedo, por provocar uma inundação de crude no mercado, incitar à procura de alternativas energéticas e - mais preocupante ainda - colocam em pé de guerra os consumidores finais.

«Estão a servir de despoletador de uma frustração social e política, como já não se via há bastante tempo na Europa», sublinhou este inglês nascido nas antigas Índias Orientais e que festejou os seus 60 anos no meio de perguntas de jornalistas italianos, sempre bem falantes, de franceses irados com os impostos, de belgas assustados com os bloqueios e de gregos temendo o que se possa passar na região do Cáspio.

Bolso cheio mau conselheiro

Apesar das petrolíferas estarem a fazer bons lucros, a abundância de petro-dólares não é boa companheira. Os 4 maiores grupos deverão fechar o ano duplicando-os, chegando aos 50 mil milhões de dólares, segundo a Lehman Brothers divulgou nesta semana (Setembro 2000) de operações "caracol" e mesmo de bloqueios a refinarias, nalguns casos da própria Shell em Inglaterra.

«Se os preços continuarem muito acima dos 20 dólares, não será bom para ninguém a longo prazo. As petrolíferas podem fazer boas maquias, mas os consumidores revoltam-se. A situação é insustentável», afirmou, carregando as sobrancelhas fartas.

Moody-Stuart repisou o argumento da frustração ao longo da conversa quase informal: «Um sector em que os clientes estão muito agitados não é bom presságio. Acabarão por 'comer' viva a nossa indústria».

As movimentações ocorridas na Europa podem ser interpretadas de muitas maneiras. Os quatro grupos sociais mais activos - agricultores, pescadores, camionistas e taxistas - podem ser acusados de "corporativismo" e e, em França, os "Verdes" apelidaram alguns movimentos de "poujadistas".

Mas "Sir" Mark não se deixou ficar prisioneiro dessa abordagem, e prosseguiu tentando provar a entrada de camarões: «Começa a manifestar-se uma série de reacções - a propósito de diversas questões, como a globalização. Há muita emoção na rua e não é completamente claro sobre contra o que é que as pessoas estão. É indispensável 'ouvir' e entender este barulho. É urgente perceber o que se passa. Interessam-nos clientes fidelizados e não revoltados», acentuou o líder da Shell, que naquela semana falara com manifestantes e ficara «impressionado com a enorme raiva que pairava no ar».

As torneiras salvadoras

Mark Moody-Stuart fez uma carreira na Shell desde os seus 26 anos e percorreu o mundo, tendo vivido os dois choques petrolíferos anteriores. Por isso, não crê que tenhamos "reentrado" num período de crise energética. «Apesar dos efeitos nas grandes economias não é nada como nos anos 70 e 80», frisou este geólogo. O clima emocional é grande, mas o barril de crude actual está, ainda, muito abaixo dos 50 dólares (a preços de 2000) de 1990/91 ou dos quase 90 dólares (a preços de 2000) de 1980/81.

A "tranquilidade" do líder da Shell provém dos cenários em que a empresa tem trabalhado: «Nós acreditamos que o preço futuro mais estável andará à roda dos 20 dólares, ou mesmo um pouco abaixo». A "fé" da Shell advém da conjugação de uma série de factores em que os automatismos do mercado do crude e a tecnologia virada para a diminuição dos custos, acabarão por devolver o "bom senso" ao preço.

Uma das válvulas de segurança seriam os países não-OPEP, que representam hoje 70% da oferta de crude. Com os preços em alta dos últimos meses, eles retomaram a exploração de muitas áreas que estavam "adormecidas" e inundarão o mercado dentro de algum tempo, espera "Sir" Mark. Não será por acaso que a Shell tem reforçado o seu posicionamento em áreas geográficas como a turbulenta Zona do Cáspio, e o "off-shore" do Brasil e de Angola, e também em países da OPEP, como a Nigéria, em que, aliás, o presidente actual da Shell trabalhou.

Mark acha, também, que «os principais países da OPEP estão conscientes da necessidade de baixar o preço». Naquela tarde, o ministro do petróleo do Koweit, de visita a Paris, reafirmaria o argumento, apesar dos rumores de desavenças de novo com o Iraque, o que logo "assustou" os "traders" do mercado real ("spot") e virtual (futuros) do crude. O líder da Shell acentua que «a torneira da OPEP está a ser habilmente rodada», e prossegue: «Os principais países produtores estão a ser cautelosos. Vão abrindo gradualmente e testando o mercado, a ver se o preço arrefece, mas não exageradamente. Eles não estão interessados em que o preço volte a descer abruptamente».

Este papel político da OPEP irá, no futuro, reforçar-se. O Médio Oriente deverá atingir uma quota de 50% da oferta petrolífera daqui a 10 anos, muito mais do que detinha em 1973. Mas os cenários sobre esta década são divergentes. Os estudos da Shell só prevêem «problemas significativos de escassez depois de 2020» (o que poderá voltar a "aquecer" o preço), enquanto que analistas reputados como Colin Campbell (ver artigos sobre a crise petrolífera aqui) antecipam em dez anos esse momento da verdade.

Por outro lado, as previsões de analistas independentes para 2000 continuam a ser de manutenção de um preço alto, havendo, mesmo, quem fale no fantasma dos 40 dólares o barril no horizonte. Perturbações político-militares poderão inclusive deixar os "traders" ainda mais nervosos.

Lições do crude barato

A Shell aproveitou, no entanto, o período anterior de crude barato para proceder a dois movimentos estratégicos - um interno, de eficiência de custos, e outro no posicionamento, reformulando o próprio conceito de negócio, tal como o fizeram outras companhias. «A nossa empresa está preparada para ser lucrativa mesmo produzindo com preços de mercado entre os 12 e os 14 dólares. Nalguns locais, como nas águas profundas do Golfo do México, poderemos fazê-lo a 8 dólares, graças à nossa tecnologia», refere, para espanto dos convivas.

Por outro lado, a multinacional da "concha" procedeu a uma viragem estratégica, no sentido de se transformar numa empresa global de serviço energético ao cliente (ver outro artigo).

Dentro desta perspectiva, a original multinacional bicéfala - Royal Dutch, de um lado, e Shell Transporting and Trading, do outro - prefere crescer na "horizontal", mais do que por consolidação entre grandes. O líder do grupo é peremptório: «Mais do mesmo não. Não participámos em grandes fusões - são uma via custosa e incerta, como sabem. O vencedor não será quem junte mais blocos idênticos, mas quem começe a desenvolver algo de novo no campo da energia e do serviço ao cliente».

Consideradas, ainda recentemente, por Peter Drucker como "puramente defensivas", as grandes fusões não são, efectivamente, a sobremesa preferida da Shell: «Tendemos, sobretudo, a fazer aquisições pequenas, de um modo selectivo, alargando o nosso posicionamento em diversos negócios que possam servir para ampliar a oferta aos nossos clientes», fechou "Sir" Mark, que, assim, deu por encerrado o jantar, recolhendo ao bar do hotel onde, tranquilamente, terminou a noite bebendo uma cervejinha fresca.

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