A segunda frente de «guerra» de Bush - a economia, de novo

450 economistas norte-americanos encabeçados por 10 Prémio Nobel da Economia contestam a proposta de pacote fiscal da Administração Bush. Entrevista com um dos Nobel, Kenneth Arrow, o segundo signatário do Manifesto aparecido a 10 de Fevereiro de 2003 no The New York Times.

Jorge Nascimento Rodrigues, Fevereiro de 2003

Manifesto publicado no The New York Times
Entrevista com Nobel Kenneth Arrow
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Situação dos EUA em matéria de petróleo
Análise de Peter Cohan
Goldman Sachs Economics

Documentos de Referência da Goldman Sachs: Global Economics Weekly, de 15/01/2003 e 22/01/2003 A Administração Bush viu abrir esta semana uma segunda frente de "guerra" - a frente interna, da economia. A gota de água que agitou o copo da política económica foi a publicação no influente "The New York Times" a 10 de Fevereiro (2003) de uma página inteira com um Manifesto assinado por 10 Prémios Nobel americanos da Economia e mais 450 economistas contra o pacote fiscal desta Administração. Nos dias seguintes, o presidente da Reserva Federal - FED - Alan Greenspan dava uma no cravo e outra na ferradura junto do Senado e do Congresso norte-americanos, aceitando parte do pacote, no que se refere à proposta de eliminação do imposto sobre dividendos, mas dando a sentença de morte à estratégia de regresso aos défices governamentais elevados. A Casa Branca contra-atacou e Bush apresentou uma carta de conforto de 250 economistas e pela primeira vez elementos do seu gabinete manifestaram discordância pública com os ventos de "incerteza" que o senhor FED lançou.

Reformados em xeque

A nova "guerra" que se abre merece que se refira o contexto económico dos Estados Unidos em 2003 Recentemente a Goldman Sachs divulgou um relatório em que estimava que só o défice federal poderá atingir mais de 2,5% do PIB este ano fiscal e mais de 3% no próximo ano e que o défice governamental - similar ao conceito europeu - deverá atingir os 5% em 2004. Bush inaugurou o regresso à política baseada no défice, depois de Clinton ter amealhado superavites de 1998 a 2001.

O défice governamental norte-americano - similar ao conceito europeu - deverá atingir os 5% em 2004, segundo a Goldman Sachs

O actual pacote fiscal proposto por Bush com "estímulos" no valor de 674 mil milhões de dólares até 2012 é dirigido nomeadamente ao segmento da população "rentista" que vive de dividendos e aumentará o défice federal em 385 mil milhões na década. «Neste agravamento ainda não estão incluídas as contas do custo da operação sobre o Iraque que rondará um patamar mínimo de 100 a 200 mil milhões», segundo o analista Peter Cohan.

Os 450 economistas que assinaram o Manifesto Anti-Bush e o próprio Greenspan temem que este disparo dos défices comprometa, a longo prazo, a possibilidade de garantir o sistema de segurança social e de saúde. Greenspan deixou entender que as gerações de reformados a partir de 2010-2012 estarão em xeque. Por outro lado, também o défice das contas correntes do país já deverá ter atingido os 5% do PIB e a Goldman Sachs estima que atingirá os 7% em 2006, um nível de "risco".

Estes números têm de ser enquadrados no contexto global da economia americana, depois do rebentar da "bolha" da Nova Economia. À desconfiança em relação aos mercados financeiros, ao descrédito sobre boa parte da gestão de topo empresarial, ao fim da vida a crédito do cidadão comum, somam-se, agora, sinais claros de colapso nos investimentos empresariais, de medo generalizado face aos impactos internos da geo-política do presidente Bush e de dúvida sobre os benefícios da política económica interna da Administração.

Algumas das medidas do pacote fiscal proposto visam directamente «o benefício de contribuintes individuais e não de empresas», diz o Manifesto

O grupo de 10 Prémios Nobel contesta a eficácia como "estímulo" económico do pacote fiscal de Bush. Ele implicará a não cobrança de 50 a 75 mil milhões por ano em média, o que representa menos de 1% do PIB. Não é, por isso, «um instrumento credível de actuação de curto prazo», segundo o Manifesto, que adianta que algumas das medidas visam directamente «o benefício de contribuintes individuais e não de empresas»; não sendo parte, por isso, de uma reforma fiscal neutra.

A maioria dos 450 economistas prefere uma política fiscal e orçamental dirigida "temporariamente" a espicaçar o consumo das famílias e o investimento produtivo. O mediático Nobel Joseph Stiglitz, um dos signatários, disse na conferência de imprensa de lançamento do Manifesto realizada no National Press Club em Washington DC que era preciso colocar o dinheiro nas mãos de quem "o possa gastar rapidamente" no mercado agitando o consumo e levando as empresas a prosseguir investimentos.

A variável "selvagem"

A semana reavivou, ainda, a questão energética. A Agencia Internacional de Energia admitiu, esta semana, no seu relatório mensal que, em caso de guerra, os países desenvolvidos terão de recorrer às suas reservas estratégicas, como o fizeram durante a Guerra do Golfo. O próprio Departamento de Energia americano avisou, também, que tais reservas nos EUA teriam caído para 269,8 milhões de barris, o que foi considerado pelos técnicos «abaixo do mínimo operacional», tendo recuado para valores anteriores a Outubro de 1995.

No caso dos EUA, a questão assume relevância, a médio e longo prazo, se nos recordarmos que a sua dependência energética já atingiu os 50% e se estima chegar aos 66% em 2020. O preço do petróleo em 2003 é considerado pela Goldman Sachs como a variável "selvagem" (indomável), podendo atingir uma média anual de 31 a 32 dólares por barril, durando «mais tempo do que o previsto pelo consenso dos analistas», conclui o relatório.

Entrevista ao Nobel Kenneth Arrow, segundo signatário do Manifesto Anti-Pacote Fiscal de Bush
«Efeito na recessão é nulo»
Kenneth Arrow é o segundo signatário do Manifesto Anti-Pacote Fiscal de Bush, que pode ser consultado no sítio na Web do Economic Policy Institute (www.epinet.org/stmt/index.html). Arrow partilhou o Nobel da Economia de 1972 com John Hicks em torno da investigação sobre as teorias do equilíbrio e do bem-estar social. É um nova-iorquino que vive hoje no Silicon Valley,. Com 81 anos é professor emérito da Universidade de Stanford e tem-se destacado em diversos movimentos recentes, como aconteceu no ano passado em que se pronunciou contra o perdão à Microsoft. Neste entrevista, o Nobel conclui que o pacote fiscal para dez anos proposto pela Administração Bush «não é, de modo algum, adequado à resolução da flutuação económica de curto prazo», ou seja, em linguagem descodificada, ao debelar da depressão actual da economia americana.

Os défices vão aumentar a taxa de juro de longo-prazo, o que prejudicará tanto o investimento como os preços das acções

Um plano de 674 mil milhões de dólares em cortes de impostos até 2012 não é excessivo para o orçamento americano?

Cortes de impostos permanentes - ao longo de uma década - não são remédio para uma recessão limitada no tempo. Esse tipo de políticas, temporárias ou permanentes, afectam o consumo.

Mas não ajudará a reanimar de imediato os mercados financeiros?

Não creio que isso deva ser em si um objectivo das políticas económicas governamentais. Pode ter ou não impacto no investimento. O problema é que os défices vão aumentar a taxa de juro de longo-prazo, o que prejudicará tanto o investimento como os preços das acções.

O que é que poderia funcionar?

Garantias aos Estados da União e às localidades que estão sujeitas a severas restrições orçamentais. Também crédito fiscal temporário para o investimento e aumento na extensão e na percentagem do seguro de desemprego teriam um efeito imediato na procura nacional.

Mas os gastos militares - aliados à desvalorização do dólar que ainda poderá baixar mais 11% - não poderão ser as "alavancas" da retoma?

Todos os estudos que conheço sugerem que as despesas militares têm o mesmo impacto que qualquer outro tipo de gastos. Contudo, a guerra do Iraque só poderá funcionar como um "estímulo" se for muito mais cara do que a Administração diz.

O disparo dos défices orçamentais em que esta Administração aposta é um risco grave?

É uma questão de grau. Verifiquei que Alan Greenspan está, também, alarmado com o aumento dos défices. O pacote planeado implica ao fim de dez anos o aumento em cinco pontos percentuais da dívida pública face ao PIB. Isso não é catastrófico, mas não é nada bom - especialmente em virtude da necessidade de acumular poupanças para enfrentar o aumento do custo das reformas e da saúde.

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