Quo Vadis Nasdaq?

O mais famoso mercado de capitais das empresas tecnológicas perdeu
o brilho. A onda de choque que se está a formar poderá empurrar o índice para valores de há um ano atrás, engolindo, num ápice, todos os ganhos extraordinários embolsados desde o início do disparo em Outubro de 1999

Jorge Nascimento Rodrigues na pele do Ardina na Crise

Versão reduzida publicada no semanário português Expresso em 28/10/2000

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Dois Livros Recomendados
 Exuberância Irracional | The Coming Internet Depression, de Michael Mandel 

Depois da subida triunfante ao Everest bolsista, damo-nos conta de que a lei da gravidade está bem viva no mercado de capitais mais famoso da alta tecnologia, o Nasdaq.

Ed Keon, estratega da Prudential Securities, tem avisado os seus clientes, ao longo deste mês, com uma frase simples: «A lei da gravidade está viva - os ‘papeis’ das tecnológicas cairão ainda mais. Os seus preços estão muito elevados em relação ao seu crescimento futuro».

Esta mudança deixa muita gente estupefacta e incrédula. Em cinco anos, o Nasdaq passou de um patamar dos 1000 pontos, em 1996, para um máximo histórico de 5000 pontos em Março passado (2000). Uma subida de 400% que colocou ao rubro a Nova Economia. Alguns analistas, empolgados com a Terceira Vaga, julgaram que esta autêntica subida do Everest no mercado de capitais das "start-ups" de base tecnológica não iria parar mais.

Da revolução financeira...

O optimismo tinha o seu fundamento. O número de transações diárias no Nasdaq passara de 325 milhões em 1995 para 1,5 mil milhões cinco anos depois. A massificação do investimento nas "start-ups" e nas empresas da Terceira Vaga, facilitada pela "brokerage" na Web, levou ao que Kevin Kelly chamou de «revolução financeira».

«O número de famílias que investem no mercado de capitais passou de 15% há 20 anos atrás para 45% hoje em dia», diz-nos Peter Cohan, um dos gurus do "e-business" norte-americano. Mas com uma "democratização" bolsista desta envergadura, o disparo do nível de volatilidade era uma questão de meses, recorda este especialista.

De facto, alguns analistas - acusados, então, de Cassandras das bolsas - vinham, desde o início do ano, falando de «uma correcção iminente» no Nasdaq, de que o Expresso se fez eco (em artigo de 12/02/2000). O primeiro "choque" viria a ocorrer subitamente, poucas semanas depois do pico histórico de Março com uma correcção em baixa de 32%.

O mito tinha sido arranhado, mas a maioria dos investidores e analistas da Nova Economia continuava a acreditar que se tratavam, apenas, de oscilações passageiras. Mas, o andar dos meses não perdoou. A própria Academia veio dar uma mãozinha à percepção do que estava a mudar. Robert Shiller, um reputado professor de Yale, publica, em Maio, o polémico livro Exuberância Irracional (a que o Expresso se referiu então, na edição de 6/05/2000), em que falava de «um esperado arrefecimento do mercado de capitais ao longo de um período de cinco a dez anos».

No presente mês de Outubro estamos a assistir no Nasdaq à descida ao seu ponto mais baixo do ano e a oscilações em torno de valores muito próximos do fecho de 1999.

... à euforia obscena

Esta teimosia em baixa deriva de uma clara mudança ao ambiente psicológico. Don Tapscott, o "pai" da Economia Digital, apesar de considerar que «o pessimismo é sempre contra-producente», admite que «o comportamento dos investidores mudou», e acha esta viragem «muito positiva». «Agora estão mais cautelosos – e isso é bom. O clima anterior a Abril conduziu a um desbaratar de um volume obsceno de dinheiro em tudo o que cheirasse a dot-com», sublinhou-nos.

A questão, contudo, é avaliar até onde irá esta inversão. «Se os investidores continuarem a perder dinheiro, e se isso se prolongar, então, o efeito será devastador - uma geração de investidores poderá abandonar o barco e não voltar mais», afirma-nos, por seu lado, Peter Cohan. A situação pode ficar, mesmo, fora de controlo «se ficar claro que muita gente não vai poder honrar as dívidas que contraíu para pagar a lotaria das dot-com - então uma recessão financeira muito severa pode bater à porta», adianta ainda este especialista.

Este panorama colocou a nú a fragilidade de uma boa parte do novo tecido económico. Peter Cohan fala mesmo de uma "triagem" em curso das «falsas empresas». «Muitas destas dot-com foram criadas só para a ida ao mercado captar capitais, e não para serem sustentáveis», acusa.

Capa do livro The Coming Internet DepressionA vaga de "limpeza" que se sucedeu já transformou em "best-seller" o apropriadamente intitulado The Coming Internet Depression (compra do livro), o livro recente de Michael J. Mandel, um editor sénior da Business Week (que foi capa da revista da edição de 9/10/2000). Mandel sublinha, ironicamente, que os analistas oficiais e oficiosos sempre erraram o alvo. Quando a Terceira Vaga emergiu, subestimaram o seu crescimento exponencial, e continuaram agarrados como lapas à "velha" economia. «Agora, que o ciclo mudou novamente, recusam-se a ver, outra vez», escreveu Mandel.

O regresso dos despedimentos

O efeito no emprego norte-americano já se começou a sentir, segundo um estudo da Challenger Gray & Christmas, que estima em 22 mil os despedimentos provocados pelos "choques" no Nasdaq (uma gota no oceano, se comparados com os 400 mil despedidos na "velha" economia). O número de "start-ups" afectadas já sobe a 274 e o estudo prevê «um agravamento no ultimo trimestre do ano e em Janeiro de 2001».

A alta do preço do crude também não ajuda. O impacto do barril acima dos 30 dólares já se começou a sentir no sector logístico, com incidência na Web no segmentos do B2C e do B2B.

As "start-ups" mais afectadas pela quebra no Nasdaq distribuem-se pelas áreas da consultadoria Web, fornecimento de conteúdos, "sites" financeiros, portais de B2C e de saúde. O sector do trabalho "high-tech" mais tocado abrange consultores, programadores, "free-lancers" e trabalhadores temporários, que somam 8,7% da força de trabalho norte-americana.

Um jornal "on-line" francês - le Journal du Net - iniciou mesmo o acompanhamento diário da contagem das falências "dot-com" nos Estados Unidos e na Europa.

Esta onde de choque começou a "arranhar" o nosso Continente. Um estudo recente de PriceWaterhouseCoopers e da Fletcher Research sobre as 150 empresas europeias ligadas à Net listadas nos mercados financeiros aponta para um risco de falência nos próximos doze meses de 10% deste universo, envolvendo uma capitalização de 26 mil milhões de euros que poderão arder.

Só em Outubro já foram adiados 15 IPO (idas a Bolsa de "start-ups") representando 16 mil milhões de euros, segundo a revista Tornado-Insider.

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