À espera do próximo «choque» petrolífero
(em 2006 ou em 2015?)

Entre a oportunidade da "grande jogada" do gás natural nos próximos 25 anos e a procura de uma nova economia baseada no hidrogénio para a segunda metade do século

Os quatro cenários estudados pelo Centro de Planeamento do grupo Shell em Londres comentados em directo por Ged Davis, vice-presidente para a área de «ambiente de negócios global». O responsável da prospectiva estratégica da multinacional anglo-holandesa veio a 28 de Maio (2002) apresentar em Lisboa na Universidade Católica Portuguesa o que está em jogo.

Jorge Nascimento Rodrigues

Artigo de síntese publicado no semanário português Expresso em Maio 2002

Entrevista exclusiva em inglês com Ged Davis disponível aqui
Cenários apresentados pela Shell em Outubro de 2001
A visão dos críticos | O que diz Harry Dent
A década de 2001-2010 de todos os perigos

DATAS A RETER DOS CENÁRIOS
Cenário de fragmentação política mundial
2003-2004 - Preços do barril do petróleo abaixo dos 20 dólares
2006 - Choque petrolífero e risco de crise económica mundial
2010 - Retoma e período de preços do barril abaixo dos 15 dólares
Cenário de globalização
2005-2012 - Preços do barril de petróleo abaixo dos 20 dólares
2010 - Gás natural ultrapassa carvão
2013 - Médio Oriente detém 55% do mercado do petróleo
2015 - Choque Petrolífero e última cartada do Médio Oriente
2020 - Gás ultrapassa petróleo e hipótese de crise económica mundial (cenário de Harry Dent)
Datas de referência no futuro energético
2020 - 20% do consumo total de energia da União Europeia é fornecido por importações de gás
2025 - Ano da encruzilhada nas opções estratégicas
2025 - pico do gás natural
2025-2050 - planalto de estagnação do crescimento do gás
2025-2040 - zona de cenários de pico da produção do petróleo
2040 - Biocombustíveis líquidos afirmam-se
2050 - Energias renováveis detém 1/3 da energia primária mundial

Uma década pode fazer toda a diferença nos planos de governação económica dos Estados ou na estratégia das empresas. É essa a incógnita que nos trazem os cenários políticos e energéticos elaborados pelo Centro de Planeamento do grupo Shell em Londres que serão apresentados por Ged Davis, vice-presidente do grupo Shell, em Lisboa na próxima semana na Universidade Católica Portuguesa.

Se a FRAGMENTAÇÃO do mundo e do xadrez político se acentuar, reflectindo um mosaico de regionalismos e de orientações partidárias (com a diminuição do peso político do "centro"), os próximos cinco anos podem trazer-nos a surpresa de um choque petrolífero (com preços do barril acima dos 40 dólares) por volta de 2006 e uma crise económica mundial de envergadura. O "bom tempo" virá a seguir por volta de 2010 com preços do petróleo abaixo dos 15 dólares. Neste cenário, baptizado de "prisma" pela Shell, as perspectivas de "resistência" do petróleo e do poder geo-político a ele associado (Médio Oriente) poderão durar até 2040.

Segundo os críticos dos cenários da Shell, este horizonte de "choque" próximo seria mais "realista", com o pico da produção do petróleo a ser "iminente" (previsão que a Shell, no entanto, rejeita) e a cartada de força a ser jogada nesta década pelos cinco países do Golfo que dominam a OPEP. «No cenário que designamos por 'Prisma', assistiremos na presente década a uma história de preços voláteis do petróleo. A acção da OPEP manterá os preços muito altos por um ano ou dois, o que fomentará investimento na oferta por parte dos países fora da Organização. Isto criará, depois, um excesso de oferta e períodos de fraqueza dos preços. Uma procura muito baixa eventualmente implicará preços baixos a partir de 2010», sublinha-nos Ged Davis.

Adiamento do embate

Pelo contrário, se a dinâmica de GLOBALIZAÇÂO continuar, o choque petrolífero poderá ser adiado por mais uma década - até 2015 -, as expectativas de crise económica mundial poderão ser relegadas para 2020 (nos cenários do analista americano Harry Dent) e o "grande jogo" do gás natural afirmar-se-á até 2025. Neste outro cenário político, baptizado pela Shell de "business class", o gás tornar-se-á a energia de "ponte", na transição entre a economia do petróleo que dominou o século XX e uma nova economia baseada noutra energia revolucionária. O grande negócio das infra-estruturas do gás impor-se-á como a "resposta imediata" e o poder geo-estratégico da Rússia, Ásia Central e Magreb irromperá no tabuleiro mundial (ver caixa). «Neste cenário, poderemos viver um período de preços baixos do petróleo até 2012, o que tornará desinteressante o desenvolvimento de novos campos de petróleo fora da OPEP. A quota da OPEP na produção aumentará gradualmente até 55% por volta de 2013. A Organização tentará, então, alavancar este poder de mercado para manter preços elevados estáveis», refere-nos o responsável pela prospectiva da Shell. Contudo, mete alguma água na fervura, adiantando que «a quota do Médio Oriente dependerá em muito do comportamento da Nigéria, da Venezuela e do Norte de África. A Nigéria, em particular, facilmente poderá duplicar os seus níveis de produção por volta de 2010, se o decidir».

Se cruzarmos estes dois cenários políticos com os outros dois cenários da Shell específicos para o campo energético, verificamos que um denominador comum emerge - o papel do gás natural como oportunidade histórica, pelo menos nos próximos 25 anos, nesta época de transição, em que assistiremos ao declínio do petróleo. Em 2010, o gás terá ultrapassado o carvão e em 2020 começará a desafiar a liderança do petróleo. No caso da União Europeia, as importações subirão dos actuais 7% do consumo total de energia para os 20% em 2020, o que colocará problemas de segurança geo-estratégica. Davis modera este novo perigo: «Uma das características do cenário é que haverá um espectro diversificado de fornecedores de gás, tornando difícil para um só país exercer um poder de mercado excessivo».

Esta aposta no gás natural é reforçada pelo facto das energias renováveis - uma das apostas anteriores nos cenários da Shell de 1995 - terem sofrido uma reavaliação. «As renováveis enfrentam um desafio difícil para se expandirem para além de nichos nas duas próximas décadas, se não tiverem apoio governamental», refere o nosso interlocutor.

O momento decisivo

Em qualquer das circunstâncias, 2025 poderá ser um ano de charneira, em que as opções estratégicas no campo da energia terão de começar a ser feitas. O período que se seguirá será marcado pela desaceleração da expansão do gás, que atravessará um "planalto" até 2050, e a aproximação do pico de produção do petróleo, que segundo as últimas estimativas da Shell poderá ser adiado até 2040, constatação que tem gerado muita polémica.

Com as renováveis acantonadas em nichos, ainda que progredindo a taxas de crescimento superiores a 5% até 2050, poderemos assistir a um renascimento do lóbi nuclear. «Um futuro nuclear é plausível. Os últimos três anos assistiram a um regresso da discussão sobre o nuclear como opção para a redução das emissões de CO2 e para mitigar as preocupações com a segurança dos abastecimentos», sublinha Davis.

A Shell salienta, no entanto, que a sua opção por um futuro energético com forte presença das energias renováveis foi "internalizado" e que gostaria que a economia da viragem de meados deste século fosse baseada no hidrogénio como força propulsora. Um dos cenários energéticos, baptizado de «Espírito da Próxima Era», aposta na redução drástica dos custos das células de combustível até 2010 e na possibilidade de em 2025 mais de 20% da frota automóvel da OCDE usar este tipo de combustível. O cenário fala mesmo de uma "convergência" para o hidrogénio por volta de 2050. «Criámos inclusive a Shell Hydrogen para explorar estas oportunidades. Como se trata de uma nova indústria, é muito incerto saber quais as tecnologias vencedoras e o tempo que levará, pelo que diversificamos os nossos esforços por uma série de actividades nesta área», refere Ged Davis, concluindo que «este cenário beneficiará imenso do que ocorrer ao nível dos biomateriais».

A CARTADA RUSSA
A revista Business Week acaba de publicar uma história de capa (edição de 27 Maio 2002) sobre «a próxima fronteira do petróleo», em que refere o movimento estratégico norte-americano de posicionamento económico e militar na região do Mar Cáspio e das antigas repúblicas soviéticas da Ásia Central, onde as reservas de petróleo (Azerbaijão, Kasaquistão) e gás (Kasaquistão, Uzbequistão, Turquemenistão) poderão fazer a diferença nas próximas décadas. O objectivo é diminuir a dependência estratégica em relação ao Golfo Pérsico (recorde-se que em 2008 terá o domínio da oferta via OPEP). Os 3% de oferta mundial a partir do Cáspio poderão fazer toda a diferença a partir de 2010, comenta a revista.
Numa análise da «nova geografia dos conflitos» no século XXI, Michael T. Clare, professor no Hampshire College, em Massachusetts (Estados Unidos), já havia referido em «Guerras pelos Recursos: O novo panorama dos conflitos globais», um livro publicado no ano passado (2001), a importância da região de risco do Mar Cáspio, dada a mais valia estratégia que vem assumindo.
Contudo, não só os norte-americanos e as multinacionais da energia estão de olho na região. A Rússia há muito que percebeu a janela de oportunidade de que dispõe nos próximos 20 anos de fazer valer o seu peso no campo do petróleo e do gás natural, disputando, por isso, também, a hegemonia sobre a Ásia Central, o que poderá ser feito, por ora, em "parceria" com os Estados Unidos.
Num trabalho agora publicado na revista norte-americana Foreign Affairs (edição de Março/Abril 2002, volume 81, nº2, não disponível online), Edward Morse, ex-secretário de Estado adjunto norte-americano para a política energética nos anos 80, e James Richard, um gestor de um fundo de investimentos activo no Leste, falam da cartada russa e da próxima "batalha" pela liderança no petróleo entre a Rússia, a potência energética emergente, e a Arábia Saudita, a potência incumbente na OPEP. É, por isso, de esperar um distanciamento gradual de Moscovo em relação à estratégia seguida por Riad no seio da OPEP. Em «A Batalha pelo Domínio na Energia», os dois autores referem que «a nova geo-política da energia poderá ajudar Moscovo a reganhar peso económica e politicamente» afirmando-se como o "desafiador" do actual equilíbrio petrolífero, mudança que «O Tio Sam necessita». Uma das "estrelas" energéticas russas é a companhia Lukoil que pretende ingressar no selecto clube das "irmãs" multinacionais, como o quinto jogador, depois da ExxonMobil, da Shell, da BP Amoco e da TotalFinaElf.

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