O impacto do alargamento da União Europeia

Portugal entre os perdedores

Augusto Mateus, consultor e ex-ministro da Economia de Portugal adverte que foi dada a estocada final no modelo de especialização internacional português com o alargamento a Leste da União Europeia

Jorge Nascimento Rodrigues, editor de janelanaweb.com, Junho de 2004

O impacto por sectores e por concorrentes

Portugal conta-se entre os actuais pequenos países da União Europeia perdedores com o alargamento a Leste da União Europeia. A sua posição nas exportações mundiais desceu do patamar dos 40 mais (em que estava em 1990, após a adesão à U.E.) para o dos 50 mais em 2002. Essa despromoção deveu-se a ter sido ultrapassado no comércio internacional por três dos países de Leste que agora aderiram - Polónia, República Checa e Hungria - que são os principais ganhadores com a adesão, segundo um estudo sobre o impacto do alargamento na economia portuguesa, realizado para o Ministério das Finanças português e dirigido por Augusto Mateus, o ex-ministro da Economia de António Guterres que ficou conhecido em Portugal por uma lei de regularização de dívidas ao fisco, que tem o seu nome. Um cálculo apresentado por este académico e consultor revela que Portugal pode perder, daqui para o futuro, 20% nas exportações que faz - o dobro do que vai perder a Espanha em termos relativos.

Um cálculo apresentado por este académico e consultor revela que Portugal pode perder, daqui para o futuro, 20% nas exportações que faz - o dobro do que vai perder a Espanha em termos relativos.

O impacto desta alteração é mais um sinal de que "o modelo competitivo da economia portuguesa já está há muito fora de prazo", frisou o responsável pelo estudo num debate ocorrido em Junho (2004) na Ordem dos Economistas, em Lisboa. "O alargamento a Leste foi a estocada final neste modelo alimentado por uma continuada protecção aos interesses instalados em virtude de um excesso de corporativismo na sociedade portuguesa", rematou Augusto Mateus. Os portugueses estiveram porventura adormecidos na última década, alimentados com a ideia de que o campeonato com o Leste só agora iria começar, com a adesão formal. Pelo contrário, o campeonato já vai a meio e "grande parte do efeito do alargamento já se produziu desde a queda do Muro de Berlim, e particularmente desde 1992", sublinhou o ex-ministro.

O risco periférico

A agravante é que a maioria destes países tem um padrão de inserção no comércio internacional similar ao português - particularmente a Eslováquia, que é uma espécie de alma-gémea (praticamente está em todos os sectores de baixa, média e alta tecnologia em que estamos), e ainda a Hungria, a República Checa e a Roménia (que vai aderir à União Europeia na próxima vaga). Esta competição é particularmente visível nos três sectores que têm alimentado o dinamismo da exportação portuguesa: "cluster" automóvel, máquinas e equipamentos e vestuário e calçado.

Face à iberização crescente das nossas trocas comerciais, a atenção à "frente" do Leste pode ser uma das formas de fugirmos a um posicionamento periférico neste mercado alargado.

Para Augusto Mateus, essa competição vai provocar "baixas" em particular em dois destinos das exportações portuguesas no coração da Europa: na Alemanha (o nosso segundo cliente internacional) e na Áustria, países que são "charneira" e "ponte" para todo o espaço do Leste. Um dos antídotos para este "terramoto" é investir directamente no tecido económico dos nossos concorrentes nos sectores em que afirmámos a nossa mais-valia internacional, transformando a ameaça em oportunidade. Face à iberização crescente das nossas trocas comerciais, a atenção à "frente" do Leste pode ser uma das formas de Portugal fugir a um posicionamento periférico neste mercado alargado.

Dualismo português

O principal obstáculo a este desafio é o motor da especialização internacional portuguesa, que continua a assentar basicamente na vantagem comparativa dos custos de trabalho - "algo insustentável", advertiu Mateus, pois "os novos aderentes revelam um custo do trabalho muito mais barato para um nível de competências geral muito mais elevado". Esta ascensão do núcleo duro da franja de Leste foi provocada, nomeadamente, pela evolução do perfil de especialização internacional desses países e pela melhoria qualitativa do seu tecido empresarial.

Portugal subiu, também, no peso da média e alta tecnologia nas exportações (basta recordar a ascensão do "cluster" automóvel), de 25% para 40%, mas regrediu em termos de afirmação desses sectores no VAB.

Segundo o estudo, estes países do Leste viram, entre 1985 e 1998, a sua parte de produtos de alta e média tecnologia na exportação subir de 30% para 40% e ao mesmo tempo assistiram a um aumento do peso desses sectores no VAB nacional que já atinge 45% (quase metade). Em contraste, Portugal subiu, também, no peso da média e alta tecnologia nas exportações (basta recordar a ascensão do "cluster" automóvel), de 25% para 40%, mas regrediu em termos de afirmação desses sectores no VAB. "Uma situação atípica na União Europeia, de claro dualismo, que só tem similar na Itália", frisou Mateus.

Sectores lusos mais vulneráveis
Instrumentação
Máquinas e equipamentos não especificados
Vestuário e calçado
Equipamentos de telecomunicações
Máquinas eléctricas
Veículos automóveis
Produtos Metálicos
Indústrias metalúrgicas de base

Países-ameaça
Eslováquia - principal concorrente
Hungria
República Checa
Roménia

Países-oportunidade
Eslováquia
Eslovénia
República Checa

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