Os três pecados capitais na Bolsa Portuguesa

Um ano depois do «crash» chegou a hora de acertar contas com as estratégias seguidas pelos grupos e empresas que, por debaixo da etiqueta «dot-com» ou do marketing eufórico da Nova Economia, arrecadaram milhões para depois cairem no abismo das cotações. O maior prejudicado foi o investidor desprevenido, mas não só - a imagem das empresas que se envolveram em estratégias e táticas estranhas ficarão manchadas por longo tempo na sua imagem. Provavelmente até à próxima «bolha» especulativa. Depois tudo se esquecerá. Será mesmo?

Jorge Nascimento Rodrigues com apoio técnico de Ilídio Faria, da Fincor, em Abril 2001

Versão adaptada publicada no semanário Expresso

Os 3 pecados
  • Mais olhos do que barriga (estratégia de gula)
  • Oportunismo tático
  • IPOs-burla
  • Um ano depois do pico histórico da Bolsa portuguesa e do subsequente «crash», o PSI 20 (um dos indicadores mais usados pelos analistas nacionais) já sofreu uma «correcção» de 34%. Note-se, no entanto, que esta percentagem está, ainda, historicamente abaixo da «correcção» anterior de 1998, que chegou a atingir os 48%, e que é muito inferior à já sofrida pelo NASDAQ norte-americano (que já vai nos 65%) desde Abril de 2000.

    Desde Março do ano passado que a bolsa nacional tem vivido num plano inclinado irreversível, apesar de um período de altos e baixos muito acentuado (conhecido na gíria por «iô-iô») entre Abril e Outubro, ocasião que foi encarada como uma (curta) janela de oportunidade para capitalização em bolsa por alguns grupos empresariais e por investidores cognominados de «apanhadores de fundos».

    Contudo, a evolução posterior é ilustrativa da bola de neve que se gerou, estando hoje o índice PSI 20 num patamar em torno dos 10 mil pontos e muitas empresas cotadas mostram valores inclusive muito abaixo da sua entrada em bolsa.

    Dada a forte influência actual do comportamento do NASDAQ sobre a «psicologia» das bolsas mundiais, é de admitir que a «correcção» bolsista em Portugal ainda esteja no adro. A similitude do comportamento dos dois índices - o PSI 20 e o NASDAQ compósito - a partir de finais de 1999 é óbvia no gráfico que publicamos.

    O efeito PT Multimedia

    Num balanço retrospectivo, dos últimos três anos (1998-2001), realizado por Ilídio Faria, analista da Fincor, são de assinalar alguns marcos históricos ao longo desta ascensão e queda da bolsa portuguesa associada ao fenómeno da Nova Economia.

    A entrada da PT Multimedia em bolsa em Novembro de 1999 deu origem a um momento de inflexão para um novo período de animação especulativa que provocaria uma «bolha», agora alimentada pelas denominadas «tecnológicas». Salvaguardadas as devidas distâncias, o lançamento da PT Multimedia em bolsa representou, entre nós, o mesmo papel do IPO da Netscape no NASDAQ em 1995, ainda que com quatro anos de atraso.

    Durante cinco eufóricos meses, entre Novembro de 1999 e princípios de Março de 2000, as «tecnológicas» passaram a ser cotadas a peso de ouro. Houve casos de valorizações de 300% num só dia e surgiram nos noticiários e nas capas de revistas os magnatas feitos à pressa da Neteconomia teorizando estratégias e falando de milhões. Suprema ironia dos ciclos financeiros, alguns dos VIP, menos de um ano depois, estariam a renegar o que disseram. Quando o dilúvio chega, a memória é curta.

    Mas, subitamente, a 9 de Março desse ano (2000), o PSI 20 atingia o seu pico histórico (à volta dos 15 mil pontos), sem que quase ninguém suspeitasse da inversão que se daria nos dias seguintes. «Durante todo o mês de Março de 2000, a bolsa não parou de cair, mas quando encontrava um valor de referência encetava poderosos 'rallies', que só vinham fazer com que mais intervenientes entrassem nesse Titanic que ameaçava afundar. Já com algumas perdas, os pequenos investidores compravam fundos aparentes na esperança de conseguir bons preços médios para compensar as perdas em que já incorriam», salienta-nos Ilídio Faria.

    IPO e spin-offs duvidosos

    O conhecido fenómeno de «iô-iô» - subidas e descidas acentuadas permitindo jogadas de oportunidade - em que a bolsa portuguesa entrou, então, ao longo de seis meses anestesiou o efeito psicológico do «crash» de Março de 2000 e a tomada de consciência, nua e crua, do fim da «bolha» da Nova Economia em Portugal.

    Alguns grupos empresariais aproveitaram, então, a ocasião para entradas em bolsa através de «spin-offs» em novas áreas (com a etiqueta «dot-com» e gestores sem gravata) ou por meio de «holdings», realizando jogadas táticas de oportunidade, encaixando milhões de contos devido às expectativas, ainda optimistas, de legiões de investidores. Essas jogadas transformar-se-iam dias ou semanas depois em quedas das cotações no abismo.

    O efeito estratégico destas jogadas é, ainda, difícil de avaliar, mas deixará, certamente, uma marca negativa profunda na confiança dos investidores em relação a estes «papeis» e na imagem destes grupos.

    Outros grupos fabricaram inclusive IPOs para «spin-offs» com a etiqueta «dot-com» ou realizaram idas à bolsa com grande aparato de marketing que se revelariam meros caça níqueis, perfigurando claramente o que Michael Porter já ilustrou como uma das «burlas» da Nova Economia.

    Alguns desses casos já foram retirados de bolsa, ou estarão em vias disso, e começam a desenhar-se, agora, movimentos de reintegração dos «spin-offs» apressados na estrutura tradicional dos grupos.

    Por fim, a exploração da euforia fora de tempo e a alimentação das ilusões dos investidores, durante esse período de «iô-iô», permitiu, ainda, a outros grupos empresariais estratégias de fuga para a frente, satisfazendo uma política de gula de investimentos (que se poderão revelar aventureiros) e de aquisições em série gerando um efeito de «eucalipto», secando tudo em seu redor.

    Alguns analistas baptizaram estas táticas e estratégias de «pecados capitais» e crêm que os investidores (grandes e pequenos) levarão muito tempo a «esquecer» os milhões de contos ou simples centenas dos seus portefólios que foram pelo cano.

    Chegou, provavelmente, a altura do leitor que é investidor consolidar um portefólio de empresas «tecnológicas» com vista a uma aposta de 1 ou mais anos, em vez de se deixar enganar pelos altos momentâneos do «iô-iô» mortal em curso e pela música que lhe promete o regresso ao paraíso em seis meses.

    Os primeiros estudos sobre a evolução das empresas portuguesas da Nova Economia cotadas em bolsa começaram agora a surgir, sendo de realçar os da Soserhi.

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