Bolsas norte-americanas à espera do pânico bolsista em final de 2001

Isto não é um artigo alarmista, mas um alerta para o momento
do ciclo financeiro que se atravessa

Jorge Nascimento Rodrigues na pele do Ardina na Crise

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Observação dos Mercados - Bloomberg | Nasdaq

Numa semana (última semana de Setembro de 2001) em que o iô-iô nas bolsas norte-americanas de referência foi particularmente traiçoeiro com subidas tentadoras (que logo fizeram "manchetes" matinais) seguidas de quebras frustrantes, os analistas financeiros discutiram acaloradamente nos "fóruns" se o Dow Jones (Industrial Average) e o NASDAQ teriam já batido no fundo (após os atentados terroristas) ou se os períodos de pânico ainda estarão por acontecer.

Os "optimistas" deixaram-se embebedar pelo "jogo de loucos" deste iô-iô, como se escreveu no The New York Times, enquanto que os "pessimistas" apontam o terceiro trimestre do ano como particularmente crítico, chegando o último despacho do Bronson Capital Markets Research a prognosticar determinadas semanas já em Outubro e até final do ano como talhadas para o pânico bolsista.

Neste segundo cenário, os prognósticos apontam para uma tendência de baixa do DJIA para um alvo abaixo dos 7500 pontos (ainda dança até valores acima de 9000) e do NASDAQ para a proximidade dos 1000 pontos (ainda dança até valores acima dos 1500).

A atingirem esses pontos baixos, a correcção acumulada seria brutal no caso do NASDAQ - cerca de 80% desde o pico nos 5132 pontos em Março de 2000 - e mais suave quanto ao DJIA - mais de 36% em relação ao pico de 11723 pontos em Janeiro de 2000.

Um cenário "pessimista" não é agradável para os mais de 3,6 biliões de dólares de Fundos "inquietos", pelo que muita gente se esforça por pintar uma recuperação cor-de-rosa a curto prazo.

Por isso, o mundo de observadores da evolução bolsista tem assistido, desde o "crash" de Abril de 2000, à multiplicação como cogumelos do que o analista "realista" Adam Hamilton cognomina de "as sereias" - os analistas sempre prontos a garantir que a batida no fundo e a recuperação subsequente estão para muito breve - e das análises excessivamente "tecnicistas" de outros tantos analistas que se esquecem de dar uma olhadela "sociológica" para o que se passa no mundo da economia real, como ironiza outro analista "realista", Stephen Swaim.

Segmentar os protagonistas

Contudo o mundo das bolsas não vive dos desejos de alguns analistas e "traders" nem de apelos patrióticos, mas do comportamento paralelo de vários tipos de segmentos de investidores grandes e pequenos. Seguir à lupa a psicologia e movimentos destes sectores é crucial para os investidores atentos, mas não é tarefa fácil.

Os analistas "realistas" argumentam que o efeito psicológico dos atentados terroristas e da onda de "downsizing" que se está a gerar ainda não se deu na cabeça da maioria dos decisores de empresas e nas famílias.

Esse retardamento é alimentado inclusive pelas injecções de liquidez por parte do FED (o banco central americano) procurando manter artificialmente um clima de dinheiro barato - baixas sucessivas da taxa de juro oficial de 6,5% para 3% até à data - que sustente a continuação da sociedade a crédito em que vivem a economia e as famílias americanas e que conduzirá o sistema bancário a um beco sem saída. Alguns analistas referem que as taxas do FED são oficiais, já que as reais - ainda mais baixas - já não conseguem ser controladas pelo FED.

Segundo os últimos dados revelados, o FED já lançou mais de 600 mil milhões de dólares de liquidez no mercado desde o princípio de 2001. Com a continuação da descida das taxas de juro a este ritmo corre-se o risco de cair em taxas de juro reais negativas e de gerar uma situação similar à japonesa - no país do Sol Nascente, a taxa de juro nominal já vai nos 0,10%!

Muitos gestores de grandes portfolios tentam, ainda segurar, os "papéis" que detém por estarem convencidos de que são bons valores e que estão muito baratos para os largarem no mercado à voragem dos especuladores que andam doidos à procura de pechinchas. O problema é até quando resistirão.

A nível do exército de pequenos accionistas - que nos últimos cinco anos invadiram os mercados de capitais - poderá aproximar-se o ponto de ruptura. O clima psicológico recessivo e os despedimentos em massa que se sucedem vão levar muitos pequenos investidores a livrarem-se dos "papéis" desvalorizados que detém e a procurar liquidez ou aplicações fora das bolsas para garantir nomeadamente as suas reformas.

Oportunidades de compra

Esses momentos de pânico serão "a oportunidade histórica para comprar 'papéis' baratos" para quem tenha estratégias de médio e longo prazo, diz Eric Von Baranov, outro analista. Alguns estudos, inclusive o designado por "Modelo do Mercado de Capitais do FED", apontam para uma sub-valorização do mercado na ordem dos 17% (tendo estado em 2000 num pico de sobrevalorização de 70%, no auge da "bolha"). Desvalorizações anteriores em 1994, 1996 e 1999, na casa dos 10 a 20%, revelaram-se bons momentos de compra de pechinchas.

Mas os investidores terão de saber comprar "cirurgicamente" e de esperar pacientemente pela retoma bolsista em torno de algum novo catalisador (como foi a Nova Economia a partir de 1995). A ideia de que após a batida no fundo do mercado financeiro, a retoma é automática não é historicamente verdadeira. O regresso à euforia por parte das bolsas é, em regra, demorado, implicando travessias do deserto que levam anos - olhando ao caso mais recente, o período de jejum decorreu desde o "crash" de 1987 no DJIA até ao IPO da Netscape no NASDAQ em 1995.

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