Outubro «negro» para IPO europeias

Um balanço feito pela revista Tornado-Insider comentado por Jorge Nascimento Rodrigues

O mês de Outubro de 2000 foi, até à data, o mais «negro» nos mercados financeiros europeus para as IPO (ofertas iniciais em bolsa) das «start-ups» do velho Continente. Em 34 idas à bolsa ao longo do mês passado, quase metade estavam, no final do mês, a transaccionar os seus «papeis» abaixo do valor inicial, segundo a análise mensal da revista Tornado-Insider (na Web em www.tornado-insider.com), especialista na Nova Economia europeia.

Apenas três casos apresentaram um comportamento bolsista digno dos tempos áureos (mais de 50% de valorização média): a Chrome Technology, uma incubadora Internet, que fez a IPO no AIM em Londres e que viu uma valorização de 405%, a Qualiflow, na indústria de componentes ópticas, com a IPO realizada no Nouveau Marché, em Paris, com uma «performance» de mais de 120%, e a Gamesa, uma empresa no campo das energias renováveis, que foi à bolsa em Madrid, e foi «premiada» com mais de 82% de ganhos. No «carro-vassoura» contaram-se, por exemplo, nomes conhecidos, como a Alcatel Optronics (na área da optoelectrónica) que realizou a IPO no Primeiro Mercado em Paris e perdeu cerca de 13%, ou a Recoletos, nos «media», que desvalorizou cerca de 10% na bolsa de Madrid. Os trambolhões maiores deram-se no Neuer Markt, na Alemanha, e no AIM em Londres.

Quadro 2
Ganhos e Perdas de IPO
por Bolsa (Europa)
Mercado Nº IPO   Média (%)
Frankfurt 4    -5
Zurique 2    -5
Dublim 1    0
Amesterdão   1    3
Milão 4    12
Estocolmo 3    16
Paris 3    34
Londres 11    34
Madrid 2    36
Fonte: Tornado-Insider
Quadro 1
Ganhos e Perdas de IPO
por sector (Europa)
Sector Nº IPO   Média (%)
Internet 5     -6
Media 5     -2
Telecom 3     6
Software 9     12
Hardware   5     44
Serviços 5     63
Fonte: Tornado-Insider

 

 

 

 

 

Sintoma deste novo clima psicológico negativo, alguns gigantes decidiram
adiar em Outubro as IPO das suas «start-ups» da Nova Economia. Foi o caso da France Telecom com a Orange no negócio das telecomunicações móveis, da Cableuropa espanhola que adiou a sua oferta de 388 milhões de euros e da Bredbandsbolaget sueca, envolvendo uma oferta de 520 milhões de euros.

Os dois sectores mais afectados por esta inversão do clima psicológico dos investidores foram a Internet (com uma quebra global em Outubro de 6% na valorização das IPO realizadas) e os «media» (com perdas de 2%). As áreas que têm «aguentado» melhor, por ora, o choque bolsista têm sido as mais próximas da «velha» economia ou das indústrias ligadas à primeira fase da Terceira Vaga - no caso, os serviços (valorização global média de 63% em 5 IPO realizadas) e o «hardware» (44% em 5 IPO).

Em termos de mercados, verifica-se que o londrino continua a atrair quantitativamente o maior número de IPO (11 em Outubro com uma valorização global de 34%) e que as praças para «start-ups» de Paris e Madrid continuam a desafiar o mau tempo (valorizações globais de 34 e 36% respectivamente). O mercado mais afectado pelo choque tem sido o Neuer Markt de Frankfurt que teve uma quebra global de 5%. O pequeno mercado de Atenas verificou a maior queda (7,5%) logo seguido de Zurique (5%).

O clima nebuloso tem-se estendido às primeiras semanas de Novembro. Apenas 5 IPO foram lançadas no princípio do mês e algumas das IPO previstas para a semana que ora finda já foram adiadas, como aconteceu com a multinacional portuguesa Altitude Software com IPO prevista para o Euronext na Bolsa de Amesterdão, que chegou a envolver uma previsão de 150 milhões de euros, quando a operação foi anunciada publicamente no final de Outubro para ser lançada a 8 de Novembro (ver caixa).

O efeito Nasdaq tem sido decisivo no comportamento dos novos mercados europeus - o mal estar na América «contagia» umbilicalmente a Europa e factos políticos inesperados (como foram o renascimento da «intifada» no Médio Oriente e o impasse nas eleições presidênciais norte-americanas) agravam ainda mais a situação. A queda sustentada do Nasdaq nos últimos meses e o comportamento em «yô-yô» nos últimos dias têm agravado as indecisões e desconfiança dos investidores.

Altitude Software adia IPO
A multinacional portuguesa Altitude Software (veja artigo na Janela na Web), especializada no segmento das soluções para uma «interacção unificada com o cliente», voltou a adiar na terça feira passada (14 de Novembro 2000) a IPO no Euronext na Bolsa de Amesterdão, em virtude, uma vez mais, do efeito Nasdaq.
A IPO desta empresa portuguesa presente em 35 países (e com uma estratégia muito agressiva nos Estados Unidos durante o ano de 2000) e com uma facturação de mais de 20 milhões de dólares nos primeiros nove meses deste ano, tem sido acompanhada pela imprensa financeira especializada em IPO e «start-ups». A «estreia» portuguesa nos novos mercados tem sido considerada um sinal da maturidade da Nova Economia portuguesa.
Contudo, o actual ciclo dos mercados financeiros está a afectar a estratégia da empresa liderada por Carlos Quintas. No final de Outubro, a Altitude previa lançar uma oferta de 150 milhões de euro com um preço de referência por acção numa faixa entre 15 e 19 euros. Viria, depois, a corrigir o preço de referência para 12 euros e a adiar a operação por duas vezes, a última das quais na terça-feira passada (14 de Novembro). A empresa não adianta novas datas, estando a acompanhar atentamente o mercado, podendo decidir a IPO se uma «aberta» ocorrer.
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