Observatório da Economia Mundial

Nº 6 - 3º quadrimestre de 2007

Made by Gurusonline.tv e Janelanaweb.com
Editor: Jorge Nascimento Rodrigues
© Adventus Group, Dezembro 2007

Sumário:
1. Commodities em foco I. Ouro - A fuga para a frente
2. Bolsas em "Bear". Correcção de ganhos no horizonte
3. Divisas. Até onde pode ir o colapso do dólar
4. Commodities em foco II. Petróleo a caminho dos 100 dólares: Crónica 1 de Houston
5. Commodities em foco III. Petróleo a caminho dos 100 dólares: Crónica 2 de Cork

1. Ouro - A Fuga para a frente
Commodities em foco I

O metal amarelo em moedas, barras, jóias, acções ou outros "papéis" regressou como refúgio dos investidores nervosos que perderam a confiança nas divisas. No final do ano de 2007 poderá estabilizar muito acima dos 800 dólares a onça se o euro chegar a valer 1 dólar e meio. Em Dezembro do ano passado (2006) a média mensal fechara nos 629, 79 dólares. A média mensal em Novembro de 2007 foi de 807,97 dólares a onça. Entre Janeiro e Novembro de 2007 já subiu 28%

Sítios em destaque:
Goldmoney.com | Graficos em Kitco
Comentários:
Comentários de James Turk

A onça de ouro atingiu um valor médio mensal em Novembro de 2007 de 807,97 dólares, um máximo histórico mensal, em termos nominais, desde que o ouro começou a valorizar-se a partir de 1977. Este ano (até Novembro), a onça já se valorizou 28%.

James Turk, 60 anos, um analista independente norte-americano e responsável pela Goldmoney.com, referiu-nos que a sua estimativa é que "a barreira dos 800 dólares a onça, em média mensal, seja superada antes do final do ano, se o dólar se desvalorizar a ponto do câmbio do euro se situar próximo do 1 dólar e meio", um nível de desvalorização tal da moeda americana que nem em 1992-1993 havia sido atingido (ver artigo «Divisas: até onde a desvalorização do dólar poderá ir»).

Em 1980, o ano em que o metal amarelo esteve mais caro, depois da crise dos reféns norte-americanos no Irão em Novembro de 1979, a onça atingiu os máximos mensais de 675,30 dólares em Janeiro e de 673,62 em Setembro. O pico histórico em termos de cotações diárias foi atingido a 21 de Janeiro de 1980 quando a onça fechou a 825,50 dólares, um recorde diário de fecho que ainda não foi batido (ver artigo de James Turk aqui).

Ainda está barato

Contudo, chama a atenção o analista, os preços nominais de 1980 não são, em termos reais, comparáveis com os de agora - os máximos mensais de 1980 equivalem a cerca de 2000 dólares de 2007. "Estamos, ainda, muito longe desses níveis, o que significa, a meu ver, que, apesar destes altos valores actuais a que estamos a assistir em 2007, o ouro continua relativamente barato - repito, barato -, e portanto um óptimo investimento para o futuro", sublinha Turk.

"Estamos, ainda, muito longe desses níveis, o que significa, a meu ver, que, apesar destes altos valores actuais a que estamos a assistir em 2007, o ouro continua relativamente barato - repito, barato -, e portanto um óptimo investimento para o futuro" (James Turk).

«Não está fora de causa que atinjamos os 1000 dólares a onça, se as condições presentes se mantiverem em 2008 - ou seja, a continuação da desvalorização do dólar para níveis jamais vistos e do disparo do preço das "commodities"», alerta o analista, que vê o regresso de um padrão de comportamento cíclico similar ao dos anos 1970-1980.

Diz Turk: "O ouro hoje está a subir em relação a todas as divisas - inclusive em relação ao euro. Isso já não acontecia desde os anos 1970, o que me sugere que estamos no início de repetir o que então sucedeu: disparo da inflação e do preço do ouro, como refúgio seguro, e fuga das divisas nacionais".

Duvida sobre os bancos centrais

O disparo do preço da onça foi quase para o triplo nos últimos seis anos. Depois de ter estado "prisioneiro" num patamar entre os 250 e os 350 dólares de Setembro de 1997 a Dezembro de 2002, o metal amarelo parece ter-se libertado das grilhetas.

Os analistas e investidores do GATA (Gold Anti-Trust Action Committee) norte-americano têm acusado os bancos centrais e algumas casas financeiras de "manipulação" nos mercados do ouro procurando manter, artificialmente, o seu preço baixo (ver o sítio www.gata.org).

Turk tem uma apreciação muito própria, que alguns classificarão de "radical": "Os bancos centrais sabem que dinheiro é poder, e que o ouro é a moeda mais poderosa. Por isso, vendem ouro apenas por razões de propaganda, para fazer crer que podem fixar o preço. Ainda que o possam influenciar, e durante uns anos assim o fizeram, a longo prazo não o conseguem controlar. Por mim, gostaria que vendessem as reservas todas e saíssem, de vez, deste negócio. O ouro é uma ferramenta neutral de comércio, não é assunto para governos".

3 PERGUNTAS RÁPIDAS
Responde James Turk
Fundador de Goldmoney.com
Que investimentos em ouro recomenda ao cidadão comum?
Que compre ouro - ouro físico. Não ouro em "papéis", como certificados, contratos de futuros, ou outros instrumentos mais sofisticados, que são assunto para profissionais.
Como fazem os asiáticos investindo em joalharia?
Os asiáticos investem de facto em joalharia em ouro, não sobretudo por adorno, isso é secundário, mas como investimento de facto - tal como os ocidentais são mais inclinados para o ouro em lingotes ou em moedas. Contudo, a compra do ouro físico acarreta problemas de armazenagem e segurança. A alternativa é comprá-lo através de firmas especializadas intermediárias que o guardam.
Mas tal como aconteceu com o investimento em selos por esse tipo de mecanismo, isso não acarreta riscos de burla?
Acarreta, de facto. Por isso a escolha dos intermediários tem de ser cuidadosa. Essas empresas têm de ter normas de governação estritas e o ouro ser auditado.

2. Bolsas em "Bear"
Correcções em vista no horizonte

Os máximos históricos atingidos pelos ganhos médios anuais no indicador Dow Jones Industrial Average podem ser um sinal da tormenta que virá a seguir nos EUA. Um dos analistas do Gold-Eagle alega que poderemos estar a viver uma repetição do que ocorreu entre 1927 e 1929, quando os políticos e os banqueiros criaram uma combinação explosiva: mercado bolsista "quente", inflação monetária e 'bebedeira' de crédito. A Fortune, em finais de Novembro, publicou um artigo sugestivamente intitulado "Recipe for a Meltdown", em que prevê uma quebra adicional de 18% dos mercados.

Sítios em destaque:
Goldeagle
Comentários:
Comentários no Gold Eagle (Editorials) | Comentários de Mark Lundeen

Pode parecer absurdo: o indicador norte-americano Dow Jones Industrial Average (DJIA) apresenta ganhos médios anuais elevadíssimos, verdadeiros máximos históricos (em termos nominais), mas há analistas que dizem que é sinal de borrasca no horizonte.

O ganho médio do DJIA é superior hoje a 800 dólares (este indicador relativo às 30 principais cotadas norte-americanas é obtido pela divisão do índice DJIA em pontos pelo P/E, um múltiplo que avalia os ganhos por acção), mas há que temperar essa euforia.

"O DJIA está nos seus máximos históricos, mas aqui há gato! A actual situação nos mercados financeiros está embrulhada em enormes riscos", diz-nos Mark Lundeen, um dos analistas do Gold-Eagle.

Para justificar este alerta tão estranho, Mark revisitou a história do DJIA desde 1929, baseado na ideia de que os padrões de comportamento se repetem. Comparando os ganhos médios do DJIA com a circulação monetária em dólares injectada pelo Tesouro dos EUA, verificou empiricamente que, desde 1979, quando as duas curvas se "beijam", a seguir, historicamente, há fortes correcções nos ganhos do DJIA (ver artigo aqui).

A actual circulação monetária da moeda americana está acima dos 800 mil milhões de dólares e as mais recentes injecções de liquidez para atenuar o efeito da crise do crédito imobiliário de alto risco agravaram ainda mais esta situação.

Mark recorda: o "cocktail" é explosivo ('bebedeira' de crédito, alavancagem financeira astronómica em derivados de alto risco, injecções políticas de dinheiro, alta espectacular das "commodities", etc.). "O que se tem passado faz-me lembrar 1927-1929. Não excluiria a possibilidade de um período similar ao de 1929-1932 num futuro não muito distante", conclui.

Entretanto, a revista FORTUNE já veio referir que as bolsas deverão ainda cair 18% para que o prémio de risco volte a estar equilibrado. Ver artigo «Recipe for a Meltdown» aqui). O analista Peter Cohan é de opinião que a quebra será, ainda, superior. Em declarações à Janelanaweb.com advertiu: "If Fortune had assumed that stocks would converge on their 50 year equity risk premium of 5%, the E/P would need to rise to 6.5 -- the P/E equivalent would drop from 22 to 15.4 -- representing a 30% decline".

3. Divisas - Até onde pode ir o colapso do dólar US
E o mundo nas mãos das 3 Xiao da China

Na semana de Novembro de 2007 em que o relatório da McKinsey trouxe nuvens negras sobre o risco de manipulação politica das reservas em dólares pelos asiáticos e donos de petrodólares, John Rubino, um analista independente americano alerta para o facto de que Alan Greenspan anda a anestesiar as audiências. Uma espiral de desvalorizações competitivas pode estar no horizonte.

Sítios em destaque:
Sítio de John Rubino (Dollar Colapse)
Relatório da McKinsey: "New Power Brokers"
Compra do Livro de John Rubino sobre o colapso do dólar

"Não me parece que haja um limite à vista para a queda do dólar. Os Estados Unidos são há anos uma economia extraordinariamente mal gerida", afirma John Rubino, que chocou o público americano quando em 2004 publicou uma antevisão do que se iria passar nos anos seguintes em «The Coming Collapse of the Dollar and How to Profit from it».

Rubino tinha olhado, sem preconceitos políticos, para o índice do dólar e não gostou do que se desenhava: depois de um período de valorização entre 1995 e finais de 2002, a queda da divisa começava a ficar óbvia. Ainda que, com oscilações, a tendência para o colapso pareceu-lhe clara. Os críticos ainda lhe atiraram à cara que, depois de uma queda livre em 2004, uma contra-tendência pareceu actuar em 2005, depois da publicação do livro.

'Fundamentais' em mau estado

Mas as oscilações ocorriam em patamares cada vez mais baixos, como se tratasse de um ioiô a perder força. Entre 2 de Janeiro de 2003 e o final de Novembro, a divisa americana já caiu 42%, segundo as estatísticas da Reserva Federal americana e, desde 2005, a queda é visível neste quadro fornecido pelo NY BOT US dollar Index.

Entre Janeiro e final de Novembro de 2007, caiu 11%. Por ora, o máximo de 2007 (decorridos 11 meses) ocorreu em alguns dias de Novembro (21,22,23, 26 e 27) com valores acima dos 1,48 dólares por cada euro. A expectativa é saber quando chegará ao limiar psicológico do 1,5, um valor que nem mesmo no Setembro negro de 1992 foi atingido (então em relação ao ECU).

"O exemplo do período de hiperinflação da República de Weimar, na Alemanha, nos anos 20 do século XX, vem à memória como algo plausível como resultado final de todo este comportamento de ilusão de prosperidade" (John Rubino)

"A tendência de longo prazo está clara, derivada da situação dos 'fundamentais'", diz-nos, sem hesitação, este especialista de 51 anos, já cognominado de 'sismólogo financeiro'. Os 'fundamentais' querem dizer, em "economês", um conjunto de indicadores em muito mau estado: "Os EUA continuam a pedir emprestado vários milhares de milhões de dólares por dia do resto do mundo para poderem gerir um império global cada vez mais extenso e uma situação interna artificial. Os nossos cidadãos continuam a viver acima das suas possibilidades".

Umas contas rápidas - que qualquer pessoa percebe - feitas por ele dão este número arrasador: cada família americana de quatro pessoas arca com uma fatia de 1,7 milhões de dólares de dívida. Sublinha, depois, que nem se atreve a fazer as contas adicionais do que Warren Buffett já apelidou de "armas de destruição maciça financeira": os 400 biliões (400.000 mil milhões, um número indescritível; 400 trilhões, em designação anglo-saxónica) de 'derivados'.

Rubino argumenta, então, que tem mesmo de agitar o fantasma de Weimar: "O exemplo do período de hiperinflação da República de Weimar, na Alemanha, nos anos 20, vem à memória como algo plausível como resultado final de todo este comportamento de ilusão de prosperidade".

A incógnita asiática se a geopolítica passar a comandar

A questão crítica não é tanto o problema da crise no imobiliário (que se poderá arrastar até 2012, segundo Rubino) - mas o comportamento dos asiáticos em relação ao dólar.

Segundo um relatório do McKinsey Global Institute, agora divulgado (ver caixa), os bancos asiáticos dispõem de reservas de 2 biliões (2 trilhões, na designação anglo-saxónica) de dólares em activos (o equivalente a 1.415 mil milhões de euros), particularmente em títulos do Tesouro americano, com o Banco da China detendo a fatia de leão de 45%. Se lhe juntarmos os fundos de investimento em petrodólares do Médio Oriente, o desenho da situação de risco fica completo. O relatório do McKinsey é muito directo: o pânico virá se esta gente resolver "introduzir um elemento de considerações políticas nos seus investimentos".

Por isso, Rubino aconselha muita atenção aos sinais: por exemplo, os anunciados "redireccionamentos" de aplicações por parte do Vietname, da Autoridade de Investimento do Qatar e das declarações de He Fan, da Academia de Ciências Sociais da China. Os governos da China, Coreia do Sul e Singapura já anunciaram ir "diversificar" 480 mil milhões de dólares. Aquele economista chinês chamou a atenção para uma "espiral" que Rubino vem alertando - o do espectro futuro de um ciclo de desvalorizações competitivas por parte das divisas sobrevalorizadas, em virtude do colapso do dólar.

3 PERGUNTAS RÁPIDAS
Responde John Rubino
Fundador do Dollarcollapse.com
O pior já passou, como anda a tranquilizar Alan Greenspan?
Greenspan, mais do que ninguém, é o responsável pela bolha do dólar que viria a rebentar. Ele nunca entendeu as consequências dos seus actos à frente da Reserva Federal e, também, não as compreende como cidadão. Não creio que seja uma fonte confiável para aconselhamento.
Mas o problema não está restringido a toda esta história do "subprime"?
Não. É preciso compreender que todos - e sublinho todos - os segmentos do sistema financeiro norte-americano avançam para uma crise. Dívida excessiva conduz necessariamente a tempos difíceis, em que será liquidada de uma forma ou de outra. Será que isso acontece já no próximo ano ou nos próximos cinco anos, bom, não sou adivinho.
O cenário de desvalorizações em cadeia vai significar o quê para o homem da rua?
Inflação de muitos bens (e não só da gasolina), taxas de juro mais altas (livre-se de dívidas) e perda de valor de títulos do Tesouro que possua em dólares.

Os novos "cavaleiros" da alta finança
O relatório 'New Power Brokers' do McKinsey Global Institute (MGI) trouxe uma nuvem negra. Ao fim de seis meses de estudo, os especialistas do MGI vieram falar de um risco político pelo facto de dois dos novos quatro actores da alta finança desde 2000, serem os investidores que nadam em petrodólares (que abrangem a OPEP e os outros exportadores de petróleo e gás não pertencentes à OPEP) e os bancos asiáticos, com destaque para o da China e do Japão.
No conjunto, deverão deter reservas de cerca de 7 biliões de dólares (7 trilhões, na designação anglo-saxónica, o equivalente a 5.000 mil milhões de euros, uma soma astronómica) de activos, no final de 2006. Só a China, durante estes anos em que se "barricou" contra o impacto dos ciclos de bolha e "crash" do Ocidente, deve ter chegado aos 1,3 biliões (trilhões) de dólares em reservas em moeda estrangeira. Nota curiosa, recentemente, divulgada (inglês): "China's trillion-dollar cash reserves are managed by three of the most powerful women in the world, known as the three Xiaos. They are Wu Xiaoling, 60, the senior deputy governor of the People's Bank of China, Hu Xiaolian, 49, who is in charge of foreign exchange, and Zhang Xiaohui, who directs monetary policy. We can be certain, however, that the three Xiaos, and their counterparts in the emerging Asian economies, will have plenty of say in our future".
Segundo os cálculos apresentados pela McKinsey, a aposta de confiança no dólar durante estes anos deve ter "baixado" a taxa de juro de longo prazo norte-americana em 76 pontos base.

4. Petróleo a caminho dos 100 dólares - Crónica 1
Commodities em foco II

O Ardina em Houston na Conferência das ASPO USA
Jorge Nascimento Rodrigues em Houston, 17-20 de Outubro de 2007
(Valores e texto actualizado a 30 de Novembro 2007)

A marcha do preço do barril do petróleo para os 100 dólares parece irreversível. No entanto, poucos analistas arriscam datas.

Sítios em destaque:
ASPO USA | Opisnet | Gráficos de evolução dos preços

A marcha do preço do barril do petróleo para os 100 dólares parece irreversível. No entanto, poucos analistas arriscam datas. Jeff Rubin, economista-chefe no Canadian Imperial Bank of Commerce, estima que essa barreira psicológica será batida no 4º trimestre de 2008, o que, ainda, ficaria "longe". O Oil-price.net apresenta uma previsão, a um ano, do barril a 115 dólares. Mais "imediatista", Tom Kloza, que tem o pomposo atributo de "chefe-analista" do Oil Price Information Service, nos Estados Unidos, avança que esse "choque" ocorrerá já na Primavera de 2008, com um novo surto especulativo no mercado de futuros e no "spot".

Kloza faz o prognóstico que o impacto dessa alta do crude na bomba de gasolina poder levar os preços do galão (cerca de 3,8 litros) aos 3,25 a 3,75 dólares, quando o cidadão médio norte-americano encher o depósito, o que significará uma variação entre 15 a 35% em relação aos preços médios actuais, que ainda estão abaixo do limiar psicológico dos três dólares. O cálculo de Kloza baseia-se na referência de que o peso do crude no preço final no retalho americano é ligeiramente superior a 50%, segundo a Energy Information Administration.

A sombra da nota de 100 dólares não tem, de facto, largado os economistas, depois dos preços no mercado "spot" norte-americano (o barril de referência do WTI Cushing) terem ultrapassado os 90 dólares em Outubro e até 30 de Novembro (nesta data caiu abaixo dos 90 dólares, tendo fechado em 88, 71 (gráficos aqui).

Para vários especialistas, esse recorde significa já que os máximos históricos atingidos em Janeiro de 1981 foram ultrapassados depois do "spot" ter atingido valores acima dos 93 dólares durante Novembro de 2007 - se os preços nominais de então forem corrigidos para valores de 2007, segundo o crescimento do PIB, ou mesmo se o indicador utilizado for o dos preços do consumo.

Correcção em baixa em Dezembro (2007)?

No entanto, é preciso temperar as expectativas. O comportamento da alta dos preços não é linear. Se olharmos para os gráficos que os peritos têm publicado desde 2001, quando se iniciou o que designam por actual "bull cycle", a evolução desenha um iô-iô, em que, a seguir a disparos de preços durante um certo período, há súbitas correcções em baixa, ainda que, passado algum tempo, a pressão para a alta regressa e chuta o preço para um patamar ainda mais alto do que os máximos anteriores. O analista Adam Hamilton alerta que poderá haver uma correcção em Dezembro, que poderá trazer a prenda de Natal dos preços do barril para o patamar, de novo, dos 80 dólares.

Um dos elementos que poderão afectar o comportamento dos preços do barril é o inverno norte-americano. Recorde-se que os EUA são o primeiro consumidor mundial, com 25% - a larga distância do número dois, a China (que consome, ainda, pouco mais de 1/3 dos americanos). O Departamento de Comércio dos Estados Unidos e a National Oceanic and Atmospheric Administration estimam que o inverno será mais quente do que o normal no nordeste dos EUA (que representa 80% da procura de aquecimento) - alguns analistas admitem, por isso, que o disparo do consumo seja inferior ao esperado; outros não acreditam, de todo, nas previsões climáticas "optimistas". Mesmo que haja um paradoxal bónus, derivado da tendência de longo prazo para o aquecimento global, os peritos argumentam que poderão não faltar surpresas na geopolítica que logo aquecerão os preços do crude.

O fantasma do racionamento

As últimas estatísticas falam por si - o défice entre o que se produz e o que se consome no mundo do petróleo tem-se alargado. Falta mais de um milhão e meio de barris por dia para alimentar a voracidade dos cinco comilões mundiais: Estados Unidos (25% do consumo mundial), China (8,5%), Japão (6%), Rússia (3,6%) e Alemanha (3%).

Se compararmos as estatísticas oficiais da International Energy Agency, de Agosto do ano passado (2006) com as do mesmo mês do corrente ano (2007), o corte real na oferta de crude foi de 610 mil barris por dia. Ora estima-se que a procura mundial em 2008 exija ainda mais dois milhões de barris por dia, um crescimento de 2%. "Quando esse adicional for de 4%, o preço do barril vai ter de chegar aos 150 dólares", afirmou o consultor Robert Hirsch na Conferência Mundial sobre o Petróleo, que decorreu em Houston, em Outubro.

"Os grandes países consumidores vão ter de proteger seriamente as rotas por onde passam os fluxos de petróleo. Qual é o resultado? Mais turbulência no mundo. Risco de conflitos graves. Mais pressão sobre os preços. É um ciclo que se auto-alimenta". (Chris Skrebowski)

Hirsch, co-autor de um estudo sobre previsões do crude para o Departamento de Energia norte-americano, conseguiu mesmo assustar os 500 participantes provenientes de 10 países: "Meus amigos, uma pequena variação de 1% no consumo significa hoje mais 800 mil a 1 milhão de barris por dia. Onde é que os vamos buscar?". Chris Skrebowski, do Energy Institute, de Londres, respondeu, a seguir: "A lado nenhum. Vai ter de haver prioridades no consumo. O que é que isso significa para o cidadão comum? Racionamento!". E, em termos geopolíticos, Hirsch traçou um quadro negro: "Os grandes países consumidores vão ter de proteger seriamente as rotas por onde passam os fluxos de petróleo. Qual é o resultado? Mais turbulência no mundo. Risco de conflitos graves. Mais pressão sobre os preços. É um ciclo que se auto-alimenta".

Aqui a assembleia agitou-se, incomodada. Alguém balbuciou: "Mas não se pode arranjar mais petróleo?". Os optimistas dirão que sim - há previsões de se produzir mais de 100 milhões de barris por dia em 2011/2012, o que satisfaria o aumento de consumo esperado, sobretudo pelo continuado impacto do "boom" dos quatro BRIC (Brasil, Rússia, Índia e China). Skrebowski ficou-se, com boa vontade, pelos 91,8, e repetiu o recado: "A única solução face ao défice que vai crescer, é mais eficiência energética e atacar resolutamente o problema dos transportes de superfície, que comem 50% de cada barril".

O ambiente parecia ter acalmado com o "break" para o almoço, quando Matthew Simmons, um analista muito respeitado que fez a audiência levantar-se a bater palmas, estragou a sobremesa: "A crise que temos pela frente, provocada pelo declínio da oferta do petróleo, é muito mais iminente do que o risco da mudança climática. Os políticos parecem estar cegos". Com o auge do marketing do tema da mudança climática, depois da atribuição do Nobel a Al Gore, a piada indirecta de Simmons caiu como uma bomba politicamente incorrecta. Tom Petrie , outro analista, logo acrescentou: "Os políticos já interiorizaram uma imagem de probabilidade em relação às questões do clima, mas continuam completamente insensíveis ao problema do pico do petróleo. É uma chatice porque vão ser surpreendidos desagradavelmente pela realidade".

Um relatório do Energy Watch Group, alemão, foi, entretanto, distribuído - é uma das previsões mais radicais, com uma quebra da produção em 2030 na ordem de 54% em relação à actual. Pode obter o relatório aqui.

Mudança de poder: big oil passou a baby oil

O debate provocou ainda maior indigestão quando Jeffrey Brown, um geólogo, sacudiu a plateia, meio adormecida pelo começo da tarde ou pelo "jet lag": "O problema do pico do petróleo pode ainda ser mais iminente, se a geopolítica triunfar sobre os limites geológicos". Houve, nos últimos 50 anos uma "mudança de poder" - em 1950, 90% da produção do crude estava na mão das grandes multinacionais ocidentais; hoje, rondará os 5%. "O "big oil" de ontem passou a "baby oil"", ironizou Hirsch. As 'majors' são hoje as empresas nacionais dos principais países exportadores líquidos que estão no mundo dos BRIC e emergente.

Brown concluiu com duas consequências desta "mudança de poder": primeira, tais empresas sendo controladas politicamente pelos governos serão tentadas a jogar a cartada política sempre que acharem oportuno (o crude será uma "commodity" cada vez mais politizada); segunda, chegará o momento em que esses países terão de reduzir a sua própria exportação para lidar com o aumento do seu consumo interno e com o declínio da sua produção e o desgaste dos seus recursos. "O colapso virá a seguir", afirmou.

A audiência foi salva "in extremis" pela chamada para a recepção de gala. O Ardina pôs no bolso o Qtek e marchou para o "buffet".

5. Petróleo a caminho dos 100 dólares - Crónica 2
Commodities em foco III

O Ardina em Cork (Irlanda) na Conferência das ASPO Europa
Jorge Nascimento Rodrigues em Cork, 17-18 de Setembro de 2007
(Valores e texto actualizado a 30 de Novembro 2007)

O recorde histórico dos 100 dólares poderá ser alcançado no quarto trimestre de 2008, segundo os prognósticos dos especialistas na Conferência sobre o 'pico' da produção do crude que decorreu em Cork. A ASPO acaba de criar a ASPO International e anunciou em Cork que, até final do ano de 2007, surgirão as organizações locais na China e na África do Sul.

Sítio em destaque:
ASPO Irlanda

CITAÇÕES DE CHOQUE
"Vocês, os 'peakers', podem cantar vitória. O alerta para o 'pico' do petróleo tornou-se uma corrente dominante, mas os políticos continuam distraídos" James Schlesinger, ex-secretário de Estado da Defesa de Nixon e Ford e primeiro secretário de Energia de Carter
"Mais grave do que o choque provocado pelo disparo do consumo na China e na Índia, será o declínio da exportação de crude por parte dos países produtores da OPEP, Rússia e México, em virtude do aumento do consumo doméstico nesses países e da sua ineficiência energética" Jeff Rubin, economista-chefe do banco de investimentos CIBC World Markets

5 VERDADES DESAGRADÁVEIS
· Cada 1% de desvalorização do dólar americano implica um aumento do preço do barril de petróleo de 0,62% (Estudo de Noureddine Krichene, FMI, 2005)
· As previsões mais 'optimistas' dos especialistas independentes da indústria petrolífera apontam para um máximo histórico de produção mundial em 2015-2020 em torno dos 100 milhões de barris diários (Michael Rodgers, da consultora PFC Energy, Cork, 2007)
· A transformação da infra-estrutura energética é o problema mais complexo para uma transição para uma economia não dependente do petróleo (James Schlesinger, Cork, 2007)
· As perspectivas realistas de exploração potencial a partir do petróleo convencional a descobrir são 30% a 40% das oficialmente publicadas (Ray Leonard, Kuwait Energy, Cork, 2007)
· A situação de dependência da China em relação à importação de petróleo é já de 50% e no primeiro semestre deste ano, o país passou também a ser um importador líquido de carvão (Xiongqi Pang, Universidade do Petróleo de Beijing, Cork, 2007)

James Schlesinger não podia ser mais dramático ao abrir, na Irlanda, a 6ª Conferência mundial da Associação para o Estudo do Pico do Petróleo & do Gás (ASPO): "Entrámos num período crucial, vivemos um momento de verdade, e os políticos ainda não se deram conta disso". As credenciais do político republicano norte-americano, de 78 anos, são sobejamente conhecidas - ex-director da CIA, ex-secretário da Defesa e da Energia de várias Administrações norte-americanas nos anos dos primeiros "choques" petrolíferos - para que uma frase sua imediatamente faça estrondo nos "media".

"Necessitamos de encontrar 5 ou 6 Arábias Sauditas para defrontarmos, com êxito, o disparo da procura nos próximos anos", ironizou Schlesinger, de seguida, no que foi acompanhado por um sorriso geral dos 350 participantes que se juntaram em Cork para debater o beco sem saída em que se encontra a "civilização do petróleo".

Do consenso de Hedberg...

Depois, foi a vez de subirem ao palco os especialistas da oferta e da procura do mercado desta "commodity". Só que, em vez da "máfia dos geólogos reformados" que fundaram e alimentam a ASPO, como os apodou Jeremy Gilbert, ex-engenheiro-chefe da BP, a conferência ouviu gente de dentro da indústria e economistas independentes. De facto, vozes como o irlandês Colin Campbell e o francês Jean Laherrère, fundadores do movimento, estiveram, desta vez, mais discretas do que, por exemplo, na conferência de 2005, em Lisboa.

Ray Leonard, um perito que trabalhou na Yukos russa e que hoje está com a Kuwait Energy, levantou o véu do que um grupo restrito discutiu em segredo, no ano passado, em uma das Conferências Hedberg Research, organizadas pela American Association of Petroleum Geologists. "As perspectivas de exploração potencial são muito menores do que oficialmente se diz. O 'consenso' que se formou nesta conferência, é que dos 700 mil milhões de barris que se alega puderem vir a ser, ainda, encontrados, talvez seja verdade falarmos de 250 a 300 mil milhões", afirmou.

O consultor Michael Rodgers fez, então, a ponte para a questão do 'pico' da produção do petróleo: "Admitimos um máximo de produção de 100 milhões de barris diários (mbd) em 2015-2020, podendo seguir-se um período de 'planalto', de estagnação, a que se seguirá inelutavelmente um declínio". A possibilidade de chegar aos 100 mbd produzidos é contestada pelos especialistas da ASPO, que, no entanto, pela boca do seu presidente, o sueco Kjell Aleklett, sublinharam a "proximidade" cada vez maior das datas apontadas para o 'pico', o que faz antever uma convergência gradual de prognósticos quanto aos limites da oferta.

... ao choque da exportação

Ao debater a questão da procura, a conferência foi literalmente sacudida pela intervenção do canadiano Jeff Rubin, economista-chefe no Canadian Imperial Bank of Commerce (CIBC). Há um problema mais grave do que o "sindroma chinês" - o tema mais mediático.

Até à data, tem-se falado, sobretudo, no disparo do consumo anual de petróleo "per capita" na China e na Índia - no primeiro caso mais do que duplicou, ainda que continue a um nível muito baixo, de apenas 19% do norte-americano ou 38% do europeu. Esse "salto" levou a que a China multiplicasse por 12 o consumo diário de barris de crude, entre 1970 e 2006, e que se tornasse "petróleo-dependente" económica e geopoliticamente, como ironizou, discretamente, Xiongqi Pang, da Universidade do Petróleo, de Beijing.

Rubin chamou, então, a atenção para o facto de que os países produtores de petróleo - tanto do cartel da OPEP como dos outros - são altamente devoradores de petróleo, por razões de ineficiência energética, de subsídios aos preços domésticos na bomba de gasolina, e pela própria curva de crescimento do consumo doméstico. "O que daí vai resultar é um choque na exportação. Vão faltar, no período até 2010, uns 2,5 milhões de barris por dia. É, por isso, que os mercados já não acreditam nas decisões da OPEP em "aumentar" a produção, e o preço tem galgado os 80 dólares", frisou o analista.

Por isso, o canadiano não se admirará se, até final de 2008, o preço do barril de referência nos Estados Unidos (o WTI) possa atingir no mercado "spot" a barreira simbólica dos 100 dólares. Dependendo de como se avaliam, a preços actuais, os valores atingidos no segundo choque petrolífero em 1981, os 100 dólares do ouro negro no próximo ano poderão superar os máximos, então, atingidos.

Com esta psicologia do maior "choque petrolífero" de sempre a breve trecho, os vários "lóbis" estão a movimentar-se activamente - desde o nuclear, que em Cork teve presença forte nas intervenções do francês Pierre-René Bauquis (que acaba de lançar o livro 'Nuclear Power'), do Instituto Francês do Petróleo, e do irlandês Philip Walton, que fundou o Better Environment from Nuclear Energy, até aos defensores das outras alternativas.

Gás Natural: Uma caixinha de surpresas
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"Não há um mercado internacional organizado do gás natural. O preço actual não está, ainda, a dar um sinal da situação que poderá, de um momento para o outro, rebentar"
A situação no mercado do gás natural tem sido menos mediatizada. Luís de Sousa, 29 anos, um dos novos activistas da ASPO Portugal, acha que tem havido muita desatenção a este problema, e que, por isso, não se admirará que, um dia destes, nos rebente, nas notícias da manhã, uma surpresa. "Os preços não dão ainda sinais do que poderá ocorrer. O mercado do gás natural é muito diferente do petrolífero. É mais fragmentado, não há nenhum cartel por ora, e por isso é uma caixinha de surpresas", comenta-nos este engenheiro informático, do Instituto Superior Técnico, de Lisboa, que participou na conferência de Cork e que se encontra num "retiro" de reflexão estratégica da ASPO (que já está presente em 25 países) na cidadezinha campestre de Killarney.
"No espaço de três anos, a produção de gás natural nos Estados Unidos poderá cair abruptamente, e curiosamente na Europa o elo mais fraco são estas ilhas, a Britânica e a Irlanda", acrescenta o especialista em sistemas de informação geográfica que se apaixonou pelo tema desde a invasão do Iraque, tendo-se embrenhado no tema do 'pico' petróleo, em 2005, depois de "dois dias a devorar um sítio com informação na Web, que me deixou estupefacto".
A partir daí alimenta um sítio em português (ver aqui) e é um dos colunistas regulares do sítio europeu.

(c) Janelanaweb.com/Gurusonline.tv, 2007

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