Observatório da Economia Mundial

Nº3 - 1º semestre de 2006

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Editor: Jorge Nascimento Rodrigues
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Sumário:
1. Choque petrolífero a todo o vapor
2. À espera do efeito dominó na geopolítica
3. Crise no gás poderá chegar primeiro na Europa

1. Choque petrolífero a todo o vapor

Petróleo poderá ultrapassar até final do ano de 2006 os preços (em valores reais) da grande crise de 1981/1982

O choque entre 18 e 21 de Abril de 2006 com a passagem consistente do patamar dos 70 dólares por barril de petróleo no preço de fecho nos mercados "spot" londrino e nova-iorquino colocou o ouro negro cada vez mais próximo do pico histórico (avaliado a preços actuais) aquando da 2ª crise petrolífera dos anos 1981 e 1982. O motivo geopolítico próximo foi a "crise do Irão" com as trocas de palavras entre o presidente norte-americano ("Todas as opções estão sobre a mesa") e o iraniano ("O Petróleo está aquém do preço real").

A escada a galgar é de apenas mais 10 a 15 dólares e, ao ritmo da média mensal da alta em 2006, esse patamar poderá ser atingido até final do ano. Se ocorrerem factos geo-políticos mais graves ou catástrofes naturais da dimensão do furacão Katrina, esse momento chegará mais cedo, auguram os analistas.

A média actual dos quatro meses já decorridos situa-se nos 64 dólares por barril, no caso do preço "spot" para o Brent em Londres, acima da estimativa do valor indicativo para todo o ano de 2006 por parte do governo português no Programa de Estabilidade e Crescimento.

ESTATÍSTICAS
(Fonte: http://tonto.eia.doe.gov/dnav/pet/hist/rbrteM.htm)

Quadro de Referência 2006
 Barril "Brent" no "spot" em Londres (US dólares) 
Médias mensais 2006
 Janeiro: 62,98
 Fevereiro: 60,21
 Março: 62,06
 Abril: 70,26

Comparações desde a viragem em 1999
("Brent", "spot", preço em US dólares, valores nominais)
 1998: 12,76 (valor nominal mais baixo desde que o Brent 
 começou a ser cotado em Londres em 1987)
 1999: 17,90
 2000: 28,66
 2001: 24,45
 2002: 24,99
 2003: 28,85
 2004: 38,26
 2005: 54,57
 2006 (1º trimestre): 61,75

Escalada nos patamares do preço
("Brent", "spot", preço em US dólares)
 Patamar dos 30 dólares: Janeiro de 2003 
 Patamar dos 40 dólares: Agosto de 2004 
 Patamar dos 50 dólares: Março de 2005
 Patamar dos 60 dólares: Agosto de 2005 
 Patamar dos 70 dólares: Abril 2006

A escalada dos preços nos últimos sete anos é indesmentível e a ideia do regresso ao petróleo barato (abaixo dos 18 dólares) foi colocada de parte mesmo pelos analistas mais optimistas.

O QUADRO NEGRO
  • O preço do barril, em média, mais do que quintuplicou desde o ponto de viragem na gestão política desta "commodity" por parte da organização dos exportadores e produtores de petróleo (OPEP) em 1999.
  • Quase triplicou, desde que o preço do petróleo "Brent" deixou de ziguezaguear a partir de meados de Maio de 2003.
  • Subiu cerca de 35% nos últimos 12 meses.
  • De Janeiro até à data, em termos de médias mensais, já subiu cerca de 11,6%.
  • É hoje impossível negar que o mercado já entrou num novo "choque petrolífero", desde que o preço do barril ultrapassou a fasquia psicológica dos 50 dólares no primeiro semestre do ano passado.

    A polémica centra-se hoje nas razões que alimentam esta "bolha" do preço do ouro negro. O impacto da instabilidade geo-política é hoje do senso comum - a crise iraniana em torno da questão da energia nuclear é mais uma acha para a fogueira no actual período de turbulência. Ou outros factos geopolíticos, como a permanente instabilidade no Delta do Níger, na Nigéria, ou as posições políticas na América Latina nos países produtores de petróleo e gás.

    Para alguns especialistas, esta mercadoria estratégica já é denominada de "commodity" política que influência decisivamente o comportamento dos especuladores deste mercado.

    Do efeito de tesoura...

    Mas o mercado do petróleo não está só dependente da geo-política, como aconteceu nos dois anteriores "choques" petrolíferos - com o embargo árabe nos anos 1970 ou com a guerra regional entre o Irão e o Iraque nos anos 1980. Um efeito de tesoura introduziu uma nova rigidez que diminui a margem de manobra.

    Com o desenvolvimento acelerado dos chamados países emergentes, particularmente depois da queda do Muro de Berlim, nomeadamente da China e da Índia, a procura do ouro negro disparou. Mattew Simmons, autor de um livro polémico sobre o futuro "choque" na Arábia Saudita, publicado no ano passado (2005), estima que em 2010 ou 2015 será necessário abastecer um mínimo de 100 milhões de barris diários (cerca de 15 milhões a mais do que actualmente), e que a oferta se situará provavelmente apenas entre os 65 e os 75 milhões (abaixo do nível actual), mesmo com o esforço de exploração de novos campos petrolíferos em zonas ainda não tocadas.

    Os especialistas da Associação para o Pico do Petróleo (ASPO) consideram este desequilíbrio estrutural crescente como o facto económico "incontornável" que marcará as próximas décadas. Este facto foi, recentemente, reconhecido num documento interno do Corpo de Engenheiros do Exército dos Estados Unidos (num relatório intitulado "Energy Trends and Their Implication for US Army Installations", da autoria do US Army Corps of Engineers).

    ... ao choque dourado

    Um outro sintoma da gravidade da situação pode ser observado pela coincidência, de novo, de dois ciclos altistas nos últimos trinta anos - o do ouro negro e o do ouro. Este metal precioso é tido como "refúgio" em períodos de recessão ou depressão prolongada e, em certa medida, como que faz uma "clonagem" do comportamento volátil do petróleo. A mesma coincidência de curvas ascendentes nos anos 1970-1980 é, hoje, de novo observável.

    Depois da onça do metal amarelo ter estado abaixo dos 300 dólares em média entre 1998 e 2001, voltou a assistir-se a um processo altista. Entre Abril de 2002 e Abril de 2006, o preço da onça duplicou. Nos últimos seis meses aumentou de 480 para 700 dólares, e desde Janeiro deste ano (2005) já aumentou 30%. Ao ritmo actual poderá findar nos 800 dólares a onça na passagem de ano, o que leva os analistas a avançarem com prognósticos de chegar aos 850 dólares de 1980 (máximo histórico) no decurso do próximo ano.

    2. À espera do efeito dominó na geopolítica

    Guerra, geopolítica e geoeconomia sempre estiveram relacionadas. Os especialistas dos ciclos longos estudam os últimos 150 anos para entender tendências e sinais a observar nas próximas duas décadas. Podendo a "zona de perigo" estar mais próxima (nesta década), ou mais distante (depois de 2020), uma coisa é certa: o mundo voltou a um período de grande turbulência em que a violência como continuação natural da diplomacia se está a revalorizar.

    Uma investigação do austríaco Arno Tausch para o Centro Argentino de Estudios Internacionales, um "think tank" de Buenos Aires, encontra correlações entre os ciclos longos de Kondratieff e as guerras entre grandes potências. Tausch não faz prognósticos, mas chama a atenção para a leitura dos sinais e das tendências.

    E-book de Arno Tausch

    Até 2040, quando se antevê que a China alcance o lugar cimeiro do PIB mundial, os especialistas dos ciclos longos dividem-se, acaloradamente, entre dois períodos de "alto perigo" - um mais próximo, outro daqui a duas décadas - onde poderão ocorrer confrontações globais no plano geopolítico.

    Duas ideias parecem obter consenso hoje nesta comunidade de analistas: a queda do Muro de Berlim não selou o fim da rivalidade geopolítica que sempre moveu a História; e é, também, enganadora a afirmação de que, após o 11 de Setembro de 2001, apenas as "ameaças assimétricas", derivadas da fase de difusão do terrorismo internacional, são relevantes.

    O mundo continua a ter "horror" à solidão de uma única superpotência, confirma Arno Tausch, 55 anos, professor de Ciências Políticas na Universidade de Innsbruck, na Áustria. A sua investigação para o Centro Argentino de Estudios Internacionales, de Buenos Aires, sobre a inconsistência da metáfora do "fim da história" e sobre as correlações entre as guerras entre grandes potências e os ciclos longos económicos acabou de ser lançado em "e-book".

    O trabalho deste conselheiro ministerial em assuntos internacionais e europeus do governo austríaco vem na sequência de um "estado da arte" no tema feito por uma colectânea publicada em Março passado (Kondratieff waves, warfare and world security), com base num "workshop" realizado na Covilhã e apoiado pela NATO, em Fevereiro do ano passado, organizado por Tessaleno Devezas, da Universidade da Beira Interior.

    A investigação de Tausch revela que as grandes guerras de impacto global, desde a Revolução Francesa, aninharam-se, em regra, no período ascendente de um novo ciclo longo económico (baptizado pelo economista Schumpeter como "ciclo de Kondratieff"), no meio de prosperidade económica e antes de grandes "crashes" que ocorreriam nas décadas seguintes.

    Sucedeu, assim, com as Guerras Napoléonicas entre 1799 e 1815, quando Napoleão desafiou a hegemonia britânica sem sucesso, ou, mais tarde, com a Iª Guerra Mundial, fruto da emergência da Alemanha desde a proclamação do Império por Bismark em 1871 até à doutrina da "Weltpolitik" (política mundial) do "Kaiser" Guilherme II em 1890 e à descoberta atónita pelos outros europeus do "Made in Germany", mediatizado por um "best-seller" publicado em 1896. A primeira fase da afirmação geo-estratégica da Alemanha fez-se ao longo de mais de quarenta anos, aproveitando a janela de oportunidade aberta pelo começo da delegitamação da hegemonia britânica desde meados do século XIX.

    A excepção, em mais de 200 anos, foi a IIª Guerra Mundial, que ocorreu após um "crash" (1929) e no decurso de uma longa depressão, com a segunda tentativa alemã de disputa da hegemonia mundial.

    Coexistência custou 3 milhões de mortos

    Uma IIIª Guerra Mundial, de novo no decurso do período ascendente do ciclo longo, não se concretizou em virtude do "equilíbrio bipolar de terror" entre as duas superpotências ao longo de mais de 30 anos e devido à implosão de um dos pólos com a "Perestroika". No entanto, até ao pico do ciclo longo nos anos 1980, várias guerras regionais, com envolvimento de alianças antagónicas, tiveram impacto global e fizeram mais de 3 milhões de vítimas, segundo o levantamento feito por Tausch. Mesmo os famosos "trinta gloriosos anos" de crescimento económico e de "coexistência pacífica" - desde o final da IIª Guerra Mundial até aos choques petrolíferos de 1973 e 1981 - foram tudo menos "calmos" na geopolítica.

    O especialista austríaco acha que uma situação como a que ocorreu nos anos 1930 e 1940 não vai repetir-se agora, pesar da enorme turbulência que se sucedeu à queda do Muro de Berlim (1989). Revendo os factos: tentativa de várias potências regionais (como o Iraque ou a Sérvia nos anos 1990) afirmarem o seu espaço geopolítico; renascimento do terrorismo internacional (com a declaração de guerra da Al-Qaida em 1996 e o disparo do número de actos terroristas), "crash" significativo no Nasdaq (2000) e manutenção de um período prolongado de depressão desde o final da recessão de 2001 nos Estados Unidos; ataque "assimétrico" em Nova Iorque em Setembro de 2001; descoberta nos media da emergência da China como grande potência (após o famoso relatório da Goldman Sachs, de 2003, sobre os "bric"); novo choque petrolífero (com preços do barril acima dos 50 dólares desde o segundo semestre de 2005) e as diversas tentativas regionais de afirmação de potências "fora do baralho" (por exemplo: Irão, Coreia do Norte, Venezuela).

    O modelo do desafiador na sombra

    Apesar do "período de delegitamação da hegemonia "em solidão" dos Estados Unidos ter começado, paradoxalmente, logo após a queda do Muro de Berlim, o ciclo de afirmação dos "desafiadores" ainda está no adro", comenta Tausch, baseado nos estudos feitos pelo professor George Modelski.

    Não obstante, o ciclo de reemergência chinesa se ter iniciado em 1978 com as reformas de Deng Xiaoping e de, desde 2002, a estratégia da China para o petróleo no século XXI estar em concretização acelerada no terreno, os analistas não referem, ainda, este país como um "clone" de Napoleão ou da Alemanha. O exemplo a seguir pode ser o dos próprios Estados Unidos que se mantiveram como "desafiador" na sombra desde o final da sua Guerra Civil (1865) até à Guerra Hispano-Americana de 1898, em que, pela primeira vez, se viraram para o posicionamento externo (Cuba e Filipinas).

    Pelo que Tausch "chuta" a próxima "zona de alto perigo" para a década que se inicia em 2020, de acordo com os trabalhos de investigação do professor Joshua Goldstein, da Universidade de Brown. No entanto, pede "atenção aos sinais do dia-a-dia": a crise iraniana poderá desencadear um efeito dominó às portas da Europa, na Ásia (onde há vários "casos" pendentes) e na América Latina (onde muitos protagonistas querem levantar a voz), adverte. O impacto na Turquia e no futuro da NATO preocupam, em particular, o especialista. O xadrez mundial pode mudar rapidamente, como "ocorreu com as crises do Suez e da Hungria em 1956", recorda.

    Os mais pessimistas crêem, no entanto, que o que ocorreu nos anos 1930 e 1940 do século passado poderá repetir-se ainda nesta década. A imagem que é dada é a de um "Inverno de Kondratieff".

    A doutrina norte-americana definida em 2001 pela Administração Bush do regresso ao recurso ao ataque "pre-entivo" ("preemptive attack") e do uso possível de armas nucleares no teatro de guerra ("Nuclear Posture Review") seriam os sinais deste novo contexto. Algumas faíscas regionais poderão despoletar novas alianças geopolíticas globais e, por efeito dominó, uma nova guerra mundial. Nial Ferguson, um professor de Harvard, brindou os media no início do ano com o prognóstico de uma grande guerra entre 2007 e 2011, que começaria por uma troca nuclear entre Israel e Irão.

    ANEXO

    Datas relevantes nos ciclos longos (desde 1844)
    1. Ciclo de 1844 a 1896
     Fase ascendente:
     1845: Take-off das patentes (EUA); máquina de costura
     1848: Revoluções europeias
     1859: 1º petróleo comercialmente produzido na Pensilvânia (EUA)
     1861-65: Guerra Civil Americana
     Zona de planalto
     Boom do imperialismo
     1871: Proclamação do Império alemão (Bismark)
     1873: crash
     Fase descendente
     1876: telefone (Bell)
     1886: automóvel (Daimler)
     1890: Weltpolitik (Kaiser Guilherme II)
     1896: Made in Germany
    2. Ciclo de 1896 a 1949
     Fase ascendente
     1898: Guerra Hispano-Americana; Reichstag alemão vota a primeira lei naval
     1905: Doutrina alemã do "ataque pre-entivo" (Graf von Schlieffen)
     1905-17: Revolução Russa
     1911: Taylorismo
     1914-1918: Iª Guerra Mundial
     1916: Pico de entrega de patentes nos EUA (por milhão de habitantes)
     Zona de Planalto
     Boom dos anos 20
     1929: Crash
     Fase descendente: ("Inverno de Kondratieff")
     1930: inicio da Grande Depressão
     1933: Hitler chanceler
     1936: Computação (Alan Turing)
     1939-45: IIª Guerra Mundial
     1941: EUA entram na Guerra
     1947: Transístor; Doutrina Truman (EUA)
    3. Ciclo de 1949 a 1980
     Fase ascendente
     1950-53: Guerra da Coreia
     1954: Doutrina do Management
     1956: Crise do Suez e da Hungria
     1961: 1º acto de pirataria aérea
     1962: Crise de Cuba (Kennedy-Krutchov)
     1965-1975: Guerra do Vietname
     1973: Guerra do Yon Kippur (4ª guerra israelo-árabe); 1º choque petrolífero
     1975: 1º computador pessoal (Altair 8800)
     1978: Reformas na China
     1981: 2º Choque petrolífero (Após o desencadear da Guerra Irão/Iraque em
     Setembro de 1980 e que durou até Agosto de 1988)
     Zona de planalto: Boom (1982-2000)
     1989: Muro de Berlim
     1990: World Wide Web
     1990/1: 1ª Guerra do Golfo
     1994: Guerras dos Balcãs
     1996: Declaração de Guerra da Al-Qaida; início da fase de difusão do
     terrorismo internacional
     2000: crash no Nasdaq
     Fase descendente
     2001: Recessão (EUA); Ataque às Torres Gémeas; Intervenção no
     Afeganistão; doutrina nuclear dos EUA
     2002: Estratégia da China para o petróleo
     2003: 2ª Guerra do Golfo; Goldman Sachs lança "BRICs"
     2005: Barril a $50
     2006: Crise do Irão
     Até 2010: 1ª Zona de alto perigo (segundo os pessimistas)
    4. Novo Ciclo de 2010 a 2040 (hipótese de investigação)
     Fase ascendente
     2015: China maior mercado consumidor do mundo
     2020-2030: 2ª Zona de Alto Perigo
     2040: China nº1 no PIB

    3. Crise no Gás pode chegar primeiro na Europa

    Uma crise energética aguda na Europa pode começar por onde menos se espera, por uma escassez no mercado do gás natural, mais cedo inclusive do que um estrangulamento grave com o petróleo nas próximas duas décadas.

    Estudos de Jean Laherrère

    Apesar do pico mundial de produção do petróleo estar mais próximo do que o do gás natural, a situação particular da Europa no caso do gás deve deixar um alerta. A União Europeia caminha para uma situação de dependência quase extrema das importações deste tipo de energia nos próximos vinte e cinco anos e as estatísticas russas sobre as suas reservas remanescentes em gás natural estão, em larga medida, "politizadas".

    "A Europa está a contar demasiado com os ovos da oferta russa, cujas reservas estão largamente sobrestimadas", afirmou, em Évora, o geólogo Jean Laherrère, um ex-quadro da Total, que é um dos impulsionadores da Associação internacional para o Estudo do Pico do Petróleo e do Gás (ASPO), criada em 2001. O especialista acrescentou, ainda, no decurso de um seminário organizado esta semana pelo Centro de Geofísica da Universidade de Évora, que o pico de produção do gás na Rússia, o maior produtor deste tipo de energia, poderá situar-se em meados da próxima década, antes do próprio pico mundial (estimado para 2030).

    Recorde-se que a Rússia dispõe das maiores reservas provadas de gás natural no mundo, o dobro das que disporá o Irão, o segundo neste "ranking". A Rússia é, também, o primeiro produtor mundial e o principal fornecedor da Europa (25% das importações, actualmente). A economia do gás russo está em 93% nas mãos da Gazprom que é detida pelo Estado em 51%, uma empresa que já atingiu uma capitalização de mercado de 269 mil milhões de dólares.

    Da conspiração das estimativas...

    Laherrère clamou contra a conspiração dos políticos, economistas e analistas financeiros que pintam cenários optimistas baseados em estimativas "politizadas" sobre o petróleo e o gás. "Os dados técnicos reais são mantidos confidenciais e os técnicos que têm acesso a eles não podem falar, só depois de reformados", afirmou Laherrère, que, desde os anos 1990, vinha alertando para a proximidade do pico de produção do petróleo convencional, para o fim do crude barato e para os efeitos da geopolítica.

    "As descobertas mundiais no ouro negro, excluindo o petróleo ultrapesado, atingiram o pico nos anos 1960 e a oferta mundial (incluindo todos os líquidos) poderá chegar ao ponto máximo ainda nesta década ou o mais tardar em 2015", referiu o geólogo francês, que admitiu, no entanto, que esse pico se possa estender por "um planalto irregular, cheio de solavancos" por vários anos mais, se ocorrer uma crise económica profunda até 2010 (que afectará, naturalmente, a procura), como anteviu Paul Volcker, um ex-presidente do FED norte-americano.

    O que isso significará em termos de preços do ouro negro será uma situação "totalmente caótica", pelo que Laherrère se recusa a fazer prognósticos em termos do disparo dos preços.

    ... ao mito tecnologista

    O geólogo francês criticou, ainda, o "mito tecnologista", que afirma que os custos de extracção do petróleo estão em constante baixa em virtude da tecnologia: "Os factos dizem o contrário. Há uma forte relação linear entre o preço do petróleo e o custo de perfuração por pé. A partir de 1996 inclusive o custo disparou em virtude da perfuração em águas profundas".

    Contestou, ainda, as afirmações correntes, pouco sérias, que apenas referem o custo operacional (7 dólares por barril em média para as multinacionais petrolíferas), esquecendo "todo o resto" da cadeia de valor. Laherrère apontou alguns valores indicativos do custo actual em termos de "break-even point": 21 a 25 dólares por barril para as multinacionais, e 20 dólares, no caso de países como a Arábia Saudita.

    O seminário serviu também para o lançamento da secção portuguesa da ASPO (na web em www.aspo-portugal.net) dirigida pelo geofísico Rui Namorado Rosa da Universidade de Évora e por Manuel Collares-Pereira, do INETI. Rui Rosa já havia organizado em Maio do ano passado, em Lisboa, o IV workshop internacional sobre o tema do esgotamento do petróleo e do gás.

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