Observatório da Economia Mundial

Nº2 - 1º semestre de 2005

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Editor: Jorge Nascimento Rodrigues
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Sumário:
1. China: Em busca do Barril do ouro negro (A nova geo-estratégia de Beijing)
2. China: Sobre a valorização do Yuan em 2005
3. A Primavera do ouro...
4. ... E o Inverno de Kondratieff
5. A retoma quando vier será coxa ("Paper" científico dá balde de água fria)

1. China: Em busca do Barril do ouro negro

As novas 'Rotas da Seda' passam pela petrodiplomacia de Beijing que levou um empurrão decisivo em 2005

Autor: Jorge Nascimento Rodrigues, Setembro 2005

A par do choque da ultrapassagem do patamar psicológico dos 50 dólares por barril em 1 de Outubro de 2004, a afirmação clara de uma diplomacia do ouro negro por parte da China é o outro facto geo-económico mais relevante dos últimos doze meses. As viagens políticas dos responsáveis de Beijing às "traseiras" dos próprios Estados Unidos procurando selar "parcerias estratégicas" com fornecedores de petróleo, gás e minerais (como os casos mais badalados da Venezuela ou agora com o Canadá) e algumas movimentações das companhias petrolíferas chinesas desmultiplicando-se em acordos de "investimentos mútuos" e tentativas de aquisição (como o caso falhado de compra da Unocal norte-americana nos petróleos ou da Noranda canadiana nos minérios), são sinais de que a geo-política chinesa passou a integrar uma componente muito activa de posicionamento nas rotas e fontes mundiais dos recursos naturais críticos.

O significado dessa viragem estratégica foi, agora, analisado num ensaio de David Zweig, o director do Centro de Relações Internacionais da China na Universidade de Ciência e Tecnologia de Hong Kong. O título é muito explícito: "A caça global à energia por parte da China", e mereceu destaque na revista norte-americana Foreign Affairs, na edição de Setembro/Outubro de 2005. Zweig refere que a China está a atingir um limiar de alerta laranja: desde 2003 que passou a segundo maior consumidor mundial de petróleo, depois dos EUA, representando em Maio deste ano 8,1% do consumo mundial, e a terceiro importador líquido, depois dos EUA e do Japão. O factor de risco interno é o facto das importações líquidas de crude já serem 51% do consumo e as estimativas para daqui a 20 anos apontam que esse grau de dependência poderá chegar aos 77%, ultrapassando o norte-americano e aproximando-se do nível dramático japonês. A dinâmica é, ainda, mais preocupante: nos últimos quatro anos, a China respondeu por 40% do aumento anual da procura mundial.

Geometria variável

Antes de ter de pôr as barbas de molho, Beijing procura acautelar uma diplomacia económica que lhe assegure o acesso às fontes dos recursos em geometria variável. Só até 2004, segundo dados do diário da cidade de Shenzhen (no sul da China), a China terá investido mais de 6 mil milhões em 58 projectos de petróleo e gás no estrangeiro.

O objectivo dos últimos anos tem sido diminuir a dependência global do Médio Oriente (que de 2003 para 2004 baixou de quase seis pontos percentuais) que rondava no final do ano passado os 45%, e a procura de mais abastecimento em zonas como o Cáspio russo ou Angola, no Atlântico Sul (ver quadro), como explica David Zweig. No mesmo sentido, ainda que sem resultados imediatos bombásticos, está a estratégia de abordagem da América Latina - no entanto, a quota do crude importado do Brasil passou de 0,1% para 1,3% de 2003 para 2004 - e do Canadá, particularmente o relacionamento com a estratégica província de Alberta (petróleo, gás e urânio). O presidente Hu Jintao acaba de visitar (Setembro 2005) este país e de acordar uma "parceria estratégica".

A China procura não desenvolver uma política de "desafio directo" à ordem actual, mas explora o que os seus estrategos já definiram como "oportunidades de manobra, ainda que limitadas, derivadas da imagem actual dos EUA"

A China procura não desenvolver uma política de "desafio directo" à ordem actual, mas explora o que os seus estrategos já definiram como "oportunidades de manobra, ainda que limitadas, derivadas da imagem actual dos EUA", como explicou, com toda a simplicidade, Wang Jisi, reitor da Escola de Estudos Internacionais de Beijing, autor de um ensaio de geo-estratégia publicado no muito oficial jornal (Zhongguo Dangzheng Ganbu Luntan) da Escola Central de Quadros do Partido Comunista Chinês.

Esta movimentação poderá ser fonte de conflitos regionais pelo controlo de fontes de recursos ou ao longo de rotas logísticas, se não for "acomodada" pelas outras grande potências, reclama Jisi, ainda que a China não pretenda seguir uma política activa de "mudança de regimes" (como prosseguiu a URSS nos anos 1970 e 1980 e hoje abertamente a Administração norte-americana) e hesite ainda em avançar com uma estratégia naval global.

A petrodiplomacia chinesa tem usado três armas fundamentais: as parcerias estratégicas de Estado a Estado permutando investimentos e abrindo reciprocamente mercados; a estratégia de "go global" das petrolíferas chinesas procurando realizar aquisições cirúrgicas; e os próprios apoios públicos de Beijing a empresas chinesas que invistam numa lista de países e de recursos considerados críticos, definidos pela Comissão Nacional de Desenvolvimento e de Reforma (na Web em http://en.ndrc.gov.ch), a antiga Comissão de Planeamento Estatal.

FACTOS
  • China é desde 2003 o segundo maior consumidor de crude do mundo, depois dos EUA, tendo então ultrapassado o Japão; representa 8,1% do consumo mundial
  • Passou a 3ª importador líquido de crude, depois dos EUA e Japão; importa 13% das importações mundiais liquidas de petróleo
  • Já tem um grau de dependência das importações em 51% do que consome, contra 59% no caso dos EUA e 86% no caso do Japão; a previsão é que atinja os 77% em 2025

  • VIAGENS NO PLANETA
    (movimentos recentes da diplomacia da China)
  • Em Janeiro, um "tour" na América Latina pelo vice-presidente Zeng Qinghong. Muito mediático o acordo estratégico com a Venezuela
  • Em Março, acordos assinados com Angola na área do petróleo entre a Sonangol e a Sinopec
  • Em Abril, a Petrochina e a Enbridge (Canadá) acordaram construir um pipeline para a costa do Pacífico para exportação para a China
  • Em Julho, Petrobras (Brasil) e Sinochem realizam um acordo de venda de petróleo brasileiro que poderá chegar aos mil milhões de dólares por ano
  • Em Agosto, falha a tentativa de compra da Unocal pela CNOOC, mas a Petrochina e a Petroleos de Venezuela assinam um plano de investimentos mútuos
  • Em Setembro, Hu Jintao fala de uma parceria estratégica com o Canadá
  • Quadros

     Geografia das importações de petróleo 
    Cinco principais fornecedores da China em 2004
    (quota na importação em %)
     Arábia Saudita14,0 
     Omã13,3 
     Angola13,2 
     Irão10,8 
     Rússia8,8 

     Principais crescimentos de quota 
    (2003-2004, pontos percentuais ganhos)
     Omã (2º fornecedor)3,1 
     Rússia (5º fornecedor)3,0 
     Angola (3º fornecedor)2,1 
     Brasil (12º fornecedor)1,2 
     Noruega (10º fornecedor)0,6 
     Vietname (7º fornecedor)0,5 
     Fonte: David Zweig

    Consumo Mundial
    1º trimestre de 2005
     Países  Milhões de barris/dia  
    consumidos
    % do consumo 
    mundial
     EUA20,6324,5% 
     China6,838,1% 
     Japão6,057,2% 
     Total mundial84,18100% 

    Importadores Líquidos
    Maio de 2005
     Países Milhões de barris/dia 
    importados
     % da importação 
    mundial
     % do consumo 
    interno
     EUA12,0946%58,6%
     Japão5,220%86%
     China3,513%51%
     Total mundial26,26100%---
     Fonte: www.eia.doe.gov

    Referências

    Ficha sobre a China no campo energético
    www.eia.doe.gov/emeu/cabs/china.html

    Fonte sobre dados mundiais
    www.eia.doe.gov/emeu/international/petroleu.html

    Artigo de David Zweign na Foreign Affairs (volume 84, nº5, Setembro/Outubro 2005): "China's Global Hunt for Energy"
    www.foreignaffairs.org/20050901faessay84503/david-zweig-bi-jianhai/china-s-global-hunt-for-energy.html

    2. China: Sobre a valorização do Yuan em 2005

    "HUOJI, MAN YI DIAN" - É pá, tenham calma!

    Autor: Jorge Nascimento Rodrigues, Agosto 2005

    A 21 de Julho, sem pré-aviso, o Banco Popular da China (BPC) anunciou o fim da indexação da divisa chinesa ao dólar norte-americano e introduziu um sistema mais flexível de gestão de câmbios do yuan/renminbi (a moeda chinesa) tendo em conta um cabaz de divisas, dominado por um grupo de quatro moedas-chave (G4): o dólar (que continuará a ter o maior peso), o euro, o iene japonês e o won sul-coreano.

    Este G4 representa as traves mestras do tripé da especialização internacional chinesa. Ou seja, as suas três dependências fundamentais: da importação de produtos intermédios dos países asiáticos mais desenvolvidos industrialmente (Japão e Coreia do Sul); da compra do petróleo (uma "commodity" denominada em dólares); dos mercados dos Estados Unidos (a China é o primeiro fornecedor) e Europa para a exportação do "made in China". No cabaz de divisas de referência foram, ainda, incluídos os dólares canadiano, australiano e de Singapura, o bath tailandês, a libra esterlina e o ringgit malaio, divisas de outros parceiros comerciais.

    Em simultâneo, o BPC decidiu valorizar o yuan em relação ao dólar apenas em 2,1%, o que se fez notar a partir de 23 de Julho. À data de conclusão deste artigo, a valorização está próxima dos 2,2%. O comportamento em relação ao euro foi em ziguezague até à data, com ligeiras desvalorizações e valorizações. Esta valorização defraudou as expectativas dos especuladores e dos analistas, que esperavam um primeiro passo mais ousado na ordem dos 5%. "Essa seria a intenção do próprio Banco Central", afirma-nos Jim O'Neill, da Goldman Sachs. Mas os políticos chineses quiseram dizer claramente: "Huoji, man yi dian, womei you shiji de pinglu", ou seja (à letra): "É pá, tenham calma, nós temos o nosso próprio ritmo", como nos sublinhou Zhibin Gu, economista e consultor chinês radicado em Shenzhen.

    Os analistas terão de se conformar com esta banda de variação nos 2% - essa é a convicção de Frank-Jurgen Richter, especialista na Ásia baseado em Genebra, e que foi director do World Economic Forum para aquela parte do mundo. Frank afirmou-nos que "a moeda poderá valorizar em mais 2 ou 3% pelo final de 2006, mas é pouco provável que haja outro passo nos próximos seis a nove meses", e acrescentou que este passo se insere numa afirmação geo-estratégica de longo prazo pretendendo colocar a divisa chinesa "como uma moeda mundial de primeiro plano", a ponto dos mercados ficarem suspensos das suas variações. A China espera para ver como decorrerão os anos críticos de 2006 e 2007, altura em que realizará, no Outono, o 17º Congresso do Partido Comunista Chinês, no governo.

    Tratamento com pinças

    Devido à modéstia dos 2,1%, muitos analistas interpretaram a valorização ligeira como um mero sinal político para arrefecer alguns meios norte-americanos. "Não foi, apenas, isso. Implica inúmeros factores económicos, que são tão importantes como os políticos", refere Zhibin Gu. A modéstia da valorização tomou em conta o facto da economia chinesa depender em 70% do comércio internacional, em que a exportação do "made in China" se faz por duas alavancas. Por um lado, pelo complexo industrial das multinacionais estrangeiras (onde está uma fatia significativa de norte-americanas) e das empresas dominadas financeiramente pelos chineses da diáspora, que representou 60% da exportação em 2004, e para quem mexer no câmbio significa tocar nos benefícios da deslocalização. E, por outro, pelas 30 mil pequenas empresas exportadoras de têxteis, brinquedos e outros bens de consumo para as quais 2,1% de valorização significa "comer" uma fatia mais dos magros 3 a 5% que têm de margem. Daí o tratamento com pinças desta matéria cambial.

    «A China dispõe de um sistema bancário em larga medida na bancarrota, muito corrupto, com falta de 'know how' em matéria de crédito e basicamente segurado pelo governo. Uma das razões dos chineses não quererem valorizar excessivamente e rapidamente o yuan é que um movimento desses poderia fazer disparar o colapso do seu sistema bancário».

    Mesmo com esta banda de 2% de mexida no câmbio, espera-se que 50% deste pequeno tecido privado de exportadores desapareça. Frank-Jurgen refere, no entanto, que isso não vai significar um "alívio" para os industriais norte-americanos desses sectores e uma melhoria no défice comercial dos EUA - os importadores e os consumidores norte-americanos irão preencher esse "vazio" chinês com compras de produtos da América Central, de outros países da Ásia e da Europa de Leste. "O resto é areia para os olhos. Os americanos comprarão barato de outros lados", conclui.

    Há ainda outra razão para a "calma" chinesa - preservar o seu sistema financeiro de um choque devastador. A opinião é do analista David Chapman: "A China dispõe de um sistema bancário em larga medida na bancarrota, muito corrupto, com falta de 'know how' em matéria de crédito e basicamente segurado pelo governo. A banca alimentou uma verdadeira 'bolha' de investimento na China, que chegará a um pico mais tarde ou mais cedo. Uma das razões dos chineses não quererem valorizar excessivamente e rapidamente o yuan é que um movimento desses poderia fazer disparar o colapso do seu sistema bancário".

    Maior liquidez

    No entanto, esta valorização, ainda que curta, terá um efeito real no aumento da liquidez em dólares por parte dos investidores chineses (incluindo as grandes companhias estatais) e na valorização dos activos chineses denominados domesticamente em yuan, mas reportados em dólares nos mercados internacionais, particularmente para as empresas de "hi-tech". Esta maior liquidez em dólares vai significar a intensificação da estratégia do "go global" prosseguida pelas companhias estatais e privadas chinesas. Frank-Jurgen refere que o mercado de fusões e aquisições mundial vai ficar ainda mais animado e que as entradas em bolsa (IPO) sobretudo nos Estados Unidos, Hong Kong e Singapura se vão intensificar. A "loucura" no Nasdaq com as start-ups chinesas é já bem visível. "Falta a atracção pela Europa", comenta Zhibin Gu, para quem os europeus terão de fazer mais para atrair os capitais chineses.

    3. Da Primavera do Ouro...

    Porque razão sobre o preço do metal amarelo. Porque você deve comprar e não vender.

    Quando o clima nas bolsas de acções e na economia real é de "Inverno", os metais preciosos ascendem ao pódio de último refúgio de investimento. O Ouro poderá atingir os 500 dólares a onça no final de 2005.

    Autor: Jorge Nascimento Rodrigues, Setembro 2005

    A procura de ouro para joalharia, aplicações industriais e investimento em activos no metal amarelo está ao rubro. O segundo trimestre deste ano viu um crescimento de 14% na procura global em toneladas, em relação a período homologo, impulsionada pelos países emergentes asiáticos (Índia e China) e pelos petrodólares do Médio Oriente, segundo o World Gold Councial (www.gold.org). Os maiores crescimentos percentuais em tonelagem deram-se em aplicações em medalhas (68%) e entesouramento em barras (28%). As compras do metal para joalharia teriam atingido um pico em valor anualizado, em relação aos últimos vinte anos - quase 39 mil milhões de dólares entre Junho de 2004 e Junho de 2005. A época dos casamentos na Índia (o país maior consumidor deste metal no mundo) continua a puxar a procura mundial em 2005 e uma das novas modas em Singapura é o ouro púrpura, uma combinação com paládio e alumínio inventada e patenteada pelo Politécnico local. Até o mundo dos animais de estimação foi invadido pela moda das coleiras em ouro.

    Por detrás destes factos, estão as "leis" da economia. Em tempo de "Inverno de Kondratieff" (ver artigo seguinte), com as bolsas em período do "urso", a divisa-chave mundial actual (o dólar) em rota de desvalorização, as taxas de juro ainda não apetitosas para aplicações que se "alimentem" delas, o ouro e outros metais preciosos assumem o seu papel de último refúgio psicológico. A actual "Primavera do Ouro" viu a onça deste metal subir dos 255 dólares - o ponto mais baixo em 2000 - para os actuais 450. Estimativas dos analistas independentes da GFMS inglesa (www.gfms.co.uk), apontam para um patamar de 500 dólares ainda este ano.

    Os investigadores destes ciclos do ouro descobriram, empiricamente, algumas "leis de ferro", como a relação invertida entre a alta do ouro e a baixa nas bolsas (o tal período de "urso") e a correlação positiva, através de um multiplicador, entre a alta do petróleo (a actual energia dominante) e o ouro. O analista holandês Eric Hommelberg, editor do sítio www.golddrivers.com, criou inclusive alguns indicadores, baseados num histórico dos últimos trinta e cinco anos. Verificou que a onça do metal amarelo já deveria estar acima dos 550 dólares, se não estivessem a ocorrer "anomalias" na relação livre entre a oferta e a procura (ver caixa). Por seu lado, o multiplicador em relação ao preço do barril de petróleo apontaria para a onça na casa dos 900 dólares.

    O patamar dos 1000 dólares

    Prognostica que veremos uma evolução similar ao período de "urso" do Dow Jones norte-americano entre 1968 e 1980, em que a onça de ouro disparou, em termos nominais, dos 35 dólares para um pico de 850 em 21 de Janeiro de 1980 (em valor actual, na ordem dos 1600). Baseado neste histórico, Eric estimou a possibilidade de se chegar "a um patamar de 1000 dólares a onça, o que, ainda, ficaria longe do pico, corrigido da inflação, atingido em 1980". É, por isso, em termos de investimento, uma época de compra e não de venda, com o objectivo de "robustecer o seu portfólio de investimento", recomenda Eric Hommelberg.

    Manipulação do mercado
    O bloqueio a uma subida mais rápida do preço do ouro é explicado por "manipulação" temporária dos mercados, como se alega estar a haver nas bolsas de acções dos Estados Unidos por meio de um secreto Plunge Protection Team e nos "spots" do ouro por acção de diversos actores.
    Uma acção transparente de intervenção directa no mercado, pelo lado da oferta, tem sido levada a cabo através de um acordo entre o Banco Central Europeu e 14 outros bancos europeus. Os bancos centrais na Europa (incluindo o Banco de Portugal), como é conhecido, têm vindo, nos últimos cinco anos a proceder a vendas anuais que totalizaram, entre Setembro de 1999 e Setembro de 2004, duas mil toneladas de ouro. Novo acordo quinquenal foi celebrado para um total de 2500 toneladas até Setembro de 2009.
    A média anual destas vendas rondará, agora, as 500 toneladas, procurando tapar um "buraco" entre a oferta e a procura que andará nas 560 toneladas. No último balanço realizado pelo World Gold Councial, os principais países vendedores de reservas de ouro, nos últimos doze meses, foram a Suíça, França, Holanda e Portugal.
    Menos transparente será a acção de um alegado cartel nos EUA, apontado a dedo pelo GATA (Gold Anti-Trust Action, na web em www.gata.org). O BIS (Bank for International Settlements), a Reserva Federal, o Tesouro e o Fundo de Estabilização norte-americanos não assinaram o Acordo de transparência proposto pelo Banco Central Europeu.
    Também continuam fora do próprio Acordo europeu, os "swaps" (operação financeira de 'troca' de ouro por moeda nacional) e as operações de depósito em ouro, o que deixa grande margem de actuação aos bancos centrais para intervirem no mercado do ouro, "amarrando" o preço da onça.

    4. ... Ao Inverno de Kondratieff

    Petróleo "fabrica" Grande Depressão

    Preço do barril poderá fechar 2005 com um valor médio anual superior em 20 dólares ao preço médio de 2004. É esperada uma correcção em baixa de quase 1 ponto percentual na taxa de crescimento dos países da OCDE. A continuar a escalada, caminhamos para um Grande Depressão em 2006 ou 2007.

    Autor: Jorge Nascimento Rodrigues, Agosto 2005

    A economia mundial está "grávida" de uma Segunda Grande Depressão. Esse tipo de períodos são designados pelos economistas dos ciclos longos de "Inverno de Kondratieff". O disparo dos preços do barril de petróleo, que poderão chegar aos 100 dólares nos próximos dois anos, poderá ser o rastilho para uma crise financeira sem precedente alimentada pelo nível colossal de dívida mal parada. Em apenas cinco anos, os preços do barril do ouro negro mais do que duplicaram. "Este disparo provavelmente vai desencadear uma profunda e prolongada depressão - historicamente, a Segunda Grande Depressão", afirmou-nos Colin Campbell, fundador e presidente honorário da ASPO-Associação para o Estudo do Pico do Petróleo. Só com uma depressão profunda nos próximos anos, a procura será "moderada" significativamente, "podendo os preços então regressar a um patamar dos 20-30 dólares por barril de crude", acrescenta este especialista mundial.

    «Os especuladores e os conflitos políticos não são a causa primeira da alta, mas sim o inexorável esgotamento deste recurso imposto pela Natureza».

    Mesmo, assim, não será um regresso ao petróleo barato, pois como sublinha Campbell "chegámos ao final da primeira metade da Era do Petróleo, que foi caracterizada por uma produção crescente; estamos no dealbar da segunda metade, que será claramente marcada por um declínio da produção". "Será uma discontinuidade de uma magnitude sem paralelo", adverte o fundador desta associação internacional que tem chamado à atenção para a razão estrutural da actual "exuberância irracional" dos preços. "Os especuladores e os conflitos políticos não são a causa primeira da alta, mas sim o inexorável esgotamento deste recurso imposto pela Natureza", conclui este irlandês. Essa é a diferença de fundo com os anteriores "choques" petrolíferos dos anos 1970 e 1980.

    A chamada de atenção para esta nova situação foi feita, desde há alguns anos, por Ali Samsam Bakthiari, o especialista de Teerão que em Abril do ano passado (2004) prognosticou que estaria para breve a ultrapassagem da barreira psicológica dos 50 dólares por barril - o que viria a ocorrer a 1 de Outubro desse ano. O modelo de simulação do iraniano prevê que "o máximo histórico de produção mundial do crude se situe entre 2006 e 2007".

    Anos críticos

    "A consciência desse declínio tem-se generalizado a ponto dos bancos mundiais de referência e das próprias multinacionais do petróleo terem começado a chamar a atenção para o problema, como nunca o tinham feito", afirma Rui Rosa, o animador da ASPO em Portugal, director do Centro de Geofísica da Universidade de Évora. Dois artigos de referência do Financial Times (FT) deste mês - a 5 e a 16 de Agosto (2005) - são muito explícitos. No princípio do mês, o FT anunciava que as principais petrolíferas iniciaram campanhas de publicidade sobre o fim da "era do petróleo fácil". Esta semana (de Agosto, 2005), o jornal britânico referia que bancos internacionais iniciaram "briefings" com os seus principais clientes sobre o tema.

    Os anos de 2006 e 2007 são críticos, caso o actual "espigão" dos preços - a forma como a Goldman Sachs baptizou o choque petrolífero em curso - continue a escalada. A média anual de 2005 poderá situar-se nos 60 dólares, representando um aumento de quase 20 dólares em relação ao valor médio do ano passado, o que significará um impacto negativo de quase 1 ponto percentual na taxa de crescimento do PIB dos países da OCDE. A revista norte-americana Forbes alertou em Abril para uma depressão "provável nos próximos 12 a 18 meses" nos Estados Unidos.

    Por seu lado, Scott B. MacDonald, editor da KWR International Advisor, de Nova Iorque, refere que, em 2006, a Europa poderá ver esgotada a almofada que tem tido para resistir à alta do crude, em virtude da valorização do euro em relação ao dólar (divisa em que é cotada esta "commodity"). "A Europa poderá ser atingida por uma convergência de más tendências - preços incomportáveis do crude e falhanço nas reformas económicas e sociais", sublinhou este director da Aladdin Capital Management.

    Faíscas constantes

    Naturalmente que a situação estrutural - oferta declinante face ao disparo da procura, gerado pelo factor China e Índia - é constantemente incendiada por faíscas derivadas de problemas da infra-estrutura da indústria petrolífera, do clima e da geo-política.

    MacDonald sublinha que a capacidade global de refinação utilizada está em 95% (nos EUA chega aos 98%), vinte pontos percentuais acima do nível dos anos 1980, e no limite da sustentabilidade: "O que significa que as refinarias actuais estão em total estresse, muitas delas tendo de parar para fazer reparações. Desde 20 de Julho já houve 14 paragens". Os furacões do Golfo do México também não têm ajudado o complexo petrolífero norte-americano e mexicano.

    A geo-política é, no entanto, o isqueiro mais mediático. O barril é altamente sensível ao que se passa no mundo, em particular nas regiões produtoras/exportadoras de crude, na esmagadora maioria dos sítios com grande instabilidade política e mesmo guerras. "O petróleo é uma 'commodity' política. Isso tem sido muito claro nos últimos dois anos. E não se vislumbra que isso se vá alterar", conclui Scott MacDonald.

    Quadros

    O disparo do preço do barril
    (médias anuais e semestrais em valores nominais
     do petróleo "spot" WTI, em dólares EUA, entre 1998 e 2005) 
     199814,41 
     199919,24 
     200030,29 
     200125,08 
     200226,05 
     200331,00 
     200441,43 
     2004 (1º semestre)36,78 
     2005 (1º semestre)51,35 
    Dados mais recentes
     Julho 200440,82 
     Julho 200558,67 
     Agosto 2005 (1ª quinzena)65,60 
     Fonte: www.tax.state.ak.us
     WTI=West Texas Intermediate, crude norte-americano
     de referência, médias mensais e valores diários

    Estimativas de consumo do petróleo
    (milhões de barris por dia)
     AnosMundoEUAZona EuroJapãoChina
     200584,320,111,95,77,1
     201095,420,812,45.913,3
     2015107,921,512,96,225,1
     Fonte: Patrick Artus e Moncef Kaabi, Estimativas do IXIS-CIB,
     Abril 2005

    Ouro negro a 380 dólares!
    Um estudo francês que vale a pena ter em conta
    O cenário de um barril de petróleo a 380 dólares daqui a uma década caiu como uma bomba entre os analistas europeus. O crude poderá atingir em 2015 um preço nominal 7 a 8 vezes mais caro do que o verificado nestes primeiros meses de 2005, segundo um estudo do IXIS, uma banco de investimento do grupo francês Caisse d'Épargne.
    Os cálculos são feitos a partir de uma extrapolação sobre o consumo mundial de petróleo, que poderá subir dos 84 milhões de barris diários para os 107,9 milhões, verificando-se um crescimento em todas as regiões do mundo, mas claramente mais acentuado no caso da China - que mais do que triplicará e se tornará o primeiro sorvedouro de crude do mundo. Esse consumo em 2015, segundo as projecções econométricas da IXIS, será 8% superior à capacidade de produção estimada (que deverá rondar não mais de 100 milhões de barris por dia, mesmo tendo em conta as novas jazidas descobertas em África e no Cáucaso).
    Ora, o raciocínio proposto pelo estudo, é que, para "neutralizar" esse défice futuro de 8%, será necessário aumentar o preço do petróleo progressivamente. O valor então obtido foi corrigido em alta por uma inflação anual de 2,5% nos Estados Unidos.
    Assinado pelos analistas Patrick Artus e Moncef Kaabi, o estudo sublinha que "os observadores e as instituições internacionais avançam com hipóteses muito conservadoras quanto ao preço do barril nos próximos dez anos, situando-o entre os 30 e os 40 dólares", estimativas que são classificadas de "insensatas". A "insensatez" deriva do facto das instituições oficiais desvalorizarem dois factos que funcionam como duas lâminas da tesoura - por um lado, a capacidade de produção mundial do petróleo bruto não deverá ultrapassar os 100 milhões de barris diários em 2015, e por outro a procura do crude desde 2002 revela, de novo, uma elasticidade mais elevada em relação ao PIB, ou seja por cada unidade produzida o consumo de petróleo aumentou. O estudo considera as energias de substituição, mas relativiza o seu contributo, considerado "ainda insuficiente" para contrariar as tendências. O erro oficial estaria em exagerar o papel da especulação actual e não reconhecer "o enquadramento fundamental do mercado", salienta o estudo.
    O estudo da IXIS não prevê uma crise nos emergentes (como ocorreu em 1998), que poderia "moderar" à força o consumo. "No nosso cenário não há de facto essa hipótese de crise eventual nos emergentes. O nosso objectivo foi dar um sinal de alarme se nada for feito. Sem dúvida que uma crise nos emergentes poderá adiar o problema por alguns anos", explicaram os autores.
    Inversão em 2002
    Segundo este estudo, o consumo mundial de petróleo acelerou fortemente desde final de 2002. Teria ocorrido uma inversão do comportamento da elasticidade da procura em relação ao PIB - depois de um período entre 1978 e 2002 em que o consumo do petróleo cresceu menos do que o PIB, a partir de 2002 estaríamos a assistir a um comportamento similar ao ocorrido entre 1960 e 1973. O principal impulsionador dessa inversão foi a China, onde o consumo de energia está a crescer muito acima do PIB desde 2002 - cerca de 9% ao ano no produto contra 13,5% ao ano no consumo de petróleo. Mas, garantem os dois analistas, "o comportamento da Índia, do Brasil e dos outros países emergentes também é tido em conta".
    O estudo não crê que a China vá inverter este comportamento. Este país reúne duas características, sublinha o estudo: a intensidade energética por unidade produzida vai continuar a ser elevada no actual período de crescimento e o consumo de energia por habitante tem ainda uma larga margem para subir, com o disparo do consumismo e a emergência de uma vasta classe média.

    5. Retoma Coxa

    Quando vier pode ser um balde de água fria

    Autor: Jorge Nascimento Rodrigues, Setembro 2005

    Um artigo de investigação económica publicado agora por duas especialistas do Fundo Monetário Internacional (FMI) é pouco animador sobre o comportamento típico das retomas económicas, tanto em países ricos, como pobres ou de desenvolvimento intermédio, após os períodos de recessão e depressão desde os anos 1970. Valerie Cerra e Sweta Chaman Saxena descobriram que "regra geral, o nível de PIB perdido durante o período de recessão e depressão não é recuperado". Em suma, o PIB retoma o crescimento mas abaixo da tendência anterior à crise. O que significa que o produto "destruído criativamente" (diria Joseph Schumpeter) é, em larga medida, perdido para sempre. Particularmente preocupante é o facto deste comportamento se acentuar no período posterior a 1990. A miragem política de uma retoma fulgurante não foi empiricamente verificada nos últimos 30 anos. "Os custos em termos de bem-estar são permanentes, e não temporários", alegam as duas investigadoras, nomeadamente se as razões foram crises financeiras, guerras civis ou mudanças de regime.

    Em virtude deste padrão de retomas coxas, Cerra e Saxena intitulam sugestivamente o seu artigo de "Dinâmica de Crescimento: O Mito da Retoma Económica" (FMI, "Working Paper", nº 5/149), discordando abertamente do modelo de retoma em "V" acentuado defendida desde 1993 por Milton Friedman, num artigo que escreveu para o jornal Economic Inquiry (edição de Abril). As conclusões "pessimistas" baseiam-se no estudo dos ciclos de negócio ocorridos entre 1960 e 2001 em 192 países constantes do banco de dados do Banco Mundial (BM) e em 154 países do banco de dados do Penn World Tables (do Center for International Comparisons, da Universidade de Pennsylvania). O BM contém 469 pares de recessões e expansões e o Penn tem 747, desde 1960. O artigo das duas investigadoras verificou, à escala global, o que, em Março último, Ricardo Caballero e Mohamad Hammour haviam descoberto para os ciclos de negócio da indústria transformadora dos Estados Unidos.

    O leitor interrogar-se-á, agora, em que medida toda esta conversa de investigação nos interessa. A resposta está nos gráficos - Portugal é um dos países da OCDE incluído no estudo, que sofreu uma crise nos anos 1990 e que ilustra o padrão geral referido. Numa comparação com a Finlândia - que também sofreu uma crise nos anos 1990 -, verificamos que nos país nórdico a recessão foi mais acentuada, mas a retoma divergiu menos da tendência anterior à crise. Em Portugal, como é visível, a recessão foi mais "suave", mas a divergência no período de retoma acentuou-se no final do século.

    O estudo alerta, ainda, para o facto de que países em que os choques recessivos se repetem em curtos espaços de tempo, correm o risco da tendência para a divergência se acentuar, e se tornar endémica.


    © Gurusonline.tv, janelanaweb.com, 2005

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