Observatório da Economia Mundial

Nº1 - 1º semestre de 2004

Made by Gurusonline.tv e Janelanaweb.com
Editor: Jorge Nascimento Rodrigues
© Adventus Group

Sumário:
1. As Dores da Actual Retoma
2. Ideias-Chave sobre o Petróleo, a commodity geo-política
3. Gestão de Risco vai disparar
4. Bolsas: O Urso ainda não foi de férias

1. As Dores da Actual Retoma

A retoma económica internacional ainda não é consistente e está a ser perturbada pela geo-política. A política internacional da Administração Bush e o comportamento dos preços do petróleo são os protagonistas mais visíveis desta perturbação. Em termos de tendência histórica de crescimento poderemos estar ainda a meio de uma transição para um novo ciclo. Vivemos uma década em que a depressão e o seu cortejo de efeitos sociais e empresariais continuarão a sentir-se, e em que as surpresas geo-políticas poderão acontecer. A luz ao fundo do túnel ocorrerá de uma vaga de inovações tecnológicas e sociais que desaguará num ponto de viragem.

10 P&R

A crise já acabou na "locomotiva" actual, nos Estados Unidos?
No sentido estrito do termo, sim. Mas o período de depressão que se lhe segue ainda não terminou. O fim do último ciclo de 10 anos de crescimento económico nos Estados Unidos foi "decretado" em Março de 2001, o mês do ponto de viragem. A recessão que se seguiu terá durado oito meses, até Novembro desse mesmo ano, segundo o National Bureau of Economic Research (NBER), o organismo que "decreta" as crises e as retomas nos EUA, a partir da determinação de um mínimo de dois trimestres de contracção da taxa de crescimento. Segundo outro organismo americano, o Economic Cycle Research Institute (ECRI), esse período de recessão teria sido mais longo na Europa e nos países desenvolvidos da Ásia. Em termos técnicos, a crise é o ponto de viragem de um ciclo económico de média duração (o que os americanos chamam de "ciclo de negócios"), a que se segue um período de recessão visível, por exemplo, na regressão da taxa de crescimento. Mas até à retoma há um período mais ou menos longo de depressão, onde os efeitos da contracção anterior se fazem sentir a nível do tecido empresarial e social e da psicologia dos agentes económicos. Por exemplo, as análises empíricas realizadas pelo ECRI, baseadas num indicador diferente do do NBER, mostram que a economia americana parou de descer, de facto, nos finais de 2001, mas, contudo, verifica-se, ainda, um período descendente no ciclo de taxas de crescimento (o indicador usado pelo ECRI) entre meados de 2002 e o primeiro trimestre de 2003.

Há sinais de retoma?
A identificação do ponto de viragem para um período de crescimento dos indicadores fundamentais pode ser feita de um modo simples - identificação do fim da recessão técnica, como o faz o NBER - ou de um modo mais complexo, através da observação de uma bateria de outros indicadores. A sincronização das curvas de crescimento do PIB em termos reais (e não nominais, como habitualmente se faz) dos principais actores mundiais (EUA, Europa, Japão, Países Emergentes, Países Industrializados) é um dos sinais de alerta. Na abordagem mais simples, os EUA já teriam atingido o ponto mais baixo do ciclo económico em finais de 2001 e a Europa e a Ásia desenvolvida no início de 2002. Numa análise mais complexa, depois de uma sincronização das curvas de crescimento real em 2003, a situação alterou-se para pior em 2004, segundo as projecções recentes do FMI. A retoma mundial no ciclo de negócios, desse ponto de vista, ainda não é visível.

Poderemos prever esse ponto de retoma no ciclo de negócios?
Alguns factores têm baralhado as projecções desse ponto de viragem no ciclo de negócios. Um aumento médio dos preços nominais do barril de crude em 5 dólares durante 12 meses poderá cortar uma fatia de 0,3 pontos percentuais na taxa do PIB mundial, segundo o FMI. A alta continuada dos preços do crude - e o risco de um terceiro choque petrolífero, mais grave do que o "mini-choque" da greve na Venezuela em 2003 - pode provocar também situações de colapso de consumo (em termos técnicos, quebra anual de 2%) no mundo desenvolvido ou mesmo, mais grave, de crise do consumo (quebra anual de 4%). Por exemplo, Portugal sofreu colapsos do consumo em 1988 e 1993. A repetição de situações deste tipo atrasará a chegada do ponto de viragem.

Deverão as taxas de juro continuar a descer para estimular a retoma?
Os estímulos económicos por via da gestão da taxa de juro de curto prazo foram levados ao extremo pelo presidente da Reserva Federal (FED) dos EUA, Alan Greenspan, particularmente desde 1998. Segundo os analistas, os cortes sucessivos nas taxas de juro permitiram continuar até Março de 2001 o período de crescimento, e criaram uma janela de oportunidade para a Nova Economia até a recessão ter rebentado. Depois da crise declarada, as taxas de juro continuaram a descer para estimular a retoma da economia norte-americana. Em 22 anos, nunca as taxas de juro de curto prazo (real FED funds rate for short-term US interest rates) estiveram tão baixas em termos reais (ou seja, corrigidas as taxas nominais pela inflação), segundo um estudo recente do FMI (IMF Survey, edição de 12 de Abril de 2004, pág.108). Desde 2002 que são negativas em termos reais (ou seja, o contraente do empréstimo paga menos do que pede emprestado). E, apesar destes estímulos extremos, os resultados não são concludentes. A experiência similar do Japão na gestão de taxas de juro (negativas) na última década já mostrou que não é alavanca de retoma. Por isso, é hoje concensual afirmar-se que o FED irá inverter a política. A janelanaweb.com apresentou a necessidade de mudança de política no âmbito das taxas de juro, com base nos pontos de vista de analistas independentes no Verão de 2002. É, contudo, relativamente assente entre os analistas independentes que o regresso às taxas de juro dos anos 80 está ainda longe.

Há alguma semelhança com a Depressão dos anos 30?
Essas semelhanças têm sido recordadas, pois a depressão actual segue-se a um período de crescimento com deflação (preços em queda). O longo período de recessão e depressão de 1929 a 1954 seguiu-se, também, a um período de crescimento com deflação até 1929. Mas mais importante do que este "comportamento" histórico do indicador dos preços de produção, são as semelhanças em termos de posição no ciclo económico longo, designado pelo nome do seu autor, o economista russo Kondratieff. Este ciclo longo (entre 40 a 60 anos) é distinto do ciclo de negócios de médio prazo (entre 40 meses e 10 anos, consoante os autores de referência) a que nos referimos anteriormente.

Em que ponto desse ciclo longo estamos?
Segundo os estudos do especialista Michael Alexander, estamos ainda a meio de um período de transição desde a crise de 2001 até um ponto de viragem para uma tendência de crescimento sustentado, como aconteceu entre 1954 e 1981 (os célebres "30 gloriosos anos") ou, anteriormente, entre 1897 e 1918. O que tecnicamente se designa por período extremamente perigoso de "redemoinho" ainda não foi atingido nesta ponta final do actual ciclo longo que ficou marcado pela revolução da computação desde que em 1947 se demonstrou cientificamente o efeito do transístor. O "redemoinho" nos anos 30 do século passado coincidiu com um período difícil de depressão e com o abrir de portas para grandes mutações geo-políticas. A história não se repete, mas o padrão do ciclo económico mostra semelhanças.

A Nova Economia não foi o ponto de viragem para um novo ciclo?
Segundo alguns autores teria sido. Para esses analistas, a Web comercial (1994/95) desempenhou o papel de alavanca, e para outros teria sido a descodificação do cromossoma 22 do genoma humano em 1999. Mas o "crash" bolsista de 2000 e a recessão de 2001 levaram os analistas a considerar que se tratou de um "solavanco" temporário que, apenas, atrasou a queda por uns anos. Os estudos de Mike Alexander adiam esse ponto de viragem por mais uns anos nesta primeira década do século XXI. Os mais optimistas colocam, agora, as esperanças nos feitos da clonagem humana reprodutiva ou na investigação espacial longínqua. Mas, tal, como em 1947 poucos se aperceberam, na altura, do alcance da demonstração científica do efeito do transístor, também, agora, a história nos apanhará de surpresa.

Que oportunidades se abrem nesta década de transição?
Apesar desta provável década de depressão estrutural (em termos do ciclo longo), muitas oportunidades estratégicas se irão desenrolar. O ciclo de negócios de médio prazo retomará o crescimento mais tarde ou mais cedo, ainda que abaixo da tendência das décadas anteriores - recorde-se que, no período de depressão estrutural, entre 1929 e 1954, o PIB cresceu 2% em média, no caso dos EUA. Poderá ocorrer, também, uma nova "clusterização" de descobertas científicas e de inovações técnicas e de gestão, como aconteceu entre 1936 e 1947, que abrirão oportunidades económicas ainda hoje imprevisíveis.

A alta está de regresso à bolsa?
Depois do "crash" do ano 2000, muitos analistas procuraram vislumbrar em episódios pontuais o regresso de um período de euforia bolsista. Os estudos do especialista francês Didier Sornette (ver ponto 4) mostram que continuamos a assistir a um período de correcção que se estenderá provavelmente até 2005, com oportunidades pontuais de especulação. Robert Shiller, o americano que alertou para a "exuberância irracional" da bolha da Nova Economia, tem continuado a chamar a atenção para o multiplicador ainda muito elevado das valorizações em bolsa - o famoso P/E (price to earnings) ronda os 28, quando a média histórica deste rácio é 15 (em declarações recentes ao Survey do Fundo Monetário Internacional - IMF Survey, 12 de Abril de 2004, pág.111). Um ponto de viragem para um período "bullish" só ocorrerá quando houver um catalisador, tal como aconteceu em 1995 com a Web comercial.

O desemprego irá baixar?
Uma das constatações actuais é que o crescimento tem sido feito sem criação líquida de emprego e com o aumento desmesurado do desemprego estrutural. Os analistas alcunham-na de "retoma sem emprego" (jobless recovery, em inglês). O crescimento tem sido alimentado pelo aumento da produtividade, através do uso da capacidade por utilizar e do recurso ao "outsourcing" e "offshoring" em proporções cada vez maiores. O problema do desemprego estrutural é particularmente grave em sete países europeus, a começar por dois dos "milagres" económicos dos últimos anos - Espanha e Finlândia.

2. Ideias-Chave Sobre o Petróleo
A commodity geo-política

George Bush ganhou mais uma dor de cabeça - o preço do galão de gasolina nos Estados Unidos para Junho de 2004 poderá chegar aos 2,03 dólares, segundo a última estimativa oficial do Departamento de Energia norte-americano.

O impacto desta prenda no início de férias dos americanos não é bom para as sondagens. E para a economia mundial ainda pior. O preço do crude no mercado norte-americano já ultrapassou em Maio de 2004 os 41 dólares por barril e no mercado "spot" do Brent europeu os 38.

As previsões do Departamento de Energia dos EUA apontam para uma média anual do crude no mercado norte-americano na faixa dos 36-37 dólares por barril, quase dez dólares mais do que a média em 2003. O presidente da OPEP em exercício já referiu que a banda de variação para a intervenção no mercado poderá subir dos actuais 22/28 dólares para os 32/34. Ou seja, a OPEP anuncia que sobe o patamar político do poder do crude.

As previsões do Departamento de Energia dos EUA apontam para uma média anual do crude no mercado norte-americano na faixa dos 36-37 dólares por barril.

A factura deste aumento anual afectará o PIB mundial em 0,5% e o dos países ricos da OCDE em 0,4%. As dores da retoma vão, por isso, acentuar-se com esta efervescência no mercado do ouro negro.

Os analistas começam a interrogar-se sobre a possibilidade de um terceiro choque petrolífero (se ignorarmos o mini-choque provocado pela greve na Venezuela). Há três anos, a Shell aventava, como um dos cenários possíveis, um choque petrolífero em 2006, se a fragmentação política se acentuasse. Poderá ter acontecido que a mão invisível do crude resolveu antecipar o golpe. Contudo, há, ainda, alguma margem de manobra - os preços reais do choque de 1979-81 chegaram próximo dos 50/60 dólares actuais.

5 FRASES FUNDAMENTAIS

1. Choque do futuro
O próximo choque petrolífero (com preços na banda dos 50 dólares) poderá ocorrer nos dois próximos anos, caso o cenário de fragmentação política se acentue, diz um dos cenários apresentados pela Shell em finais de 2001. Caso uma evolução mais "benigna" da globalização volte a dominar, o choque petrolífero poderá ser diferido de uma década, para 2015, segundo o segundo cenário da Shell.

2. Choque diferido
A verdadeira alta de preços do barril de crude ocorre em geral dois a três anos depois da viragem inicial para a alta de preços. Este comportamento em diferido é particularmente visível no pós-choque petrolífero de 1979 (quando o barril passou para cerca de 6 dólares). O disparo recorde de preços ocorreu em 1981-1982 com o barril a mais de 30 dólares (equivalente a 50 dólares actuais), cinco vezes superior ao preço de 1979.

3. "Commodity" política
O crude deixou de ser uma "commodity" (a designação técnica dos mercados para este tipo de mercadorias) na acepção puramente económica. Passou a ser um activo geo-estratégico, cujo objectivo central para as principias potências mundiais é "capturar e controlar". A caminhada histórica deste mudança de natureza levou trinta anos, desde a primeira decisão política de embargo decretada pela OPEP em 1973, que ficou conhecida como o primeiro choque petrolífero. O petróleo como poder foi já formulado por analistas da geo-estratégia.

4. Custo dos choques
O maior impacto líquido acumulado após seis meses sobre a viragem de preço (vulgo "choque petrolífero") deu-se com o designado segundo choque petrolífero em que se juntou, num curto período, a revolução no Irão em 1978 e a Guerra Irão-Iraque em 1980, em que se perderam 450 milhões de barris. Seguiu-se-lhe o primeiro choque petrolífero na sequência do embargo da OPEP em Outubro de 1973 com 400 milhões de barris perdidos. Os analistas falam de um "mini" choque petrolífero em 2003 com a greve na Venezuela (4º exportador mundial) que implicou a perca de 250 milhões de barris, duas vezes e meia superior ao impacto da Guerra do Golfo de 1990-1991.

5. Pico de produção mundial
O pico de produção do petróleo à escala mundial foi atingido no ano 2000 e o Golfo Pérsico - o principal baluarte de reservas - atingirá esse pico em 2014. O contexto estrutural do lado da oferta alterou-se, por isso, radicalmente. Em 2050 a produção mundial será 1/3 da actual e na década de 20 a oferta mundial cairá mais de 20% em relação a 2010. O impacto deste "cansaço" será mais agudo em três espaços geo-económicos: Europa e América do Norte onde a produção de petróleo convencional cairá mais de 40% na década de 20 e mais de 80% na década de 50; e no espaço euro-asiático (Rússia, Bacia do Cáspio e China) em que as quebras serão respectivamente de 35% e 73%. (ver também pico de produção mundial)

10 PONTOS SOGRE GEO-ECONOMIA

1. Reservas
As reservas "provadas" de petróleo com hipótese de continuar a manter o ouro negro como galinha dos ovos de ouro até 2040, situam-se em 80% na OPEP e em particular nos 5 magníficos do Golfo Pérsico (Arábia Saudita, Iraque, Emiratos Árabes Unidos, Irão, Kuwait) que detém 63%. A Arábia Saudita lidera com 25% das reservas e o Iraque vem em 2º lugar com 11%

2. Guerras geo-económicas
Se juntarmos os 10 países onde não ocorreu ainda o pico de produção do petróleo e os 10 em que há ainda um potencial de exploração de novos campos, destacam-se três espaços geo-económicos - Golfo Arábico (37% do potencial, com o Iraque à cabeça), Rússia e Bacia do Cáspio (15%) e Golfo do México, Caraíbas e costa sul-americana do Pacífico (7%, com a Venezuela à cabeça). O risco de conflitos nestas regiões por razões geo-económicas aumentará.

3. EUA
É o maior produtor mundial (9 milhões de barris por dia), mas também o principal importador líquido (10,9 milhões de barris diários), seguido do Japão (5,7), Alemanha (2,5), Coreia do Sul (2,2) e França (1,8). Este grupo de cinco é o principal afectado pela turbulência no mercado petrolífero.

4. Dependência estratégica
O caso mundial mais importante é o dos EUA. Dependiam da importação do petróleo em 37% em 1980, depois dos "choques" petrolíferos de 73 e 79. Evoluíram para 50% de dependência em 2000 e estima-se que cheguem aos 66% em 2020. Um "salto" de 10,4 milhões de barris diários importados hoje em dia para 16,7 daqui a 18 anos. A dependência geográfica em relação a duas regiões de grande turbulência - o Médio Oriente e as Caraíbas - atinge os 41% das importações. O célebre "relatório Cheney" de Maio de 2001 sobre a política energética dos EUA, baptizado a partir do seu inspirador Richard Cheney, o vice-presidente de Bush, é particularmente claro no seu capítulo 8: a questão do petróleo tornou-se "uma prioridade do nosso comércio e da nossa política de negócios estrangeiros".

5. Cartas fora do baralho da OPEP
São duas. A Rússia (2º exportador mundial, depois da Arábia Saudita) e a Noruega (3º exportador). A Rússia, durante 2002 ultrapassou inclusive em produção petrolífera a Arábia Saudita, fruto de uma contra-ofensiva desde 1997 em termos de investimentos em tecnologia, dinâmica dos grupos petrolíferos privados russos (como Lukoil e Yukos) e estratégia da Transneft, o grupo governamental que controla os oleodutos. Depois do colapso da URSS em 1991 - então o primeiro produtor mundial com mais de 10 milhões de barris diários de crude -, ter empurrado a Rússia para um recuo na produção diária de petróleo que chegou ao ponto mais baixo em 1996 (com 6 milhões de barris diários), o país recuperou o nível de 7 milhões de barris em 2001, de 7,7 milhões em 2002 e 8,4 em 2003.

6. Grupo dos Cinco em 2050
Cinco países dominarão em mais de 70% o petróleo em 2050, já no período de declínio desta fonte de energia: Arábia Saudita, Canadá (se desenvolver a exploração das suas reservas em petróleo "pesado"), Iraque, Venezuela (que também tem imensas oportunidades no petróleo "pesado") e Irão.

7. Angola
Está numa terceira "divisão" de produtores mundiais podendo vir a aproximar-se do patamar do milhão de barris diários. O seu offshore de Cabinda e ao largo de Angola, transformou este país num dos pólos de atracção no Atlântico Sul. As oportunidades no offshore em águas profundas poderão empurrar Angola para um patamar de 1,7 milhões de barris por dia em 2005 e 1,9 em 2010.

8. Arábia Saudita
É o reino do ouro negro. Detém 25% das reservas provadas do planeta, as maiores do mundo. Lidera a exportação com 7 milhões de barris por dia e é a segunda potência mundial em produção (8,3 milhões de barris por dia em Abril de 2004), depois dos Estados Unidos (ver EUA).

9. Atlântico Sul
É hoje o principal espaço marítimo que está a emergir no campo do petróleo. Está a assumir uma importância estratégica como plataforma offshore (Golfo da Guiné, África subtropical, Campos e Santos no Brasil) e como corredor de fornecimento alternativo. Já vale mais do que o Mar do Norte europeu, centrado na Noruega e no Reino Unido. O Atlântico Sul produz cerca de 8,5% do crude mundial, com destaque para a Nigéria (9º exportador mundial) e Brasil (ver adiante). O principal cliente deste espaço é os Estados Unidos (44% da exportação nigeriana, 44% da exportação angolana, 50% da exportação do Gabão).

10. Brasil
Tem vindo a ampliar a sua plataforma offshore ao largo do norte e sul do Rio de Janeiro e a internacionalizar a sua estratégia petrolífera em direcção à Argentina (a Petrobras adquiriu 58,6% da Perez Companc, o segundo grupo argentino dos petróleos) e ao offshore de Cabinda e Angola.

Fontes de informação:
- Ardina na Crise da Janelanaweb.com;
- Pequena Enciclopédia Ilustrada do Petróleo (Semanário português Expresso, 15 de Maio de 2004).

3. Gestão de Risco Vai Disparar
Os conselhos de Paul Laudicina, da ATKearney, vicepresidente e director do Global Business Policy Council

Números a reter: Segundo um estudo do grupo de resseguros Munich Re, citado por Laudicina, a frequência só dos desastres naturais triplicou desde os anos 60, e o seu custo decuplicou. O Gartner Group, por seu lado, prevê que 1 em cada 5 empresas atravessará uma situação de crise nos próximos cinco anos derivada de ocorrências naturais e provocadas pela mão humana, que em 60% dos casos conduzirá ao fecho das empresas no prazo de dois anos após a crise.

A falta de preparação para a volatilidade geo-política e geo-económica actual é confrangedora entre os responsáveis empresariais. A gestão estratégica do risco é cada vez mais uma função crítica nas empresas e vai certamente disparar, com o crescimento não só do número de desastres naturais, como dos provocados por actos humanos, derivados de acções terroristas, conflitos militares, ataques de vírus informáticos até simples descuidos ou falhas que conduzam a incêndios ou explosões. A evolução dos últimos 20 anos fala por si. "O facto até pode ser óbvio, o que fazer face a um mundo cronicamente cada vez mais volátil é que não é. Continuo a ficar admirado com a falta de preparação dos decisores para lidar com este tipo de choques exógenos e de ruptura, que são inevitáveis numa economia globalizada", referiu-nos Paul Laudicina, responsável pelo Global Business Policy Council (GBPC). O GBPC é um serviço de estratégia da consultora A T Kearney que funciona como um "radar" de mudanças de carácter geo-político, económico, tecnológico e social, e que reúne regularmente em "brainstorming" cerca de 50 chefes de empresas e estrategos oriundos de mais de uma dezena de países.

Segundo um estudo do grupo de resseguros Munich Re, citado por Laudicina, a frequência só dos desastres naturais triplicou desde os anos 60, e o seu custo decuplicou. O Gartner Group, por seu lado, prevê que 1 em cada 5 empresas atravessará uma situação de crise nos próximos cinco anos derivada de ocorrências naturais e provocadas pela mão humana, que em 60% dos casos conduzirá ao fecho das empresas no prazo de dois anos após a crise. "Também, a globalização dos negócios - com os movimentos de "outsourcing" e deslocalização de serviços e produção e com o desenvolvimento das redes entre empresas - a par das novas fontes de eficiência e crescimento, acarreta riscos interdependentes crescentes", sublinha o responsável da A T Kearney. A opção, diz Paul Laudicina, não é "voltar às soluções de antigamente, mas integrar a gestão do risco no planeamento e na decisão de topo, e transformá-la numa vantagem competitiva".

Recomendações de Laudicina:
- Identifique as vulnerabilidades;
- Elabore cenários;
- Desenvolva respostas a emergências e imprevisíveis;
- Monitorize o risco da envolvente.

Artigo de referência em PDF: Paul Laudicina, "Supply Chains in a Vulnerable, Volatile World" revista Executive Agenda, volume VI, number 3, ATKearney.

4. O Urso Ainda Não Foi de Férias

Os analistas independentes ainda olham as BOLSAS com cautela. A "correcção" da bolha especulativa de 1998-2000 nos Estados Unidos ainda não terminou. E a situação europeia estaria ainda mais retardada.

O TOURO AINDA NÃO DESCEU À ARENA

O "touro" (designação para um período de alta bolsista) ainda não desceu à arena das bolsas norte-americanas. O período em que o "urso" (designação para um período de baixa) domina a cena ainda não teria acabado. O que os técnicos designam por "assinatura anti-bolha" ainda seria visível nos índices bolsistas dos EUA e no comportamento psicológico dos investidores.

"O regime anti-bolha parece continuar e a correcção ainda está por concluir", afirmou-nos Didier Sornette, que na Universidade da Califórnia em Los Angeles produz mensalmente, desde há alguns anos, uma simulação com "predições" da evolução do índice norte-americano S&P 500, e mais recentemente de alguns mercados europeus. Estas predições no seu sítio na Web não se destinam a servir de guia de aconselhamento de decisões de investimento, mas de painel de bordo das tendências de evolução bolsista.

Depois dos "crashes" em 2000 e 2001, Sornette e o seu colega W.X. Zhou, previram que o "urso" não largaria os mercados americanos tão cedo, antevendo um "iô-iô" descendente durante uns anos. A partir de Outubro de 2002, a curva do S&P 500 parece querer descolar do fundo, em virtude das políticas de gestão anti-crise de Alan Greenspan, de manipulação em baixa (até valores reais negativos) da taxa de juro e da desvalorização do dólar (mais de 40% em relação ao euro desde 2002). Para Sornette, estas políticas "distorceram os sinais do mercado de um modo artificial e significativo", mas "encontram-se, agora, exaustas", tendo chegado a um beco sem saída. Se a "conversão" da curva do S&P 500 for feita para euros, as simulações de Sornette revelam que o sentido descendente nos EUA continua até final de 2004.

Por seu lado, Adam Hamilton, outro analista independente, responsável do sítio na Web Zealllc, alega que "a batida no fundo de Outubro de 2002 não foi, ainda, a definitiva", alegando que isso poderá ocorrer proximamente.

EUROPA MAIS RETARDADA

O "urso" ainda vai dominar as bolsas europeias por mais uns tempos, e poderá ir para hibernação mais tarde do que nos EUA.

As simulações realizadas por Didier Sornette revelam que em três bolsas-chave europeias - no DAX alemão, no CAC40 francês e no FTSE inglês - a descida poderá entrar por 2005 a dentro.

VALORIZAÇÂO HISTÓRICA ELEVADA

O rácio médio de avaliação da valorização das acções cotadas em bolsa - tecnicamente conhecido por P/E (em inglês, price-to-earnings) - continua, em termos históricos comparativos, muito elevado: 28 contra 15, segundo Robert Shiller (em declarações recentes ao FMI), o académico de Yale que previu o "crash" do ano 2000 e falou da "exuberância irracional" (tendo inclusive publicado um livro com esse título naquele ano). Pelo que haveria, ainda, que esperar por uma descida num mercado com acções ainda hiper-valorizadas em termos médios.

Contudo, outros analistas contestam que este rácio seja um bom sinal de previsão. "Tudo depende da percepção dos investidores. Pode ser útil numa escala de décadas, mas não decisivo no curto prazo", alega Didier Sornette. Outro analista independente, Eric Von Baranov, acrescenta, mesmo, que "as novas tecnologias criaram um nível de crescimento tal que pode justificar rácios mais elevados que os do passado". Um pequeno grupo de empresas cotadas muito sólidas pode "inflaccionar facilmente as médias do rácio", sublinha. Ou seja, podemos estar a caminho de uma batida no fundo, mesmo com um P/E médio elevado em termos históricos. Só uma atenção cirúrgica às empresas e aos sectores poderá dar indicações oportunas. Baranov adianta algumas áreas que estariam maduras para especulação, revelando um gosto especial pelas aplicações que resultarem do que chama de "fusão de tecnologias de comunicação", pela biotecnologia e pelo sector energético.

TOCA E FOGE

Uma das oportunidades em período do "urso" é o lançamento de IPO (entradas em bolsa) de "start-ups" ou "spin offs" destinados a explorar a moda tecnológica para capturar investimento bolsista útil para projectos com futuro. Eric von Baranov alcunha-as de empresas "toca e foge".

A vaga tecnológica - apesar do desprestígio trazido pelo estoirar da "bolha" bolsista em 2000 - continua a justificar rácios de valorização elevados em muitas áreas e "incursões" cirúrgicas nas bolsas tornaram-se moda. Baranov cita o caso do expediente usado pelo sector farmacêutico que utiliza "start-ups" de investigação & desenvolvimento com futuro para ir à bolsa agarrar uma janela de oportunidade de curto prazo. "Uma empresa destas, em vez de ser criada para o longo prazo, é organizada em torno de um mercado tecnológico onde há uma oportunidade limitada no tempo, ainda que promissora. Estas empresas poderão conseguir lucros espectaculares por períodos curtos de tempo, pagando generosamente aos investidores, que, de outra forma, seriam consumidos por I&D obsoleta e desnecessária", comenta Eric von Baranov.

AS DUAS PERNAS DO INVESTIDOR INTELIGENTE

O investidor global actua com duas pernas - uma nas oportunidades nos mercados emergentes, apesar do risco, e outra nos mercados desenvolvidos, apesar do actual período de baixa bolsista. Contudo, à medida que a política de manipulação em baixa da taxa de juro seja abandonada nos EUA e na Europa e que as bolsas destas regiões animem, a "competitividade" das aplicações no mundo desenvolvido poderá regressar em força.

Apesar do frenesim nos últimos três anos pela exploração de oportunidades nos mercados emergentes - de que a China e os países do Leste são destinos de moda -, o risco é grande. "À medida que a Reserva Federal dos Estados Unidos saia de uma posição acomodatícia, de modo a que as taxas de juro subam, os mercados emergentes deparar-se-ão, de novo, com um ambiente macro-económico menos favorável, com crédito mais difícil e prémios de risco elevadíssimos", acentua, por seu lado, Paul Laudicina, responsável na A T Kearney pelos estudos sobre investimento estrangeiro.

Página Anterior
Topo da Página
Página Principal