O fim da (Nova) Economia de casino segundo John Nesheim

«Casino is Over, Guys!»

O «papa» das start-ups veio da Califórnia a Lisboa (Novembro 2000)
para um seminário com 200 investidores e empreendedores
da Nova Economia organizado pela revista portuguesa Ideias & Negócios
onde usou a terapia de choque. Na ocasião a Bolsa de Valores de Lisboa
e Porto anunciou o Novo Mercado.

Jorge Nascimento Rodrigues

Versão reduzida publicada no semanário português Expresso a 11/11/2000

Entrevista com Nesheim para os Gurus à Mesa
realizada em Saratoga, Silicon Valley

Artigo no semanário português Expresso em Julho 2000
O site de John Nesheim
 O artigo polémico de Peter Drucker na Business 2.0 de Agosto 2000 
O fascínio de Nesheim pela Amazon.com
Bolsa portuguesa lança Novo Mercado

O ciclo mudou e não volta para trás, mas há muita gente que, ainda, não percebeu. As «start-ups» vão ter de suar muito mais para convencer investidores e mercados de capitais de que são empresas de verdade (sustentáveis a longo prazo) e não «porquinhos» de curto prazo para captar capitais em IPO (idas à Bolsa) ou puro vapôr à mistura com "buzzwords". «Casino is over, guys!», repete em californiano puro John Nesheim, o especialista em "start-ups", autor do "best-seller" High-Tech Start Up, que apresentámos no momento em que o livro estava nas cabeçeiras dos empreendedores do Silicon Valley este Verão de 2000.

John socorre-se do velho "pai" da gestão para dar ainda mais força à afirmação que fez esta semana em Lisboa num seminário organizado pela revista portuguesa Ideias & Negócios, a que assistiram umas duas centenas de empreendedores portugueses e investidores na Nova Economia. «Peter Drucker ainda recentemente disse que chegou a altura de criar negócios verdadeiros e recordou que, historicamente, o "boom" especulativo precede numa década o crescimento de negócios efectivos», sublinha Nesheim que enfrentou com um simples "polo" uma assembleia maioritariamente engravatada.

Era dos maratonistas

De facto, Drucker deu uma entrevista polémica à revista Business 2.0 - em 22 de Agosto passado (2000) - onde sentenciou sem piedade: «Muitas dessas "start-ups" da Internet não são sequer "start-ups" de negócios. São apenas jogadas nos mercados financeiros. Se há algum "business plan" é apenas para lançar um IPO ou ser comprada. Não para criar um negócio».

Entrevista de Peter Drucker à Business 2.0 de 22 de Agosto de 2000
intitulada «Sage Advice - Peter Drucker don't buy it»

Nesheim, por seu lado, socorre-se desta terapia de choque para sublinhar que, pelo menos nos Estados Unidos, «a época da Internet terminou; já não há mais dinheiro para dot-coms» (sic). As oportunidades do novo ciclo que se abre vão estar noutro mundo, cuja etiqueta ainda está por inventar, e que este especialista designa por "evernet". «Estamos a entrar noutra era em que três sectores vão marcar o futuro: o sem fios, a genómica e a educação/formação contínua para o trabalhador do conhecimento».

 A mudança de ciclo - Veja os artigos sobre o novo ciclo de Kondratyev 

Neste novo contexto, o que o leitor tem a fazer é rapidamente livrar-se das palavras-chave dos últimos cinco anos. «Agora o que conta são os maratonistas e não os corredores de velocidade. As "start-ups" têm de apostar no longo prazo, em reter talentos e em encontrar uma necessidade real dos clientes para satisfazer - acabaram-se o curto prazo, as "buzzwords" e as modas», disse ele sem papas na língua, granjeando aplausos.

Regresso a Schumpeter

A oportunidade e a esperança no novo ciclo está num conjunto de ingredientes nascidos na Terceira Vaga, mas que, depois do fim da nova economia de casino, se tornaram absolutamente críticos. Nesheim resume-os num só "slogan": «Descubra e cuide bem da sua vantagem "desleal"».

Esta curiosa expressão é utilizada pelo nosso interlocutor, porque, confessa entre risos, que não consegue soletrar convenientemente a estafada «vantagem competitiva sustentada», inventada pelos académicos do que ele chama a «arrogante» Harvard (Universidade de Harvard, em Boston, nos Estados Unidos).

O segredo está em adoptar uma estratégia «de ataque pelo flancos, entrando em território de mercado vazio, não conhecido, em apostar em algo especial, na originalidade, no diferente, na focalização, naquilo que não se consegue copiar facilmente», adianta Nesheim dentro da linha do que o guru da gestão Sumantra Ghoshal (um indiano a dar aulas na London Business School) chama de «regresso a Schumpeter». «Clonagem é algo que não pega em Silicon Valley», ironiza o especialista das "start-ups".

John Nesheim junta uma recomednação que provocou alguma admiração na assembleia: «Nunca queira ser primeiro. Deite fora esse mito do "first mover". Esta "lei" nunca foi aceite, mas é comprovada pela história - os primeiros nunca ganharam, tal como na corrida para o Oeste. Venha a seguir, aprenda com os erros dos pioneiros e sobretudo saiba reagir ao inesperado. Em 49% dos casos, as oportunidades vêm também de se saber reagir às surpresas, nomeadamente às desagradáveis».

A firma metanacional

Mas que tipo de empresa estará apta a ter sucesso nesta nova era, já se interrogou o leitor. «Aquelas que, desde o primeiro dia, pensam global», responde Nesheim, que aponta o exemplo dos empreendedores israelitas que já levaram mais de 150 empresas a IPO no Nasdaq americano. Alguns académicos europeus no INSEAD baptizaram este tipo de empresas de «metanacionais».

O modelo seguido pelos israelitas - e que algumas "start-ups" portuguesas, como a Altitude Software ou a Calzeus/Swear, também aplicam - baseia-se em três pilares: os fundadores e o grupo de talentos que cria os protótipos trabalha no país de origem; o responsável de marketing e o chefe executivo assentam arraiais nos Estados Unidos; e, depois de uma campanha árdua, levam a empresa ao Nasdaq a partir da firma sedeada nos EUA.

Se é esta a ideia para o seu negócio, Nesheim garante ao leitor que pode ter sucesso.

O FASCÍNIO PELA AMAZON.COM
Nesheim continua fascinado pela Amazon.com e pelas gargalhadas monumentais de Jeff Bezos, o carismático fundador. «No dia em que ele deixar de rir assim, a Amazon estará em maus lençóis», comenta. «Mas só nesse dia – e não quando os analistas querem», logo acrescenta ironicamente, argumentando que «os analistas não compreenderam ainda o que é a Amazon». O truque de Bezos não foi ser pioneiro nos livros "on-line" - antes dele, mais de uma dúzia já estava nesse negócio. A vantagem «escondida» foi ter definido uma estratégia de fidelização de uma clientela, que começou pelos livros, mas que progressivamente se estendeu a uma série de outros produtos que esse público queria. «Ele deixou de ser livreiro há muito. Amazon é basicamente um retalhista global e é, nessa óptica, que tem de ser avaliado. Os analistas têm de entender de retalho e não de dot-com. Ora os retalhistas fazem efectivamente dinheiro no último trimestre e as comparações têm de ser feitas entre os 4º trimestres de cada ano e não trimestre a trimestre», prossegue John tentando acabar com um pedacito de "pizza" na brasa. O próprio período actual de "correção" bolsista pode ser "útil" a Bezos, comenta Nesheim: «Ele pode fazer o resto de aquisições de massa cinzenta que precisa».
Confessa, a finalizar, que a "guerra" na Web que o traz mais curioso é entre a Amazon e a Yahoo!. «A Yahoo! também fez uma evolução horizontal como a Amazon: começou por ser um motor de pesquisa, passou a portal e depois a plataforma de comércio electrónico. Mas a Amazon têm uma maior história de interactividade com o utilizador. Essa é uma vantagem "desleal", como eu lhe chamo, da empresa de Bezos», concluíu.

NOVO MERCADO NASCE EM LISBOA
A Sociedade Gestora dos Mercados Financeiros portugueses, a Bolsa de Valores de Lisboa e Porto (BVLP), resolveu divulgar neste seminário de John Nesheim em Lisboa a "versão provisória" das regras porque se vai coser o recém-criado Novo Mercado dirigido ao segmento «vulgarmente designado por Nova Economia» (pode ler-se no prospecto).
Este mercado de capitais pretende atrair empresas de elevado potêncial de crescimento (nomeadamente nas áreas do que chama de tecnologias de inovação) e "start-ups" em todos os sectores da economia, bem como investidores de risco e uma nova classe de intermediários financeiros (que apelida de «promotores» e «criadores de mercado».
Apesar da redacção diferente existente, em certos detalhes, entre os dois prospectos divulgados, depreende-se que as condições de acesso implicam empresas com pelo menos 300 mil contos de capitais próprios (1,5 milhões de euros), que façam uma oferta no mínimo de 20% do capital social para dispersão pelo público, e que aspirem a uma capitalização bolsista de pelo menos 500 mil contos (2,5 milhões de euro).
O acesso exige ainda um contrato com um promotor e um criador de mercado (que pode ser o mesmo), um plano de negócios detalhado, um conhecimento de quem são os accionistas de referência e um compromisso por parte destes de garantir uma «estabilidade accionista», que implica um período de «nojo» de 6 meses a um ano.
Esta iniciativa da BVLP gerou algum cepticismo entre os mais de 150 empreendedores e investidores presentes. «Não acredito que pequenos países como o nosso possam ter um mercado de capitais para IPO com sucesso», sintetizou Mário Pinto, da Change Partners, uma capital de risco independente sedeada no Porto. «Deixemos ao mercado dar a resposta», retorquiu o responsável pelo Novo Mercado, Luis Rodrigues. Uma opinião "centrista" veio pela boca de Miguel Henriques, da PME Capital, outra capital de risco: «A situação mudou muito em Portugal nos últimos dois anos, pelo que a abordagem desse novo mercado poderá ter interesse, sobretudo se houver alguma forma de tirar proveito do acesso à rede dos Novos Mercados europeus».
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