NASDAQ: Um ano depois do «crash»
(Abril 2001)

A maior tragédia é não perceber que a economia real e os mercados financeiros sempre tiveram ciclos e que não há alquimia política ou monetária que o evite. Mas a consciência do temporal, não deve cegar agora o navegante - avistar-se-á terra. Assim o diz, não Zaratustra, mas Kondratyev.

Jorge Nascimento Rodrigues

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O mês de Março assistiu a uma viragem psicológica importante. Os «media» económicos enveredaram pelo pessimismo. Muitos analistas que, no princípio do ano, nem «notavam» os 9 meses que já levava o «crash» do NASDAQ, subitamente descobriram a tragédia. Da cegueira passou-se ao pânico escrito. Das palavras incendiárias ao pânico dos investidores não demorará muito.

«No entanto, o pânico total ainda não é visível», diz-nos Adam Hamilton, editor da Zeal, uma consultora norte americana que, desde há mais de um ano, vem mantendo um observatório de acompanhamento da crise nas bolsas norte-americanas.«As pessoas ainda têm uma leve esperança em pequenas subidas. Ainda se interrogam quando baterá no fundo. Enquanto durar esta ansiedade, o NASDAQ não baterá no fundo, continuará a funcionar como um iô-iô, cada vez em níveis mais baixos, até que se dê uma capitulação generalizada de ordens de venda», prossegue o nosso interlocutor, que publicou recentemente uma análise sobre o comportamento pendular «verdadeiramente sádico» dos mercados financeiros.

Artigo «o Pêndulo do NASDAQ» de 23/02/2001

Bater no fundo - NASDAQ poderá ir até aos 500 a 750 pontos

Muitos analistas e investidores - que viram corroídos em 50 a 90% os seus portefólios, as suas «stock options» e o valor das suas empresas cotadas - ainda balbuciam que o NASDAQ (ou o Dow Jones Industrial que quebrou definitivamente, este mês, para valores abaixo dos 10 mil pontos) já atingiu o ponto mais baixo e que dentro de dois ou três meses se poderá respirar de alívio e assistir a uma inversão.

Pode gerar os mapas actualizados das curvas do NASDAQ
e do DJI em www.bloomberg.com

«Puro engano», diz-nos Hamilton. «A batida no fundo ainda nem sequer ocorreu. Se a história serve de ajuda, ela costuma dar-se, tecnicamente falando, quando o NASDAQ atingir um PER (o múltiplo de valorização das acções) colectivo médio que esteja 50% abaixo da média histórica», refere este especialista. No caso concreto, a tal média histórica do múltiplo estará entre os 13 e os 20, e, por isso, «é expectável que o NASDAQ bata no fundo quando mostrar um PER médio entre 7 e 10», o que significará, numa linguagem de números mais compreensível, uma descida do índice compósito deste mercado financeiro das tecnológicas para valores inferiores a 1000 pontos.

Recorde-se que o índice estava esta semana final de Março 2001, ainda, à volta dos 1900 pontos. Segundo Hamilton poderá dar um trambolhão nos próximos meses até aos 750 a 500 pontos, muito abaixo do valor em que iniciou a caminhada triunfal em 1996.

Quando os investidores - desde a gente simple aos institucionais - se aperceberem desta probabilidade e largarem, de vez, as ilusões políticas no papel dos cortes nas taxas de juro, dar-se-á a fuga para se verem livres destas aplicações e os mais abastados virar-se-ão para as obrigações do tesouro, os mercados monetários e os metais preciosos. Então, assistiremos, a uma volatilidade intra-diária nas bolsas verdadeiramente extraordinária. «Precisamos de muitos dias seguidos com movimentos de iô-iô de 7% ou mais, para podermos concluir que se bateu no fundo», conclui Hamilton.

Travessia do deserto - cinco a dez anos (diz Shiller)

Mas, uma segunda barreira psicológica terá de ser vencida, a seguir. Alguns analistas e chefes de empresa crêm que a crise bolsista actual será «brevissima».

A memória histórica das crises financeiras dos dois últimos séculos perdeu-se - a de 1987 durou, apenas, uns escassos meses e as ameças de contracção económica nos anos 90 foram rapidamente engolidas pela emergência da Web, a massificação da Internet e depois a comercialização e popularização dos «browsers», que deram origem ao fenómeno das «dot-com», responsável pela maior «bolha» financeira da história do capitalismo e por um crescimento económico assinalável.

Se a história económica, uma vez mais, servir para alguma coisa, ensinará mais uma dura lição: na esmagadora maioria dos casos, os períodos de «correcção» bolsista subsequentes aos «crash» sempre duraram vários anos (sublinhe-se anos e não meses), impondo uma hábil e inteligente «travessia do deserto».

QUADRO DE REFERÊNCIA
(duração em anos das travessias do deserto)
 1802-1815:  13 (anos)
 1835-1843: 8
 1853-1861: 8
 1881-1897: 16
 1902-1921: 19
 1929-1949: 20
 1966-1982: 16
 2000- ?: iniciado em Abril de 2000 
 Fonte: Michael Alexander

Esses compassos de espera duraram entre um mínimo de oito anos - no século XIX - e um máximo de duas décadas, no caso extraordinário do trágico «crash» de 1929, segundo o estudo feito por Michael Alexander para a sua obra Stock Cycles.

Artigo de Mike Alexander «Secular Market Trends»

Livro «Stock Cycles» (Outubro 2000) de Myke Alexander

Por seu lado, o professor Robert Shiller, de Yale, autor de Exuberância Irracional, um «best-seller» de meados do ano passado (2000), entrevistado, então, pela Janela na Web e o Expresso, referiu que «é provável um arrefecimento do mercado de capitais entre cinco a dez anos».

Bonança & tempestade

Contudo, a consciência deste período que se avizinha não deve fazer-nos perder o norte, sublinha Eric Von Baranov, um dos «traders» financeiros que mantém um portal (em www.kondratyev.com) sobre os chamados ciclos de Kondratyev (um obscuro economista russo que «descobriu» movimentos cíclicos de mais de cinquenta anos no comportamento da economia capitalista), a partir de Sausalito, na outra margem da Golden Gate de São Francisco.

Uma simulação dos ciclos longos da economia capitalista dos últimos 120 anos e dos próximos 40, feita por Eric, logo na primeira página do seu portal, mostra que a crise financeira actual e a provável recessão económica nos Estados Unidos (e, talvez, dentro de 6 a 12 meses, na Europa) ocorre num contexto completamente diferente do mini-«crash» de 1987 ou do grande abalo de 1929.

Simulações e projecções dos ciclos de Kondratyev
entre 1877 e 2037 por Eric von Baranov

O «crash» do NASDAQ de Abril de 2000 deu-se no começo de um novo ciclo longo que deverá vir a estar associado a uma grande mutação do tecido económico, como é visível na simulação feita por Eric. O ponto de viragem poderá ter ocorrido em meados dos anos 90 com a massificação da Internet e da Web ou mais recentemente com a descodificação dos cromossomas humanos em 1999 e 2000.

Pelo contrário, o mini-«crash» de 1987 deu-se na ponta final de amadurecimento da famosa Terceira Vaga iniciada com o transístor em 1947 e massificada depois com o «chip» a partir de 1958. O «crash» de 1929 abriu claramente as portas ao esgotamento da revolução industrial.

O que temos pela frente é uma vaga crescente de uma nova realidade económica - com ziguezagues cíclicos - que poderá ter como marcos históricos factos como a clonagem reprodutiva humana (antevista entre 2001 a 2004) ou o momento histórico em que a informação em suportes digitais ultrapassará a informação em suportes analógicos, estimado para 2006 por Bernard Liautaud, o fundador da Business Objects, uma das líderes do software de «inteligência» empresarial.

É provável que esses dois factos - e outros que nem se vislumbram - dêm um «empurrão» para a saída da travessia do deserto e para a reconquista do optimismo e da exploração de novas oportunidades. Don Tapscott, o «pai» do conceito de Economia Digital, refere-nos a emergência de uma economia de «hipernet», e Kevin Kelly, o mais emblemático propagandista da Nova Economia nos tempos áureos da revista «Wired», falou-nos do "pós-Web" e das inuneráveis oportunidades que trará.

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