A muralha de aço

Há um Muro a vencer por Portugal para entrar noutro patamar
da Sociedade do Conhecimento

Este país falha na capacidade em tirar proveito dos investimentos realizados na infra-estrutura digital e na envolvente legal. Falta inovação e mais poder de compra e nível educacional na maioria dos cidadãos lusos, revelam os mais recentes "rankings" do INSEAD e do World Economic Forum.

Jorge Nascimento Rodrigues, editor de Janelanaweb.com, Setembro de 2004

Apesar do discurso e das políticas pró-revolução tecnológica nos últimos dez anos em Portugal - o ex-ministro da Indústria Mira Amaral com a "terceira revolução industrial" e os "clusters" de Porter, o ex-ministro da Ciência Mariano Gago com a Missão para a Sociedade da Informação e o responsável político actual pelo tema, Diogo de Vasconcelos, com o "e-gov" e a "sociedade do conhecimento" -, os estudos internacionais continuam a atribuir-nos uma nota de "suficiente". Em comparação, no mesmo período, os países escandinavos ganharam a nota de "excelente" e lideram hoje os "rankings" europeus.

Quanto a nós, temos um país massivamente telemovilizado, com uma pujante juventude SMS e viciada no "messenger" e com duas gerações de start-ups de base tecnológica (uma em finais dos anos 80 e outra depois de meados dos anos 90 do século passado) - no entanto, as comparações internacionais continuam a não nos premiar adequadamente.

Na antiga União Europeia (U.E.) a 15, ficámos em penúltimo lugar, apenas à frente da Grécia, na avaliação do cumprimento das metas da "Agenda de Lisboa" (aprovada pela U.E.), recentemente feita pelo World Economic Forum (WEF) na " The Lisbon Review 2004". Estas metas implicavam oito critérios, designadamente grau de sociedade da informação, inovação e investigação & desenvolvimento (I&D), infra-estruturas de rede e desenvolvimento sustentado. Na nova U.E. a 25, descemos para 17º lugar, sendo ultrapassados pela Estónia (que se posiciona inclusive à frente de Espanha e de Itália), Eslovénia e Letónia, segundo o WEF.

No bloco emergente

Com um enfoque menos abrangente, mas mais fino e focalizado, centrando os critérios na capacidade de tirar o máximo proveito da economia e da sociedade em rede, um "ranking" criado pelo INSEAD dá-nos um 14º lugar na U.E. a 25, continuando a ter à frente Estónia, Malta, Espanha e Eslovénia. O "The Networked Readiness Index 2003-2004" coloca-nos ligeiramente mais acima do que o "ranking" do WEF.

O mesmo sucede com uma outra classificação realizada, também, pelo INSEAD em colaboração com a SAP, designada por eEurope2005 Index (que abrange os actuais 25 membros da U.E. mais Roménia, Bulgária e Turquia), em que Portugal surge em 16º lugar, colado à Espanha, à frente da Grécia, da Eslovénia e da maioria dos Países de Leste - apenas atrás de novos aderentes como Malta e Estónia.

Dos três estudos é possível definir cinco sub-regiões no domínio da sociedade do conhecimento na Europa, fazendo algum "benchmarking" com outros espaços mundiais:
- os países escandinavos, na liderança, batendo-se mano-a-mano com os EUA, Canadá e Singapura;
- o "núcleo duro" dos grandes países da Comunidade Europeia mais a Irlanda e a Áustria (que descolaram), que andam a par com o Japão, Taiwan e Coreia do Sul;
- o bloco emergente formado por Malta, Estónia, Espanha, Portugal, Grécia e Eslovénia, que têm por companhia Itália e Bélgica, e na Ásia a Malásia;
- o bloco tampão formado pela maioria dos Países de Leste aderentes, que têm "gémeos" no Chile, África do Sul, Tailândia e Brasil;
- e o bloco europeu mais recuado formado por Polónia, Turquia, Roménia e Bulgária. (Há, no entanto, "nuances" nos critérios que permitem posicionar a Polónia no bloco tampão, e fazer descer a Lituânia e Hungria para os mais recuados.)

Uma conclusão é, no entanto, segura: Portugal descolou do atraso, mas não conseguiu dar o salto da Irlanda ou da Áustria, muito menos imitar os nórdicos e tem à perna alguns dos novos aderentes do Leste.

A lição escandinava

O fenómeno de ascensão dos nórdicos é salientado pelo estudo do INSEAD dirigido por Soumitra Dutta, responsável pelos "rankings", professor de sistemas de informação e director do programa de ensino para executivos naquela escola de negócios francesa.

A "lição" escandinava, segundo nos explicou, baseia-se em quatro aspectos centrais:
1.Visão: Têm uma visão muito clara sobre os seus objectivos em termos de sociedade da informação e o seu papel mundial nesse campo;
2. Políticas Públicas: Lançaram políticas para facilitar essa visão, desde programas para massificação de aquisição de computadores domésticos, recorrendo a benefícios fiscais significativos para os contribuintes;
3. Exemplo do Estado: Os governos tomaram medidas para a implantação do governo electrónico;
4. Papel de difusão dos grandes grupos económicos: Sobretudo a Finlândia e a Suécia, foram muito influenciados pelo papel desempenhado por empresas como a Nokia e a Eriksson, que desenvolveram "clusters" difusores das novas tecnologias no tecido económico e social.

Razões da frustração

Os porquês da frustração permanente de Portugal nos "rankings" podem ser descobertos numa análise mais fina, entrando na bateria de critérios mais específicos usados quer pelo WEF como pelo INSEAD.

Os critérios da "Agenda de Lisboa" relacionados com a sociedade da informação e do conhecimento revelam que Portugal está melhor do que a Espanha, Irlanda e Itália em matéria de infra-estruturas de rede e à frente do nosso vizinho ibérico no campo da Sociedade da Informação para todos.

Mas peca na área da inovação e da I&D, ficando em último lugar ex-aequo com a Grécia, na U.E. a 15. Mais grave, ainda, o facto de, na U.E. a 25, seis países da nova vaga de adesão nos ultrapassarem em matéria de inovação - Estónia, Eslovénia, Letónia, Hungria, Lituânia e Polónia.

Os "maus" da fita em 2003 foram os cidadãos em geral - as empresas e a Administração Pública escapam na habilidade de rentabilizar o potencial instalado. O problema central com os cidadãos portugueses é o nível de educação e qualificação baixo e a falta de poder de compra na maioria da população para pagar serviços de rede domésticos e comprar computadores.

Fica óbvio o fosso entre, por um lado, uma infra-estrutura montada e acções em prol da sociedade da informação, e, por outro, o défice na capacidade de transformar o potencial em inovação e I&D. Esse ponto fraco é um dos alicerces da "muralha de aço" que nos persegue nos "rankings" internacionais.

O índice do INSEAD permite observar outro ponto fraco que nos impede de subir acima do "suficiente". Fica claro nos indicadores que o pecado mora do lado dos "agentes" da sociedade portuguesa, incapazes de tirar pleno proveito do potencial instalado. Portugal fica abaixo da Estónia, Espanha, Malta, Lituânia, República Checa e Eslováquia na avaliação do papel pró-activo desses "agentes".

Os "maus" da fita em 2003 foram os cidadãos em geral - as empresas e a Administração Pública foram menos "más", escaparam na habilidade de rentabilizar o potencial instalado.

O problema central com os cidadãos portugueses é o nível de educação e qualificação baixo e a falta de poder de compra da maioria da população, incluindo largos estratos da classe média, para pagar serviços de rede domésticos e adquirir computadores.

São essas, aliás, as recomendações de Soumitra Dutta em declarações à Janelanaweb.com: «Ensino, Formação e desenvolvimento de competências em tecnologias de informação e electrónica por parte dos cidadãos portugueses é fundamental, juntamente com ainda maiores possibilidades de acesso à Internet nas instituições de ensino, inclusive nas escolas primárias, com a facilitação generalizada da compra de computadores e de ligação à Net por parte dos cidadãos, e com programas de governo electrónico para estimular a adesão e compreensão por parte dos cidadãos e empresas».


QUADROS

 Posição de Portugal na U.E. a 25 membros 
 Índice do WEF 17º 
 Índice do INSEAD 14º 
 Índice eEurope2005 16º 
 Sociedade da Informação 15º 
 Inovação e I&D 20º 
 Indústrias de rede 11º 
 Envolvente da SI 13º 
 Capacidade dos agentes 19º 
 Capacidade dos cidadãos 23º 
 Capacidade das empresas 17º 
 Capacidade da Adm. Pública 17º 
 Uso da SI 15º 
 Uso da SI pelos cidadãos 15º 
 Uso da SI pelas empresas 17º 
 Uso da SI pela Adm. Pública 15º 

 Índice Mundial do INSEAD para 102 países 
(Networked Readiness Index)
Bloco emergente
 Estónia 25º 
 Malásia 26º 
 Malta 27º 
 Itália 28º 
 Espanha 29º 
 Eslovénia 30º 
 Portugal 31º 
 Chile 32º 
 Rep. Checa 33º 
 Grécia 34º 
 Letónia 35º 
 Hungria 36º 
 África do Sul 37º 
 Tailândia 38º 
 Brasil 39º 
 Tunísia 40º 
 Eslováquia 41º 
 Lituânia 42º 
 Ilhas Maurícias 43º 
 México 44º 
 Índia 45º 

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