Maldito petróleo

As razões por detrás da alta do preço do barril são estruturais, mais do que passageiras. O pico da produção mundial desta energia é o fantasma que paira no horizonte, ainda mal compreendido por decisores e governantes

«Qualquer faísca geo-política pode empurrar o preço do petróleo para os três dígitos», diz o especialista iraniano Ali Bakhtiari.

Jorge Nascimento Rodrigues, editor de Janelanaweb.com, Março 2005

O Encontro de Lisboa de Maio de 2005
Entrevista com Ali Bakhtiari de Outubro de 2004

O leitor continua a ser fustigado com a teimosia da alta do preço do barril de petróleo - as aberturas dos noticiários continuam a falar de "máximos históricos batidos". Os valores atingidos no preço "spot" do crude Brent do Mar do Norte (preço de referência na Europa) e no WTI norte-americano aproximam-se do patamar dos 60 dólares, que o especialista iraniano Ali Bakthiari alertou em Outubro do ano passado nas páginas deste caderno. Bakthiari admite que no segundo trimestre de 2005 possa haver alguma moderação na alta, mas não recomenda ilusões aos decisores e aos governantes. «Qualquer pequena faísca geo-política pode empurrar o preço do petróleo para os três dígitos», adverte, de novo, em declarações exclusivas.

Como muitos analistas têm referido, o ouro negro é hoje uma "commodity" politizada que responde, com alta sensibilidade nos preços, à turbulência em regiões-chave da produção e da exportação. Os choques sobre a oferta são hoje em dia frequentes - para meados de Abril estão agendadas greves na Nigéria e produtores importantes como o Iraque, o Irão e a Venezuela estão sob a alçada do que se designa, com algum eufemismo, como "factores de instabilidade".

A este aspecto geo-político adicionou-se um outro dado "estrutural". «A adição de mais produção de barris diários já não convence os mercados - mais 500 mil barris diários na produção oficial, como agora foi acordado pela OPEP, ou mesmo 1 milhão, parecem já não fazer grande diferença para o preço do barril», salienta o especialista iraniano. Esta conclusão pessimista foi, assim, resumida pelo ministro da Energia e Minas argelino: "A OPEP atingiu os seus limites", uma frase alarmante que se repercutiu nos media especializados e que é ouro sobre azul para os especuladores no mercado de futuros do crude.

Bakthiari juntamente com muitos especialistas do petróleo - mais geólogos do que economistas ou analistas de mercados - pertence a um grupo a contracorrente que vem falando do problema estrutural do "pico do petróleo", que se organizou na ASPO- Associação para o Estudo do Pico do Petróleo, com sede em Uppsala, na Suécia. O especialista iraniano tem apresentado simulações do seu modelo WOCAP (World Oil Production Capacity) desde 1997. As suas últimas actualizações em 2002 e 2003 introduziram o que o iraniano chama de "intangíveis políticos" nas variáveis. Os resultados mais recentes revelam que a produção mundial de crude deverá atingir o seu máximo histórico entre 2006 e 2007, e que, a nível da OPEP, esse máximo deverá situar-se um pouco mais adiante, na década seguinte. O que permitirá à OPEP continuar a explorar a sua janela de oportunidade, mas com um cutelo sobre a cabeça cada vez mais visível.

A produção mundial de crude deverá atingir o seu máximo histórico entre 2006 e 2007, e que, a nível da OPEP, esse máximo deverá situar-se um pouco mais adiante, na década seguinte.

As simulações de Bakthiari até 2020 sobre os "quatro cavaleiros do ouro negro" (ver quadro) revelam, com clareza, esta desaceleração na Arábia Saudita, o campeão da produção, a partir de 2010, na Rússia, o número dois, a partir de 2005, no Irão e no Iraque a partir de 2010. A própria capacidade dos sauditas continuarem a manter uma produção diária recorde próxima de 9,5 milhões de barris foi, recentemente, posta em causa por Mathew Simmons, da Simmons & Co. International, um assessor republicano do famoso Plano energético lançado por Bush e Cheney, que tem justificado certas iniciativas de "projecção de poder" dos EUA no mundo. Simmons interroga-se se os sauditas não terão danificado irremediavelmente os seus campos petrolíferos, em virtude de uma política de sobreprodução.

Produção cansada

Só séries longas permitem ao leitor perceber o que se está a passar. A produção de crude aumentou a uma taxa média de apenas 1,3% entre 1974 e 2004, comparada com a que ocorreu entre 1918 e 1973, que se situou em 7,2%, segundo um estudo publicado, recentemente, pelo Fundo Monetário Internacional, da autoria de Noureddine Krichene (intitulado "A simultaneous equations model for world crude oil and natural gas markets", IFM Working Paper/05/32).

A dinâmica de crescimento da oferta é hoje menos de 1/5 da anterior ao choque petrolífero de 1973. Ora, esta desaceleração confronta-se com um novo dado geo-económico recente do lado da procura - a emergência da Ásia, em particular da China e da Índia. Segundo, as estimativas da Agência Internacional de Energia, a procura de energia primária deverá expandir-se em 60% entre 2002 e 2030, segundo o World Energy Outlook 2004, publicado no final do ano passado. Os principais propulsores serão a China que saltará de 5,2 milhões de barris diários de crude em 2002 para 13,3 milhões em 2030, e a Índia que passará de 2,5 para 5,6 no mesmo período.

A dinâmica de crescimento da oferta é hoje menos de 1/5 da anterior ao choque petrolífero de 1973. Ora, esta desaceleração confronta-se com um novo dado geo-económico recente do lado da procura - a emergência da Ásia, em particular da China e da Índia.

A coincidência entre o cansaço da produção de petróleo e o apetite crescente dos emergentes já levou o próprio CEO da Chevron Texaco, David J. O'Reilly, a dizer, recentemente, que atingimos "um ponto de inflexão". O tema foi, aliás, apresentado, na semana passada, pelo congressista Roscoe Bartlett no Congresso norte-americano. Um realizador norueguês, Amund Prestegard, entusiasmado com o tema, prepara um documentário-choque sugestivamente intitulado "Pico do petróleo - você está preparado para o declínio".

Inelasticidade rebelde

O mesmo estudo do FMI, a que nos referimos, concluía que no mercado petrolífero há "uma inelasticidade extrema" da procura e da oferta em relação ao preço do barril no curto prazo. Descodificando o economês, isso significa que qualquer alteração na procura (consumidores e importadores) ou na oferta (produtores e exportadores), mesmo que pequena, provoca sempre variações significativas no preço. Daí a chamada volatilidade do preço do crude - variações exageradas para cima ou para baixo, em função de 'choques' na procura ou na oferta.

Um estudo do FMI, de Noureddine Krichene, revela que um aumento de 1% no rendimento mundial, fruto do crescimento económico, implica um aumento, muito superior, de 1,25% no preço do crude, mas, apenas, 0,49% no aumento da produção.

O estudo estabelece, ainda, correlações históricas entre a desvalorização do dólar americano (em que está denominado o preço do barril de petróleo) e o preço do crude - quanto mais fraco o valor cambial do dólar, mais alto tende a estar o preço do barril.

O estudo de Noureddine Krichene revela que um aumento de 1% no rendimento mundial, fruto do crescimento económico, implica um aumento, muito superior, de 1,25% no preço do crude, mas, apenas, 0,49% no aumento da produção. Por outro lado, 1% na desvalorização do dólar implica, desde logo, 0,62% no aumento do preço do barril.

 OS QUATRO CAVALEIROS DO PETRÓLEO 
(Os maiores produtores até 2020, estimativas
em milhões de barris diários)
 Países 2005 2010 2020
 Arábia Saudita 9,3 9,4 8,0
 Rússia 9,1 8,0 5,4
 Iraque 3,5 5,6 5,3
 Irão 3,2 3,4 1,1
 Fontes: Modelo WOCAP, simulações de 2003,
 e ASPO, Newsletter de Março 2005

Peritos em Lisboa em Maio
O grupo de peritos da ASPO vai debater o pico do petróleo na Fundação Gulbenkian, em Lisboa, a 19 e 20 de Maio, reunindo o IVº Workshop sobre o esgotamento do petróleo e do gás, com o apoio da Partex Oil & Gas. Uma iniciativa do Centro de Geofísica de Évora, que congrega uma unidade de investigação de nível internacional em temas das Ciências da Terra, do Clima, do Ambiente e do Espaço na Universidade da capital alentejana. Há quatro anos atrás, este Centro havia realizado um encontro internacional sobre a mudança climática e o protocolo de Kioto, onde alguns dos participantes haviam já abordado o tema do pico do petróleo, nomeadamente Colin Campbel, um dos fundadores da ASPO.
«Nós sabemos que há uma ideia prevalecente de que é o mercado que coloca e resolve os problemas e que os ministros das finanças e os investidores sabem e decidem. Mas, o cenário por detrás deste tema, é muito mais complexo e está distante dessa ideia simplista», diz Rui Namorado Rosa, presidente do Comité Organizador do workshop e director e coordenador científico do Centro de Geofísica daquela universidade portuguesa. «Hoje compreendemos que há limitações naturais na melhoria do 'mix' de energias primárias e que as consequências implicarão que não há mais terreno para o crescimento económico tal como ocorreu no passado», sublinha Rui Rosa, para quem «mais tarde ou mais cedo terá de haver uma mudança necessária no estilo de vida da vasta maioria da população, com um impacto na organização da sociedade, que terá de ser menos consumidora de recursos naturais, em particular de energias primárias».
Mais informações sobre o encontro em www.peakoil.net/iwood2005/iwood2005.html.

Página Anterior
Topo da Página
Página Principal