A longa marcha do investidor bolsista (inteligente)

Os mercados financeiros norte-americanos ainda não bateram no fundo.
As valorizações das acções ainda estão elevadas em termos históricos. Espera-se por isso continuação da alta volatilidade e do iô-iô de subidas e descidas que dirige a agonia bolsista desde há mais de dois anos. Ainda que possam existir "pechinchas" a não perder, as boas compras e "take overs" ainda estão por acontecer. O pânico ainda não se generalizou e os investidores inteligentes ainda não se convenceram que as cotadas atingiram preços "justos". Entrou-se numa longa marcha.

Jorge Nascimento Rodrigues com Robert Shiller, Adam Hamilton e Robert Prechter,
30 Outubro 2002

Comentários do analista português André Ribeiro, editor da secção «Investir na Bolsa»
do canal Dinheiro da janelanaweb.com

Entrevista com Robert Shiller de Maio 2000
Sítio na Web de Adam Hamilton | Sítio de Robert Prechter

A ligeira animação bolsista, ocorrida intermitentemente em algumas semanas do mês que agora finda, trouxe, de novo, uma vaga de declarações optimistas sobre as perspectivas dos mercados financeiros norte-americanos. O mês de Outubro, cujas conotações trágicas são conhecidas - nos "crashes" de 1929 e 1987 -, parece ter fugido à sina e algumas bolsas norte-americanas tiveram ganhos percentuais diários sucessivos dos mais elevados da década.

O sentimento que alguns analistas se apressaram a transmitir ao público é que a batida no fundo já teria ocorrido e que Outubro de 2002 marcaria o ponto de inflexão. A avaliação deste sinal de viragem é crucial para quem faz dos mercados financeiros o seu ganha-pão - como bem sublinhava o The Economist (a 17 de Outubro) «é nos primeiros meses seguintes [ao ponto de inflexão] que a maior fatia de dinheiro é feita».

Artigo do The Economist de 17 de Outubro 2002: «Inflection Point?»

Expectativas irracionais

Contudo, uma análise histórica arrisca-se a funcionar como um alfinete num balão de expectativas, reclamam outros analistas que argumentam que a procissão das quedas das acções ainda vai no adro e que os investidores inteligentes têm de se preparar psicologicamente para «uma longa marcha» em que a agonia das bolsas vai, ainda, assistir a novos mínimos nos próximos 12 a 24 meses. «Os Estados Unidos e a Europa sentiram ultimamente algumas corridas nos mercados financeiros. Mas isso não vai durar mais do que um mês. Quando passar essa excitação temporária, os índices cairão para novos mínimos», diz-nos Robert Prechter, autor do recente best-seller Conquer the Crash, em que aconselha as empresas e os investidores de portfolio a se prepararem para «navegar através de uma depressão global».

«Conquer the Crash» - o livro polémico de Robert Prechter (compra do livro)

É, de facto, doloroso para quem já viu a sua carteira bolsista cair de 90%, ouvir dizer que os "papeis" ainda estão sobreavaliados. Mas essa reacção emocional de descrença não resiste à realidade da comparação histórica. «Penso que os preços ainda estão altos em relação aos ganhos, reflectindo, porventura, expectativas irrealistas quanto ao crescimento desses ganhos no futuro», sublinhou-nos Robert Shiller, o professor de Yale que em Março de 2000 publicou Exuberância Irracional, o livro que antecipou o rebentar da "bolha" especulativa, e que então divulgamos no semanário português Expresso.

Entrevista com Robert Shiller em 6 de Maio de 2000:
«Web encorajou sonhos extravagantes»

Uma das mais-valias daquele livro foi apresentar as médias históricas ao longo de um século - de 1895 a 1995 - para dois indicadores fundamentais de avaliação do mercado financeiro: o múltiplo dos preços das acções em relação aos ganhos (rácio denominado P/E, price earnings ratio) e os dividendos (ganhos em % distribuídos por cada acção) calculados em relação ao índice Standard & Poor's (S&P) Compósito.

Shiller verificou que o P/E médio desses 100 anos foi de 14,6 e que o dividendo médio foi de 4,6%. Se o P/E estiver acima dessa linha de água e se os dividendos estiverem abaixo dos 4,6%, então entramos num período de valorização de acções, como viria a acontecer, recentemente, entre 1992 e 2000.

QUADRO COMPARATIVO
(Dados de 31 de Outubro 2002)
Índices   P/E (*)   Dividendo (%)
S&P 500 25,51,77
Dow 3023,21,86
Nasdaq 10044,90,08
Média histórica 1895-199514,64,6
Fonte: Cálculos de Adam Hamilton, www.zealllc.com
Nota: * P/E médio ponderado pela capitalização do mercado

Ora comparando essas médias históricas e os valores actuais (ver gráfico), o analista Adam Hamilton tem mostrado nos finais de cada mês, desde o "crash" de 2000, que o P/E da elite das cotadas nos três índices de referência norte-americanos (S&P 500, Dow Jones Industrial 30 e NASDAQ 100) está, ainda, muito alto e que os dividendos estão, ainda, muito baixos.

Pechinchas ainda não chegaram

O que é que isto significa? «Que os preços das acções estão ainda muito acima do seu valor justo. Espero, por exemplo, que o S&P 500 desça o seu P/E abaixo dos 14, provavelmente aproximando-se dos 7 - ora está ainda acima dos 25», adverte-nos Adam Hamilton, que dirige a consultora Zeal. «Não se deixe, por isso, convencer que os recentes mínimos são a comprovação da batida no fundo. Não são!», exclama. «Mesmo que no caso do Nasdaq o valor justo do P/E possa ser estimado nos 21, ainda estamos muito longe dele - nos 44,9», prossegue. Recorda, depois, os P/E históricos registados no Dow Jones pelo Professor Shiller após os "crashes" no século XX - 5 a 6 em Junho de 1920 e Junho de 1932, pouco mais de 8 em Dezembro de 1974, pouco mais de 7 em 1982 e pouco mais de 13 em Dezembro de 1987.

Análises recentes de Adam Hamilton: Long Valuation Waves (18/10/2002)
Valuation Wave Reversion (25/10/2002)

A tomada de consciência desta agonia sofrida ao sabor de um iô-iô que dura há mais de dois anos ainda está atrasada para a maioria dos investidores. «Ainda não assistimos a um pânico irracional, mas a crença na bolsa está em erosão gradual. A única coisa que é previsível é a continuação da alta volatilidade, e isso significa alto risco», conclui o professor Shiller.

ESPECIFICIDADE EUROPEIA...PARA PIOR
A Europa está cada vez mais ligada ao humor das bolsas norte-americanas. «Um estudo recente do Fundo Monetário Internacional mostra que os movimentos das acções europeias e norte-americanas se têm tornado crescentemente correlacionados nos últimos anos», afirma-nos André Ribeiro, um analista português radicado em Espanha que mantém uma análise "online" das bolsas. Segundo a revista The Economist, a correlação em meados dos anos 90 era de 0,4 e actualmente ronda os 0,8 a 0,9, ou seja é quase total. Por isso, não é mais possível pensar que os mercados financeiros europeus sejam um "paraíso" à parte.
Se há alguma especificidade europeia, ela é para pior e tem a ver com a maior exposição das telecomunicações, da banca e das seguradoras ao mercado bolsista. «As empresas de telecomunicações europeias têm um peso duas vezes superior às norte-americanas em termos de capitalização bolsista. Também, os bancos e as seguradoras, outros dois sectores sob pressão, apresentam um peso ligeiramente superior no mercado europeu. Apesar de terem reduzido as suas posições, as seguradoras europeias ainda têm 30% dos seus activos em acções, comparando com 4% para o caso das americanas», refere André Ribeiro.

COMENTÁRIO DE ANDRÉ RIBEIRO
Analista exclusivo do Canal Dinheiro da Janelanaweb.com
A América continua a dominar os mercados europeus. Uma e outra vez quedas na Europa são invertidas se os corretores em Nova Iorque acordam bem dispostos. Uma manhã tranquila na Europa pode ser alterada após o almoço se vierem más noticias dos Estados Unidos.
Um estudo recente publicado pelo Fundo Monetário Internacional mostra que os movimentos das acções europeias e americanas se têm tornado crescentemente correlacionados nos últimos anos.
Segundo a revista "The Economist", a correlação em meados dos anos 90 era de 0,4- com 0.0 representando nenhuma correlação e 1.0 correlação total. Actualmente ronda os 0,8 a 0,9.
Este ano o crescimento económico europeu tem desapontado e os economistas têm vindo a baixar as suas projecções, por outro lado a Federal Reserve americana está mais preocupada com a deflação do que o Banco Central Europeu, que todavia teme a inflação.
As empresas de Tecnologia, Media e Telecomunicações, que durante a euforia passaram a ser conhecidas por TMTs, atravessam bastantes problemas.
As empresas de telecomunicações europeias em termos de capitalização bolsista têm um peso duas vezes superior às americanas. Na Europa, os bancos e seguradoras, outros dois sectores sobre pressão, também apresentam um peso ligeiramente superior total no mercado, que nos Estados Unidos.
As seguradoras são particularmente vulneráveis às quedas dos mercados , porque investem significativamente em acções. Apesar de terem reduzido as suas posições, as seguradoras europeias ainda têm 30% dos seus activos em acções, comparando com 4% para as seguradoras americanas.
Contudo a baixa dos preços das acções afectou menos os europeus que os americanos. Os europeus têm uma muito menor proporção das suas poupanças, especialmente as suas pensões de reformas investidas na bolsa.

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