A arte da manobra estratégica lusa

Reler a História de Portugal dos últimos 860 anos ajuda a valorizar a capacidade estratégica dos portugueses

É um dos pontos fortes da "psicologia" portuguesa que se revela em situações-limite da vida do país. Um livro agora publicado em Portugal por um general no activo faz uma primeira abordagem à história da estratégia lusa.

Jorge Nascimento Rodrigues, editor de Janelanaweb.com, Agosto de 2004

Review do livro: As Guerras Liberais - Uma reflexão estratégica sobre a História de Portugal, da autoria de José Manuel Freire Nogueira (Editora: Edições Cosmos/Instituto de Defesa Nacional)

Em condições-limite de geo-bloqueamento ou de crise estrutural da Nação, os portugueses revelaram capacidade de manobra estratégica ao longo da sua história quase milenar. Mais do que os tão afamados improviso organizacional e 'desenrascanço', a arte da manobra estratégica é um dos ingredientes do 'ADN' luso, radicado num país pequeno, periférico e com um ancestral fosso interno no tecido do conhecimento.

O que hoje pode parecer o ovo de Colombo - citando acontecimentos-chave tão diversos, como a vassalagem directa ao Papa por Afonso Henriques no século XII, a visão de longo prazo de Diniz, o monarca "poeta" e "lavrador" nos séculos XIII e XIV, o salto para a globalização de Henrique, o Infante Navegador no século XV, o recuo estratégico para o Brasil aquando da invasão napoléonica no século XIX, a neutralidade na 2ª Guerra Mundial pelo ditador Salazar, ou as decisões de Mário Soares em 1975 e 1976 - é uma "arma" de grande projecção, em regra, esmagada pelo peso da "psicologia" negativa portuguesa.

MOMENTOS ALTOS
1179 - reconhecimento do Reino de Portugal pelo Papa Alexandre III depois da manobra de Afonso Henriques declarar vassalagem directa ao Papado de Roma, o que permitiu a separação irreversível de Portugal em relação ao Reino de Leão, declarada em 1143 na Conferência de Zamora
1279 a 1325 - reinado de Diniz, o monarca "poeta" e "lavrador", lançamento do plano estratégico de construção das bases de uma potência europeia
1415 a 1460 - liderança do Infante Henrique, o Navegador, delineamento e execução da primeira fase da agenda de potência global
1897 - recuo estratégico da Coroa portuguesa para o Brasil face à iminência das invasões napoléonicas
1939/1940 - declaração de neutralidade pelo ditador Salazar face à 2ª Guerra Mundial
1975 - alavancagem por Mário Soares da aliança com os EUA para derrota política e diplomática da operação de posicionamento soviético em Portugal
1976 - decisão de negociação para a adesão do país à CEE tomada pelo 1º Governo constitucional liderado por Mário Soares

O "luso-centrismo pacóvio", o "comportamento ciclotímico" (entre a basófia e a desmoralização), o "individualismo exacerbado" e o "deixar para amanhã" são "forças profundas" que, no intervalo das nossas manobras estratégicas, dominam a vidinha do dia-a-dia, como o sublinha José Manuel Freire Nogueira, que resolveu meter mão à elaboração de "um reflexão estratégica sobre a História de Portugal".

Motivado por uma tese de mestrado sobre a estratégia no período da Guerra Civil entre o liberalismo e o miguelismo em Portugal no século XIX, este general de 58 anos ensaiou uma primeira "síntese" que nos permite "reler" a nossa História com outros olhos. Uma leitura superficial das conclusões do livro que publicou recentemente (As Guerras Liberais, Instituto de Defesa Nacional/Edição Cosmos), poderão deixar o leitor submergido no "pessimismo". O período que escolheu para análise manchado de muito sangue com uma guerra civil (1828-1834) e em que o papel de joguete nas mãos das grandes potências europeias da época fica totalmente a nu, pode deixar-nos na boca uma "frustração" azeda.

A agenda de potência mundial

Mas este militar, especialista em estratégia, que esteve colocado no SHAPE (Supremo Quartel-General Aliado) da NATO entre 1987 e 1990, e depois como conselheiro militar do embaixador de Portugal junto da NATO e da União Europeia Ocidental entre 1996 e 1999, ajuda-nos a redescobrir a capacidade estratégica portuguesa ao longo de dois grandes ciclos no milénio da nossa história - um de "ofensiva estratégica" tendo chegado a primeira potência global do Planeta, e outro de "defensiva estratégica" em que se acantonou no papel do que os estrategos chamam de "shatterbelt" europeu, ou seja "cintura de fragmentação ou amortecimento", uma zona periférica que se torna, volta e meia, teatro de operações nos confrontos hegemónicos entre grandes potências.

A FASE DE OFENSIVA ESTRATÉGICA - da fundação da nacionalidade até ao erro clamoroso de Alcácer Quibir (dos séculos XI a XV)

O filme da primeira parte da nossa História corre desde que um cruzado francês, Henrique de Burgonha, recebeu de prémio, além de uma princesa, o Condado Portucalense no séc. XI, e prossegue com as manobras estratégicas que permitiram a uma nesga insignificante na costa atlântica mais periférica passar a primeira potência global do mundo no século XV.

Esta agenda de vários séculos teve quatro momentos decisivos:
- a manobra estratégica de Afonso Henriques em "alavancar" a potência continental europeia da época (o Papado) e, através da vassalem directa, obter o reconhecimento definitivo do novo reino em 1179 por Alexandre III, o Papa de Roma de então;
- a visão estratégica de longo alcance do monarca Diniz entre 1279 e 1324 (sementeira do Pinhal de Leiria, fundação da Bolsa da Flandres com 100 marcos de prata, organização do poder naval contratando o almirante genovês Manuel Peçanha, criação da Ordem de Cristo e realização do primeiro tratado de comércio com Inglaterra);
- a "alavancagem" de uma aliança com uma das potências marítimas europeias emergentes (a Inglaterra) para conter Castela (em 1373 e depois em 1386);
- e, finalmente, a genialidade do "salto" para a globalização pelo Infante Henrique.

A janela de oportunidade era, então, óbvia entre 1350 e 1450:
- as potências europeias degladiavam-se no que ficou conhecida por "Guerra dos Cem Anos" (1337 a 1453);
- o Papado de Roma estava enfraquecido com uma cisão entre dois pólos (entre 1378 a 1417, entre Roma e Avinhão);
- as "commodities" geo-económicas da época (como a seda e as especiarias) passavam pelo Mediterrâneo então um mar cercado em que os turcos haveriam de tomar Constantinopla (1453) e com uma "portagem" caríssima nas "cittá marittime" italianas;
- a dinastia chinesa Ming haveria de abandonar a conquista do Oceano Índico em 1433. Henrique, o Navegador, até morrer em 1460, definiu uma manobra estratégica de geometria variável no Atlântico em direcção a vários pontos do globo e apostou na importância da mobilidade marítima e da capacidade de projecção de poder.

O "Mare Clausum" português decretado em 1480 e o Tratado de Tordesilhas em 1492 (com o genial "desvio" do meridiano das 100 para as 370 léguas a ocidente de Cabo Verde) fizeram o resto.

A grandeza desta manobra estratégica tem-se perdido na memória colectiva. A ditadura reduziu-a a uma epopeia religiosa e pintou uma noção de império imortal. Outros resumem-na a uma história aos quadradinhos semi-aventurosa.

Duas consequências maiores resultaram da visão estratégica do Infante Henrique:
- o eixo estratégico do mundo político e comercial da época girou do Mediterrâneo e do Próximo Oriente para o Atlântico;
- nasceu a 1ª potência global no mundo que influenciou a criação de uma economia efectivamente global.

Sempre que o próprio Infante ou os monarcas seguintes se afastaram dessa rota, a globalização portuguesa sofreu fortes facadas, até que soçobrou com o erro mortal do jovem rei Sebastião em Agosto de 1578.

Uma vaga de disparates estratégicos

A agenda de globalização que nasceu com Afonso IV (com as expedições às "Ilhas Afortunadas", as Canárias, em 1336 e 1341) foi sendo golpeada por vários erros geo-estratégicos ao longo de 250 anos. O desastre ocorreu sempre que os portugueses fizeram "desvios" e perderam o foco.

O monarca Fernando envolveu-se nas contendas europeias (da Guerra dos 100 anos) e na sucessão espanhola e conduziu à crise dinástica de 1383, desviando-se do rumo traçado incipientemente por seu avô Afonso IV.

O próprio Henrique, o Navegador, se desviou por vezes para uma maior "profundidade" em Marrocos (inclusive com custos familiares elevados na derrota de Tânger em 1437) a pretexto do combate "civilizacional" (contra os muçulmanos), tal como Afonso V (sobrinho do Infante), que, também, se deixou tentar pela sucessão em Espanha (sendo derrotado em Toro em 1476).

Mas a derrapagem ocorreu depois de 1505. A concepção estratégica de mobilidade marítima e de projecção de poder global de Francisco de Almeida, vice-rei da Índia, foi derrotada pela ideia de criação de um Império Português no Oriente, defendida por Afonso de Albuquerque, que conduziria a um desgaste terrível e à incapacidade de assegurar as rotas do monopólio marítimo então no "Mare Clausum" português. O pecado do consumismo português levou à geração de um défice comercial que levaria à extinção da Feitoria da Flandres pelo monarca João II (reinou entre 1521 e 1557). O conservadorismo português faria o resto - implicou o alinhamento pela Contra-Reforma europeia no século XVI, que enfraqueceria as bases de uma burguesia financeira e cosmopolita portuguesa.

Esta sucessão de disparates viria a culminar com o erro clamoroso do jovem rei Sebastião que regressou à "política marroquina" de má memória e ao combate "civilizacional" contra os muçulmanos. O gravíssimo erro geo-estratégico seria pago a 4 de Agosto de 1578.

A SEGUNDA FASE - manobrar na defensiva desde o século XVI

Com o "take over" de Portugal por Filipe II de Espanha na sequência da crise dinástica portuguesa de 1580, o papel de superpotência terminou, e o nosso país recuou para a condição de periferia, manobrando na defensiva para sobreviver.

A aristocracia e a burguesia comercial portuguesas da época sonhavam com a aposta no "chapéu" do império espanhol - mas as ambições de Espanha suceder a Portugal como superpotência duraram apenas 8 anos. A derrota da Armada Invencível luso-espanhola em 1588 pelos ingleses enterrou o assunto e holandeses e ingleses emergiram à conquista da hegemonia, repisando os caminhos da globalização portuguesa e evitando repetir as mesmas asneiras.

Em 1608 é decretado o "Mare Liberum" (princípio da liberdade de navegação em alto mar, defendido pelo jurista Hugo Grocio, contra o princípio português do "Mare Clausum"), os portugueses voltam a "usar" a aliança com Inglaterra para consolidar a restauração da independência em 1640, e o "stadholder" da República Holandesa, Guilherme III de Orange, faz um "take over" sobre a coroa inglesa em 1688.

Os ingleses iniciam o seu domínio global. Seriam, depois ao longo dos séculos XVIII e XIX, desafiados, por duas vezes, pelos franceses (primeiro por Luís XIV, o famoso "Rei Sol", entre 1643 e 1715, e depois por Napoleão, entre 1799 e 1815).

É, no contexto desta contenda hegemónica europeia e mundial, que a história do "shatterbelt" ibérico, e em particular do rectângulo mais periférico tem de ser lida até ao século XX.

Nessas condições, os portugueses tiveram de voltar a manobrar estrategicamente num momento particularmente difícil face à iminência das invasões napoléonicas. Pressionados pelos aliados ingleses (que aproveitariam para hastear a Union Jack na Madeira e no castelo de São Jorge em Lisboa), a Coroa portuguesa recua para o Brasil em 1807 e resguarda formalmente a sua legitimidade. Freire Nogueira considera a decisão uma "manobra assimétrica" notável.

Napoleão começou a provar o sabor da derrota do seu projecto euro-asiático em Portugal, mas o saldo histórico para o nosso país seria pesado nos trinta anos seguintes: a doutrina Metternich lançou uma vaga conservadora europeia contra os movimentos liberais (vaga que fomentaria o miguelismo entre nós), Independência do Brasil, Doutrina Monroe em relação às Américas (nenhuma potência extra-americana deveria dominar politicamente os dois continentes), Guerra Civil entre liberais e miguelistas em Portugal. Este período é contado ao detalhe, e com paixão, pelo general português no seu livro.

A revisão estratégica de Freire Nogueira sobre a nossa História termina em 1834.

A defensiva estratégica continuou, mesmo depois da queda em 1926 da primeira república democrática. Salazar usou o neutralismo formal em grande parte da 2ª Guerra Mundial como manobra estratégica de sobrevivência da ditadura, apesar do coração ideológico o puxar para o eixo nazi-fascista. Na fase final, disponibilizou aos Aliados a plataforma estratégica dos Açores no meio do Atlântico, uma das mais-valias de então da nossa condição periférica.

A condição de "shatterberlt" no confronto hegemónico volta a ser muito óbvia em 1975, quando Mário Soares manobra estrategicamente apoiando-se nos EUA contra os planos soviéticos de posicionamento no elo mais fraco de então da NATO. O jogo de cintura do grupo de Mário Soares derrotou a exploração hábil por Álvaro Cunhal. Apoiado pelos soviéticos, da janela de oportunidade após a queda da ditadura com a desagregação do estado, a radicalização do movimento militar e a explosão dos movimentos populares.

A saída da zona de risco de "jangada" periférica na Europa é, depois, consolidada em 1976 com a decisão estratégica do 1º governo constitucional, liderado também por Soares, em encetar negociações de adesão à Comunidade Económica Europeia.

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