Incertezas na aterragem americana

Os últimos dois meses e meio abalaram definitivamente o optimismo dos analistas norte-americanos. Agora já se fala abertamente de um cenário recessivo e do final do longo «boom» de dezoito anos

Jorge Nascimento Rodrigues

A opinião de Peter Cohan | Site da Goldman Sachs | Análises de Ed Burgos
Análises de Adam Hamilton | Análises de Jay Taylor
Dados da Renaissance Capital sobre IPOs em 2000
Dados da CommScan na CNN Financial | Dados das falências de start-ups
Outros artigos sobre a crise americana do Ardina na Crise

Apesar do optimismo moderado dos «VIPs» reunidos em Davos, os sinais de alarme acumulam-se. A economia norte-americana - a locomotiva do crescimento durante a Terceira Vaga ao longo de 18 anos - estará à beira de uma recessão.

A ilustração mais simbólica desta inversão psicológica na análise da conjuntura dos Estados Unidos pode ser apreciada no «filme» dos relatórios semanais (Global Economics Weekly) da reputada Goldman Sachs (GS).

Entre a primeira semana de Novembro de 2000 e meados de Janeiro deste ano, os analistas da Goldman Sachs Financial Workbench passaram do optimismo em torno de um «arrefecimento suave» da economia dos Estados Unidos - traduzido numa desaceleração do crescimento anual para uns reconfortantes 3,3% em 2001 - para um pessimismo mal disfarçado que «dança» entre um cenário de desaceleração em torno dos 2% para um outro abertamente recessivo, com os primeiros trimestres do ano em crescimento negativo e um saldo anual de crescimento nulo.

Evolução dos cenários de crescimento para 2001
(% de variação do PNB)
 Países/Regiões Média da
década
1999 2000 2001-A 2001-B 2001-C
 EUA 2,9 4,2 5,1 3,3 2,0 0,0
 Europa 2,5 2,5 3,4 3,1 2,4 1,9
 Japão 2,1 0,8 1,4 2,6 2,4 1,7
 Fonte: Cenários segundo a Goldman Sachs entre 8/11/2000 e 17/01/2001
 Nota: 2001-A=cenário de «soft landing» apresentado em 8/11/2000; 2001-B=cenário de 
 «slowdown» apresentado em 17/01/2001; 2001-C=cenário de risco de recessão nos EUA
 apresentado em 17/01/2001

Em apenas dois meses e meio, os especialistas económicos «corrigiram» drasticamente o tiro no caso dos EUA e moderadamente no caso da Europa (que passará de um cenário optimista de 3,1% anual para menos de 2%, na hipótese mais pessimista). Quanto ao Japão, que esperaria em 2001 sair definitivamente das taxas de crescimento inferiores a 2%, poderá não o conseguir.

Da morfina do FED...

Nem a «morfina» dos cortes das taxas de juro pelo Federal Reserve Board (FED) norte-americano parecem inverter a tendência pessimista de mudança de ciclo. Esta semana, o Federal Reserve Open Market deu um corte de mais 50 pontos base. Em apenas um mês, o FED cortou em 100 pontos base as taxas de juro que cairam para 5,5%, estando, de novo, ao nível do princípio de 2000, quando incendiaram o «boom» da Nova Economia com o dinheiro barato.

Histórico da dança
das taxas de juro americanas
 Janeiro 2000 5,5% 
 Fevereiro 2000 5,75% 
 Abril 2000 6% 
 Junho 2000 6,5% 
 3 Janeiro 2001 6% 
 31 Janeiro 2001 5,5% 
 Fonte: Thomson Financial Datastream, 
 Financial Times, 30 Janeiro 2001

Segundo os analistas do Morgan Stanley Dean Witter, as taxas de referência ainda poderão baixar mais até aos 4,5% no segundo semestre, na sequência de novos cortes. «O FED procura fazer crer que a aspirina vai actuar. Toda a gente parece esquecer-se da lição do Japão desde 1989. Apesar do dinheiro quase dado (0,5% de taxa de juro), a economia continua com dificuldade de descolar e a bolsa está estagnada», afirma Adam Hamilton, um especialista norte-americano, que dirige a Zeall Research (linkar para artigo sobre o crash do nasdaq). «O dinheiro fácil vai tornar o nosso país ainda mais vulnerável», conclui este analista.

O ópio mais apetecido é o que permite acreditar que a economia não é cíclica. A ideia de um «boom» muito longo – que segundo alguns chegaria até 2020, no quadro da Terceira Vaga – instalou-se em muitos meios e tornou-se crença «popular». O mito foi lançado pelo futurólogo californiano Peter Schwartz e por Peter Leyden numa edição da revista Wired de 1997 (edição de Julho 97).

Entretanto, estudos mais «realistas» apontam para um período de quatro anos de «downsizing» e reengenharia, particularmente profundo na área da Nova Economia, seguido da emergência de novos modelos de negócio mais maduros e de um provável novo «boom» na proximidade do final da década, em torno de novas tecnologias e indústrias, umas já conhecidas hoje em dia (como a genómica e a biotecnologia em geral, os novos materiais, a computação distribuída e o «P2P», a moda da computação que se veste, etc.) e outras que, certamente, nos surpreenderão (ver artigos relacionados). Conseguir «navegar» nestes próximos cinco anos é o desafio que se coloca aos empreendedores e aos gestores.

... à força dos números

Os sinais das estatísticas são, de facto, avassaladores.

Olhando para as bolsas norte-americanas verificamos que o ano de 2000 ficará marcado por um retorno médio negativo sobre o preço de oferta nas idas iniciais à bolsa nesse ano (os famosos IPO, acrónimo para initial public offering) - menos 13% no caso dos IPO realizados no NASDAQ até Novembro, segundo a CommScan.com, e menos 18% em todas as bolsas americanas, segundo dados apurados pela Renaissance Capital para todo o ano (em www.ipo-fund.com/review/main.asp). Estas percentagenzitas significaram alguns biliões de perdas.

 Valorizações e desvalorizações dos IPO no NASDAQ 
 Ano Montante
(mil milhões)
IPO
(número)
% de Valorização
s/ preço de oferta
 1997 1,03 34 330
 1998 2,06 45 378
 1999 24,1 292 88
 2000 * 16,5 151 - 13
 Fonte: www.commscan.com citada pela CNN Financial
 Obs: (*) Entre Janeiro e Novembro

 Total do comportamento dos IPO nos EUA 
 Ano     Número     Fundos
(mil milhões)
    % Retorno
s/ preço de oferta 
 1996   502   58   23
 1997   390   52   24
 1998   247   45   37
 1999   486   93   276
 2000   406   97   -18
 Fonte: www.ipo-fund.com da Renaissance Capital

A situação, também, não é tranquilizadora para o andamento dos negócios intimamente ligados à Terceira Vaga. A convicção de muitos gestores das chamadas tecnologias de informação e comunicação de que o sector estará relativamente «imune» ao choque, não tem qualquer fundamento, segundo muitos analistas económicos.

«O sector tecnológico é mais sensível ao momento da economia», já advertia a Goldman Sachs em meados de Dezembro do ano passado. Nos últimos vinte anos, sempre esteve mensalmente 13% acima do resto da economia quando o vento correu de feição na Terceira Vaga, e 3% abaixo quando a tormenta bateu à porta.

 Impacto no PNB de um colapso 
no investimento em TIC
 Países Diminuição percentual
na taxa de crescimento
 EUA - 0,8
 Europa - 0,2
 Japão - 0,5
 Fonte: Goldman Sachs

Segundo estimativas da GS, o investimento nesta área deverá desacelerar, nos Estados Unidos, de um crescimento de 22% em 2000 para 1% em 2001. No caso específico, dos gastos em investimentos em telecomunicações, a quebra deverá rondar os 3%. O colapso desta desaceleração (é o termo, sem eufemismos, usado pelos analistas da GS) terá um impacto negativo de 0,8% no PNB americano.

Peter Cohan: «Nova Economia Sofrerá Mais»
O «downsizing» reapareceu - o «start down» já começou
O clima psicológico pessimista começa a atingir o accionista «popular» que planeou as suas poupanças no portefólio bolsista nomeadamente no universo das «dot-com» e baseou o seu orçamento de gastos e a sua fortuna futura em «stock-options». «Foram derretidos 3,3 biliões (milhões de milhões) de dólares em capitalização bolsista ao longo de 2000, depois do ‘crash’. A queda abissal das cotações tornou estes accionistas - que formam mais de 50% das famílias americanas - em consumidores retraídos que se sentem agora literalmente ‘pobres’, o que cria um ciclo vicioso», afirma Peter Cohan, um dos especialistas norte-americanos da costa atlântica mais ouvido sobre Nova Economia e com várias entrevistas publicadas na Janela na Web.com.
«Temos de estar seriamente preparados para uma ‘aterragem forçada’ da economia norte-americana», frisa Cohan, nas declarações que prestou em exclusivo, num momento (finais de Janeiro 2001) em que o debate entre os cenários de «softlanding» e de «hardlanding» começa a dominar a opinião pública americana, mal refeita, ainda, dos primeiros sinais desencorajadores do quarto trimestre do ano passado (2000).
Quebras no 4º trimestre de 2000 e poupança pessoal negativa
O PNB dos Estados Unidos cresceu, apenas, 1,4% no 4º trimestre de 2000, em comparação com os 2,2% estimados - trata-se da taxa trimestral mais baixa desde 1991. A queda no consumo começou a verificar-se com uma quebra de 2,6% e mais profundamente no investimento em bens de capital, que «quebrou» 4,7% nesse último trimestre de 2000. Descobriu-se, também, que a taxa de poupança pessoal nos EUA é hoje negativa, de cerca de -0,8%.
É quase unânime entre os analistas económicos a previsão de que «uma recessão poderá ocorrer nos dois primeiros timestres de 2001, na esperança de que a situação se inverta no segundo semestre do ano, em virtude do efeito dos cortes nas taxas de juro pelo FED», refere Peter Cohan, que, no entanto, acrescenta não estar, assim, tão optimista.
Cohan contraria, também, o discurso «tranquilo» de alguns meios da Nova Economia que crêm poder estar mais resguardados do impacto recessivo. «A Nova Economia vai sofrer mais do que a Velha. A Nova Economia depende vitalmente do capital de risco e das idas às bolsas para o seu crescimento. E, neste campo, a situação é de debandada», conclui o nosso interlocutor.
Os capitalistas de risco já começaram a sair das «dot-com» face a números reveladores: 65% das idas iniciais à bolsa (os célebres IPO) em 2000 saldam-se hoje por transacções abaixo dos preços de oferta e 12% desses IPO terminaram o ano com cotações 90% ou mais abaixo dos preços de fecho do dia da ida à bolsa. Mais de cem «start-ups» cotadas em Bolsa já faliram, desde o mês do «crash» no NASDAQ (Abril) até Dezembro de 2000, segundo o rastreio permanente realizado pelo JournalduNet francês. Este filme já foi baptizado ironicamente de «start-down».
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