A assinatura do «crash» do Nasdaq

Um estudo inédito de Adam Hamilton da Zeal Research sobre a ascenção e queda do índice compósito do Nasdaq

Ideia-Forte:
O NASDAQ ainda não bateu no fundo. O «iô-iô» actual de começo de ano
é pura ilusão.

Jorge Nascimento Rodrigues com Adam Hamilton

Versão reduzida publicada no semanário português Expresso

Artigos de referência
 The Greenspan Gambit | Série de artigos do Ardina na Crise 

Sites de referência
 Nasdaq | Zeal Research | Financial Crisis Update 

Quadros de referência no artigo
Datas de referência no Nasdaq em 2000
Máximos históricos do «crash» diário nos EUA
 Evolução do agregado monetário M3 nos EUA em 2000 

Os analistas continuam - delicadamente - a falar da «correcção» do NASDAQ, apesar da queda do índice (compósito) em 51% entre o pico histórico ocorrido a 10 de Março e o final do ano passado. A dita correcção foi superior inclusive à ocorrida no «crash» do Dow Jones Industrial de 1987 e no de 1973/74.

Só nos últimos seis meses de 2000, o PER (price-to-earnings ratio, o rácio mais usado para avaliar o múltiplo de valorização capitalista) do NASDAQ caiu de 106 para 36, ou seja, em finais de Dezembro ficou em 1/3 do múltiplo de final de Junho.

Quadro I
Datas de referência no NASDAQ em 2000
10 de Março - pico histórico, com 5132,5 pontos
27 de Março - 2º pico, com 5040 pontos
14 de Abril - dia do «crash», com 3321,3 pontos
Fecho do ano de 2000 com 2251,71 pontos

Fontes: www.bloomberg.com e www.wallstreetview.com
Obs: O leitor poderá gerar quadros históricos da evolução do NASDAQ nestes «sites»

Para só citar dois casos emblemáticos que monopolizaram as valorizações do NASDAQ há um ano atrás, refira-se que a Microsoft viu as suas cotações baixarem de um pico histórico de 116,06 dólares em Janeiro de 2000 para valores actuais na ordem dos 60 dólares, ou seja quase metade. Outro gigante do NASDAQ, a Intel, caíu de um máximo de 75,81 dólares para a casa dos 36 em seis meses.

Em suma, os ganhos históricos do NASDAQ da ordem dos 116% entre Março de 1999 e Março de 2000, estão a esfumar-se paulatinamente. Apesar disso, na linguagem oficial, a palavra «crash» ainda está censurada.

Pelo contrário, as expectativas continuam a ser alimentadas, fazendo crer que o «iô-iô» de altos e baixos, a que temos assistido nestas primeiras semanas de Janeiro do novo ano, permitirá ao NASDAQ recuperar alguma glória.

Sinal enganador

Alguns analistas viram o sinal de luz ao fundo do túnel na euforia das transacções registadas em 3 de Janeiro passado (mais de 3,1 mil milhões de operações num só dia, um máximo histórico) na sequência do anúncio pelo Federal Reserve Board de um corte inesperado de 50 pontos-base nas taxas de referência.

Esta decisão de emergência de Alan Greenspan está, ainda, por esclarecer. Suspeita-se que tenha sido uma operação de salvamento de algum estrangulamento no Bank of America relacionado com a falência técnica das duas empresas de electricidade da Califórnia, a Pacific Gas & Electric e a Southern California Edison, o que implicou a declaração do estado de emergência energético de grau 3 naquele Estado norte-americano durante este começo de Janeiro de 2001. As duas empresas têm uma dívida de médio e curto prazo na ordem dos 27 mil milhões de dólares.

Leia aqui o artigo de Adam Hamilton, de 5/01/2001, sobre
«The Greenspan Gambit» no seu site Zeal Research

Outro artigo de referência de Hamilton: «Bubbling Intereste Rates»,
de 26/01/2001

A agitação provocada pela descida das taxas de referência do FED permitiu um recorde histórico de aumento percentual num só dia do NASDAQ compósito (na ordem dos 14,2%) e seria responsável pela inversão da tendência em baixa. Mas esta «desdramatização» - por mais tranquilizadora que seja para investidores que ainda não entraram em pânico ao verem o seu «portfolio» derretido, em média, mais de 40% entre Janeiro de 2000 e Janeiro 2001 - «é uma abordagem falseadora», reclama Adam Hamilton, um investidor privado com um longo currículo nas praças financeiras, que dirige a Zeall Research, uma empresa de «intelligence» económica, a partir de uma paisagem deslumbrante nas montanhas das Badlands no estado norte-americano do Dakota do Norte.

«O ‘crash’ já ocorreu. Ele deu-se entre os picos de Março e 14 de Abril do ano passado. A maior ‘bolha’ de sempre dos mercados financeiros estoirou nesse período e o problema agora é saber até onde irá a quebra e quando parará a queda, por mais zigue-zagues que ocorram», refere-nos Hamilton.

A 6ª Feira Negra

De 27 de Março, a segunda-feira em que se deu o segundo pico histórico do NASDAQ, até 14 de Abril, uma sexta-feira, o índice quebrou 34%. Nessa célebre sexta-feira «negra» da Nova Economia, o NASDAQ caíu 355,49 pontos, cerca de 10%, mais do que ocorreu no ‘crash’ de Dezembro de 1899 ou a 6 de Novembro de 1929.

Quadro II
Máximos históricos de «crash» num só dia
14 de Abril 2000 - Nasdaq - queda de 355,49 pontos - 10%
19 de Outubro de 1987 - Dow Jones Industrial - queda de 508 pontos - 23%
28 de Outubro de 1929 - DJI - queda de 39 pontos - 13%
29 de Outubro de 1929 - DJI - queda de 31 pontos - 12%
6 de Novembro de 1929 - DJI - 26 pontos - 10%
18 de Dezembro de 1899 - DJI - 6 pontos - 9%

Fonte: Dow Jones & Company, http://indexes.dowjones.com/ddcrash.html

Segundo Hamilton, a evolução do índice do NASDAQ ao longo dos últimos 19 meses, entre 1999 e 2001, é quase «tirada a papel químico» da curva de ascensão e queda do Dow Jones Industrial (DJI) a partir de Setembro de 1928 até bater no fundo em Dezembro de 1933. Um outro paralelo simulado por este analista com a ascensão e queda do índice Nikkei japonês entre 1989 e 1991, mostra «alguma similitude comportamental». «Com a agravante, frisa Hamilton, da ‘bolha’ do NASDAQ ter sido ainda mais extrema e de se poder esperar um bater no fundo ainda mais doloroso do que no caso japonês».

Os rumores aumentam no sentido de que a correcção global então ocorrida no Nikkei (na ordem dos 66%) poderá ser ultrapassada pelo NASDAQ nos próximos meses, o que significaria índices deste último abaixo dos 2000 pontos (actualmente tem zigue-zagueado entre os 2300 e os 2900).


A armadilha mortal

Adam Hamilton chama a atenção para os comportamentos em «iô-iô» que, historicamente, se verificam depois do momento do «crash». Eles trazem alguma animação de curta duração, servindo de antecâmara a quedas ainda mais profundas.

O papel dessas euforias, no meio do colapso, é, em sentido figurado, «uma espécie de bebedeira antes de cair ao chão». «Trata-se de um jogo extremamente perigoso», adverte o nosso interlocutor.

Ao longo de 2000 assistimos entre Abril e Setembro ao ziguezague do índice do NASDAQ num patamar entre os 3300 e os 4300, o que não impediu uma segunda quebra abrupta em meados de Setembro que o empurrou para 2252 pontos no final do ano.

O segundo período de «iô-iô» ocorre precisamente agora, neste começo do novo ano. Ele teve um «empurrãozinho» psicológico dado pela «morfina» da decisão inesperada do FED a 3 de Janeiro e pela expectativa de novos cortes nas taxas de referência na próxima reunião do Comité do Federal Reserve Open Market em 30 e 31 de Janeiro de 2001. Alguns analistas desejam mesmo que o acumulado desses cortes possam atingir os 200 pontos ao longo deste ano.

Subterraneamente ocorreu ao longo de 2000, e de novo agora nas primeiras semanas de 2001, uma injecção massiva de liquidez no sistema financeiro. O agregado monetário M3 disparou em Dezembro do ano passado para um crescimento mensal anualizado de 16,13%, contra uma média anterior de 7,8%. Agora, em Janeiro, já «explodiu» para uma taxa de 18,9%.

Quadro III
M3 - taxa de crescimento mensal anualizada (2000-2001)
Janeiro 2000 - 8,86%
Fevereiro 2000 - 4,24%
Março 2000 - 14,34% (no auge da 'bolha')
Abril 2000 - 9,38%
Maio 2000 - 3,94%
Junho 2000 - 7,7%
Julho 2000 - 8,83%
Agosto 2000 - 9,89%
Setembro 2000 - 8,76%
Outubro 2000 - 3,91%
Novembro 2000 - 3,11%
Dezembro 2000 - 16,13% (aceleração da «intervenção»)
Janeiro 2001 (até meados do mês) - 18,9%

«Não se deve esperar nada de bom de uma situação artificial deste género», comenta Hamilton, que acrescenta: «Veja-se a lição dada pelo caso do Japão. Depois do ‘crash’ do Nikkei em 1989, o banco central nipónico foi baixando as taxas de juro ao longo de dez anos até virtualmente zero. Apesar disso, o Nikkei continua a 1/3 da sua valorização na altura da ‘bolha’. Crédito e capitais fáceis nunca impedirão a correcção de uma ‘bolha’ especulativa».

A dupla volatilidade

O problema crítico para os investidores mais avisados é «pressentir» quando o índice baterá no fundo, abrindo caminho para uma retoma subsequente. O problema é complexo e não advém da racionalidade – mas da psicologia humana num contexto de especulação.

«O que vemos hoje é que há, ainda, um sentimento geral de euforia. De um ponto de vista histórico, só se bate no fundo quando a maioria perde as ilusões. A ‘bolha’ do começo de 2000 foi marcada por uma extrema avidez. O colapso final do NASDAQ será marcado por um pânico comparável», refere Adam Hamilton.

Ele estudou o processo de evolução após o momento do «crash» noutras situações - nomeadamente em 1929 e em 1974 no caso do DJI e em 1989 no Nikkei - e encontrou um fenómeno curioso que baptizou de «dupla assinatura da volatilidade». Trata-se de uma espécie de duas bossas de um camelo que mostram estatisticamente duas altas volatilidades diárias na bolsa com recordes de transacções que se sucedem no tempo. Depois dessa segunda «assinatura», o índice bateu no fundo. Por exemplo, no caso do DJI, depois do ‘crash’ de Outubro de 1929, a dupla volatilidade só ocorreu em Maio e Outubro de 1932, abrindo caminho para a recuperação que iria até 1966.

Estudos comparativos de Adam Hamilton sobre a dupla volatilidade. Leia aqui

Ora, o estudo feito ao NASDAQ após o «crash» de 14 de Abril até à data ainda não perfigura o mesmo tipo de comportamento. «De qualquer modo, é muito difícil captar a dupla volatilidade no momento em que ocorre. Em geral, só a observamos um a dois meses depois», adverte Hamilton. «A probabilidade é que isso ocorra lá mais para o final de 2001 ou em 2002. É claro que esta estimativa pode mudar por efeito de factos inesperados que poderão acelerar este processo», arrisca o responsável da Zeal Research.

Este colapso final seria mais visível no PER (o rácio a que já nos referimos) do NASDAQ. Apesar dele já ter caído para perto dos 35, Adam Hamilton espera uma queda até aos 10. «No caso do NASDAQ argumenta-se que o PER histórico médio deverá rondar os 20, o que representa um retorno anual do capital na ordem dos 5%. Em geral, em períodos pós-crash, o PER costuma cair para metade», adianta.

Em conclusão, há ainda um longo calvário a percorrer.

O processo de limpeza do NASDAQ

Sintoma da razia a que o NASDAQ está, naturalmente, a proceder no universo das «dot-com», é o número crescente de empresas cotadas que se vêm obrigadas a sair daquela bolsa, em virtude de cotações abaixo do 1 dólar ao longo de trinta dias seguidos.

Desde o «crash» do NASDAQ em Abril do ano passado que o total até final de 2000 se cifrou em 527 empresas abatidas na lista, segundo dados apurados pela FactSet Data Systems.

Leia aqui o artigo de referência no The Industry Standard sobre esta «limpeza»

No princípio deste ano já se contabilizaram mais 295 nessa linha de risco, segundo a revista The Industry Standard, que publicou, recentemente, uma listagem nominal desse lote.

O problema desta «limpeza» não afecta apenas as «dot-com» envolvidas e os seus quadros, mas também as famílias americanas que, desde 1998, entraram em força no jogo da bolsa, com o incentivo e facilidade trazida pelos «brokers» na Web. Hoje em dia 50% das famílias americanas têm a parte de leão das suas poupanças e reformas em «papeis» financeiros - em 1929 apenas 5% o conseguia.

Calcula-se que o dinheiro «derretido» desde os picos históricos de 2000 nos três índices norte-americanos (DJI, NASDAQ e S&P 500) deve ter superado já o número respeitável de 4 biliões (milhões de milhões) de dólares.

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