Guerra & Paz no Crude

Ardina na Crise (do crude) divulga estudo de Richard Duncan, presidente
do Institute on Energy and Man (de Seattle), sobre cenários de guerra
no Médio Oriente no século XXI

Jorge Nascimento Rodrigues

 Site de Richard Duncan com o estudo 

Os últimos acontecimentos no Médio Oriente voltaram a trazer para a discussão geo-estratégica o problema das guerras de hegemonia regional naquela zona do globo e a possibilidade de um efeito bola de neve no Mediterrâneo.

A invasão do Kuwait pelo Iraque nos anos 90 e a recente provocação israelita na esplanada das mesquitas em Jerusalém, ainda que de sinais contrários, são "filhas" do mesmo barril de pólvora. Trata-se de uma região que, apesar dos choques petrolíferos e das guerras locais em que se envolveu no século XX, ainda não chegou ao auge do seu peso geo-estratégico.

No meio da turbulência está um outro barril – o do crude. Este ouro negro «ainda vai trazer muita guerra na região», afiança Richard Duncan, o presidente do Institute on Energy and Man, sediado em Seattle, nos Estados Unidos, que já escreveu duas cartas ao Presidente Clinton sobre o assunto (ver caixa).

Como pano de fundo está um estudo prospectivo de Duncan que aponta para um período muito crítico em que se vai jogar a liderança mundial desta mercadoria escassa, e cuja contagem decrescente já começou.

A reviravolta geo-estratégica

Duncan parte de duas constatações que não são contestadas por ninguém: as reservas de petróleo devidamente comprovadas são detidas em 77,6% pelos países da OPEP e, neste grupo, uma fatia de 63,8% está nas terras dos cinco "magníficos" do Médio Oriente - Arábia Saudita, Emiratos, Irão, Iraque e Kuwait.

Acresce que a história recente desvendou um fosso entre as taxas de crescimento da produção nos países da OPEP e nos outros produtores de petróleo não-OPEP. Entre 1985 e 1999, a taxa nos primeiros (3,5% anuais em média) foi quase 9 vezes superior à verificada nos segundos (0,4%).

Entrando na prospectiva, com base num modelo heurístico criado por Duncan (e que pode ser consultado na Web em www.halcyon.com/duncanrc/), os cenários futuros do mercado do petróleo apontam para uma sucessão de datas com implicações geo-estratégicas que não podem ser ignoradas.

DATAS A RETER
 2006:  Pico da produção mundial de petróleo
 2008:  Inversão da relação entre OPEP e produtores de petróleo não-OPEP
 ("crossover event", no modelo de Duncan)
 2025:  Domínio dos 5 países do Golfo dentro da OPEP
 2040:  Produção mundial de petróleo caíu em 60% em relação ao pico de 2006
 e os 5 países do Golfo produzem 92% da produção de petróleo
  Fonte: «Crude Oil production and Prices: A look ahead at OPEC decision making process»,
  intervenção apresentada no Fourth Annual Troubleshooters Forum, Petroleum Technology
  Transfer Council, realizado em 22 Setembro de 2000, em Bakersfield, California

Segundo o estudo, a produção mundial de petróleo atingirá um pico histórico em 2006, altura a partir da qual deverá entrar num período de desaceleração de 2,5% ao ano, caindo em 60% até 2040.

Por outro lado, a correlação de forças inverter-se-á no mundo dos produtores. Em 2008, os países da OPEP ultrapassarão os não-OPEP na produção. Os primeiros detém hoje 30% da produção, passarão a 50% naquela data e a 92% em 2040.

A liderança absoluta da OPEP - e, por arrastamento, do ouro negro - será progressivamente localizada no Médio Oriente. Os cinco "magníficos" estão a iniciar uma caminhada que conduzirá a produzirem mais do que os outros membros da OPEP em 2025.

A "jihad" petrolífera

Segundo Duncan, é do interesse vital dos cinco países produtores do Médio Oriente um controlo apertado da torneira do crude ao longo dos próximos vinte e cinco anos. Os seus interesses de longo prazo (40 a 50 anos no século XXI) não são compatíveis com as pressões dos países importadores desenvolvidos que querem mais e mais milhões de barris por dia colocados no mercado e a um preço barato.

O Médio Oriente vai transformar-se, por isso, numa região escaldante no próximo século. Uma «guerra santa» prolongada em torno do petróleo, com diversos episódios, não deve ser excluída dos cenários. Duncan avança a hipótese do nascimento de uma aliança de países muçulmanos produtores de petróleo - são 19 - liderados pelos cinco «magníficos», que suplante o próprio papel da OPEP.

CARTA A CLINTON
Já são duas as cartas que Richard Duncan enviou ao Presidente Clinton. A 13 de Maio de 1997 argumentava o cenário da criação de uma nova aliança dos países muçulmanos produtores de petróleo que viesse a suplantar o peso da OPEP. Daí retirava um conjunto de consequências para a política de segurança norte-americana. E a 29 de Setembro deste ano (2000) alertava para o desencadeamento de novas guerras no Médio Oriente com o problema de Jerusalém (Al Quds, para os árabes) como epicentro. Duncan falava da possibilidade de nunca se chegar a acordo sobre a questão desta cidade emblemática e de qualquer fagulha desencadear a guerra. As linhas que escreveu foram premonitórias – seis dias depois, uma provocação numa esplanada de mesquitas iniciava o enterro do processo de paz israelo-palestiniano.
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