Globalização em risco

Paradoxalmente não vão ser os movimentos de rua anti-globalização que vão colocar em xeque a mobilidade de capitais e o comércio internacional - mas o "factor geo-político" incendiado pelos principais arautos e beneficiários dela até à data

Jorge Nascimento Rodrigues, Março de 2003

A globalização financeira e comercial poderá estar à beira de um recuo temporário, depois de um crescimento histórico desde os anos 70 quando foi abandonado o padrão dólar e se instituiu a flutuação das taxas de câmbio. O regresso ao perfil de comportamento da mobilidade de capitais entre 1914 e 1945 poderá estar no horizonte. Não só por efeito directo de uma espiral de conflitos e de rearmamento - que desviará recursos crescentes nas principais potências e regiões do mundo e provocará quebras no comércio internacional -, como pela generalização de um clima psicológico de retracção nos investimentos directos no estrangeiro por parte das empresas privadas.

Por mais paradoxal que pareça, este retrocesso não advirá do impacto dos movimentos políticos e sociais de rua anti-globalização, mas resultará do "factor geo-político" incendiado precisamente pelos principais protagonistas da globalização. O "gatilho" da inversão pode ter sido dado pela nova política "neo-imperial" da Administração Bush.

Por mais paradoxal que pareça, este retrocesso não advirá do impacto dos movimentos políticos e sociais de rua anti-globalização, mas resultará do "factor geo-político" incendiado precisamente pelos principais protagonistas da globalização

No entanto, esta viragem geo-política vem convergir com outros factores "estruturais e sistémicos" que abriram brechas na globalização. Os adjectivos foram usados por Paul Kennedy, da Universidade de Yale, numa mesa redonda organizada pela consultora Goldman Sachs. Tais factores desenvolveram-se na década de 90 do século passado e são explicados no documento «The Challenge of the Century: Getting Globalization Right», publicado por aquela consultora em Janeiro passado (Global Economics Paper, nº 89).

Emergentes perderam

Provavelmente, o acontecimento mais grave para a economia mundial é o facto da integração nos mercados financeiros por parte dos países emergentes ter tido um impacto económico interno negativo na década de 90. Esta conclusão é revelada num artigo científico que será publicado na edição de Maio da American Economic Review, e que foi apresentado por Ayan Kose, Eswar Prasad e Marco Terrones nas publicações do insuspeito Fundo Monetário Internacional (FMI). Ou seja, segundo «How Does Globalization Affect the Syncrhronization of Business Cycles?», o movimento de globalização de capitais penalizou fortemente os países emergentes - exactamente aquele grupo "intermédio" que era suposto mais beneficiar.

Segundo esse estudo constante de um "working paper" do FMI (WP/03/27), a correlação da globalização com os agregados macro-económicos nos países emergentes - denominados países em desenvolvimento "mais integrados financeiramente" ("more financially integrated" - MFI) - foi negativa nos anos 90. Veja-se o contraste: enquanto os países desenvolvidos viram a correlação passar de 0,05 nos anos 60 para 0,58 nos anos 90, a evolução nos países emergentes foi de sentido inverso no mesmo período: de 0,12 nos anos 60 para - 0,18 (valor negativo) nos anos 90!

Conclusão convergente é tirada por um outro artigo publicado por investigadores do insuspeito National Bureau of Economic Research norte-americano e do Center for Economic Policy Research europeu. Em «Financial Globalization and Emerging Markets: With or Without Crash?», Philippe Martin e Hélène Rey mostraram que os países emergentes foram os com maior frequência de "crashes" nas décadas de 80 e 90: os cinco campeões foram o Brasil (19 "crashes"), a Argentina (12), o México (10), a Indonésia (9) e a Malásia (9). Nos cinco seguintes mais vulneráveis encontram-se Taiwan, Turquia, Venezuela, Rússia e Tailândia.

Assunto ainda não abordado publicamente é o da "guerra" pelo futuro padrão na mobilidade de capitais. A guerra pela "melhor divisa" está aberta

A partir do alarme das crises asiáticas dos anos 90, muitos economistas mudaram radicalmente a sua opinião sobre a globalização, concluiu a referida mesa redonda organizada pela Goldman Sachs. Refere a consultora: «O optimismo que baseava as opiniões de muitos especialistas no final dos anos 80 e princípio dos anos 90 deu origem lentamente a muito maior cautela sobre a globalização» (vide conclusões no Global Economics Weekly de 26/02/03). Nessa mesa redonda, Paul Kennedy considerou explosivo este pequeno facto estatístico: a diferença económica entre os países mais ricos e os mais pobres era de 1 para 13 em 1945 e passou para 1 para 100 agora.

Assunto ainda não abordado publicamente é o da "guerra" pelo futuro padrão na mobilidade de capitais. Analistas argumentam que os EUA esperam poder pôr fim ao regime de flutuação vigente desde 1971 e regressar à redolarização do mundo, como medida de antecipação (recorde-se a expressão geo-política agora em moda de "preempção", "preentive" no original anglo-saxónico) em relação ao euro. Afirma a Goldman Sachs: «O último passo da globalização poderá implicar o fim da flutuação do mercado de câmbios. Na nossa definição de globalização, isso poderá implicar a adopção da melhor divisa». A guerra pela "melhor divisa" está aberta.

Números do "boom"

O período de "boom" da mobilidade de capitais e do comércio internacional à escala mundial a partir dos anos 70 trouxe os números da globalização para valores impressionantes. O aumento anual do comércio internacional é desde os anos 60 superior ao acréscimo do produto mundial em quase todos os anos da série estatística. O seu crescimento acumulado foi três vezes superior ao acréscimo do produto mundial nos últimos quarenta anos. Os fluxos internacionais de capitais passaram desde 1980 de 5% do PIB dos países desenvolvidos para 20% e nos países com mercados emergentes cresceram quatro vezes naquele período de vinte anos.

O mercado de divisas é hoje 10 vezes superior ao da economia real, tendo disparado de menos de 600 mil milhões de dólares por dia em 1989 para um pico de 1,5 biliões em 1998, e descido para os 1,2 biliões em 2001, por efeito da entrada do euro. A capitalização bolsista passou de 60% do produto mundial em 1994, aquando da emergência da Nova Economia, para um máximo histórico de 120% do produto mundial em 1999, estando hoje nos 100%. Ou seja, a capitalização bolsista vale hoje tanto quanto a economia mundial.

A globalização teve três momentos-chave nos últimos cinquenta anos. O primeiro foi o fim de Bretton Woods e do padrão dólar em 1971. Com a flutuação das taxas de câmbio entre as diversas moedas do mundo, a mobilidade de capital foi crescente. Depois, a queda do Muro de Berlim em 1989, veio acelerar as reformas no mundo ex-socialista e em desenvolvimento, o que permitiu novo impulso à mobilidade de capitais e ao comércio internacional para espaços até então significativamente "fechados". Finalmente, a emergência da plataforma da Internet e da Web a partir de meados dos anos 90, permitiu o desenvolvimento de uma "bolha" especulativa em todo o mundo, com uma circulação financeira jamais vista.

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