Report da frente - O Ardina na Geopolítica

Nº 2 - 1º trimestre de 2008

Crónicas e Reportagens de Jorge Nascimento Rodrigues sobre a rivalidade entre potências

Sumário:
1. O novo segundo Mundo. Uma tese polémica de Azar Gat. Os novos protagonistas da geopolítica.
2. O novo papel financeiro dos Fundos Soberanos. E que papel geopolítico irão desempenhar?
3. O pecado americano. A falta de smart power. Uma conversa com Joseph Nye (autor de The Powers to Lead: Soft, Hard and Smart).
4. Risco de estagflação nos Estados Unidos e de ligeiramente abrandamento mundial. Os EUA já não são a locomotiva económica.
5. Europa a meio gás. O risco europeu e o "bluff" russo.

1. O novo segundo mundo vai mudar o contexto geopolítico

O regresso dos capitalismos autoritários ao primeiro plano da economia e finança mundiais, segundo o investigador israelita Azar Gat.

Entrevista com Azar Gat em Gurusonline.tv

O mundo mudou muito desde os tempos da velhinha teoria dos "três mundos" dos anos 1970 que simplificava a vida aos analistas.

Entretanto, uma das superpotências implodiu, a China maoista e a Índia estatizante mudaram para o clube reformista, o hegemonista actual sofre um processo de perda de legitimidade internacional e está atormentado com cólicas financeiras, os próprios BRIC inventados pela Goldman Sachs são um mosaico de potências emergentes estruturalmente diferentes, novos-ricos subiram para o palco (não só os famosos "tigres", como os novos potentados dos petrodólares) e o terceiro mundo deixou de ser uma bandeira única, ainda que 2.600 milhões de habitantes do Planeta vivam diariamente com menos de 2 dólares (menos de 1 euro e meio, 2 a 3 cafés por dia), ou seja 40% da população mundial.

Neste emaranhado de realidades, o investigador israelita Azar Gat, 48 anos, autor de 'A Guerra na Civilização Humana' (Oxford University Press, 2006, considerado, nesse anos, um dos melhores livros pelo suplemento literário do Times), descortinou a emergência de um "espaço alternativo", ainda fragmentado, ao que se designa por "democracia liberal", ou seja, o capitalismo com sistemas formais de representação democrática.

A sua reflexão surgiu na revista Foreign Affairs num artigo intitulado "The Return of Authoritarian Great Powers" (edição de Julho-Agosto, 2007).

Pólos de atracção

Esse espaço alternativo está a ser alimentado pelas reformas capitalistas da China desde o final dos anos 1970, pelo sucesso de "tigres" asiáticos que não fizeram ainda a transição plena para a democracia (como é o caso de Singapura, classificada como "regime híbrido" pelo The Economist, ao contrário do que ocorreu na Coreia do Sul e em Taiwan depois de 1987), da Rússia sob gestão de Putin e dos "tigres" financeiros dos emiratos do Médio Oriente, classificados pela Freedom House como "não livres".

O que Azar Gat sublinha é o facto de ditaduras e autocracias estarem a ter êxito económico, e a transformarem-se em "pólos de atracção" capitalista. Se olharmos para as projecções até 2030, realizadas recentemente pelo holandês Angus Maddison (Contours of World Economy 1-2030 AD), a China crescerá para mais do triplo, podendo chegar a primeira potência mundial em PIB (em paridade de poder de compra - ppc), e a Rússia multiplicará 2 vezes e meia a sua riqueza nacional. Ainda, tomando em linha de conta, essas projecções, Rússia e China ultrapassarão, em 2030, a barreira dos 15.000 dólares anuais de PIB "per capita" (em ppc), o que significará a criação de classes médias de dimensão.

Se este movimento se consolidar numa geração, diz Gat, veremos a formação de um novo "segundo mundo", de grandes potências capitalistas não democráticas, como no início do século XX, com capacidade de atracção do "modelo" junto de pequenas e médias potências regionais, e de projecção mundial.

Cavalos de Tróia

A que se poderão juntar os "cavalos de Tróia" financeiros, como lhes chamou o analista americano Peter Cohan. Os personagens deste filme são os potentados dos petrodólares, com PIB "per capita" (em ppc) de primeiro mundo, e fundos financeiros (designados na gíria por SWF-sovereign wealth funds) gigantes, que juntamente com os bancos centrais asiáticos já dominam 10% dos activos financeiros mundiais sob gestão, e que crescerão até 2012 a uma média de 10% ao ano, segundo um estudo recente do Mckinsey Global Institute.

Ainda recentemente, a UBS suíça foi "salva" pela Singapore Investment Corporation (que passou a deter mais de 9% desse banco) e por um fundo soberano do Omã. Antes, em Novembro, tinha sido a vez do Abu Dhabi ter comprado 4,9% do Citicorp, o maior banco americano. E a polémica estalou, agora, porque a China quer adquirir 9,9% do banco de investimentos Morgan Stanley.

O que poderá resultar desta nova realidade? Azar Gat admite que "há a probabilidade da rivalidade entre grandes potências aumentar" e que "guerras por recursos poderão estoirar". A esperança, no xadrez mundial, diz ele, é que a outra parte dos BRIC, a com regimes democráticos, a Índia e o Brasil, equilibre a balança. A Índia, apesar da inteligência de muitas reformas e da aposta no capital intelectual, chegará a 2030 abaixo dos 10.000 dólares "per capita", e o Brasil, diz Gat, "tem ainda de provar que o crescimento não vai ser, apenas, um subproduto dos preços das "commodities", mas fruto de um movimento para uma economia mais avançada".

Estatísticas

A evolução da divisão do Mundo
PIB per capita (Paridades de poder de compra
relativas a dólares de 1990)
1973
Ricos e satélites13.082
China838
Rússia (parte da URSS)6.582
América Latina4.513
Índia853
Portugal7.063
1990
Ricos e satélites18.781
China1.871
Rússia (parte da URSS)7.799
América Latina5.072
Índia1.309
Portugal10.170
2003
Ricos e satélites23.345
China4.803
Rússia6.323
América Latina5.786
Índia2.160
Portugal13.807
2006
Ricos e satélites25.719 (1)
China7.712
Rússia12.178
América Latina7.425 (2)
Índia3.802
Portugal22.937
2030
Ricos e satélites37.086
China15.763
Rússia16.007
América Latina8.640
Índia7.089
Portugaln.d.
(1) Considerando, nesta lista do FMI, um conceito muito amplo de "rico", incluindo todos os países com o PIB per capita em ppc superior a 15.000 dólares/ano. Para ser comparável com os dados dos períodos anteriores, referidos por Angus Maddison.
(2) Os países da América Latina com pib per capita em ppc acima de 10.000 dólares/ano são 6: Argentina (único acima de 15.000 dólares/ano), Chile, Uruguai, Costa Rica, México e Brasil. A média é de: 12.360 dólares/ano. Estão numa posição intermédia entre a China e a Rússia.
Fontes: Angus Maddison (Contours of the World Economy, Essays in Macro-Economic History, 2007); FMI

Trajectos de evolução no PIB per capita em ppc
Japão: 1950/1973: x 6
Rússia: 1950/1973: x 2
China: 1973/2003: x 5,7; 1990/2003: x 2,5
Índia:1973/2003: x 2,6
Fonte: Angus Maddison

Os Novos Ricos que se destacaram do desenvolvimento intermédio e do 3º Mundo desde 1970
(Pib per capita em ppc acima de 30.000 dólares/ano, em 2006)
Tigres asiáticos (3):
Hong Kong38.714
Singapura33.471
Taiwan30.687
Tigres do Médio Oriente (4):
Qatar36.632
EAU34.109
Israel31.561
Tigres Europeus (5):
Irlanda44.676
Nórdicos38.763
Grécia33.004
(3) Apesar do crescimento, países como o Brunei e a Coreia do Sul estão ainda abaixo dos 30.000 dólares/ano, ainda que acima de 20.000.
(4) Apesar do crescimento, países como o Bahrain e o Kuwait estão ainda abaixo dos 30.000 dólares/ano, ainda que acima de 20.000.
(5) Apesar do crescimento do nível de vida, países como a Espanha, Eslovénia, República Checa e Portugal estão ainda abaixo dos 30.000 dólares/ano, ainda que acima de 20.000 dólares/ano.
Fonte: FMI, World Economic Outlook, Outubro 2007

Projecções para o futuro
Rússia: 2003/2030: x 2,5
China: 2003/2030: x 3,2
Índia: 2003/2030: x 3,2
Fonte: Angus Maddison

The New Power Brokers
As novas potências financeiras (final de 2006)

(biliões de dólares, trilhões em designação anglo-saxónica)
· Activos em divisas estrangeiras de países de petrodólares: 3,8 (3.800 mil milhões)
· Activos em divisas estrangeiras de países de petrodólares na mão de fundos nacionais: 2,28 (2.280 mil milhões)
· Activos em divisas estrangeiras da Abu Dhabi Investment Authority: 0,875 (875 mil milhões)
· Activos em divisas estrangeiras de bancos centrais asiáticos: 3,1 (3.100 mil milhões)
· Activos em divisas estrangeiras do Banco da China: 1,1 (1.100 mil milhões)
· Activos em divisas estrangeiras do Banco do Japão: 0,875 (875 mil milhões)
· Activos em divisas estrangeiras de bancos centrais de Hong Kong, Índia, Malásia, Singapura, Coreia do Sul e Taiwan: 1,125 (1.125 mil milhões)
· Conjunto dos activos estrangeiros nos países de petrodólares e bancos centrais asiáticos: 6,9 biliões (6.900 mil milhões)
· Crescimento dos activos estrangeiros nos países de petrodólares e nos bancos centrais asiáticos: 20% ao ano entre 2000 e 2006; no caso dos bancos centrais asiáticos o crescimento foi para o triplo, ou seja de cerca de 35% ao ano
· Crescimento previsto de 2006 a 2012: + 4,5 biliões (4.500 mil milhões), ou seja um crescimento, mais brando, de cerca de 10% ao ano
Por memória:
· Activos financeiros mundiais sob gestão (AuM): 68,5 biliões (68.500 mil milhões) em fundos de pensões, fundos mútuos, seguros, activos em petrodólares, activos nos bancos centrais asiáticos, "hedge funds" e fundos privados (PE=private equity)
· Países de petrodólares + bancos centrais asiáticos: 10%
Fonte: The New Power Brokers, McKinsey Global Institute, Outubro 2007

2. O novo papel dos fundos soberanos

Acusados de potenciais predadores políticos e braço armado de grandes potências emergentes, tornaram-se um dos principais agentes no mercado de capitais mundial.

Radar dos Fundos

Os fundos financeiros soberanos (detidos por Estados com grande liquidez e não por particulares) passaram a ser notícia diária. É mais um termo novo (SWF, no acrónimo em inglês) que os cidadãos se estão a acostumar. Revelam uma nova etapa do capital financeiro mundial.

À medida que aumentam as notícias que os dão como 'salvadores' de algumas das mais importantes casas financeiras da Wall Street em aperto, derivado da famosa crise do crédito hipotecário de alto risco ("subprime", outra "buzzword" obrigatória hoje em dia), a curiosidade sobre o seu papel geoeconómico e geopolítico dispara.

Os protagonistas

Os 24 principais SWF têm origem na Ásia (10), Médio Oriente (8), Europa (3, dois da Noruega e 1 da Rússia), América do Norte (2, um no Canadá e outro do Alasca) e Magrebe (1 da Líbia), segundo um levantamento realizado pela investigadora portuguesa Alice Lacoye-Mateus, de 22 anos, no quadro de um mestrado na École de Guerre Économique, em Paris.

O mais célebre de todos é o Abu Dhabi Investment Anthority, dos Emiratos Árabes Unidos, que a revista The Economist (19 de Janeiro) estima dispor de 875 mil milhões de dólares e liderar o grupo. Foi a ADIA que interveio recentemente na crise do Citigroup através de um dos seus braços.

Um dos objectivos claríssimos destes fundos soberanos baseados em petrodólares é ir a compras, particularmente nos Estados Unidos, agora que o dólar está desvalorizado e as casas de investimento estão em apuros sérios. O primeiro ministro do Qatar, responsável pelo fundo soberano Qatar Investment Authority (um dos da lista dos maiores - ver quadro), referiu, no decurso do World Economic Forum, em Davos, que 15% da sua liquidez poderá dirigir-se para "10 ou 12 bancos de primeira classe nos Estados Unidos e na Europa".

Recent Cash Infusions
Citigroup received a cash infusion of $7.5 billion two months ago from Abu Dhabi Investment Authority, the world's biggest sovereign fund with about $875 billion of assets, and followed that up last week by raising $15.4 billion from a group including the governments of Singapore and Kuwait, former Chief Executive Sanford ``Sandy'' Weill and Saudi Prince Alwaleed bin Talal.
Alwaleed became Citigroup's biggest individual shareholder in the early 1990s, when loan losses in Latin America and a collapse in U.S. property prices left corporate predecessor Citicorp short of capital. Then-CEO John Reed sold Alwaleed $590 million of convertible preferred stock, and the Saudi billionaire stuck with the investment following Citicorp's merger in 1998 with Travelers Group Inc.
Merrill got a commitment for as much as $6.2 billion last month from Singapore's Temasek Holdings Pte. and U.S. money manager Davis Selected Advisers LP, and another $6.6 billion last week from a group led by Kuwait Investment Authority, Korea Investment Corp. and Tokyo-based Mizuho Financial Group Inc.

A China é outro país sob observação. Dispondo das maiores reservas em divisas estrangeiras do mundo (mais do que o Japão), é sua intenção alocar fundos crescentes a este tipo de actividade. O seu alvo estratégico são investimentos na área de recursos estratégicos, e tudo indica que, depois de África, é o Brasil que está na mira. Mas não só: ainda recentemente, durante a crise do "subprime", foi a China Investment Corporation que deu a mão ao Morgan Stanley.

A Rússia, entretanto, anunciou a criação para Fevereiro de mais um - o Fundo da Geração Futura, envolvendo 128 mil milhões de dólares, que virão da liquidez adquirida com o mercado de energia (1º produtor e exportador de gás natural e 2º exportador de petróleo).

Ironias da história

Se Rudolfo Hilferding, o teórico do capital financeiro em 1910, regressasse do túmulo, não acreditaria no que os seus olhos veriam: os antigos destinos do investimento das então designadas potências imperialistas são, agora, a força financeira emergente!

Maior choque teria Vladimir Lenine, o líder bolchevique russo, que julgava saber tudo sobre o capitalismo quando escreveu em 1916 que o imperialismo da época seria o "estádio supremo e agonizante" do sistema. Ironia da História, alguns dos países oprimidos do antigo terceiro mundo e as próprias grandes potências socialistas de outrora formam, hoje, a vanguarda da mudança na finança mundial.

A monitorização deste assunto passou a ser obrigatória no chamado Ocidente.

Olho nos 'predadores'

Por duas razões. Primeira, e puramente 'económica': significa esta ascensão dos SWF uma corrida similar àquela que os japoneses empreenderam nos anos 1980, levando a temer que tomassem conta da economia mundial, e particularmente dos activos simbólicos norte-americanos e londrinos? Segunda, e mais sensível, agora do foro geopolítico: como 70% dos SWF provêm de países não democráticos, e 1/4 inclusive de países potenciais ameaças ou mesmo hostis, será que a nova finança se irá transformar num braço político armado das ambições geopolíticas dos emergentes?

Alguns analistas e políticos europeus falam abertamente de que tais fundos serão "predadores políticos" (Roland Joch, ministro-presidente do estado de Hesse alemão) e quintas-colunas das grandes potências ascendentes. Outros são mais moderados, mas admitem que são "liberais mas não idiotas" (Michael Glos, ministro da Economia e tecnologia alemão).

O debate sobre esta questão está acalorado, com os organismos mundiais (Banco Mundial, FMI, OCDE) a não se entenderem sobre a estratégia a tomar, e com o G8, presidido pela Alemanha até final de 2007, a lavar as mãos como Pilatos. O assunto foi transferido para a cimeira de Hokkaido, no Japão, em Julho deste ano (2008).

Alguns países europeus com liquidez debatem o problema de lançar fundos similares - está acesa a discussão em França se a Caisse des Dépôts et Consignations deverá ser usada neste sentido, e na Alemanha, a chancelerina Angela Merkel terá sido favorável à criação de uma espécie de contra-fundo soberano alemão destinado a intervir em ofertas públicas de aquisição hostis vindas do estrangeiro em empresas em sectores considerados estratégicos.

Principais Fundos Soberanos
(acima de 100 mil milhões de dólares)

(mmd = mil milhões de dólares)
Abu Dhabi Investment Authority875 mmd
Fundo de Pensões da Noruega380 mmd
Government of Singapore Invest. Corp.330 mmd
China Development Bank313 mmd
China Investment Corp:300 mmd
Reserve Fund for Future Generations (Kuwait)250 mmd
Saudi Arabian Monetary Agency248 mmd
Norwegian Wealth Fund235 mmd
Temasek Holdings (Singapura)159 mmd
Fundo de Estabilização Russo147 mmd
Qatar Investment Authority100 mmd
Fontes: The Economist, 19/01/2008; MGI Report October 2007; Alice Mateus

3. O Pecado americano

Académico de Harvard diz que falta "inteligência estratégica" nos Estados Unidos Um diálogo com o polémico Joseph Nye.

Livro em Destaque:
The Powers to Lead: Soft, Hard and Smart
Entrevista em Gurusonline.tv

O peso do poder dos Estados Unidos no sistema mundial tem declinado consistentemente há várias décadas, ainda que "suavemente". Para alguns analistas, o pico histórico do seu poder geopolítico situou-se no final da 2ª Guerra Mundial. No entanto, o que se tem degradado mais não é do domínio económico, nem militar.

O pecado mora no campo da legitimidade política de actuação da superpotência na última década, diz o académico de Harvard, Joseph Nye, que vai publicar um livro em que aconselha a América a ser mais "inteligente" na estratégia de poder.

Rijo como uma rocha

Em alguns indicadores que entram no cálculo da curva de poder geopolítico, a situação comparativa continua a ser largamente vantajosa para os EUA . O que os analistas chamam de "hard power" continua rijo como uma rocha na América.

No campo do poder económico, o produto interno bruto (medido em paridades de poder de compra, para permitir uma comparação mais realista) dos EUA está próximo do da União Europeia (a 27 membros), é o dobro do da China (que, entretanto, sofreu uma correcção significativa, em baixa) e mais do triplo do da Índia, os dois mais importantes BRIC da actualidade.

Na área militar, a diferença é ainda mais acentuada: as despesas militares (avaliadas, também, em paridades de poder de compra) são quase o triplo das da UE e das da China, quase 5 vezes as da Índia e mais de 6 vezes as da Rússia (que chegou a ser, outrora, a superpotência concorrente, no tempo da União Soviética). É claro que se o esforço militar for avaliado em termos de percentagem das despesas no PIB, o mapa dos 10 mais é significativamente diferente: Arábia Saudita lidera, seguida dos EUA, Rússia e Irão, e só depois China e Índia.

A nódoa no pano económico

Alguns analistas alegam que a economia americana sofre de uma fragilidade perigosa. A nódoa no pano económico é a dependência crítica dos EUA em relação aos seus "fornecedores" anuais de liquidez financeira. Os fundos nacionais dos países exportadores de petróleo e os bancos centrais asiáticos dominam 22% dos activos estrangeiros em dólares, segundo um relatório recente do McKinsey Global Institute ("The New Power Brokers", Outubro 2007). Apesar das divergências internas, os cartéis de algumas "commodities" estratégicas continuam, também, a aceitar fixar o preço em dólares americanos (como acontece com o petróleo, por exemplo).

O risco, diz a McKinsey, é se esta gente começa a gerir "geopoliticamente" esta dependência norte-americana. Só as três super-mulheres chinesas de apelido Xiao (Wu Xiaoling, do Banco Popular da China, Hu Xiaolian, responsável pelas divisas, e Zhang Xiaohui, responsável pela política monetária) têm o 1/3 do poder de carregar no botão daquela bomba de destruição maciça financeira.

O calcanhar de Aquiles

No entanto, o professor Nye acha que o calcanhar de Aquiles dos EUA está noutro lado. A bomba de destruição maciça é a debilidade do "soft power" americano, uma doença que se agravou com a Administração W. Bush: "Esse poder declinou muito acentuadamente na última década", sublinha-nos. "Soft Power" foi um conceito criado por Nye em 1990 que fez carreira no discurso diplomático. O primeiro tropeção foi a nova doutrina americana de legitimação do uso pela superpotência de guerras "pré-entivas" (de que o caso do Iraque em 2003 foi uma primeira aplicação) e de armas nucleares tácticas como instrumentos de exercício de força (do "hard power", na terminologia de Nye) para a mudança política de regimes (o famoso "regime change"). O segundo erro foi o abandono da inovação em "bens públicos globais", em iniciativas internacionais, terreno onde a UE tem liderado, e onde a Administração americana é hoje olhada como um opositor militante.

Face a esta situação grave, Nye propôs que a Administração e o Congresso desenvolvam uma "estratégia de poder inteligente" ("smart power", na designação dada pelo professor), que conservando o poder militar (um dos pilares centrais do "hard power"), cuide rapidamente de inverter o que se está a passar no campo da legitimidade internacional (do "soft power"). "O rácio entre as despesas militares e o investimento em diplomacia pública é da ordem das 500 vezes", disse Nye no subcomité sobre Segurança Nacional e Relações Internacionais da Câmara dos Representantes.

Com base nas ideias que expôs em Washington, Nye publicou em Fevereiro 2008 o seu novo livro intitulado 'The Power to Lead: Soft, Hard and Smart Power'.

Estatísticas

10 Mais do poder económico (2006)
(PIB em paridades de poder de compra, Mil milhões de dólares)
UE (27)13.800
EUA10.048
China (c/Hong Kong e Macau)6.287*
Índia4.247
Japão4.131
Brasil1.708
Rússia1.704
México1.201
Coreia do Sul1.152
Canadá1.140
Fonte: Banco Mundial, Setembro e Dezembro 2007
Nota: * Valor corrigido em Dezembro de 2007 em relação ao inicialmente previsto de 10.335

10 Mais das despesas militares (2007)
(Mil milhões de dólares, em paridades de poder de compra)
EUA528,7
UE (27)195
China188
Índia114,3
Rússia82,8
Arábia Saudita36,4
Japão35,2
Brasil32
Coreia do Sul30,1
Irão28,6
Fonte: SIPRI, 2007

10 Mais avaliados em esforço militar
(% das despesas militares no PIB em paridades de poder de compra)
Arábia Saudita10- 8,7*
Estados Unidos5,3
Rússia4,9
Irão4,8-4,4*
China3,0
Índia2,7
Coreia do Sul2,6
Brasil1,9
União Europeia1,4
Japão0,9
Fontes: SIPRI e Banco Mundial (Pib em ppc)
Nota: * No caso da Arábia Saudita e do Irão depende do valor de referência do Pib em ppc, segundo Banco Mundial ou Fundo Monetário Internacional

Activos financeiros em divisas estrangeiras (2006)
(biliões de dólares, trilhões na designação anglo-saxónica)
· Activos em petrodólares: 3,8 biliões (3.800 mil milhões)
· Activos em petrodólares controlados por fundos nacionais dos países exportadores de petróleo e gás: 2,3 biliões (2.300 mil milhões)
· Activos financeiros em divisas estrangeiras dos bancos centrais asiáticos: 3,1 biliões (3.100 mil milhões)
· Activos financeiros em divisas estrangeiras da China no total asiático: 35%
· Activos financeiros em divisas estrangeiras do Japão no total asiático: 28%
· Activos em dólares dos bancos centrais asiáticos: 2 biliões (2.000 mil milhões)
· Total dos activos estrangeiros em dólares no mundo: 20 biliões (20.000 mil milhões)
· Activos em dólares de fundos nacionais em petrodólares e dos bancos centrais asiáticos (FNPBCA): 4,3 biliões (4.300 mil milhões)
· Percentagem dos activos FNPBCA nos activos totais estrangeiros em dólares no mundo: 22%
Fonte: The New Power Brokers: How Oil, Asia, Hedge Funds, and Private Equity Are Shaping Global Capital Markets, McKinsey Global Institute

4. Risco de 'estagflação' nos EUA e de abrandamento mundial

Apesar da crise financeira na superpotência, de contornos ainda nebulosos que se poderão agravar em 2008, o crescimento e o comércio mundiais dependem hoje mais dos emergentes, e da Ásia em particular, do que das cólicas do Tio Sam. Apesar de um ligeiro abrandamento nas altas taxas de crescimento nos emergentes, o pessimismo não impera, ainda, para essas banda.

Com a América em apuros, embrulhada numa crise financeira sem fim à vista e com um crescimento claramente inferior ao europeu desde 2006, o mundo vai abrandar o passo no próximo ano. Mas ligeiramente: 0,4 pontos percentuais, situando-se ligeiramente abaixo dos 5%.

Os analistas dividem-se sobre a prenda que o Pai Natal vai deixar no sapatinho (em 2007) americano. Se a probabilidade de recessão vai disparar num ano de eleições presidenciais (2008), ou se o risco é de um crescimento fraco ou medíocre com inflação em alta (em finais de Novembro estava nos 4,3% anualizados), superior à da Eurozona (3%). Um estado clínico que, em "economês", se designa por "estagflação", um palavrão difícil de pronunciar em televisão, que foi criado nos anos 1960 pelos ingleses e que caracterizou a economia americana nos anos 1970.

A locomotiva não está na América

Face à probabilidade ainda baixa de recessão (6) (ver gráfico gerado pelo modelo em tempo real da economista brasileira Marcelle Chauvet, da Universidade da Califórnia em Riverside), o clube da "estagfação" tem aumentado: o próprio Alan Greenspan, já largou o discurso inicial mais alarmista (em que dramatizava com uma probabilidade de 50%), para se juntar a este prognóstico.

Chauvet tem avaliado o risco de recessão nos EUA, mês a mês: a última avaliação à data, aponta para 13%. Sem dúvida que este risco tem estado a aumentar: Setembro 6,6%; Outubro 11,02%; Novembro 11,53%; Dezembro 13,01%.

Com o anúncio dos resultados do crescimento americano no 4º trimestre de 2007, que se cifraram numa taxa medíocre de 0,6%, praticamente estagnado, é provável que este indicador em tempo real tenha aumentado no final de Janeiro de 2008. Mas pouco provável que tenha atingido o patamar psicológico preocupante dos 30%.

(6) O último período de recessão nos EUA decorreu entre Março e Novembro de 2001, segundo a definição oficial do Business Cycle Dating Committee do National Bureau of Economic Research dos Estados Unidos.

Texto teórico de explicação do método de Marcelle Chauvet e comparação com o do NBER (National Bureau of Economic Reserach)

Mas o planeta não pára apesar das cólicas do Tio Sam, que vale apenas 22,5% da riqueza mundial (avaliada em paridade de poder de compra) gerada anualmente, atrás da União Europeia, que já responde por 24%, e distanciado da Ásia, que domina 40%. Os BRIC da Ásia - China e Índia, que valem 22% do PIB do planeta - continuarão a ser, em 2008, a locomotiva da riqueza mundial, acompanhados por alguns campeões alimentados pelos petrodólares, como o Azerbaijão, Angola e Qatar, com taxas acima dos 20% (ver mapa).

No próprio comércio internacional, os EUA já só representam 9% das exportações e 16% das importações, face a 28% e 25% respectivamente por parte da Ásia e 42% e 39% respectivamente por parte da União Europeia.

O conjunto dos BRIC deverá ter crescido a uma taxa próxima dos 10% em 2007, esperando-se um abrandamento para 9% em 2008 e ligeiramente menos de 9% em 2009, segundo a Goldman Sachs. A longo prazo (até 2030), de acordo com as projecções de Angus Maddison (Contours of the World Economy, 1-2030 AD, Oxford, 2007), o clube do crescimento está claramente definido: Índia (5,68% ao ano, em média durante o período 2003-2030), China (4,98%), Resto da Ásia (3,83%), África (3%) e Rússia (2,98%).

As bombas por rebentar

Mas isso não significa que as cólicas americanas não provoquem epidemias no mundo. Aquilo que o investidor Warren Buffet já considerou como "armas financeiras de destruição maciça" tem a sua casa-mãe nos Estados Unidos. Em Agosto, o mundo foi acordado para a crise do crédito hipotecário de alto risco - que já popularizou entre os cidadãos um termo técnico desconhecido: "sub-prime".

Os estragos totais ainda não estão apurados e as suas ramificações mundiais também não. O analista Peter Cohan sublinha que a dimensão da crise do "sub-prime" "pode variar entre um mínimo de 400 mil milhões (cerca de 280 mil milhões de euros) e um máximo de 6 biliões de dólares (cerca de 4.200 mil milhões de euros), se se incluir a desvalorização imobiliária residencial que poderá ser da ordem dos 30%".

Mas o pior poderá, ainda, estar para vir em 2008. O especialista financeiro John Rubino fala do "sub-prime" no imobiliário comercial e nas viaturas. E alerta para "o castelo de cartas que é o mercado dos chamados derivados que envolvem um número astronómico: 600 biliões de dólares (417.000 mil milhões de euros)".

Para completar o ramalhete de desgraças, a revista Fortune já vaticinou uma correcção adicional em baixa de 18% nas bolsas americanas. O analista Peter Cohan admite que possa chegar aos 30%.

Milhões lançados de helicóptero

Para atacar a crise financeira, a Reserva Federal americana (FED) e o Banco Central Europeu (BCE) estão a recorrer massivamente àquilo que, por piada, já se chama o "Money from helicopters", uma alcunha para as intervenções recentes no mercado monetário.

Os montantes são conhecidos: 40 mil milhões de dólares em dois leilões que o FED começou a realizou em Dezembro 2007 e que se poderão repetir até meados de Janeiro de 2008, a que se veio juntar a mega-disponibilização de quase 348,6 mil milhões de euros de crédito à banca pelo BCE a taxas de juro mais baixas, em resposta a alegados pedidos de 390 bancos privados da Eurozona.

A dúvida, no caso europeu, como alertou o Financial Times, deriva de se saber se essa corrida aos milhões disponibilizados pelo "Pai Natal" europeu se destina, sobretudo, a truques de tesouraria de final de ano, ou se revela, de facto, um medo real de novos buracos gigantes na banca europeia no próximo ano em virtude da crise do "subprime" e de outras aplicações de alto risco.

O futuro nas mãos de quem?

A sina da economia americana em 2008 parece estar "nas mãos do cidadão da rua mais do que das autoridades monetárias", diz Peter Cohan.

O consumidor americano representa 72% do PIB dos Estados Unidos, segundo as estimativas de Stephen Roach, da Morgan Stanley. Como é que ele vai reagir ao aperto do crédito (há já 2 milhões de famílias em apuros) e às pressões inflacionistas derivadas da alta do preço da gasolina (se ultrapassar os 4 dólares por galão, um euro por litro, mesmo assim um preço mais baixo do que na Europa) e das injecções de liquidez do FED, é, por ora, uma incógnita. A inflação real no consumo - diferente do Índice de Preços no Consumidor urbano (CPI-U) das autoridades oficiais americanas - estará já nos 11,7% ao ano, segundo a Shadow Government Statistics.

As projecções da Goldman Sachs apontam para um crescimento da procura interna americana em 2008 que é 0,7 pontos percentuais abaixo da esperada para 2007 (que já por si será 0,8 pontos percentuais inferior à de 2006) - o que significa que a consultora espera uma desaceleração no ímpeto consumista americano.

O preço do petróleo vai ser outro dos indicadores sob observação constante por parte dos decisores. Irá chegar aos 100 dólares por barril ainda na Primavera de 2008, como apontam algumas previsões? Ou poderá estabilizar no patamar dos 80 dólares como média anual (similar à de 2007), como esperava Rembrandt Koppelaar, um especialista holandês, que calcula a possibilidade de injecção no mercado de mais 1 a 2 milhões de barris por dia, derivados de novos campos petrolíferos previstos para começarem a produzir em 2008?

A resposta provisória, entretanto, foi dada: o barril chegou ao patamar dos 100 dólares a partir de 19 de Fevereiro de 2008.

António Costa Santos, um especialista português, presidente da Partex Oil anda Gas, considera que a persistência do preço do barril acima de 90 dólares pode gerar um efeito inflacionista em todo o mundo importador (incluindo nos emergentes) que pode começar a ter um impacto recessivo. O risco inflacionista é, aliás, uma das piores "surpresas" que a Goldman Sachs espera: "O pior poderá ser um 'pick-up' maior do que se espera da inflação nos Estados Unidos e o alastramento do campo da alimentação e da energia para o núcleo duro nos Estados Unidos, resto do G7 e BRIC" (Global Economics Weekly, Dezembro 2007).

Lista dos "buracos" gigantes provocados pelo "sub-prime"
(em mil milhões de dólares)
UBS13,5
Citicorp11,5
Merrill Lynch8,0
Morgan Stanley3,7
HSBC3,4
Bear Sterns3,2
Deutsche Bank3,2
Bank of America3,0
Barclays2,6
Royal Bank of Scotland2,6
Crédit Suisse1
Total dos 11 mais55,7
Total geral estimado400
11 Mais40%

Motores do crescimento até 2030
(Projecções de Crescimento médio anual do PIB em paridade de poder de compra entre 2003-2030; em %)
Mundo3,2
Clube do crescimento
Índia5,68
China4,98
Resto da Ásia3,83
África3
Rússia2,98
Clube dos moderados
Estados Unidos2,56
América Latina2,48
Europa1,77
Estagnação
Japão0,95
Fonte: Angus Maddison (Contours of the World Economy, 2007)

5. Europa a meio gás

Reino Unido e Irlanda podem ser as primeiras vítimas de um novo choque energético no horizonte.

A produção de gás natural na Europa deverá ter atingido o seu ponto de viragem em 2007. Para muitos analistas é um primeiro sinal de mais um choque energético no futuro. Por ora, menos mediático que o petrolífero.

A partir de 2008, a convergência do declínio da produção interna de gás (particularmente no Reino Unido e Holanda) com o contínuo crescimento do consumo europeu (2,6% ao ano desde os anos 1980), deverá conduzir, em 25 anos, a um salto nas importações de 200 milhões de toneladas de equivalente em petróleo (Mtep, o indicador usado) para cerca de 500 Mtep em 2030 (ver gráfico Projecção do défice de gás natural na UE 27), segundo dados da Eurogas, uma organização da indústria do gás sedeada em Bruxelas.

A situação começa a ser preocupante em 2015, o que já não está muito distante. Segundo um estudo da ATKearney ('Aprovisionamento del gás natural en Europa - 2005/2020'), apresentado em Madrid, em Novembro passado, as importações entre 2005 e 2020 vão crescer quase 100%, enquanto a produção europeia cairá 43%. Ou seja, em quinze anos, de um lado da balança temos uma duplicação, e do outro quase uma quebra para metade!

O problema, sublinhou o analista Jean Laherrère, recentemente em Nice, num encontro do Clube de Energia e Geopolítica, é que o potencial das exportações da Noruega (que vão iniciar, também, um suave declínio, em virtude de uma política de conservação da galinha de ovos de ouro) somado às importações contratadas e previsíveis de fora da UE chega, apenas, para "cobrir" metade desse salto. Permanece um "défice" que exige saber onde ir comprar um fornecimento adicional de mais de 50 Mtep em 2015 que poderá disparar para 240 Mtep em 2030.

Face a esse "défice" galopante anunciado, os olhares europeus viram-se, naturalmente, para quatro locais do mundo: a Rússia, o principal fornecedor europeu através de gasodutos (44% das importações europeias e 25% do consumo europeu); o Magrebe (Argélia, Egipto e Líbia) com fortes ligações via gasoduto e transporte marítimo à Europa do Sul (Argélia fornece 60% do gás português, 47% do gás espanhol e 20% das importações europeias); a Ásia Central; o Médio Oriente; e a Nigéria (por exemplo, 40% dos fornecimentos portugueses por via atlântica, e 17% em relação a Espanha).

Mas o panorama não é risonho. A Rússia joga politicamente com o que não pode garantir (ver caixa O Bluff russo), o Magrebe vai ser assediado pelos europeus, estando em negociação final uma parceria estratégica entre a UE e a Argélia, a Ásia Central vai jogar na tentação chinesa, e o Médio Oriente (com um disparo esperado do tráfego no canal do Suez) e a Nigéria vão ser palco de forte pressão por parte das grandes potências consumidoras extra-europeias, que poderão usar a projecção marítima como arma.

O resultado geopolítico de toda esta corrida não vai ser calmo, avisou o analista Michael T. Klare, que considera o gás como o grande protagonista emergente do século XXI.

"O elo mais fraco da geografia do gás europeu poderá ser o Reino Unido" - paradoxalmente, um dos três principais produtores históricos de gás europeu que passou a importador líquido em 2004, afirma Luis de Sousa, da secção portuguesa da Associação Internacional para o estudo do Pico do Petróleo e do Gás (ASPO). Depois da Gazprom, a British Gas vai ser o segundo maior investidor mundial até 2020 - concentrando 1,6 mil milhões de euros em infra-estruturas para o Gás Natural Liquefeito.

Aliança estratégica de risco

Há dois países que parecem ter apostado no cavalo russo, apesar da fragilidade do fornecimento a prazo e do risco geopolítico: a Alemanha e a Itália.

A Alemanha definiu como elemento central da sua estratégia a criação do gasoduto do Mar Báltico - baptizado de 'Nord Stream' - que a ligará directamente a um novo campo de produção na Rússia, contornando as actuais rotas de passagem pela Europa de Leste, decisão com impacto político nomeadamente na Ucrânia. Estão envolvidos neste projecto, além da Gazprom, a BASF e a E.On alemãs.

Apesar da sua estratégia diversificada, também a Itália, através da ENI, tem desenvolvido uma aliança estratégica com a Rússia, visível no acordo recente com a Gazprom para a construção do 'South Stream', um gasoduto que passará pelo Mar Negro, atingindo Varna, na Bulgária, e com dois trajectos em estudo para chegada a Itália.

Foi Romano Prodi, o actual primeiro-ministro italiano, que enquanto presidente da Comissão Europeia comentou uma vez que "a Rússia e a União Europeia são como o vodka e o caviar". Vladimir Putin tem-se esforçado por politicamente fazer render essa tirada de Prodi.

Um dos riscos políticos para a Europa é se, porventura, do actual Gas Exporting Countries Forum (criado em 2001) vier a nascer um cartel do gás, uma ameaça já acenada pelo 'indigitado' sucessor de Putin, Alexander Medvedev, enquanto responsável da Gazprom, bem como pelo aiatola iraniano Ali Khamenei. Cinco países possuem 67% das reservas de gás confirmadas: Rússia (a maior fatia, 27%), Irão, Qatar, Arábia Saudita e Emiratos Árabes Unidos. O risco de uma "OPEP do gás" foi recordado, ainda recentemente em Lisboa, pelo comissário europeu para a Energia, Andris Piebalgs. A próxima reunião ministerial do Forum decorrerá em 2008 em Moscovo.

O "bluff" russo
A Rússia exporta apenas 1/3 da sua produção, e o principal destinatário é a Europa. As exportações têm estado estagnadas praticamente desde 1990 e os seus principais campos de produção na Sibéria estão em declínio, pelo que os analistas duvidam que a Rússia possa "salvar" a Europa, tanto mais que o seu próprio consumo interno está a aumentar, num ambiente geral de ineficiência energética. O professor de Houston, Michael J. Economides, divulgou, no início do ano, um estudo que antevê problemas graves de escassez na Rússia nos próximos três anos.
A estratégia de marketing russa tem sido jogar o trunfo das maiores reservas de gás do mundo, mas sabe-se que, apenas, uma fracção delas poderá ser extraída com rentabilidade. A diferença nas previsões de produção até 2060 feitas por analistas independentes (como Jean Laherrère) ou oficiosas (Alexander Grizenko, consultor da Gazprom) é abissal (ver gráfico). A produção russa poderá iniciar um processo de declínio a partir de 2015, na avaliação pessimista.
A Rússia procurará garantir os seus objectivos económicos e financeiros de exportação para a Europa e de pressão política como fornecedor-chave, importando, a baixo preço, dos seus vizinhos da Ásia Central, antigas repúblicas soviéticas. Só entre 2006 e 2007, as importações de gás natural pela Rússia aumentaram mais de 200%.
Mas, esses vizinhos sentem-se tentados a fazer negócios, mais lucrativos, a Oriente (como o gasoduto previsto para operar a partir de 2010 entre o Turquemenistão e a China, um investimento conjunto de 5 mil milhões de euros, agora anunciado), ou a fazer curto-circuito aos russos avançando com projectos de fornecimento directo à Europa e de consolidação de aliança política. O melhor exemplo é a estratégia do Azerbaijão projectando gasodutos a partir do Mar Cáspio que usem a Turquia como placa giratória e a Geórgia como país de trânsito, no que conta com o apoio da BP, da Statoil norueguesa e da TotalFinaElf francesa.

GeoEstante

Livro recomendado (pode encomendar seguindo o 'link' abaixo).

The Powers to Lead: Soft, Hard and Smart


© janelanaweb.com, Jorge nascimento Rodrigues, 2008

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