Report da frente - O Ardina na Geopolítica

Nº 1 - 4º trimestre de 2007

Crónicas e Reportagens de Jorge Nascimento Rodrigues sobre a rivalidade entre potências

Sumário:
1. A ofensiva de soft power da China - analistas avaliam a estratégia de grande potência. Joshua Kurlantzick (autor de Charm Offensive), Joseph Nye (o criador do conceito de soft power) e outros
2. Para onde vai a Rússia? O risco que corre a Europa com a re-emergência da potência euro-asiática - fala Anders Aslund (autor de Russia's Capitalist Revolution)
3. África - o continente à beira da disputa entre potências. Recensão do livro de John Ghazvinian (autor de Untapped: The Scramble for Africa's Oil)
4. GeoEstante: 3 livros recomendados (pode encomendar seguindo o link)

1. China - A mestria na ofensiva "soft"

A operação internacional de "charme" executada pela China surpreendeu os especialistas da diplomacia e da geoeconomia. Revisão do livro "Charm Offensive", de Joshua Kurlantzick (2007), e de trabalhos de investigação de Dylan Kissane, Joseph Nye, Samuel S. Kin e Khalid R. Al-Rodhan.

Livro em Destaque:
Charm Offensive

Artigos em Destaque:
Dylan Kissane: "2015 and the Rise of China"
Joseph Nye: "The Challenge of China"
Samuel S. Kin: "Chinese Path to Great Power Status in the Globalization Era"
Khalid R. Al-Rodhan: "A Critique of the China Threat Theory"

Sítio em Destaque:
Dylan Kissane

A estratégia de "soft power" prosseguida na última década pela China parece ser mais eficaz na conquista de aliados, no acesso aos recursos vitais (sobretudo energéticos) e no marketing internacional do que a projecção de poder de outras grandes potências.

Só recentemente, a opinião pública mundial se deu conta desta tendência que está a transformar a economia mundial e as relações internacionais, afirma Joshua Kurlantzick, um investigador americano no Carnegie Endowment for International Peace. Clarificar o que se passa - e avaliar até quando durará a "lua-de-mel" chinesa com os beneficiários da sua estratégia mundial - foi o objectivo do livro que Kurlantzick acaba de publicar, intitulado sugestivamente 'Charm Offensive: How China's Soft Power is Transforming the World'.

Hegemonia de veludo

O conceito de "soft power" foi criado por Joseph Nye, um professor de Harvard, para incluir a capacidade de influência mundial de uma grande potência, baseada na cultura, nos ideais e nas normas, na 'marca-país', o que ironicamente apelidou de "hegemonia de veludo". O livro de Nye, 'Soft Power: The Means to Success in World Politics', de 2004, acabou por se tornar uma referência obrigatória.

Mas a realidade ultrapassou a teoria. A China acabou por "ampliar" o conceito, diz Kurlantzick com o uso que passou a fazer do comércio internacional, da ajuda financeira, do investimento directo estrangeiro, da posição em organismos multilaterais, de tudo o que possa "ter à mão" para complementar a diplomacia formal, o marketing internacional ou as ferramentas militares e de segurança (típicas do "hard power"). "Os chineses inventaram uma prática de "soft power" muito mais larga, do que Nye imaginava", diz-nos o autor de 'Charm Offensive'.

Entre as grandes potências actuais, a China é, juntamente com o Japão, um dos países que revela uma tendência ascendente de poder desde 1950, segundo as simulações realizadas pelo investigador Dylan Kissane, baseando-se numa metodologia sobre "ciclos de poder relativo" criada pelos professores Charles Doran e Wes Parsons em 1980 ("War and the cycle of relative power", artigo publicado na American Political Science Review), e que foi usada por Paul Kennedy na sua monumental obra 'The Rise and Power of the Great Powers' em 1988.

Dylan admite, no seu estudo ('2015 and the Rise of China'), que "a China será o poder predominante no sistema mundial em 2015" e que o Japão "ganhará a paridade com os Estados Unidos em 2030". Por isso, considera o período de 2015 a 2030 uma janela de oportunidade "carregada de pontos críticos" para as várias grandes potências.

A metodologia de Dylan recolhe vários indicadores económicos, energéticos, sociais e militares. Mas as notícias do dia-a-dia podem ser sinais mais óbvios para o leitor: depois da ordem de 'go global' das companhias petrolíferas e industriais chinesas foi a vez dos bancos chineses, alimentados pela liquidez ganha no excedente no comércio internacional e na "bolha" no mercado financeiro doméstico. Notícias do final de 2007: O chinês Citic Securities comprou uma posição na Bear Stearns de Nova Iorque, atacada pela doença do "subprime". Agora, o chinês Industrial and Commercial Bank of China (ICBC), o banco com maior capitalização de mercado a nível mundial, declarou ir comprar 20% do Standard Bank sul-africano.

Coopetição é norma

O período actual, apesar de assistir a um ligeiro declínio do poder norte-americano e, em contraste, a uma curva ascendente contínua no caso da China, não é ainda de toque de sinos a rebate. "Não creio que predomine a lógica do conflito armado entre as duas grandes potências. Elas têm, por ora, interesses similares, como principais consumidores mundiais de recursos", diz Kurlantzick. A "coopetição" (competição com cooperação) em terra é ainda a norma.

E será, também, no mar. O comércio internacional pelos oceanos mais do que quadruplicou nas últimas quatro décadas. Proteger as rotas vitais de comércio tornou-se, de novo, um imperativo para as grandes potências importadoras e exportadoras, particularmente de "commodities" vitais. Num relatório de Dezembro de 2004, os chineses admitem abertamente que poderá vir a ser necessária "a projecção de poder no estrangeiro para proteger interesses económicos e activos estratégicos".

O êxito da própria estratégia "soft" chinesa tem tido alguma repercussão nos EUA. Kurlantzick vê sinais de contágio "mesmo na Administração Bush que começou a ficar sensível à necessidade de projectar um poder "soft" e uma melhor imagem" face aos fracassos sucessivos da sua estratégia dos últimos anos. Joseph Nye, o teórico do "soft power", tem insistido no regresso a uma estratégia de "smart power" por parte dos Estados Unidos, em que os elementos de "soft power" ganhem maior projecção face ao défice de legitimidade com que os EUA se deparam (ver aqui). A própria estrutura militar americana começa a revelar preocupação com o "soft power": em meados de Outubro, um pequeno documento de apenas 16 páginas, intitulado 'A Cooperative Strategy for 21st Century Seapower', assinado pela US Navy, pelos Marine Corps e pela Coast Guard, e apresentado no International Seapower Symposium, em 17 de Outubro, indicava que era preciso sair da focalização excessiva no combate naval para um melhor e mais alargado uso do "soft power".

Ainda não é o Dia D

Apesar de a China estar "desesperada" por segurar fontes de recursos energéticos (particularmente petróleo) e de várias médias potências regionais jogarem as suas cartadas antiamericanas (como é mais visível no caso do Irão e da Venezuela), esticando a corda, Kurlantzick acha que "a situação não se vai precipitar".

"Penso que a China tem plena consciência de que ainda terão de correr muitos anos até que possa desafiar o "hard power" norte-americano. Só agora a China começou a recolher os resultados da sua estratégia "soft", e por isso continuará com ela por mais algum tempo. A capacidade de projecção de "hard power" por parte da China é ainda extremamente limitada, sobretudo em lugares distantes das suas fronteiras", sublinha, quando provocado com a pergunta se uma crise política grave nas Caraíbas, no Golfo Pérsico ou mesmo num dos seus fornecedores-chave de África poderá ser o dia D para Beijing. Contudo, adianta, franzindo as sobrancelhas e mexendo nos óculos: "No longo prazo, os interesses estratégicos da China, nomeadamente no acesso aos recursos vitais, exigirão projecção de poder mais ampla, mas, creio, que isso ainda está longe, no futuro".

A ideia de que a China ainda não está na fase de desafio directo aos Estados Unidos - e que, eventualmente, poderá não optar por uma "clonagem" da estratégia alemã desde 1902, seguindo, aliás, uma estratégia similar à que os Estados Unidos seguiram em relação à superpotência Reino Unido no final do século XIX e princípios do século XX - tem sido corroborada por um conjunto de especialistas, como Samuel Kim, o próprio Joseph Nye (ver o artigo aqui) e, mais recentemente, Khalid Al-Rhodan.

A corrente norte-americana ligada à visão da China como uma nova Alemanha bismarckiana (Otto von Bismarck foi o primeiro chanceler do Império Alemão entre 1871 e 1890), ou repetindo a estratégia de desafio do Kaiser Guilherme II no princípio do século XX - vide os escritos mais "radicais" de Robert Kagan (que foi consultor de política internacional do actual vice-presidente Dick Cheney ) - é muito criticada por se apoiar "em analogias históricas simplistas e em projecções lineares do crescimento económico", como refere Khalid R. Al-Rodhan, em 'A Critique of the China Threat Theory'.

Apesar do assunto de Taiwan continuar a ser tratado com pinças por todas as grandes potências, Joshua Kurlantzick acha que permanece uma das dores de cabeça mais graves: "É um dos maiores pontos explosivos. Apesar de o Estreito estar relativamente estável, por ora, continuam tendências preocupantes. O problema é que a ofensiva de charme da China junto da Ásia do sudoeste não teve grande impacto em Taiwan, mesmo incluindo os ganhos realizados na Ásia, África e América Latina em detrimento de Taiwan". Nye, por seu lado, vê um risco neste tema de Taiwan, onde a China não pode "perder a face": uma potência mesmo mais fraca do que o hegemonista, pode entrar numa situação de desafio se se sentir "encurralada" (como aconteceu com o Japão aquando do ataque a Pearl Harbor em 1941, ou com a própria China quando entrou na Guerra da Coreia em 1950).

Ambiguidade estratégica

No entanto, Dylan Kissane, que concluiu recentemente um doutoramento no tema, na Universidade do Sul da Austrália, em Adelaide, alerta que "focalizar apenas o risco na questão de Taiwan pode cegar o analista". Dylan espera que se assista a uma orientação mais "chinesa" na Organização de Cooperação de Xangai (criada em 2001 e formada por Rússia, China, Cazaquistão, Quirguistão, Tajiquistão e Uzbequistão, e que conta como observadores a Mongólia, o Irão, o Paquistão e a Índia) e que haja uma corrida no investimento chinês em direcção às tecnologias aeroespaciais e submarinas, que serão "peças essenciais de uma projecção de poder "hard" no futuro".

Uma grande potência regional asiática, uma potência global "incompleta", uma sociedade e regime com problemas domésticos muito complexos e de impacto mundial. A "ambiguidade estratégica" da situação chinesa beneficia o descongestionamento da rivalidade.

"O "soft power" não vai poder subsistir indefinidamente", alvitra Joshua Kurantzick, que alerta para o facto do calcanhar de Aquiles chinês ser a sua tendência para "exportar" os aspectos negativos extremos do seu próprio sistema capitalista e do seu regime autoritário, que acaba por levar junto com o "charme".

Samuel S. Kim desenvolve, por seu lado, uma síntese paradoxal sobre a China: uma grande potência regional asiática, uma potência global "incompleta", uma sociedade e regime com problemas domésticos muito complexos e de impacto mundial. Khalid R. Al-Rodhan argumenta, por isso, que a "ambiguidade estratégica" da situação chinesa beneficia o descongestionamento da rivalidade.

2. O Kremlin na encruzilhada - a fase final da terceira revolução russa

O espectro de uma estratégia de grande potência reagindo ao seu declínio acentuado. O sindroma do modelo alemão do início do século XX.

Livro em Destaque:
Russia's Capitalist Revolution - Why Market Reform succeeded
and Democracy Failed

A terceira revolução russa - se considerarmos as de 1905 e 1917 como sendo as duas primeiras - está praticamente completa com o aproximar do final do segundo mandato presidencial de Vladimir Putin em 2009, diz o sueco Anders Aslund, investigador do Peterson Institute for International Economics, de Washington, nas vésperas das eleições legislativas federais de 2 de Dezembro de 2007.

Foram vinte anos de "transformação capitalista" desde que Gorbachov lançou a "perestroika" e a "glasnot" em 1985, refere-nos o autor de 'Russia's Capitalist Revolution - Why Market Reform succeeded and Democracy Failed', acabado de publicar em Outubro de 2007. A Rússia conta hoje com 9 milhões de empresas privadas e empresários individuais que dominam 65% do PIB - os 30 grupos de oligarcas privados detém uma fatia de 25%. O Estado - particularmente nos sectores de recursos energéticos (gás e petróleo) - domina, ainda, 35% do PIB e mais de 60% das exportações.

Apesar do espectro de re-nacionalizações políticas continuar, Aslund acredita que a economia de mercado é "irreversível". O que o conduziu, no livro, a acreditar que o pluralismo económico em choque com o autoritarismo político crescente, desde a subida de Putin a primeiro-ministro em 1999, empurrará a Rússia, mais tarde ou mais cedo, "para uma nova vaga de democratização", depois da oportunidade perdida entre 1991 e 1993 com Boris Ieltsin e os reformadores. Antevê que essa "contradição" poderá estourar ainda mais cedo do que o imaginável. Mas, entretanto, com os últimos desenvolvimentos na Rússia, ficou mais pessimista.

A síndrome alemã

O que está em jogo, dizem os analistas da geoeconomia, é o facto da Rússia, como grande potência, estar em declínio desde o pico em meados dos anos 1970, um declínio que passou pela implosão da URSS (em 1991) até uma queda brutal com a crise financeira de 1998 e com o agonizante final da presidência de Ieltsin.

O investigador Dylan Kissane, num estudo realizado sobre a curva de poder relativo da Rússia, desde o ponto de viragem de 1868, coloca a hipótese de um declínio, a partir dos anos 1980, com um "padrão similar ao da Alemanha" depois do pico histórico em 1902. Sublinha, no entanto, que é, por ora, mais "lento" e "gradual" do que o alemão foi outrora. O que isto significa é que "a Rússia poderá viver um novo ponto crítico de inflexão, mais cedo do que se deseja", refere-nos Kissane, que conclui: "O que a torna um jogador de maior risco", particularmente para os europeus.

A queda brutal da Rússia post-União Soviética é visível em vários indicadores (ver caixa).

Na década de 1990 a 2000, enquanto os vários "dragões" e "tigres" asiáticos cresceram acima de 4% ao ano (China, Singapura, Índia, Coreia do Sul e Hong Kong, por ordem decrescente) e os Estados Unidos (3,5%), o núcleo duro dos países europeus e o Japão cresceu acima de 1%, a Rússia retrocedeu a uma média de 3,7% ao ano, segundo dados do Banco Mundial. Foi uma década literalmente perdida para a Rússia.

A queda brutal de poder relativo da Rússia post-URSS
Transição de poder económico e industrial entre 1980 e 1997 (Banco Mundial):
· URSS (1980): 7% do PIB mundial; 9% da produção industrial mundial
· Rússia (1997): 1,7% do PIB mundial; 1,8% da produção industrial mundial

"Ranking" mundial actual (Outubro 2007, Fundo Monetário Internacional) de peso no PIB Mundial (em paridades de poder de compra):
· Rússia: 7º lugar (2,9% do PIB mundial em PPC), depois de União Europeia, Estados Unidos, China, Índia, Japão e Brasil

Despesas militares (em paridades de poder de compra, segundo o SIPRI, 2007):
· Rússia: 5º lugar (16% das despesas americanas, 42% das europeias, 44% das chinesas e 72% das indianas)

O erro norte-americano, após a implosão da União Soviética foi comparar a nova situação da Rússia à da Alemanha e do Japão após a derrota militar na Segunda Guerra Mundial. "A Rússia foi transformada por dentro, não foi derrotada", escreveu Dimitri K. Simes, presidente do Nixon Center, num ensaio na revista Foreign Affairs (edição Novembro/Dezembro 2007). Num artigo sugestivamente intitulado 'Perdendo a Rússia - os custos de uma confrontação renovada' (Losing Russia - The Cost of Renewed Confrontation), o editor da revista The Nation Interest, acusa os EUA de terem agido, nos últimos vinte anos, de um modo "paternalista" e "arrogante", de terem empurrado a Rússia para uma situação de sentimento de "irrelevância" na cena mundial. Inclusive muitos analistas deram dela a imagem de uma potência "terceiro-mundializada".

"As grandes potências - sobretudo as que estão em declínio - não gostam disso", sublinha. Particularmente quando pressentem um "cerco" de contenção nas suas fronteiras naturais e no seu tradicional espaço de influência. No caso da Rússia, um espaço de influência herdado do tempo do império czarista, da revolução de 1917 e do acordo entre Hitler e Estaline (o tristemente famoso Pacto Molotov-Ribbentrop) - o Báltico (hoje estados aderentes à União Europeia e à NATO), a fronteira europeia (Moldávia e Ucrânia, depois da 'Revolução laranja' de 2004-2005), os Balcãs, o Mar Negro (Geórgia, hoje aliado dos EUA) e o Mar Cáspio (Azerbaijão, hoje aliado dos EUA).

É, também, desconfortável psicologicamente para a potência que já pertenceu ao dueto bi-hegemónico dos anos 1960-1970, estar vaticinada a não passar, em termos de poder económico mundial, do sexto lugar, em 2030 (depois da China, dos Estados Unidos, da União Europeia, do Japão e da Índia) segundo as projecções de Angus Maddison, ou de estar hoje em 5º lugar, em despesas militares, segundo o SIPRI), mesmo muito abaixo de países como a China e a Índia.

O défice gasista e o teatro europeu

O investigador Dylan Kissane chama a atenção que o teatro principal de risco é a Europa: é aqui que a Rússia quer recomeçar por afirmar o seu estatuto de grande potência. Não admira, por isso, que a gestão política das exportações de gás pela Rússia seja um elemento central quer em relação aos vizinhos directos recalcitrantes (que não está disposta a subsidiar), como em relação a uma Europa dependente do gás (fraqueza que está disposta a explorar até ao limite).

Recorde-se que a Rússia detém 28% das reservas mundiais de gás natural (quase 1,7 vezes o número 2, o Irão, e 1,9 vezes o número 3, o Qatar) e é o principal produtor e exportador do mundo. Mas, por mais paradoxal que pareça, refere o economista Michael J. Economides - autor de 'Russia: A Critical Evaluation of its Natural Gas Resources' e de 'Russia: The Energy State of the Nation', publicados na revista Energy Tribune, de que é editor-em-chefe - caminha, a passos largos, para uma situação de défice abissal entre o que produz e o que consome e exporta.

Em 2010, o défice já poderá rondar os 120 mil milhões de metros cúbicos e em 2020 cerca do triplo, a fazer fé nas estimativas do Instituto russo para os problemas dos monopólios naturais-IPEM e conforme o gráfico publicado aqui. A única solução, diz Economides, é "um investimento massivo por parte de privados independentes e companhias estrangeiras", solução para que a Gazprom - a empresa estatal que evoluiu do antigo Ministério do gás soviético e que detém hoje 80% da produção, depois de várias re-nacionalizações - e o poder político russo não se mostram nada inclinados.

Apesar de a Rússia procurar várias "almofadas", segurando importações de gás dos vizinhos produtores (importância estratégica dada aos oleodutos da Ásia Central e à Aliança do Mar Cáspio) e tentando marcar território no Árctico (onde poderão haver reservas de 1 a 5 mil milhões de toneladas de gás e petróleo), o défice poderá tornar-se politicamente difícil de gerir e o risco de projecções de poder inevitável. Os próprios fornecedores de gás natural da Ásia Central, como o Uzbequistão e o Turquemenistão, já começaram a pressionar a mudança da lógica de preços de venda à Rússia, transitando, como dizem, de "preços regionais para preços mundiais".

3. A maldição do ouro negro - África e a disputaentre grandes potências

Num continente povoado por cleptocracias que enriquecem uma "nomenclatura" com milhões de petrodólares, as riquezas energéticas estão a atrair de novo a disputa entre as grandes potências. A viragem dos Estados Unidos para o petróleo de África e a "ofensiva" de charme da China trouxeram o continente de novo para a ribalta. No entanto, as previsões até 2050 revelam a diminuição do seu peso relativo na produção mundial de petróleo regular e de águas profundas.

Livro em Destaque:
Untapped: The Scramble for Africa's Oil, de John Ghazvinian

Subitamente África chegou à ribalta do palco do petróleo. Habituado a só ouvir falar da Venezuela, nas suas 'traseiras', ou do escaldante Médio Oriente, o público americano ficou surpreso com algumas notícias recentes sobre a geoeconomia do ouro negro: durante Fevereiro e Março deste ano (2007), os EUA importaram mais petróleo da África subsaariana do que do Médio Oriente, segundo dados da Energy Information Administration; em 2015, os EUA importarão 25% do petróleo de África, mais 6 pontos percentuais do que hoje, segundo o National Intelligence Council, podendo tornar-se na principal zona fornecedora; a turbulenta Nigéria é já o quinto maior fornecedor dos americanos; e a China já importa 30% de África (sobretudo de Angola, Congo-Brazaville, Guiné Equatorial e Sudão).

Exportação de petróleos de África (Destinos)
Europa: 36%
Estados Unidos: 32%
China: 9%
Peso de África na importação dos clientes
Estados Unidos: 19%
China: 30%

Estes sinais dos tempos levaram John Ghazvinian a escrever 'Untapped: The Scramble for Africa's Oil' (Por explorar: A disputa pelo petróleo africano), editado pela Harcourt. John é um historiador de formação com um doutoramento em Oxford, que nasceu, imagine-se, no Irão, e que dá aulas actualmente na Universidade de Pensilvânia. E se ele tivesse de escrever um outro título optaria por 'A maldição do petróleo'.

A primeira face da maldição é o regresso à geopolítica. O que se está a passar na África, rica em recursos energéticos, entre os Estados Unidos e a China pode ser descrito com um neologismo do management datado de 1996: "coopetição" (a "buzzword" coopetition, no original), uma contracção de cooperação e competição. "Vai ser um dos aspectos geoestratégicos centrais do século XXI", diz o autor. Ghazvinian não encontra sinais, por ora, de que esse equilíbrio venha a ser rompido em breve: "A agitação em torno de um conflito potencial em África é um exagero, por ora. As duas grandes potências estão interessadas num ambiente estável e na exploração de áreas de potencial colaboração". Fontes oficiais chinesas resumem a situação, sublinhando que "não há conflitos estratégicos" entre os EUA e a China em relação a África, ainda que não possa ser evitada a "competição no mundo dos negócios em vários domínios".

Dragão na savana

A subtil estratégia chinesa merece uma atenção particular do autor. Junto de muitos países, a China joga com o papel de "protector de última instância contra a pressão internacional" que o lugar permanente no Conselho de Segurança da ONU lhe dá. Por outro lado, esgrime com a sua incrível liquidez financeira, sem forçar regras de transparência. O caso de Angola é apontado como um "caso de estudo": uma autorização de linha de crédito de 2 mil milhões de dólares em 2004 pelo Eximbank (Export-Import Bank) chinês deixou "K.O." as investidas do Fundo Monetário Internacional. A Sinopec chinesa (em aliança com a Sonangol) passou a perna à Shell e à Total em direitos de exploração em certos blocos no "offshore" angolano e são chinesas também as empresas que estão a tratar da reconstrução de grandes infra-estruturas daquele país. O filme desta ofensiva de "soft power" chinesa já tem um título: 'O Dragão na Savana'.

O retrato económico do Dragão no continente africano foi apresentado, recentemente, por fonte insuspeita - Yang Guang, director do Instituto para os Estudos Africanos e da Ásia Ocidental, ligado à Academia de Ciências Sociais da China, sintetizou os números: 800 empresas chinesas implantadas em toda a África, "stock" de investimento directo em África de 11,7 mil milhões de dólares (no final de 2006), 80.000 chineses como pessoal oficialmente reconhecido.

Do lado dos americanos há, também, notícias na frente geopolítica. Depois da atenção dada pela Administração Clinton ao Mar Cáspio e aos seus petro-estados (Azerbaijão e Cazaquistão) saídos da implosão da União Soviética em 1991, George W. Bush apadrinhou em 2002 a doutrina das operações "pré-entivas" (ver aqui) para legitimar a gestão política do Médio Oriente (a doutrina foi estreada no caso da "mudança de regime"no Iraque um ano depois), mas, já em Fevereiro deste ano (2007), criou o US Africa Command (Africom) estrategicamente atento ao Golfo da Guiné e tendo como prioridade número um a segurança das rotas marítimas no Atlântico Sul.

O Africom já iniciou em Outubro (2007) as suas operações a partir de Estugarda, na Alemanha, sem ainda ter decidido a sua localização em África. A Nigéria já se pronunciou contra a localização na África Ocidental e países como a Líbia e a África do Sul colocaram reticências - apenas a Libéria se ofereceu como possível localização do comando. No ano passado, o Departamento de Energia dos EUA lançou o AGOA-African Growth and Opportunity Act, justificando-o claramente em virtude "da posição de importância estratégica crescente [de África] para os mercados do gás e do petróleo". O outro lado da maldição é que os milhões que se amassam na venda do petróleo (a preços galopantes a partir de 2000) repercutem-se de um modo paradoxal na economia e na sociedade: a euforia da exportação do ouro negro traduz-se no disparo da dependência da importação em tudo o resto, as economias locais são devastadas, a gente comum continua a não ter por vezes nem 1 dólar por dia para viver, e a fuga de capitais - incluindo de origem pública - nas mãos dos "cleptocratas" no poder é astronómica.

Um ano a palmilhar a opulência e a miséria
No périplo que fez por doze países africanos, durante quase um ano, para recolher dados para o livro, conversando com senhores-da-guerra, CEO, bandidos de rua, activistas, cientistas, responsáveis e técnicos da indústria petrolífera, políticos corruptos e gente comum, John Ghazvinian teve de fugir à pressa da Guiné Equatorial em 2005 sob risco de vida, mas o país que lhe deixou a mais viva impressão dos contrastes nas cleptocracias do ouro negro foi o Chade: "Há uma imagem inconfundível que nunca me largará: o complexo da Exxon, com aeroporto e tudo o que há de "primeiro mundo", e do lado de fora do arame farpado compra-se na beira da estrada petróleo roubado, pois não há bombas de gasolina, e ergueu-se uma gigantesca área baptizada de "café de espera" ou de "Quarteirão do Diabo" (Quartier Satin), onde literalmente milhares e milhares esperam diariamente por um biscate". Também o paradoxo que é hoje Luanda lhe pareceu dos "mais bizarros". Ficou também impressionado com São Tomé e Príncipe onde o petróleo agitou as águas do pequeníssimo arquipélago com a sua classificação pelo Departamento de Energia dos EUA como "região de fronteira" para novos investimentos estratégicos, e registou o facto de Angola ter decidido aderir à OPEP (o primeiro novo membro desde há 30 anos).

Retrato do petróleo em África no futuro
(Resource Based Production Forecast, ASPO, Cenário base)
Conclusões fundamentais:
· O peso mundial de África, em termos relativos, desce ligeiramente até 2050
· Em termos absolutos vamos assistir a uma redução diária significativa, quer no petróleo regular como no de águas profundas

QUADRO
(milhões de barris diários de produção)
Crude regular
2010: 5,7 (9,5% do mundial)
2020: 4,2 (8,9%)
2050: 1,9 (8,6%)
Petróleo de águas profundas
Angola:
2010: 1,9
2020: 0,7
2050: 0
Nigéria:
2010: 1,2
2020: 0,9
2050: 0
Total dos dois países:
2010:3,1 (35%)
2020:1,6 (34%)
2050: 0

4. GeoEstante

3 livros recomendados (pode encomendar seguindo o 'link')


Charm Offensive

Russia's Capitalist Revolution - Why Market Reform succeeded and Democracy Failed

Untapped: The Scramble for Africa's Oil

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