O clube do gás natural

Dois especialistas americanos alvitram a possibilidade da criação de uma organização do tipo da OPEP por parte dos exportadores do gás natural, uma mercadoria em fase de globalização e com um mercado claramente emergente. O risco é o da politização desta "commodity" e de novos focos de tensão mundial em torno do controlo desta fonte de energia cujas reservas se centram na Rússia e no Médio Oriente. A história geo-política do petróleo poderá repetir-se.

Jorge Nascimento Rodrigues, editor de Janelanaweb.com, Novembro de 2003

LINKS ÚTEIS
 Artigo na Foreign Affairs de Novembro/Dezembro de 2003 (volume 82, nº6) 
www.cera.com/news/details/1,1308,5918,00.html
Projecto Pars do Sul (Irão)
www.offshore-technology.com/projects/southpars/
Projecto "Golfinho" (Qatar)
www.oxypublications.com/oog_intl.htm
Consultora de Yergin e Stoppard
www.cera.com

Quadros de referência

Uma associação dos exportadores do gás natural é algo politicamente previsível no horizonte da primeira metade do século XXI, a que se poderão associar países com reservas significativas daquela energia, e cujas exportações estão ainda longe do seu potencial. No epicentro dos exportadores está hoje a Rússia (com 32% desse mercado) e na geografia das reservas está o Médio Oriente (com 36% do total mundial estimado) e a Rússia e cinco países do Mar Cáspio (com 35%). A razão de ser da probabilidade desta opção política deriva do facto de haver uma tríade importadora altamente dependente - a União Europeia (que mobiliza 40% das importações mundiais deste tipo de fornecimento energético, com destaque para a Alemanha e a Itália), os Estados Unidos (com 16%) e o Japão (com 11%).

Uma "OPEG" é um dos cenários energéticos avançados por dois especialistas norte-americanos, Daniel Yergin, que ganhou um Prémio Pulitzer, em 1992, com a obra monumental sobre a história do petróleo - The Prize: The Epic Quest for Oil, Money and Power -, e Michael Stoppard, que redigiu, no ano passado, o relatório sobre "A Nova Vaga: a globalização do gás natural liquefeito no século XXI". Yergin e Stoppard dirigem a consultora Cambridge Energy Research Associates.

A presa do novo século

A tese destes dois especialistas acaba de ser divulgada na edição de final do ano da revista americana Foreign Affairs: o gás natural é cada vez mais um "carburante de opção" face ao petróleo e ao nuclear, o que está a gerar a emergência de um mercado internacional. Os grandes investimentos anunciados e em curso no âmbito da construção de "pipelines" bem como o disparo do uso de transporte marítimo para o gás natural liquefeito, estão a tirar esta mercadoria do seu acantonamento regional para a arena global. Por outro lado, a procura deverá disparar, segundo estes analistas, com o crescimento dos "grandes tigres" asiáticos, a China e a Índia, ao longo deste século. A situação de importador liquido por parte dos EUA deverá agravar-se também nos próximos dez anos.

O gás natural pode transformar-se, assim, na "presa" geo-económica mais cobiçada do século XXI, com a instabilidade dos preços e as consequências geo-políticas imagináveis - à luz do trajecto percorrido por outra "commodity", o petróleo, a partir dos anos 70 do século passado.

O gás natural pode transformar-se, assim, na "presa" geo-económica mais cobiçada do século XXI, com a instabilidade dos preços e as consequências geo-políticas imagináveis - à luz do trajecto percorrido por outra "commodity", o petróleo, a partir dos anos 70 do século passado.

No núcleo duro dos actuais dez principais exportadores encontramos a Rússia, na liderança, seguida do Canadá e, a maior distância da Argélia (ver gráfico). A Rússia tem vindo a afirmar uma estratégia muito agressiva na exploração deste recurso, consciente da janela de oportunidade de que dispõe, um tema que foi discutido esta semana na 2ª Conferência Internacional Adam Smith sobre o gás russo que decorreu em Moscovo. A geografia destes fornecedores actuais coloca ainda na ribalta três países europeus (Holanda, Noruega e Reino Unido), um país da Região do Mar Cáspio (Turquemenistão), um do Médio Oriente (Qatar) e dois da Ásia (Indonésia e Malásia).

No entanto, a geografia das reservas estimadas (ver gráfico) mostra que o potencial existente no Médio Oriente bem como na Venezuela ou na Nigéria está, ainda, longe do actual nível de exportação. Recorde-se que o Irão, que ainda é um fraco exportador, é considerado como o número dois em reservas mundiais, com cerca de 15%, e que o Qatar, terceiro maior detentor de reservas com 9%, apenas se encontra em 10º lugar no clube dos exportadores.

Milhões no Mar Arábico

Não é de estranhar, por isso, os 3,5 mil milhões de dólares no projecto "Golfinho" que deverá fornecer, a partir de 2006, gás natural do Qatar para os Emiratos Árabes Unidos por 25 anos a partir das jazidas em "off-shore" no Golfo Arábico através de um "pipeline" submarino. Ou, ainda, os 12 mil milhões já em curso também no "off-shore" do Mar Arábico na zona conhecida por Pars pertencente ao Irão, onde estão já envolvidas a TotalFinaElf (francesa), Gazprom (russa), Petronas (da Malásia) e Eni (italiana).

Só há dois cenários estratégicos a longo prazo - ou a luta hegemónica pelo posicionamento directo no terreno dos recursos ou o reforço de alianças políticas e económicas com o "clube" de fornecedores e de detentores de reservas significativas. À espera que nenhum futuro "choque" energético nos rebente nas mãos.

Olhando a Europa, o envolvimento dos fornecimentos é óbvio - na frente de leste, o grande fornecedor russo, e no mediterrâneo o peso da Argélia e as potencialidades dos fornecedores do Médio Oriente. E para Yergin e Stoppard só há dois cenários estratégicos a longo prazo - ou a luta hegemónica pelo posicionamento directo no terreno dos recursos ou o reforço de alianças políticas e económicas com o "clube" de fornecedores e de detentores de reservas significativas. À espera que nenhum futuro "choque" energético nos rebente nas mãos.


QUADROS DE REFERÊNCIA

RESERVAS DE GÁS NATURAL
(% do total mundial estimado, em 1 de Janeiro de 2003)
Duas Regiões-chave
Médio Oriente 36
Rússia e Mar Cáspio (*) 35
10 Países líderes
Rússia 30
Irão 14,7
Qatar 9,2
Arábia Saudita 4
Emiratos 3,8
EUA 3,3
Argélia 2,9
Venezuela 2,7
Nigéria 2,3
Iraque 2
Notas: (*) Cinco Países: Turquemenistão, Uzbequistão, Kazaquistão, Ucrânia e Azerbeijão
Fonte: Agencia de Informação sobre Energia do Departamento de Energia do Governo Americano, www.eia.doe.gov/emeu/international/reserves.html

GEOGRAFIA DE CLIENTES E FORNECEDORES
(% do total de importações e exportações mundiais)
A "tríade" importadora
União Europeia 40
Estados Unidos 16
Japão 11
Os 10 Exportadores
Rússia 32
Canadá 15
Argélia 9
Noruega 7
Holanda 6
Turquemenistão 5,8
Indonésia 5,3
Malásia 3,2
Reino Unido 2,2
Qatar 2
Fonte: www.eia.doe.gov/pub/international/ieapdf/t04_02.pdf

Canal Temático
Topo da Página
Página Principal