À procura do fim do «boom»

Os leitores são bombardeados com dois dicursos paralelos, por vezes, representados pelos mesmos personagens - o de um pessimismo alarmista sobre a recessão e o de um optimismo de inversão do clima bolsista no segundo semestre do ano. Terá algum destes discursos fundamento? Deverá a crise ser «decretada» pelos jornais?

Jorge Nascimento Rodrigues na pele do Ardina na primeira crise do século XXI

Versão mais reduzida publicada no semanário português Expresso

O ponto de viragem de 2006
Gráfico sobre a evolução do PNB dos EUA desde 1920

Onde procurar dados estatísticos
National Bureau of Economic Research dos Estados Unidos - US Business Cycle Expansions and contractions
Sobre recessões, na óptica do NBER

Terá o mais longo «boom» da história do capitalismo do século XX morrido às portas do século XXI? Estará a economia norte-americana tecnicamente num período de contracção económica? Será legítimo falar do espectro da recessão em 2001?

Este é o debate que faz correr rios de tinta nos media de todo o mundo hoje em dia. Contudo, a discussão está toldada por uma grande nuvem de confusão política e de ignorância económica.

O paradoxo pessimista

Subitamente, muitos analistas, media e chefes de grandes grupos iniciaram um discurso alarmista sobre a recessão.

Há seis meses atrás quando se começou a falar dos cenários de «aterragem forçada» da economia dos Estados Unidos (de que a Janelanaweb.com então fez eco), este grupo ainda estava na onda do optimismo, tentando desesperadamente que os sinais de chuva não afectassem os mercados financeiros. Fazia chacota dos alertas e esperava, ainda, que os portfólios financeiros voltassem a encher. Como dizia Keynes, com ironia, os analistas e investidores preferem estar «errados em grupo e são muito relutantes em estarem a contra-corrente sozinhos».

Agora, o palco foi virado do avesso.

Coloquemos, então, os pontos nos ii.

Há, de facto, toda a probabilidade de se entrar em 2001 - ou de já se ter entrado no virar do século - num período de inversão da tendência de crescimento económico nos Estados Unidos. Contudo, o pessimismo recessivo actual é sobretudo filho do discurso político, mais do que de uma avaliação objectiva de um painel de indicadores.

Curiosamente, apesar da guinada pessimista no discurso sobre a recessão (económica), são praticamente os mesmos personagens que continuam a alimentar as expectativas, vãs, sobre uma inversão rápida, no segundo semestre de 2001, do clima dos mercados financeiros.

Este paradoxo é duplamente pernicioso - desorienta os decisores económicos, dando-lhes, por um lado, expectativas especulativas a curto termo (numa retoma das bolsas) e, por outro, desviando-os de uma gestão estratégica cuidada dos negócios. O pessimismo apressado empurra-os para reengenharias precoces, racionalização de efectivos desproporcionada, desinvestimentos em áreas críticas e outras medidas de gestão precipitadas, com o argumento da «recessão» e da «morte da Internet». Os chefes de empresa e os analistas da corrente pessimista esforçam-se por deitar fora o bébé com a água suja do banho. Esperam, no íntimo, endireitar os mercados bolsistas com esse comportamento de «bons alunos».

Risco alto de recessão

É tecnicamente possível adiantar que o risco de recessão é hoje muito alto, incomparavelmente mais alto do que aquando das ameaças de 1994 e 1998, sublinha a Goldman Sachs, no seu relatório semanal de 20/03/2001, publicado no Global Economics Weekly, num memorando (intitulado: «Rising Recession Probabilities in America and Japan») assinado por Gavyn Davies.

Diz a Goldman Sachs preto no branco: «O risco actual de recessão é o mais alto desde 1990, o que implica que a situação é agora pior do que nos períodos de 'ameaça de recessões' de 1994 e 1998».

Aquelas ameaças dos anos 90 foram rapidamente engolidas pela massificação da Internet e da Web e pelo disparo do desenvolvimento febril de modelos de negócio da Nova Economia nos últimos três anos do século XX. Pelo contrário, hoje em dia, não é expectável que os riscos de recessão actuais possam ser contra-atacados fulminantemente por uma nova vaga de modelos de negócio ligados à nova fase em que está a entrar a Internet e à reemergência da biotecnologia com o efeito em torno do genoma humano.

Por isso, a contracção económica poderá estar no horizonte e colocar um fim ao mais longo «boom» da história do capitalismo do século passado. Iniciado em Março de 1991, este longo «boom» já durou mais de uma década - algo jamais visto. Durou mais do que o «boom» que ocorreu entre Fevereiro de 1961 e Dezembro de 1969 (o período de emergência do «chip») e dois anos mais do que o decorrido entre Novembro de 1982 e Julho de 1990 (historicamente ligado à emergência do computador pessoal).

PRINCIPAIS CICLOS DE NEGÓCIOS NO SÉC. XX
Maior recessão: Setembro de 1929 a Março 1933 - 43 meses (3,5 anos)
Maior «boom»: Março de 1991 até ? 2001 - já vai em mais de 120 meses (10 anos)
Outras grandes recessões: Dezembro de 1973 a Março de 1975 - 16 meses; Agosto de 1981 a Novembro de 1982 - 16 meses
Outros «booms» longos: Fevereiro de 1961 a Dezembro de 1969 - 106 meses (9 anos); Novembro de 1982 a Julho de 1990 - 92 meses (8 anos)
Fonte: NBER

Contudo, decretar nos jornais a entrada dos EUA em recessão económica é imprudente.

O último relatório do National Bureau of Economic Research (NBER), datado de 9 de Março (2001) passado, não é ainda conclusivo sobre se o ponto de viragem - momento em que a actividade económica no seu conjunto muda de direcção - se deu em 2000 ou se ocorreu neste primeiro trimestre do novo ano. É certo que o NBER «decreta» oficialmente estas datas com um ano de atraso, pelo que os agentes económicos não podem ficar à espera desse sinal e têm de concluir por conta própria.

Note-se que o NBER não define a recessão económica em termos de dois trimestres consecutivos de quebra do PNB real (como agora se popularizou nos media). Define-a num sentido mais largo, como um período de contracção em vários tabuleiros - na produção, nos rendimentos, no emprego e no comércio, o que exige uma observação no mínimo de seis meses a um ano.

Períodos trocados

O outro lado do paradoxo dos dois discursos paralelos - optimismo sobre as bolsas no 2º semestre de 2001 e pessimismo político sobre o andamento da economia real - é a total inversão dos tempos médios que historicamente duram as recessões económicas e as correcções bolsistas.

Por mais estranho que possa parecer ao leitor, as recessões económicas (seguidas de uma depressão e depois por uma retoma) têm sido, em média, relativamente curtas, desde 1945.

MÉDIAS DE RECESSÃO E EXPANSÃO NO SEC. XX
1919-1945 - 6 recessões - 18 meses em média de recessão - 35 meses em média de «boom»
1945-1991 - 9 recessões - 11 meses em média de recessão - 50 meses em média de boom
CONCLUSÕES:
- O número de recessões aumentou a partir de 1945, mas em média durou menos tempo
- Os «booms» aumentaram substancialmente de tempo médio; tornam-se mais longos

Entre o final da 2ª Guerra Mundial e 1991 - altura em que começou o mais recente longo «boom» - deram-se 9 recessões nos EUA com uma média de 11 meses de duração. Em relação ao período anterior (1919-1945), aumentaram em número (frequência: de 6 para 9), mas a sua duração média diminuiu (de ano e meio para menos de um ano).

A maior recessão norte-americana de que há memória no século XX ocorreu entre Setembro de 1929 e Março de 1933, ao longo de três anos e meio de muito sofrimento económico e social. No entanto, as recessões mais prolongadas do pós-guerra duraram apenas 16 meses (entre Dezembro de 1973 e Março de 1975 e entre Agosto de 1981 e Novembro de 1982).

DESINTONIA ENTRE DISCURSO E HISTÓRIA
1929-1949 - 20 anos de correcção bolsista no Dow Jones Industrial - 5 anos acumulados de recessão - 14 anos acumulados de expansão
1966-1982 - 16 anos de correcção bolsista no DJI - 3 anos acumulados de recessão - 18 anos acumulados de expansão
CONCLUSÃO:
- Os períodos de contracção económica são mais curtos do que os de correcção bolsista

Pelo contrário, as correcções bolsistas no Dow Jones Industrial norte-americano, durante o século passado, foram muito mais prolongadas - entre um mínimo de 16 anos e um máximo de 20 (conforme temos analisado na Janelanaweb.com).

Compete ao leitor retirar as ilações desta estranha falta de sintonia com a História económica.

À espera de 2006
O ano mágico em que os dados em suportes digitais ultrapassarão os em suportes analógicos
Mesmo que o longo «boom» iniciado em 1991 termine em breve - ou já tenha mesmo terminado -, há que manter o optimismo de médio prazo ao fazer a travessia da crise económica e da correcção bolsista.
Nos próximos cinco anos assistiremos ao começo de uma viragem histórica sem precedentes. Um estudo da IBM e da Business Objects (líder em soluções de «business intelligence») aponta o ano de 2006 como o do cruzamento entre duas realidades - a analógica e a digital.
Às taxas de crescimento esperadas - de apenas 20% para os suportes analógicos e de 100 a 400% para os diversos suportes digitais -, entre 2005 e 2006, o mundo digital («off-line», «on-line» e Internet) dos dados ultrapassará o mundo analógico da informação em papel, filme e vídeo.

CRESCIMENTO DOS SUPORTES DE DADOS ENTRE 2000 E 2006
  • Analógicos: 300 exabites em 2000 para 900 exabites em 2006 (taxa de crescimento anual de 20%)
  • Digitais off-line (CD, DVD, microdisco): 20 exabites em 2000 para 1280 exabites em 2006 (taxa de crescimento anual de 100%)
  • Digitais on-line (ficheiros, servidores, PCs, redes): 1 exabite em 2000 para 64 em 2006 (taxa de crescimento anual de 100%)
  • Digitais Internet (HTML, páginas dinâmicas, P2P): 0,0001 exabite em 2000 para 1,5 exabite em 2006 (taxa de crescimento de cerca de 400%)

  • Fonte: E-Business Intelligence, de Bernard Liautaud (LINKAR entrevista com ele) da Business Objects e IBM (Nota: 1 exabite é 1 bilião de megabites)
    Este facto significará uma mudança estrutural no contexto em que se movem as economias e os cidadãos. Os que crêm que a «experiência» da Net está morta e que a «velha» economia com as suas receitas voltará a dar as cartas vão ser apanhados de surpresa por esta mudança de baralho. Evite, por isso, estar nesse lote de jogadores.
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