Portugal: uma economia "cercada"

Cinco áreas geográficas de concorrentes - oriundos inclusive de regiões do nosso vizinho espanhol - ameaçam a especialização portuguesa no comércio internacional. A esperança de fugir ao cerco reside nalgumas orientações pragmáticas em sete fileiras de oportunidade.

Jorge Nascimento Rodrigues, editor janelanaweb.com, Julho 2004

Sete fileiras de oportunidade

A economia portuguesa está "cercada" no comércio internacional. As mudanças geo-políticas - nomeadamente o alargamento a Leste da União Europeia - e geo-económicas - em particular, a emergência de nova vaga de grandes países da Ásia - cada vez mais visíveis no início deste século são a razão desta conjuntura de crise estrutural do nosso modelo de inserção mundial. O "cerco" só pode ser vencido se, desde já, houver clareza nas políticas públicas e na decisão empresarial sobre esta ameaça e na forma de a contornar. Responder à questão central sobre "que actividades terão condições para emergir ou florescer no tecido económico português num horizonte de 10 a 15 anos" foi o exercício de prospectiva orientado por José Félix Ribeiro e Paulo Soeiro de Carvalho para a Direcção de Serviços de Prospectiva do Ministério de Finanças de Portugal.

O "cerco" só pode ser vencido se, desde já, houver clareza nas políticas públicas e na decisão empresarial sobre esta ameaça e na forma de a contornar.

O relatório, agora divulgado, pelo Departamento de Prospectiva e Planeamento (DPP) daquele ministério aponta para sete "hipóteses" de fileiras de oportunidade (ver caixa), a partir de um diagnóstico dos nossos concorrentes e dos "clusters" existentes no nosso tecido económico. Recusando as ideias tradicionais de "planeamento" público da iniciativa empresarial e sublinhando a "incerteza" de evolução da realidade, Félix Ribeiro e Paulo Soeiro procuram um cruzamento entre as grandes tendências da globalização num horizonte até 2015 - que designam por "vagas" emergentes - e o pragmatismo necessário, atendendo às características do nosso tecido real.

A aderência ao país real é fundamental, pois dois pontos fracos são, desde lodo, identificáveis: a começar pelo baixo nível de qualificação da nossa população activa e a acabar numa ainda forte presença das nossas exportações em sectores intensivos em trabalho e com "insuficiente peso do capital simbólico ou da inovação" (como o vestuário, calçado e cablagens). Acresce que Portugal é um dos países que está em défice na globalização até à data - a factura que paga por perca generalizada de quotas no comércio internacional e recuo no investimento directo estrangeiro no país é superior aos ganhos.

Geografia do cerco

O alargamento recente e próximo da União Europeia acarreta um problema adicional: um dos "motores" dos nossos ganhos no comércio internacional nos últimos anos foi o investimento directo alemão, país que já está a olhar a Leste para as suas opções de deslocalização não só no campo de produtos baseados em trabalho e recursos naturais (Bulgária, Roménia, Turquia), como noutra gama mais intensiva (República Checa, Polónia, Eslováquia e Hungria).

Mas o "cerco" geográfico não vem, apenas, do Leste europeu. A Ásia oferece-nos dois tipos de concorrentes de peso: os grandes emergentes (China e Índia) que tanto nos afectam em produtos intensivos em trabalho como em serviços e produtos tecnológicos, e os "tigres" asiáticos especializados em produtos baseados no conhecimento. O próprio Mercosul e o Chile posicionam-se cada vez mais em fileiras da nossa especialização. E o Magrebe também, detalha o relatório do DPP.

A fotografia não fica completa sem mencionar a concorrência directa oriunda de algumas regiões do nosso vizinho: Catalunha (automóvel, farmacêutica, digital), Andaluzia (aeronáutica), Galiza (automóvel), Castela e Leão (automóvel), Aragão (automóvel) e Comunidade Valenciana (automóvel).

A contra-ofensiva portuguesa em termos de especialização na exportação e de atracção de capital estrangeiro tem de "combinar" pragmaticamente três tipos de segmentos, diz o relatório do DPP - negócios de baixa e média qualificação que criem emprego regional e local; fixação de centros de competência (há exemplos de multinacionais que o têm feito) e apostas em nichos de negócio baseados em conhecimento (como o tem feito a geração "start-up" portuguesa); e nichos "intermédios" que "combinem simultaneamente a capacidade de fixar talentos e competências de alto nível e de criar emprego para um nível de qualificações médio/baixo".

A própria geografia de "cerco", em vez de nos abater psicologicamente, deve motivar a exploração de oportunidades por parte dos próprios empresários nacionais não só em Espanha ("nearshoring", na linguagem especializada) como em diversas partes do globo - o investimento directo português deve acompanhar os próprios movimentos de deslocalização fomentados pela globalização nos sectores e nichos onde ganhámos uma especialização histórica ou conhecimento.

A própria geografia de "cerco", em vez de nos abater psicologicamente, deve motivar a exploração de oportunidades por parte dos próprios empresários nacionais não só em Espanha ("nearshoring", na linguagem especializada) como em diversas partes do globo - o investimento directo português deve acompanhar os próprios movimentos de deslocalização fomentados pela globalização nos sectores e nichos onde ganhámos uma especialização histórica ou conhecimento. Aliás, multiplicam-se os exemplos de iniciativa portuguesa no mundo (da cortiça, ao calçado, à moda, às componentes, à farmacêutica, à distribuição, etc.).

Sete lileiras de Oportunidade

Aeronáutica e Automóvel
Áreas: mercados de nicho na aeronáutica; prosseguir na consolidação do "cluster" automóvel sobretudo na interligação com Espanha; fortalecer o sector dos moldes

Economia Digital
Nichos com hipóteses: Entretenimento digital; automatização de funções; tele-serviços; "mobile business"; WiFi (sem fios); multimedia automóvel; design e serviços para indústria electrónica

Energia
Objectivo estratégico: aposta em ser "vitrina" de energias "alternativas" atraindo IDE e desenvolvendo empreendedorismo em nichos no fotovoltaico, eólica e hidrogénio

Moda
Objectivo estratégico: criar massa crítica de marcas de moda portuguesas em mercados exigentes

Oceano
Objectivo estratégico: transformar Portugal numa plataforma de engenharia oceânica e de serviços de assistência técnica ao offshore Atlântico Oportunidade industrial com intensidade tecnológica: criar um pólo de concepção e fabrico de equipamentos e módulos para electrónica e robótica submarinas

Saúde
Áreas: consumíveis hospitalares; serviços a multinacionais farmacêuticas; plataforma de entrada no mercado europeu para multinacionais da cosmética não-europeias

Turismo e Eventos
Principais alvos de marketing: classes médias da Europa do Norte e atracção de eventos internacionais dos mais variados tipos Estratégia: explorar as valências para além do Sol (golfe, jogo, desportos radicais, cultura e património, produtos do território)

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