A corrida ao ouro negro do Atlântico Sul

Visto pelo Ardina na Crise

Está a nascer um novo oceano do petróleo mais acessível do ponto de vista logístico e liberto, em grande medida, do controlo do cartel da OPEP. Os offshores dos mares do sul e os grandes países produtores da África Ocidental e do Mercosul estão a ser empurrados para a ribalta. O controlo geo-político, incluindo a presença militar, e geo-económico do Atlântico Sul está na ordem do dia. Os movimentos estratégicos da Administração Bush são a ponta do icebergue.

Jorge Nascimento Rodrigues, Novembro 2002

Estatísticas e análises disponíveis na EIA norte-americana

O Atlântico Sul é hoje o principal espaço marítimo aberto que está a emergir no campo do petróleo, com facilidade logística e de resposta rápida para as potências ocidentais do Norte, em particular para o novo hegemonismo, os EUA. Está a assumir uma importância estratégica como plataforma offshore com significado mundial e como "corredor" de fornecimento alternativo.

Basta o leitor pensar no agravamento da situação no Mediterrâneo, no Golfo Pérsico ou no estreito de Bósforo (por efeito de alterações na Turquia e turbulência no Mar Negro), e numa eventual perda total de controlo da situação no Mar das Caraíbas (turbulência na Venezuela, o segundo maior produtor latino-americano depois do México, e na Colômbia), para se perceber como o Atlântico Sul pode ser uma verdadeira válvula de segurança.

A batalha pelo controlo político, incluindo militar, e económico deste vasto espaço marítimo vai, por isso, agudizar-se nos próximos anos.

Súbito interesse

Apesar do Golfo Pérsico - com 25% da produção mundial de petróleo e 64% das reservas provadas do ouro negro do Planeta - e da Rússia e do Mar Cáspio - que detêm 13% da produção mundial - estarem hoje sob os holofotes mediáticos, o espaço do Atlântico Sul subitamente agitou-se. Estamos a assistir a uma "corrida" pelo controlo geo-económico do ouro negro desta região que abrange nomeadamente os offshores africanos do Golfo da Guiné e da África subtropical e latino-americanos do Mercosul.

O Atlântico Sul já "vale" em termos de produção petrolífera mais do que o Mar do Norte europeu. O espaço dos países africanos e latino-americanos do Atlântico Sul produz cerca de 8,5% do crude mundial, com destaque para a Nigéria e o Brasil, tendo ultrapassado o peso conjunto da Noruega e do Reino Unido.

Os analistas antevêem a "corrida" dos principais importadores - Estados Unidos, à cabeça, Japão, China, Europa e Brasil - a todas as regiões do mundo em que seja possível fugir à estratégia do cartel da OPEP.

Esta posição do Atlântico Sul poderá reforçar-se ainda mais com uma acentuação da exploração do offshore em águas profundas e ultra-profundas. O ano de 2003 vai assistir a uma verdadeira "caça" ao licenciamento de novos blocos de exploração particularmente no Golfo da Guiné por parte das multinacionais do sector.

Prevendo-se um aumento do consumo petrolífero mundial em 2003 na ordem de 1,2 milhões de barris diários adicionais, os analistas antevêem a "corrida" dos principais importadores - Estados Unidos, à cabeça, Japão, China, Europa e Brasil - a todas as regiões do mundo em que seja possível fugir à estratégia do cartel da OPEP.

A Nigéria e o Brasil não estão no "primeiro anel" dos 10 maiores produtores mundiais, mas sim no escalão seguinte, entre os 2,5 milhões e os 1,5 milhões de barris diários de crude. No entanto, a Nigéria é o 7ª exportador mundial e está entre os 15 países com maiores reservas provadas. E o Brasil, apesar de ser um importador líquido de petróleo, é visto cada vez mais como um dos actores centrais no Atlântico Sul.

O Brasil tem vindo a ampliar a sua plataforma offshore - particularmente ao largo de Campos e Santos, a norte e sul do Rio de Janeiro - e a "internacionalizar" a sua estratégia petrolífera em direcção à Argentina (a Petrobras adquiriu 58,6% da Perez Companc, o segundo grupo petrolífero argentino depois da Repsol YPF na mão dos espanhóis) e ao offshore de Cabinda e Angola.

Angola, apesar de estar num terceiro anel de produtores, poderá aproximar-se, este ano, do patamar do milhão de barris diários (746 mil em 2001 e 930 mil estimados para 2002).

Apesar de serem discutíveis as avaliações do pico de produção do petróleo feitas pelos geólogos, há consenso na afirmação de que países como o Brasil, Nigéria, Angola e Congo (Brazzaville) têm ainda uma janela de oportunidade nesta década para aumentar as suas produções diárias. Acresce que o Chade, sem produção petrolífera, poderá atingir os 225 mil barris diários depois de concluído em 2004 o projecto de oleoduto entre a Bacia do Doba e os Camarões.

O actor na sombra

O grande actor na sombra são, no entanto, os Estados Unidos. Em particular, a África Ocidental representa hoje 16% dos fornecimentos de petróleo aos Estados Unidos (só Nigéria e Angola representam 14%) e poderá, numa década, subir para 25%, segundo o National Intelligence Council norte-americano.

Alguns dos países africanos produtores de petróleo são exportadores na casa dos 80 a 95% e têm como principal cliente os EUA: por exemplo, a Nigéria exporta 44% para aquele destino, tal como Angola, e o Gabão chega aos 50%.

O Golfo da Guiné espera, ainda, poder colocar uma pedra sobre as disputas de definição das fronteiras marítimas que cortam diversas áreas do offshore petrolífero entre os vários países costeiros.

Neste contexto, a questão tornou-se naturalmente um "problema interno" da superpotência, no quadro da sua nova doutrina neo-imperial de assegurar o controlo "directo" de fontes alternativas de petróleo. Sinal dos tempos, Colin Powell, o secretário de Estado norte-americano visitou, recentemente, o Gabão e Angola, e fala-se de uma visita do Presidente Bush à África Ocidental no início de 2003.

Há, no entanto, muitas arestas por limar. O espaço do Atlântico Sul não é um paraíso isento de problemas bicudos. A Nigéria ainda não saiu da OPEP - como o fez o seu vizinho Gabão em 1995 - e tem problemas de segurança interna complexos que colocam regularmente em cheque o normal funcionamento do complexo petrolífero. E o Golfo da Guiné espera, ainda, poder colocar uma pedra sobre as disputas de definição das fronteiras marítimas que cortam diversas áreas do offshore petrolífero entre os vários países costeiros. Espera-se que a Comissão do Golfo da Guiné criada em 1999 consiga traçar um novo mapa transfronteiriço marítimo consensual até final do ano. Aguarda-se pela posição da nova Presidência do Brasil que não deverá ver com bons olhos a transformação deste novo oceano do ouro negro num "mare nostrum" norte-americano.

Alguns enclaves como Cabinda - 2/3 da produção petrolífera de Angola - ou Bioko (pertença da Guiné Equatorial) ou a Península de Bakassi (entre a Nigéria e os Camarões) assumem uma importância estratégica neste novo contexto geo-económico. O mesmo se passa com os vários arquipélagos e ilhas atlânticas do sul - uns como pontos de passagem ou praças-forte essenciais para as novas rotas "seguras" do petróleo, outros com potencialidades no próprio offshore petrolífero ainda por explorar.

Cabo Verde, São Tomé e Príncipe, as ilhas da Guiné Equatorial, as ilhas brasileiras e as muitas ilhas sob administração inglesa retomam um papel geo-estratégico renovado, que não tinham tão claramente no tempo da Guerra Fria ou mesmo na primeira década depois da queda do Muro de Berlim.

RESUMO RÁPIDO DE IDEIAS-CHAVE
  • O peso do Atlântico Sul na produção do crude mundial é de 8,5%. Já "vale" mais do que o Mar do Norte europeu
  • Nem a Nigéria nem o Brasil estão no primeiro anel dos 10 mais da produção mundial de petróleo. Mas estão no segundo anel
  • A Nigéria é o 7º exportador mundial, ao nível do actual Iraque e dos Emiratos Árabes Unidos. Está, também, entre os 15 principais países com reservas provadas no mundo. É membro da OPEP, apesar das diversas pressões para que abandone o cartel
  • O espaço do Atlântico Sul assume importância como plataforma offshore e como corredor alternativo de fornecimento, no caso de estrangulamentos no Golfo Pérsico, no Mediterrâneo, no Estreito de Bósforo e no Mar das Caraíbas
  • EUA importam 16% do seu crude da África Ocidental e poderão chegar aos 25% na década
  • Os países petrolíferos da África Ocidental são basicamente exportadores: Nigéria exporta 87%, Angola 95%, Gabão 94%, Camarões 65%. O principal cliente são os EUA: 44% da exportação nigeriana, 44% da exportação angolana, 50% da exportação do Gabão
  • O Brasil, apesar de estar entre os 20 principais produtores mundiais, é um importador líquido - consome 2,2 milhões de barris diários e produz apenas 1,6 milhões. É um dos países que necessita vitalmente de desenvolver uma estratégia de posicionamento nos espaços petrolíferos do Sul - reforçou a posição na Argentina (Petrobras comprou 58,6% da Perez Companc, o segundo grupo petrolífero argentino), e está em vários blocos offshore em Cabinda e Angola
  • O Atlântico Sul é o mar aberto com uma actividade petrolífera offshore claramente emergente. As bacias brasileiras de Campos e Santos, os offshore de Cabinda e Angola e do Golfo da Guiné estão na ribalta
  • As ilhas estratégicas espalhadas pelo Atlântico Sul, desde Cabo Verde até às ilhas sob administração inglesa que fecham a sul voltaram a readquirir importância geo-estratégica
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