Concorrência fora de jogo

Um outro ângulo de observação pelo Ardina da estratégia
da Administração Bush

Serão a China e a Rússia uma ameaça real à supremacia norte-americana a curto e médio prazo? As investigações académicas sobre as estratégias e condições concretas dos dois grandes países revelam que ainda não são competidores estratégicos capazes de obstar à estratégia neo-imperial da Administração Bush

Jorge Nascimento Rodrigues com Robert Taylor (Universidade de Sheffield, Reino Unido)
e Daniel Treisman (UCLA-Universidade da Califórnia em Los Angeles), Dezembro 2002

Artigo de enquadramento na Janelanaweb.com: Cheque Mate à Concorrência

Obras recentes recomendadas sobre os dois países
Rússia:
- Russian Corporations: The Strategies of Survival and Development, por A I Kuznetsov e O J Srensen, International Business Press, 2002
- The Oligarchs: Wealth and Power in the New Russia, por David E. Hoffman, Public Affairs, 2002
- Artigo na revista Foreign Affairs: How Different is Putin's Russia?, por Daniel Treisman, edição de Novembro/Dezembro 2002
- The Challenge of Revolution: Contemporary Russia in Historical Perspective, por Vladimir Mau e Irina Starodubrovskaya, Oxford University Press, 2002
China:
- Artigo: Myths and Realities of China's Military Power, Foreign Policy in Focus, por Thomas Bickford, volume 6, número 14, Abril 2001 - China and the Global Business Revolution, por Peter Nolan, Palgrave Mcmillan, 2001
- China's emerging global business, por Yongjin Zhang, Palgrave Mcmillan, 2003
- Doing Business in China, nova edição, por Tim Ambler e Morgen Witzel, Routledge, 2003
- Página na Web da Academia Militar de Ciências chinesa

Desde a afirmação clara da estratégia "unipolar" dos Estados Unidos para o início do século XXI após os eventos de 11 de Setembro, a investigação académica nas áreas da geo-economia e da geo-política tem estado em grande azáfama. Os investigadores tgêm procurado escrutinar se existirá concorrência à altura no curto e médio prazo a esta oportunidade histórica de "primazia", de supremacia, global da superpotência que sobrou do fim da Guerra Fria.

O estudo e debate tem incidido este ano em duas das três grandes potências consideradas "em transição" pelo Relatório da Casa Branca sobre Estratégia de Segurança Nacional - a Rússia e a China, sendo o terceiro protagonista a Índia. O relatório da Administração americana fala da "atenção à renovação de velhos padrões de competição entre superpotências" e os académicos analisam a viabilidade de, em menos de uma geração, o mapa do globo se alterar de novo.

Mas, aparentemente, os americanos poderão estar tranquilos durante a primeira parte do jogo - a Rússia ainda está a levantar-se da batida no fundo em 1998 e a China parece querer continuar a jogar a cartada paulatina de uma estratégia "benigna".

O feuderalismo russo

Apesar da pose globalizante de Putin, "é inconcebível que, no futuro próximo, a Rússia reganhe um estatuto de superpotência", disse-nos Daniel Treisman, um especialista em ciência política da Universidade da Califórnia em Los Angeles. Treisman tem publicado vários artigos em revistas de especialidade norte-americanas sobre a evolução russa depois da substituição de Boris Yeltsin e concluiu que há, no Ocidente, "uma grande dose de mitologia" sobre alegadas mudanças radicais na Rússia. Apesar de um novo clima psicológico de optimismo a partir de 2000 e de taxas de crescimento entre 5 e 9% entre 1999 e 2001, Treisman argumenta que "muitas das aparentes mudanças são superficiais ou mesmo ilusórias".

Este professor californiano desenvolveu a tese de que a Rússia não se libertou, ainda, do modelo construído por Yeltsin que transformou o país no que ele designa por "feuderalismo", um sistema neo-feudal federal, que cava cada vez mais um fosso entre uma oligarquia de vários clãs e conglomerados multinacionais - nomeadamente na energia ou na área militar - e um tecido económico privado repleto de "quiosques", incapaz de gerar uma classe média com massa crítica e uma economia sólida.

Década de eventos

Em contrapartida, a China - que iniciou uma transição económica para o capitalismo em 1978 com o célebre movimento de reformas, muito antes da URSS - recolhe o consenso dos analistas no sentido de que será uma superpotência económica antes de meados do século. Contudo, "não se trata, por ora, de uma potência insatisfeita que queira usar a força para redesenhar a Ásia ou o mundo", diz Thomas Bickford, um especialista em temas de segurança asiáticos na Universidade de Wisconsin, também nos Estados Unidos. "Trata-se de uma potência relativamente satisfeita que quer ser respeitada e consultada", conclui.

A primeira década deste século surge como uma escalada de eventos de impacto global que trarão a China para um lugar respeitável - em 2001 entrou formalmente na Organização Mundial do Comércio, em 2003 vai inaugurar uma das obras do século, a barragem das Três Gargantas no rio Yangtsé, em 2008 organiza os Jogos Olímpicos e em 2010 a Exposição Universal em Xangai.

Apesar desta afirmação económica e de imagem, "a China não tem, ainda, o poderio militar para desafiar os Estados Unidos", garante-nos Robert Taylor, especialista em temas chineses na Universidade de Sheffield, no Reino Unido. No entanto, Taylor sublinha que, apesar da estratégia "benigna", a China "aspira claramente a uma liderança económica na Ásia-Pacífico, a que se juntam algumas reclamações irredentistas em relação a arquipélagos como as ilhas Paracel mais a norte e as Spratly mais a sul no Mar do Sul da China que poderão ser fósforos incendiários de conflitos, se alguma forma de cooperação entre a China e os outros reclamantes não for encontrada".

A "primazia" norte-americana pode ser beliscada, com maior ou menor eficácia, pelo que Daniel Treisman referiu como "coligações de potências médias que poderão opor-se às prioridades americanas". A Rússia e a China poderão "desempenhar um papel fundamental nestas situações, ora optando pelo lado americano, ora opondo-se", sublinha o professor californiano, que tende a dar-lhes um certo papel geo-estratégico de fieis da balança.

Estes arquipélagos e ilhotas entre a China, o Vietname, as Filipinas e a Malásia poderão desempenhar um papel estratégico na questão do petróleo, em que a China se tornou importadora liquida. "O interesse pelo Mar do Sul da China advém dos recursos em petróleo e a China tem desenvolvido uma estratégia de atracção de investimento estrangeiro para desenvolver quer o offshore como o onshore", refere-nos Taylor, que acrescenta o interesse crescente da China "também na exploração de minerais na Ásia-Pacífico, por exemplo com a Austrália".

Pontos de ruptura

A pacatez desta estratégia tem, contudo, um ponto potencial de ruptura - Taiwan. "Uma confrontação pode acontecer se o governo de Chen Shui-bian em Taiwan declarar a independência formal. Espera-se que a continuação dos contactos informais no plano económico entre os dois lados mantenha a ruptura fora de ignição", comenta Robert Taylor. Esta eventualidade militar tem gasto muita tinta nas revistas da especialidade norte-americanas - com dois campos degladiando números sobre o poderio militar efectivo da China.

Por outro lado, a "primazia" norte-americana pode ser beliscada, com maior ou menor eficácia, pelo que Daniel Treisman referiu como "coligações de potências médias que poderão opor-se às prioridades americanas". A Rússia e a China poderão "desempenhar um papel fundamental nestas situações, ora optando pelo lado americano, ora opondo-se", sublinha o professor californiano, que tende a dar-lhes um certo papel geo-estratégico de fieis da balança. As duas grandes potências poderão inclusive reforçar a sua cooperação: "Rússia e China poderão ser úteis uma à outra quando os interesses de potências de segunda linha estiverem em jogo", conclui Treisman.

NAMORO À EUROPA
O papel da Europa neste tabuleiro não é claro. "Não vejo uma convergência de interesses euro-asiáticos em oposição aos dos Estados Unidos", afirma-nos Daniel Treisman, da Universidade da Califórnia em Los Angeles. O professor de ciência política contraria a ideia de uma tendência natural para uma aliança eurásica, entre a União Europeia e a Rússia, mas admite que "pode haver alguma convergência de opiniões àcerca de diversas estratégias".
Por seu lado, Robert Taylor, da Universidade de Sheffield, no Reino Unido, acha que "a China poderá, agora, olhar para a Europa como uma alternativa aos Estados Unidos em matéria de comércio e de investimentos", a que outros analistas juntam o próprio interesse em termos de formação de quadros chineses ou de captação de quadros europeus para a China. Taylor recorda que no tempo da teoria dos "três mundos", MaoZedong "esteve temporariamente interessado na Europa como contrapeso às duas superpotências". Os tempos são outros, mas a China poderá jogar na janela de oportunidade de um relacionamento diversificado com espaços económicos e políticos como a Europa ou potências regionais emergentes, como a Índia ou o Brasil.

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