Portugal fora do Clube dos Ricos

A última década foi uma década perdida para a "subida" de divisão do nosso país na União Europeia. A região de Lisboa e Vale do Tejo não se classificou sequer na franja emergente, tendo em conta os 10 indicadores ligados à economia do conhecimento, à logística e ao investimento estrangeiro. E corre o risco de perder a corrida com os novos "tigres" do Leste Europeu na actual fase de alargamento da união Europeia.

Jorge Nascimento Rodrigues, Setembro 2003, com ilustrações de Paulo Buchinho

Quadro de síntese | Indicadores

O nosso país perdeu o combóio das duas grandes mudanças ocorridas no mapa geo-económico da Europa na última década.

A famosa super-região baptizada de "banana" (entre o noroeste de Itália, os Alpes, a bacia do Reno, a Ilha de França/Paris, o Benelux e o sudeste do Reino Unido) que definia o clube dos ricos nos anos 80 sofreu uma adição importante que estragou a perfeição do design daquele fruto - os países nórdicos e o Mar Báltico tornaram-se num eixo de regiões líderes em diversos aspectos da economia do conhecimento.

Por outro lado, as faixas emergentes deixaram de estar na vizinhança imediata da "banana" e dispersaram-se pela União Europeia. A década trouxe para a ribalta a Comunidade de Madrid (a própria cidade de Madrid saltou para quarta cidade "global" europeia), a Catalunha (que passou a estar na moda dos grandes projectos de investimento directo estrangeiro nos últimos três anos), grande parte da Irlanda (que é um dos destinos mundiais preferidos dos movimentos de "outsourcing" de processos de negócio) e a Áustria (transformada em ponte logística para os países mais dinâmicos da nova onda de adesão à União Europeia).

Década "tranquila" perdida

Ora, Portugal não conseguiu fazer entrar nenhuma região, nem mesmo a Região de Lisboa e Vale do Tejo, em nenhum destes comboios, a avaliar pelos 10 critérios que usámos (ver caixa e quadro). Apesar da emergência do "cluster" automóvel em diversos pontos do país, do sector dos moldes, do desenvolvimento de aglomerações urbanas especializadas em software (como Braga ou Aveiro), de um "cluster" nascente de aplicações para os telemóveis e outros aparelhos da mobilidade (sobretudo na Região de Lisboa e Vale do Tejo), e da escolha de Portugal para localização de alguns centros relevantes de I&D de multinacionais (como é o exemplo da Siemens), estes factos, ainda, não se traduzem nas classificações internacionais, não tiveram impacto na imagem externa.

Aparentemente, o país não soube aproveitar, após a adesão à Comunidade Europeia, o período "tranquilo" de mais de uma década após a queda do Muro de Berlim em novembro de 1989.

Aparentemente, o país não soube aproveitar, após a adesão à Comunidade Europeia, o período "tranquilo" de mais de uma década após a queda do Muro de Berlim em novembro de 1989. Uma época que provavelmente não se repetirá tão cedo, caracterizada pelo disparo da globalização, pela emergência da economia digital e da bolha dos mercados financeiros até ao "crash" bolsista, à inversão do ciclo económico e à mudança de orientação geo-política norte-americana.

E Portugal corre, agora, o risco, nesta década, de ser batido por uma nova franja emergente, a Leste - os países da moda começam a ser, hoje, a Hungria (considerada pelo Financial Times o quinto país da Europa mais preparado para ter sucesso nas actividades baseadas no conhecimento) e a República Checa (que teve o salto mais significativo no número de grandes projectos de investimento estrangeiro entre 2000 e 2002 e entrou para o clube dos 10 principais recipientes na Europa). Dois países cujo peso político no Parlamento Europeu será similar ao português e ao grego.

Como sintetiza a firma de consultoria inglesa Robert Huggins - responsável pelo "ranking" anual das regiões europeias - é «pouco provável que o Continente (português) assista a alguma reviravolta no curto prazo. Há pouca margem para que mesmo a sua principal região - Lisboa e Vale do Tejo - ascenda aos escalões superiores das economias regionais europeias».

ECONOMIA DO CONHECIMENTO: FORA DAS 50 REGIÕES DE TOPO

Portugal não classificou qualquer região entre as 50 principais regiões europeias incluídas pela Robert Huggins Associates no seu mais recente estudo "European Futures" sobre a aproximação à economia do conhecimento, medida por quatro indicadores per capita - emprego em alta tecnologia e em serviços avançados, investimento empresarial em I&D e registo de patentes. Apenas em emprego em alta tecnologia, o Continente português se aproxima da 60ª posição.

Foi a emergência da economia do conhecimento que provocou uma alteração geo-económica na configuração da "banana" do clube europeu dos ricos.

Foi a emergência da economia do conhecimento que provocou uma alteração geo-económica na configuração da "banana" do clube europeu dos ricos. No grupo das 20 regiões cimeiras deram entrada as regiões metropolitanas de Estocolmo (Suécia), de Uusimaa (onde fica Helsínquia, na Finlândia), a região de Oslo (Noruega), o sudeste (onde fica Limerick) e leste (onde fica Dublin) da Irlanda, a região de Ostosterreich na Áustria e a Dinamarca. No emprego em serviços avançados per capita, no investimento empresarial em I&D per capita e no registo de patentes per capita, a região finlandesa de Uusimaa e Estocolmo lideram os primeiros lugares.

A Comunidade de Madrid conseguiu subir para a 25ª posição e o País Basco e a Catalunha estão, também, entre as 50 regiões cimeiras. A Catalunha e a região este de Espanha são mesmo consideradas pela Robert Huggins como as que «médio prazo poderão tirar mais frutos do significativo desenvolvimento das actividades baseadas no conhecimento».

No "ranking" do Financial Times sobre a "preparação para ter sucesso nas actividades baseadas no conhecimento", tendo em conta 10 indicadores do "Scorebord" da OCDE, a Suécia classificou-se em 2º lugar, a Irlanda em terceiro e a Finlândia em oitavo. Portugal vem no final da lista dos 25 países em todo o mundo analisados, recolhendo 1 ponto contra 31atribuídos à Hungria, 15 à Áustria, 8 à República Checa e 6 à Polónia.

PRODUÇÃO CIENTÍFICA: FORA DAS 33 REGIÕES DE TOPO

O nosso país não colocou nenhuma região no estudo sobre as 33 principais regiões metropolitanas europeias com mais de 8500 artigos científicos referidos pelo Science Citation Index no período de 1994 a 1996.

A análise realizada por Christian Wichmann Matthiessen, do Instituto de Geografia de Copenhaga, colocava nos lugares cimeiros seis regiões do Reino Unido (com Londres à cabeça, bem destacado no 1º lugar europeu), a região de Paris, Moscovo, quatro cidades holandesas, a região transfronteiriça sueco-dinamarquesa de Oresund (Copenhaga-Malmo-Lund), Estocolmo-Upsala (região a norte da capital sueca), cinco regiões alemãs, o eixo italiano Milão-Roma, Madrid e o eixo suíço Genebra-Lausana.

MERCADOS-PILOTO: ABAIXO DA MÉDIA EUROPEIA

O mercado de consumo português não se encontra entre os países europeus considerados importantes para testes de mercado de produtos inovadores nas áreas dos electrodomésticos e da electrónica de consumo. Segundo o estudo de Gerard Tellis, publicado, agora, na revista Marketing Science, em relação a 10 produtos em 16 países europeus, o nosso é o que tem a média mais longa em termos de anos para um dado produto atingir o ponto de "takeoff" no mercado.

Os números falam por si: em Portugal leva 9,3 anos em média, em Espanha leva 7,1 e na 6 na Europa. Os melhores mercados de teste são os nórdicos, onde o período é apenas de 4 anos para aqueles 10 produtos, graças aos níveis de cosmopolitismo, educação, cultura de risco e riqueza económica per capita, conclui o estudo de Tellis.

ATRACÇÂO DE INVESTIMENTO ESTRANGEIRO: FORA DA LISTA DE REFERÊNCIA

Portugal não elege, também, nenhuma região que tenha atraído mais de 20 grandes projectos de investimento directo estrangeiro (IDE) em 2002, segundo o European Investment Monitor de 2003, agora divulgado pela Ernst & Young.

Em contraste, a par de regiões europeias tradicionais na fixação de IDE - como a Grande Londres e a Ilha de França/Paris -, emergiram, nos últimos três anos, a Catalunha (em 3º lugar em 2000 e 2002, e 2º lugar em 2001), Estocolmo (que subiu de 13º em 2000 para 5º em 2002), Moscovo (que segurou o 5º lugar) e a região francesa do Ródano-Alpes (com a capital em Lyon, a 2ª cidade mais "global" francesa, e Grenoble), que apresentou um salto significativo, subindo de 23ª em 2000 para 4ª em 2002.

A Catalunha, em particular, afirmou-se como a região europeia que mais IDE tem atraído para "clusters" como o do automóvel (montagem), farmacêutica e química e para centros internacionais de I&D. Outras localizações em alta são a República Checa para as componentes de automóvel e o fabrico em geral, a Irlanda para a farmacêutica, e as telecomunicações para a Hungria.

Refira-se, ainda, que Madrid conseguiu posicionar-se em 8º lugar em 2002, Budapeste (Hungria) subiu de 12ª em 2000 para 9ª em 2002 e Praga (República Checa) saltou espectacularmente da 32ª posição em 2001 para a 10ª em 2002.

A Catalunha, em particular, afirmou-se como a região europeia que mais IDE tem atraído para "clusters" como o do automóvel (montagem), farmacêutica e química e para centros internacionais de I&D. Outras localizações em alta são a República Checa para as componentes de automóvel e o fabrico em geral, a Irlanda para a farmacêutica, e as telecomunicações para a Hungria.

MOVIMENTOS DE "EXTERNALIZAÇÂO": FORA DA LISTA

O nosso país não consta dos países eleitos como mais atraentes para a localização de processos de negócio "externalizados" pelas multinacionais, segundo o estudo de este ano da A T Kearney "Where to locate - selecting a country for offshore business processing". O relatório de 2003 selecciona 11 destinos de eleição do movimento de "outsourcing", com destaque para a Índia, incluindo quatro europeus - Irlanda, Hungria, Republica Checa e Rússia.

PLACAS LOGÍSTICAS: CADA VEZ MAIS "REGIONAL" NA PENÍNSULA

Portugal não posiciona nenhuma região (nem mesmo a placa estratégica de Sines) entre as placas europeias dominantes ou emergentes, segundo os estudos mais recentes da Cushman & Wakefield, Healey & Baker. Segundo responsáveis desta consultora inglesa, o nosso país tem vindo a acantonar-se «numa posição sobretudo regional dentro de um enquadramento ibérico».

Os portos de Espanha - com destaque para a faixa mediterrânea (como Algeciras, o 6º porto mundial em contentores, Barcelona, que quer "roubar" tráfego a Roterdão e Málaga) e a emergência de Vigo, com base na estratégia do consórcio da sua Zona Franca para a fachada atlântica - continuam a ganhar terreno.

METRÓPOLES EM ALTA: LISBOA ESTÁ FORA

O nosso país não tem nenhuma região metropolitana entre as consideradas em "alta" nesta década pelo último estudo "World Winning Cities" da consultora LaSalle Investments. As metrópoles europeias consideradas potenciais ganhadoras de protagonismo são Barcelona (pela marca, pela estratégia desde 1992, pela cultura e turismo, pela qualidade de vida e atracção de investimento estrangeiro), Budapeste (pela atracção de investimento estrangeiro, pela cultura e turismo, pela localização de investigação) e Talin, capital da Estónia, pelo seu posicionamento no emergente Mar Báltico, como ponte entre os Nórdicos e a Rússia.

POSIÇÂO DE PORTUGAL NA EUROPA
(10 critérios)
  • Grandes Projectos de Investimento Directo Estrangeiro: 16º lugar; nenhuma região entre as 20 com mais de 18 grandes projectos
  • Emprego na alta tecnologia per capita: Região "Continente" em 64º lugar
  • Emprego em serviços avançados per capita: Região "Continente" em 71º lugar
  • Investimento empresarial em I&D per capita: Região "Continente" em 75º lugar
  • Registo de patentes per capita: Região "Continente" em 71º lugar
  • Produção científica nos anos 90: não consta das 33 áreas metropolitanas europeias com mais de 8500 artigos científicos publicados
  • Posicionamento nas placas logísticas dominantes na Europa: considerado cada vez mais "regional" no contexto da Península Ibérica
  • Mercado-teste de produtos inovadores na área de produtos "brancos" (electrodomésticos) e "castanhos" (computadores e entretenimento doméstico): desinteressante, o período mais longo de chegada ao ponto de "takeoff" de um produto inovador, verificado em 16 países europeus
  • Países na moda para a deslocalização de processos de negócio: não consta da lista de 11 recomendados pela AT Kearney
  • Regiões metropolitanas em alta para a década: não consta nenhuma portuguesa na lista da LaSalle Investment

  • 10 INDICADORES
    A imagem internacional do país pode ser avaliada a partir de um conjunto de indicadores objectivos utilizados por consultoras ou estudos académicos para "classificar" o posicionamento geo-económico dos países ou regiões europeias. Esses indicadores são, em si mesmos, reveladores das tendências do investimento internacional e dos sectores económicos que estão a moldar o núcleo duro do que hoje é designado como economia do conhecimento e das redes.
    O novo clube dos ricos
    - 4 indicadores relativos à economia do conhecimento (alta tecnologia; serviços avançados, patentes, I&D); Fonte: European Futures, Julho 2003, Robert Huggins Associates, Cardiff, Reino Unido
    - Produção científica por áreas metropolitanas europeias; Fonte: Science Citation Index
    - Mercados-piloto para produtos inovadores; Fonte: "The International Takeoff of New Products", Gerard Tellis, revista Marketing Science, Spring 2003
    O que o IDE procura
    - Grandes Projectos de Investimento Directo Estrangeiro por país e região europeias; Fonte: European Investment Monitor, 2003, Ernst & Young, International Location Advisor Services, Londres, Reino Unido
    - Localizações dos movimentos de "offshore" de processos de negócio; Fonte: "Where to Locate", 2003, A T Kearney, Chicago, EUA
    - Inserção na geografia das placas logísticas europeias; Fonte: Cushman & Wakefield, Heley & Baker, Londres, Reino Unido
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    - Regiões metropolitanas em "alta" consideradas "ganhadoras"; Fonte: "World Winning Cities", 2003, LaSalle Investment

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