Ali Bakhtiari, especialista iraniano

O início de um «choque civilizacional»

O que se perfila no horizonte é mais grave do que um 'choque petrolífero'

Jorge Nascimento Rodrigues, editor de www.janelanaweb.com, Outubro 2004

Entrevista original em inglês em Gurusonline.tv | Sítio na Web do Dr. Bakhtiari

Ali Bakhtiari A tendência de subida do preço do petróleo não é reversível, podendo o barril ultrapassar a fasquia dos 60 dólares mensais no mercado norte-americano (cotações spot do WTI-West Texas Intermediate) até final do ano de 2004, avisa Ali Bakhtiari. Este especialista iraniano, considerado um dos gurus mundiais da economia do petróleo, quase foi ridicularizado pelos analistas oficiais quando no primeiro trimestre do ano (com o barril entre os 30 e os 35 dólares em média mensal) alertou para uma espiral do preço do crude que poderia levar ao patamar psicológico dos 50 dólares, o que, em termos nominais, seria um recorde histórico.

Os máximos históricos da média mensal do preço do barril de ouro negro em valores nominais (em cotações para o WTI) bateram, recordes, curiosamente, nos meses de Outubro - 35,79 dólares em Outubro de 1982 (no 2º choque petrolífero) e 35,95 em Outubro de 1991 (durante a Guerra do Golfo). A ultrapassagem destes máximos mensais ocorreu em Março de 2004 (36,73, para o WTI), quando Bakhtiari fez o seu primeiro aviso. O patamar diário dos 50 dólares foi alcançado a 1 de Outubro passado (50,12, para o WTI). "Poderemos ver muito facilmente preços acima dos 60 dólares neste Inverno, sobretudo se acontecimentos inesperados irromperem na Região do Médio Oriente, por exemplo. Inclusive um inverno muito rigoroso nos Estados Unidos poderá dispará-lo para muito acima desse patamar", sublinhou-nos Ali Morteza Samsam Bakhtiari, 58 anos, responsável pelo planeamento estratégico da Empresa Nacional de Petróleo do Irão (NIOC), onde trabalha há mais de 33 anos, depois de um doutoramento na Suíça.

«Vamos assistir, pela primeira vez na história do petróleo, ao seu pico de produção mundial, que seriamente calculo para 2006-2007, o que vai mudar tudo, por todo o lado - e de uma forma que é ainda difícil
de imaginar»

Mais do que um novo "choque petrolífero", como nos anos 1970 e 1980, o que se perfila no horizonte é uma mudança estrutural no campo da energia, que poderá provocar um "choque civilizacional". "O mundo não está a entrar num novo período de choque petrolífero. Está à beira de entrar pura e simplesmente num novo período, numa nova Era, num novo capítulo da sua História, em que não haverá crude que chegue para toda a gente", frisa Bakhtiari, que adianta as razões "estruturais" para o facto: "Vamos assistir, pela primeira vez na história do petróleo, ao seu pico de produção mundial, que seriamente calculo para 2006-2007, o que vai mudar tudo, por todo o lado - e de uma forma que é ainda difícil de imaginar".

Este pico histórico é a "força motriz" do que se está a passar, e o seu impacto psicológico - o que já se designa por "síndroma do pico" - nos produtores, nos exportadores e nos "traders" começa a ser evidente, diz o especialista iraniano, que lamenta o facto de "a maioria da opinião pública global ainda não se ter apercebido de que o petróleo é hoje a 'commodity' mais estratégica ao cimo da Terra e de que o seu máximo de produção está ao virar da esquina, em dois ou três anos". Daqui a menos de 20 anos, a produção mundial de petróleo convencional será 20% inferior à actual. Não é de admirar, por isso, que o presidente em exercício do cartel do petróleo já tenha afirmado que "a OPEP nada pode fazer". "Ele está absolutamente certo", remata Bakhtiari.

Os efeitos deste pico também serão difíceis de imaginar do lado dos importadores - nomeadamente da parte da China e da Índia. "Creio que os chineses estão mais cientes dos perigos que nos esperam do que os indianos. As reacções destes dois grandes emergentes ao pico do petróleo poderão ser eléctricas", comenta o nosso interlocutor.

Sobre o efeito imediato da alta histórica de preços sobre o andamento da economia mundial, o estratego iraniano observa que, por enquanto, as economias parecem conseguir "acomodar" os sucessivos patamares cada vez mais altos do crude. Recorde-se que, em termos de preços actuais, os máximos agora atingidos ainda não chegaram aos preços reais do 2º choque petrolífero nos anos 1980 - que disparou o barril (WTI), a preços de 2004, dos 40 para os 90 dólares, segundo estudos comparativos da Bloomberg, citados pelo Santander. Durante quatro anos - 1981 a 1985 - o crude esteve, a preços reais actuais, entre os 90 e os 50 dólares. "Até quando não cairemos em nova recessão, é uma interrogação", conclui Ali Bakhtiari, que alimenta em Teerão um sítio na Web em www.samsambakhtiari.com.

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