Economia mundial entrou em alerta "laranja"
As causas da exuberância irracional do mercado do crudeDesde Março de 1999 que vivemos um choque petrolífero prolongado que viu quase quadruplicar o preço do barril do ouro negro nestes cinco anos. O pico de produção mundial do petróleo em 2000, a emergência da China como segundo importador nos últimos quatro anos e a geo-política são as tendências de fundo que justificam esta alta. À superfície há a especulação dos "traders" motivados pela psicologia do medo da ruptura futura. A situação é grave e não pode ser displicentemente "desdramatizada" ou arrogantemente "desvalorizada". Só a ignorância pode justificar tais atitudes - a ignorância em períodos de emergência paga-se com tragédia. A turbulência no mercado das "commodities" críticas - que veio para ficar por tempo significativo e não é passageira - é um tema a que a Janelanaweb.com tem sistematicamente chamado a atenção desde 2000.
Jorge Nascimento Rodrigues, editor de janelanaweb.com, Agosto 2004
Fontes de consulta | Quadros estatísticos de referência
Ideias-Chave Nível de preços (actualizados) do primeiro choque petrolífero de 1973/74 já foi atingido, avisa relatório do Citigroup/Smith Barney Margem de segurança no recurso à capacidade produtiva não utilizada desceu significativamente em apenas dois anos Factores estruturais condicionam a gestão da oferta (o pico de produção mundial do petróleo) e o controlo da procura (o "factor China" como principal acelerador) Geo-política deita óleo na fogueira e não dá sintomas de abrandar pois atravessamos desde 1989 um período de defensiva estratégia da hiper-potência (EUA) e de emergência aberta ou discreta de "challengers" de todo o tipo, pequenos e grandes, locais, regionais e planetários Exuberância irracional do preço do barril é alimentada pelos "traders" mas pode manter-se por um período prolongado Retoma mundial vai abrandar o passo em 2005, avisa o Deutsche Bank Paradoxalmente, a Europa poderá continuar a crescer, ainda que muito modestamente China inicia política de alianças estratégicas no mercado das "commodities" críticas Há cinco anos que vivemos em choque petrolífero permanente, apesar dos políticos e de muitos analistas não o admitirem. A viragem ocorreu desde que a OPEP decidiu fazer uma nova gestão política da torneira do petróleo a partir de Março de 1999 - os preços passaram de valores próximos dos 10-12 dólares por barril (quer na Europa, quer nos Estados Unidos) no final de 1998 e princípios de 1999 para uma média no primeiro semestre de 2004 de 33,7 dólares no Brent (o crude de referência europeu) e 36,78 no WTI (o crude de referência norte-americano).
Recorde-se que este tipo de situação prolongada não é novo - na década de 1974 a 1985 viveram-se dois choques petrolíferos sucessivos (1973/74 e 1978/80) com uma média do preço do crude, a valores actualizados ao ano de 2000, no patamar dos 43,42 dólares, segundo um estudo académico de Robert Barsky e Lutz Kilian, dois professores da Universidade de Michigão, nos EUA. A repetição de um período prolongado de choque permanente não será, por isso, uma estreia histórica.
Nível do primeiro choque já foi atingido
A situação que se vive no mercado do ouro negro este ano já ultrapassou o nível do primeiro choque petrolífero de 1973/74, se compararmos valores a preços correntes actuais, com base num estudo do Citigroup/Smith Barney de 13 de Agosto. Certamente que ainda está longe do pico dos 70 dólares (a preços actuais) por barril atingido no segundo choque petrolífero de 1978 a 1980, a crise petrolífera mais grave da história do crude.
Mas a barreira psicológica dos 50 dólares (um valor em termos nominais jamais atingido na história do petróleo) começa a ser referida pelos analistas como "quebrável" este ano. Alguns técnicos do Citigroup/Smith Barney admitem, nesse recente relatório a que nos referimos, que o barril WTI (norte-americano) possa chegar ao limiar dos 67 dólares "no prazo de meses". As estimativas de início do ano do Departamento de Energia dos Estados Unidos (DOE) de que o crude poderia estabilizar numa média anual numa faixa entre os 36-37 dólares por barril parecem começar a ser colocadas em causa.
Os técnicos acentuam que há "pouca margem de manobra do lado da capacidade de produção não utilizada na OPEP", segundo o relatório do Citigroup/Smith Barney. Essa válvula de segurança teria diminuído de 8% em 2002 para menos de 1% da produção actualmente. Há, por isso, barreiras estruturais a uma "moderação" do problema.
As expectativas situam-se, agora, na reunião da OPEP (cartel que domina 39% da produção mundial, mas que funciona como farol geo-político) a 15 de Setembro, no sentido de uma "moderação" do disparo do preço por via de maiores injecções de barris diários num mercado mundial cada vez mais sôfrego. Mas os técnicos acentuam que há "pouca margem de manobra do lado da capacidade de produção não utilizada na OPEP", segundo o relatório do Citigroup/Smith Barney. Essa válvula de segurança teria diminuído de 8% em 2002 para menos de 1% da produção actualmente. Há, por isso, barreiras estruturais a uma "moderação" do problema.
Barreiras que se agravaram pelo efeito de dois gumes divergentes de uma tesoura:
- por um lado, o pico de produção mundial do petróleo foi atingido em 2000 e o Golfo Pérsico - o principal baluarte das reservas - atingirá esse ponto de viragem em 2014, o que condiciona toda a gestão política deste recurso estratégico por parte das elites dos países produtores;
- e, por outro, a procura está em desenfreado disparo, em virtude nomeadamente do "factor China".Apenas, no espaço de quatro anos, esta potência asiática emergente passou de 7º para 2º importador mundial, quadruplicando as suas importações anuais, que no primeiro semestre de 2004 se situaram nos 6,14 milhões de barris diários, cerca de 1/3 da exportação dos 5 principais exportadores do mundo.
Retoma vai continuar a sofrer
Apesar da polémica sobre o impacto directo ou não da alta dos preços do crude no crescimento económico estar ao rubro nos meios académicos, parece pacífica a ideia de que um aumento anual do preço médio na ordem dos 10 dólares poderá provocar uma diminuição em 0,4% da taxa do PIB nos países da OCDE em 2004 e na mesma ordem de grandeza em 2005, afirma o relatório do Citigroup.
Se no caso do Brent o "salto" ainda só foi de 5 dólares (entre a média anual de 2003 e a média semestral de 2004), no caso do WTI já se aproxima dos 7 dólares no mesmo período.
O crescimento mundial vai abrandar em 2005, com efeito em todos os espaços económicos relevantes (América do Norte, Ásia, Europa de Leste, América Latina), à excepção da Zona Euro (que poderá ver a sua modesta taxa de crescimento do PIB passar de uma estimativa de 2% em 2004 para 2,3% em 2005).
Pelo sim pelo não, os analistas começam a "rever" as previsões sobre o andamento da retoma para 2005. Segundo o último relatório do Deutsche Bank Research (27 de Julho), o crescimento mundial vai abrandar em 2005, com efeito em todos os espaços económicos relevantes (América do Norte, Ásia, Europa de Leste, América Latina), à excepção da Zona Euro (que poderá ver a sua modesta taxa de crescimento do PIB passar de uma estimativa de 2% em 2004 para 2,3% em 2005). O abrandamento será particularmente agudo no Japão (ver quadro).
O paradoxo da Zona Euro é explicado pelo relatório do Citigroup - a valorização do euro face ao dólar tem servido de almofada (amolecendo a alta nominal em dólares) e o peso do petróleo importado e consumido no PIB da região diminui de 40% desde os primeiros choques petrolíferos.
A "commodity" política
A geo-política tem deitado mais lume para a fogueira e ampliado o impacto das tendências estruturais ligadas ao desequilíbrio entre a oferta e a procura mundiais, situação que se agravará até 2050, quando a produção mundial for 1/3 da actual, com 70% concentrada nos cinco magníficos - Arábia Saudita, Canadá (um país de que pouco se tem falado em termos geo-políticos), Iraque, Venezuela e Irão.
Não é obviamente por acaso que a Arábia Saudita, o Iraque, a Venezuela e o Irão são pontos geo-políticos de alta sensibilidade.
A consciência da importância crítica deste recurso estratégico por parte de todos os protagonistas deste mercado (exportadores, importadores, operadores, intermediários, detentores das principais reservas ainda por explorar) tem sido cada vez mais visível e teve um ponto de viragem em 1999 quando a OPEP decidiu retomar um forte protagonismo e um ponto de não retorno com a nova doutrina da Administração Bush (relatório Cheney de Maio de 2001).
Qualquer perturbação política na geografia de produção desta "commodity" gera um efeito imediato - assim se explica a sensibilidade do preço do barril a factos tão diversos como greves nos países exportadores (em Dezembro de 2002 na Venezuela ou em Junho deste ano na Noruega), disputa política pelo poder num dado país (como é o caso da Venezuela) ou luta política em torno do controlo das multinacionais petrolíferas (como no caso recente da Yukos, que representa 20% da produção russa) até guerras de ocupação e contra-respostas (como ocorreu com o Kuwait e com o Iraque na década de 90 do século passado e agora no Iraque em 2003-2004).
Departamento de Energia norte-americano reconhece o óbvio - «Casos como a guerra do Iraque ou as acções governamentais russas sobre a maior empresa de petróleo do país aumentaram a percepção mundial de que a oferta do crude no curto prazo é mais vulnerável a rupturas do que normalmente, o que tem gerado um prémio a um preço que, noutras condições, seria mais baixo».
O petróleo transformou-se, como dizem alguns analistas, numa "commodity" política. O último relatório de Agosto da Agência de Informação sobre a Energia (dependente do Departamento de Energia dos EUA) reconhece-o abertamente: «Os actuais preços mundiais do petróleo não reflectem inteiramente os factores fundamentais puramente económicos do mercado do crude. Casos como a guerra do Iraque ou as acções governamentais russas sobre a maior empresa de petróleo do país aumentaram a percepção mundial de que a oferta do crude no curto prazo é mais vulnerável a rupturas do que normalmente, o que tem gerado um prémio a um preço que, noutras condições, seria mais baixo».
Os protagonistas deste "prémio" têm sido os "traders" do mercado petrolífero que estão a funcionar na base do medo sobre o futuro, como o referia em Maio passado o The New York Times. É a psicologia, estúpido!, que aqui funciona levando a uma exuberância irracional na alta do preço do barril.
A questão pertinente é saber se esta sensibilidade será apenas no curto prazo, ou se terá uma vida mais prolongada em função de uma expectativa de guerras entre potências, guerras civis e lutas sociais pelo controlo deste recurso nas próximas décadas, como chama a atenção Michael Clare desde 2001, com a sua obra pioneira "Guerra pelos Recursos".
A política de alianças geo-económicas da China
Um dos países que compreendeu esta nova realidade e procura desenvolver uma estratégia de alianças de longo alcance é justamente a China - a recente anunciada aliança estratégica com a Venezuela e a decisão de criação de uma empresa mista petrolífera entre a Sinopec (chinesa) e a Petrobras (brasileira) são exemplos mais óbvios desta manobra estratégica por parte de um dos "challengers" da hegemonia mundial neste século.
Esta nova realidade tem aberto espaço para o negócio de facilitação de triangulações, em que se tem especializado a ESCOM, empresa internacional do grupo português Espirito Santo, que, ainda, recentemente interveio na aliança sino-venezuelana e desenvolve a mesma linha de actuação em relação a Angola.
Fontes de consulta recomendadas
- Equity Strategy, 13 Agosto 2004, elaborado pelo Strategy Team do Citigroup Global Markets/Smith Barney European Equity Research, em Londres, Reino Unido
- Short Term Energy Outllook, 10 Agosto 2004, Energy Information Administration, Department of Energy, EUA; na web em www.eia.doe.gov/emeu/steo/pub/contents.html
- International Topics, Economics, Current Issues Newsletter, Deutsche Bank Research, 27 de Julho 2004, Frankfurt, Alemanha
- Médias anuais do WTI americano em www.tax.state.ak.us/programs/oil/prices/historicaldata/ansyearly.asp
- OPEP "cabaz" de referência dos preços do petróleo em www.mees.com/Energy_Tables/basket.htm
- Oil and the Macroeconomy since the 1970s, por Robert Barsky e Lutz Kilian, Center for Economic Policy Research, em www.cepr.org
- Observatório da Economia Mundial, Nº1 - 1º semester de 2004, Edição Gurusonline.tv em www.janelanaweb.com/crise/observatorio1.html
Quadro I
Preço do Petróleo nos últimos 50 anos
(Preços reais do barril em dólares de 2000,
médias, crude norte-americano)1950-1959 20,47 1960-1973 17,72 1974-1985 43,42 1986-2001 20,82 Fonte: Oil and the Macroeconomy since the 1970's,
Robert Barsky e Lutz Kilian, Julho 2004
Quadro II
Disparo do Petróleo após a viragem geo-política
da Administração Bush
(Preços nominais em dólares do barril WTI, EUA, médias)2002 24,72 2003 29,64 1º semestre de 2004 36,78 3º trimestre de 2004 (estimativa do DOE) 41 Fonte: www.tax.state.ak.us e Departamento de Energia (DOE) dos EUA, Agosto 2004
Nota: WTI=West Texas Intermediate
Quadro III
Evolução histórica do preço spot do petróleo Brent (europeu)
entre 1970 e 2004
(Actualizado a preços correntes de 2004, em dólares por barril)
Nota: Preços do Brent são mais baixos do que os norte-americanosFase 1 4º trimestre de 1973 2,50 dólares Outubro 1973 Guerra do Yon Kippur e Embargo 1º choque petrolífero 2º trimestre de 1974 13 dólares (equivale a 40 dólares actuais) Crescimento de 354% Fase 2 2º choque petrolífero Outubro 1978 Revolução no Irão, Queda do Xá Setembro de 1980 Guerra Irão-Iraque 1º trimestre de 1982 Cerca de 40 dólares (equivale a 70 dólares actuais) Crescimento de 60% Fase 3 Mini-choque petrolífero Agosto 1990 Invasão do Kuwait pelo Iraque 1990-1991 Guerra do Golfo 1991 Acima dos 30 dólares (equivale a cerca de 40 dólares actuais) Crescimento de 50% Fase 4 1997 a 1999 Quebra dos preços Fase 5 3º choque petrolífero Março de 1999 Início nos cortes na produção da OPEP Março de 1999
a Novembro de 2000Preços disparam dos mínimos nos 10 dólares
para cerca de 30 dólares2002 Média de 25,03 dólares Crescimento de 160% Fase 6 Mini-choque petrolífero Dezembro 2002 Greve na Venezuela (5º exportador mundial) 2003 Ocupação do Iraque 2003 Média de 28,81 dólares Fase 7 Junho 2004 Greve na Noruega (3º exportador mundial) Julho/Agosto 2004 Disputa sobre a Yukos (Rússia, 2º produtor mundial)
e luta política na Venezuela1º semestre de 2004 Média de 33,7 dólares (segundo o OPEC Reference Basket) Fontes: Relatório do Citigroup Smith Barney/Equity Strategy (13 de Agosto); www.mees.com; e Oil and the Macroeconomy since the 1970's, Robert Barsky e Lutz Kilian, Julho 2004
Quadro IV
Crescimento vai abrandar em 2005 excepto na Zona Euro
(Estimativas do aumento do PIB)2003 2004 2005 Mundo 2,6% 3,9% 3.4% Estados Unidos 3,1% 4,7% 3,8% Japão 2,6% 4,0% 1,6% Zona Euro 0,5% 2,0% 2,3% Leste Europeu 5,4% 5,2% 4,9% Ásia (sem Japão) 6,3% 6,5% 6,1% América Latina 1,5% 4,7% 4,2% Fonte: Deutsche Bank Research, Julho 2004
Página Anterior Topo da Página Página Principal