As décadas finais da corrida ao petróleo no século XXI e as suas implicações geo-estratégicas.
A propósito do livro de Colin Campbel acabado de lançar no Reino Unido. Recensão de «The Essence of Oil & Gas Depletion» (editado pela Multi-Science)Jorge Nascimento Rodrigues, Maio de 2003
LINKS DE REFERÊNCIA
Sítio da ASPO | Sítio da Newsletter da ASPO
Sítio de encomenda do livro na editora inglesa
Artigos na janelanaweb.com sobre o petróleo:
primeiro artigo - segundo artigo - terceiro artigo
Sítio do Oil Depletion Analysis Center no Reino Unido
Artigo sobre as guerras geo-económicas
AS QUATRO GEO-REGIÕES EM FOCO
Golfo Pérsico - Rússia/Cáspio - Golfo do México/Caraíbas - Atlântico Sul
AS PRÓXIMAS «CORRIDAS»
Petróleo "pesado" e Offshore de águas profundas
OS CINCO SOB COBIÇA
Arábia Saudita - Canadá - Iraque - Venezuela - IrãoEm 2050, a produção mundial de ouro negro será 1/3 da actual e na década de 20 vamos assistir a um "choque" petrolífero de grandes proporções - a oferta mundial do combustível cairá mais de 20% em relação a 2010. O impacto deste terramoto energético será mais agudo em três espaços geo-políticos: na Europa e na América do Norte (Estados Unidos e Canadá) em que a produção do petróleo convencional cairá mais de 40% na década de 20 e mais de 80% na década de 50; e no espaço euroasiático (Rússia, Cáspio e China) em que as quebras serão respectivamente de 35% e de 73%.
O esgotamento do modelo económico baseado no petróleo desde a segunda metade do século XIX começará a ser evidente para os decisores e para as gerações destas primeiras décadas do século XXI, afirma Colin Campbell, um dos mais conceituados peritos internacionais no livro que acaba de lançar em Inglaterra - A essência do esgotamento do Petróleo e do Gás (The Essence of Oil & Gas Depletion, editado pela Multi-Science Publishing Co. Ltd). O lançamento do livro coincidiu com mais uma conferência da ASPO-Association for the Study of Peak Oil and Gas (Associação para o estudo do pico do petróleo e do gás) realizada no final de Maio em Paris no Instituto do Petróleo (governamental) e patrocinada pela multinacional Total.
Inversão histórica
A principal mensagem do livro não é uma visão apocalíptica do desaparecimento do petróleo até meados do século, mas a chamada de atenção para a inversão histórica de tendência. O pico de produção mundial foi já atingido há três anos e o Golfo Pérsico, o último bastião da riqueza negra, atingirá o ponto de viragem dentro de uma década.
O pico de produção mundial foi já atingido em 2000 e o Golfo Pérsico, o último bastião da riqueza negra, atingirá o ponto de viragem dentro de uma década.
Contam-se pelos dedos das duas mãos, os países na geografia do petróleo que ainda não atingiram o seu pico histórico de produção (Kasaquistão, Iraque, Bolívia, Azerbeijão, Abu Dhabi, Arábia Saudita, Uzebequistão, Tailândia, Sudão e Equador). «A questão estratégica não é tanto quando vai desaparecer o petróleo, mas sim perceber quando a produção atinge o máximo e que implicações advirão dessa entrada na curva descendente», sublinha Campbell, que publicou na Petroconsultants outro livro polémico há seis anos (1997), intitulado A próxima crise do petróleo (The Coming Oil Crisis - compra do livro). Campbell, um geólogo irlandês, é o fundador da ASPO e foi vice-presidente da área de exploração petrolífera da Fina na Noruega. A ASPO foi criada simbolicamente no ano em que a produção mundial atingiu o seu pico histórico (2000), e a ela pertence o investigador português Rui Namorado Rosa, um físico da Universidade de Évora, colunista residente da Janelanaweb.com.
Uma das consequências centrais daquela inversão histórica vai ser o subir de tom das movimentações em torno do controlo e gestão deste recurso estratégico com um horizonte de escassez cada vez mais claro. Não admira, por isso, que Michael Klare, o investigador que veio chamar à atenção para as prováveis guerras em torno do petróleo, tenha sido um dos oradores mais escutados nesta conferência de Paris. Muitas "janelas de oportunidade" se abrem e fecham nestas duas décadas, com enormes implicações geo-económicas e geo-políticas.
Regiões sob cobiça
O estudo de Campbell, apoiado nas simulações até final de século realizadas por Jean Laherrère, outro geólogo reformado, ex-quadro da Total, desenha um mapa mundo em 2050 em que cinco países dominam o ouro negro: a Arábia Saudita, a liderar, o Canadá (se desenvolver a exploração das suas reservas em petróleo "pesado"), o Iraque, a Venezuela (que, também, tem imensas oportunidades no petróleo "pesado") e o Irão. Este grupo dos "cinco" dominará mais de 70% da produção mundial. Com o aproximar dos "choques" petrolíferos dos anos 20 e 50 deste século, é de esperar uma escalada no interesse geo-estratégico por estas regiões e países.
Se juntarmos os 10 países em que ainda não ocorreu o pico de produção (a que já nos referimos acima) com os outros dez em que há ainda um potencial de exploração de novos campos no petróleo convencional encontramos três espaços geo-económicos sob cobiça: Golfo Arábico (37% do potencial em mil milhões de barris por explorar em novos campos, com o Iraque à cabeça), Rússia e Cáspio (15%) e Golfo do México, Caraíbas e Costa Sul-americana do Pacífico (7%, com a Venezuela à cabeça).
Há, ainda, um novo mapa do petróleo por explorar, que diz respeito ao petróleo "pesado" e ao potencial no off-shore em águas profundas (a mais de 500 metros). O Canadá (com um pico de 3,9 milhões de barris diários por esta via em 2050) e a Venezuela (1,3 milhões de barris por dia entre 2020 e 2050) surgem como os dois países com uma progressão assinalável na produção potencial de petróleo "pesado" até 2060. E no campo do off-shore de águas profundas, há potencialidades a explorar até 2020 no Golfo do México (um pico de 2,7 milhões de barris diários em 2010), no Brasil (pico de 2 milhões em 2010), em Angola (pico de 1,9 milhões em 2010) e na Nigéria (pico de 1,2 milhões em 2010).
Para além das três regiões geo-económicas sob cobiça já referidas há que incluir, por isso, o Atlântico Sul.
Protocolo das Nações Unidas A ASPO e o Centro para a Análise do Esgotamento do Petróleo, sediado em Londres, iniciaram uma campanha pela adopção por parte das Nações Unidas de um Protocolo sobre o Esgotamento do Petróleo. Colin Campbell sugere duas regras muito simples a serem aceites e postas em prática: por um lado, nenhum país produtor deverá produzir a uma taxa superior à sua taxa de esgotamento das reservas e, por outro, nenhum país importador deverá aceitar importar petróleo que "fure" a regra anterior. Ou seja, deverá evitar-se forçar e acelerar o fim da galinha de ovos de ouro (negro), a que Campbell adiciona uma política muito activa de medidas de poupança no consumo e de alteração do modelo energético da actividade económica e da qualidade de vida. ESTATÍSTICAS DE REFERÊNCIA
QUADRO I
Grupo dos Cinco em 2050
(milhões de barris por dia)Países Tipo de petróleo Barris diários Arábia Saudita convencional 6,6 Canadá convencional + pesado 4,0 Iraque convencional 2,7 Venezuela convencional + pesado 2,3 Irão convencional 1,6 Fonte: ASPO, 2003
QUADRO II
Geografia do Petróleo (convencional) no século XXI
(Milhões de barris diários)Zona 2000 2005 2010 2020 2050 Pico de Produção (ano) Golfo Arábico 18,5 17,4 22,1 21,9 13,3 2014 Euroásia 11,1 13,7 14,4 9,3 2,5 1987 América Latina 8,0 7,1 5,9 4,2 1,6 1998 África 6,7 6,3 5,7 4,2 1,9 1997 Europa 6,3 5,1 3,6 1,9 0,3 2000 Canadá e EUA 5,5 4,4 3,2 1,8 0,3 1972 Mundo 64 60 60 47 22 2000 Fonte: ASPO, 2003
Notas: Golfo Arábico inclui Abu Dhabi, Irão, Kuwait, Arábia Saudita; América Latina inclui México
QUADRO III
Os 10 em Foco
Produção potencial nos campos petrolíferos por descobrir de petróleo convencional em mil milhões de barris)País Novos campos Produção total até 2075 Iraque 17,4 109 Rússia 15,4 79 Arábia Saudita 13,6 206 Irão 8,1 76 Kuwait 6,3 59 Venezuela 5,1 49 Kasaquistão 4,3 34 México 4,0 25 Abu Dhabi 3,9 60 EUA 3,7 24 Total Mundo 133 1004 Fonte: ASPO, 2003
QUADRO IV
10 Países em que (ainda) não ocorreu o pico de produçãoPaís Ano de Pico (estimado) Kasaquistão 2028 Iraque 2019 Bolívia 2016 Azerbeijão 2014 Abu Dhabi 2014 Arábia Saudita 2013 Uzebequistão 2009 Tailândia 2005 Sudão 2005 Equador 2004 Fonte: ASPO, 2003
QUADRO V
Oportunidades noutros hidrocarbonetos
(milhões de barris por dia)2005 2010 2020 2050 Petróleo "pesado" Canadá 1,3 2,0 2,8 3,9 Venezuela 1,1 1,2 1,3 1,3 Águas profundas Brasil (off shore) 2,0 2,0 1,5 0,0 Golfo do México 1,9 2,7 0,7 0,0 Angola (off shore) 1,7 1,9 0,7 0,0 Nigéria (off shore) 0,8 1,2 0,9 0,0 Fonte: ASPO, 2003
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