A revolução nuclear dos «busheviques»

Poderá a guerra passar ao uso táctico do nuclear? A geo-política vai voltar a ser comandada pelo clube das ogivas nuclares? Veja o que a Administração Bush defende desde a publicação do Nuclear Posture Review.

Jorge Nascimento Rodrigues, Fevereiro de 2003

Siga a problemática dos novos teatros de guerra nos sítios que recomendamos:
Global Security | Departamento da Defesa Norte-Americano (DOD)
Western States Legal Foundation | Nuclear Threat Initiative | Open Democracy

Artigos de referência:
«Could The War Go Nuclear?», de Paul Rogers
«Bush's Nuclear Revolution - A Regime Change in Nonproliferation», George Perkovich, in Foreign Affairs Magazine (edição Março/Abril 2003)

O mundo pode estar à beira de uma transição para uma nova ordem mundial baseada nas armas nucleares de destruição maciça, não só como argumento politico-diplomático de "dissuasão" - como o foi no tempo da bigemonia EUA-URSS - mas como recurso táctico nos teatros das guerras do século XXI.

A ocorrer tal mudança, o mapa do poder do mundo seria redesenhado, e as potências mundiais e regionais que dispõem de arsenais nucleares "autorizados" (EUA, Reino Unido, França, Rússia e China), ou as que nunca assinaram o Tratado de Não-Proliferação (Israel, Índia, Paquistão), ou as que abandonaram agora o referido Tratado (Coreia do Norte), ou as que se suspeita terem programas "ilegais" que permitirão a sua construção (Iraque, Irão) , reganhariam um novo peso. Inclusive potências regionais da América Latina (Brasil, Argentina) e da Ásia-Pacífico (Taiwan e Coreia do Sul) que haviam optado pela abstinência poderão mudar de ideias. Outras desmantelaram o arsenal, como a África do Sul, e outras "herdaram" armas nucleares da implosão da URSS e declararam abandoná-las a favor do Tratado (casos da Bielorússia, Cazaquistão e Ucrânia).

Depois de uma década de globalização económica e financeira, a política na ponta das ogivas nucleares voltaria a estar na ordem do dia. A concretização do célebre artigo 6 do Tratado de Não-Proliferação Nuclear (TNPT), reafirmado em 2000, contendo a predisposição para a total eliminação dos arsenais nucleares, deverá estar mais adiado que nunca.

Pioneirismo coreano

Os analistas militares nos Estados Unidos apontam alguns factos relevantes: a divulgação da nova "postura" da Administração Bush sobre o arsenal nuclear condensada na "Nuclear Posture Review" de Dezembro de 2001 - documento a que se deu menos importância do que à nova estratégia energética em torno do petróleo -, os rumores de discussões no Comando Central Estratégico americano em Omaha e no Reino Unido sobre a eventualidade de um teatro de guerra nuclear em conflitos próximos, e a saída recente de uma potência regional, a Coreia do Norte, do TNPT, a que tinha aderido em 1985.

O comportamento da Coreia do Norte é já encarado, por alguns analistas, como "pioneiro" entre as potências regionais. Para além da cartada política, aproveitando a concentração dos EUA no assunto do petróleo e a eleição de um presidente sul coreano (Roh Moo Hyun) mais distanciado dos norte-americanos, o regresso ao programa nuclear - nas vertentes do plutónio, parado em 1994, e do urânio enriquecido - e a saída do TNPT são sinais dos novos tempos.

Paul Rogers, da Universidade de Bradford, fala da possibilidade da guerra passar ao uso convencional do nuclear - o que só aconteceu excepcionalmente uma vez, no final da 2ª Guerra Mundial -, e George Perkovich, vice-presidente do Carnegie Endowment for International Peace, escreveu na revista americana "Foreign Affairs" sobre o que já se denomina de "Revolução Nuclear de Bush", ou do que por ironia se cognominam de "busheviques".

Estará em preparação pelos "busheviques" uma estratégia de sensibilização da opinião pública americana para o regresso aos testes nucleares no deserto americano (parados em 1992) e de afirmação internacional de corte com os tratados de controlo de armamento.

Rogers, que é autor de um livro premonitório saído em 2000, intitulado Losing Control-Global Security in the 21st Century (compra do livro), juntou várias peças do "puzzle" mais recente: o secretário da Defesa inglês, Geoff Hoon, declarou na BBC em 2 de Fevereiro que o Reino Unido se reservava o direito de uso de armas nucleares "em condições de extrema auto-defesa", e William Arkin, um analista militar no The Los Angeles Times, ex-oficial dos serviços de informações militares, revelou que o Comando Central Estratégico (CCE) dos Estados Unidos já teria um documento de trabalho elaborado pela National Nuclear Security Administration sobre um teatro de guerra nuclear táctico. Fontes oficiais americanas disseram, depois, que se tratavam de "cenários".

No entanto, o jornal The Guardian, em 19 de Fevereiro, afiançava que o CCE reunirá em Agosto com militares e cientistas para discutir seriamente o problema, e que estaria em preparação uma estratégia de sensibilização da opinião pública americana para o regresso aos testes nucleares no deserto americano (parados em 1992) e de afirmação internacional de corte com os tratados de controlo de armamento.

Nova geração de armas

O que está na calha de uma boa parte destes debates estratégicos dos militares e dos cientistas é o avanço para a "flexibilização" das actuais armas estratégicas nucleares - pesadas do ponto de vista operacional e logístico e com excessivas quilotoneladas letais, que se tornam politicamente "impeditivas" de uso rápido.

O objectivo é o desenho e teste de uma nova geração de armas nucleares tácticas, incluindo "mini-nucleares", armas de penetração no solo (para arrasar arsenais armazenados em profundidade) e bombas de radiação (nomeadamente bombas de neutrões). Os departamentos de Defesa e da Energia americanos terão destinado já 45 milhões de dólares a este estudo. O próprio Pentágno teria mudado a classificação deste tipo de armas nucleares que deixariam de ser consideradas "especiais" para passarem a ser "convencionais" e susceptíveis de ser usadas em situações de "desenvolvimentos militares de surpresa".

O próprio Pentágno terá já mudado a classificação deste tipo de armas nucleares que deixaram de ser consideradas "especiais" para passarem a ser "convencionais" e susceptíveis de ser usadas em situações de "desenvolvimentos militares de surpresa".

No âmago desta nova doutrina militar está o já referido Nuclear Posture Review (NPR) apresentado ao Congresso norte-americano em 31 de Dezembro de 2001 e divulgado publicamente em Janeiro do ano seguinte. O NPR revê o conceito estratégico nuclear anterior herdado da Guerra Fria e apresenta uma nova "tríade" de sistemas visando sair do que classifica como "atrofiamento da infraestrutura nuclear".

O documento ordena a origem de perigos, ou "contingências", imediatas, potenciais e inesperadas, e classifica os adversários e alvos potenciais do uso de armas nucleares pelos americanos - Coreia do Norte, Iraque, Irão, Síria, Líbia e China são contemplados, enquanto a Rússia foi desclassificada, ainda que continuando uma "preocupação". Uma das contingências potenciais é o surgimento de uma "coligação" hostil e entre as inesperadas contam-se "mudanças de regime" em países com armas de destruição maciça.

Página Anterior
Topo da Página
Página Principal