Fuga de cérebros (para os EUA) não afecta Portugal

O nosso país parece não estar a ser afectado pela fuga de cérebros para os Estados Unidos, ao contrário de outros países europeus com a mesma dimensão populacional e da tendência geral na Europa, segundo o mais recente estudo para a Comissão Europeia realizado pelo Instituto de Investigação Económica em Inovação e Tecnologia da Universidade de Maastricht, na Holanda

Jorge Nascimento Rodrigues, editor de Janelanaweb.com, Dezembro de 2003

Links na Web
Estudo da Comissão Europeia sobre "Brain Drain"
Fiscal Year 2002 (ver Estatísticas de H-1B)
MERIT

Não chega a duas centenas o número de vistos de portugueses para os Estados Unidos ao abrigo da legislação que permite a entrada naquele país de especialistas com base na formação académica ou em competências (conhecida na gíria legal por H-1B) e que, em geral, atrai a nata da computação, da engenharia e arquitectura, do ensino e da gestão de todo o mundo. Em 2001, os beneficiários oriundos de Portugal haviam sido 179 e em 2002 um pouco menos, 167, segundo os mais recentes dados do Bureau of Citizenship and Immigration Services dos EUA. Trata-se de uma gota no oceano de emigrantes de alta qualidade para os EUA provenientes de todo o mundo - 331 mil em 2001 e 198 mil em 2002 - e em particular da Europa: mais de 33 mil em 2001 e cerca de 31 mil em 2002.

 Distribuição dos 167 vistos H-1B 
para portugueses em 2002
Principais rubricas
 Ensino 34
 Computação 26
 Engenharia e Arquitectura 23
 Posições de gestão 19
 Ciências da Vida 14

Os portugueses procuraram posições nas áreas do ensino (20% das autorizações de vistos H-1B), da computação (15%) e da engenharia e arquitectura (14%), num padrão ligeiramente distinto do mundial e do europeu, em que a computação ocupa o primeiro lugar.

A contracorrente

O nível de beneficiários de origem portuguesa do H-1B norte-americano coloca o fluxo do nosso país ao nível de países europeus como a Lituânia, Finlândia e Eslováquia, com metade ou menos de metade da população portuguesa. Para países europeus com uma dimensão populacional similar, Portugal apenas emparceira com a República Checa, que não chega à centena e meia de quadros qualificados com vistos nos EUA. A Grécia, Bélgica e Hungria, com populações ligeiramente superiores, "exportam" mais do dobro em "massa cinzenta".

 "BENCHMARKING" DE PAÍSES (2002) 
País Número de Vistos H-1B
 Portugal 167
Vizinhos
 Espanha 1183
 Marrocos 265
Europeus com mesma população que Portugal
 Bélgica 414
 Rep.Checa 136
 Grécia 417
 Hungria 385
Europeus com menos população que Portugal
 Áustria 269
 Bulgária 810
 Dinamarca 305
 Finlândia 195
 Irlanda 873
 Lituânia 197
 Eslováquia 195
 Suécia 775
Mercosur
 Brasil 2287
 Argentina 2148

A fuga de cérebros para os Estados Unidos parece, assim, não afectar o nosso país, ao contrário do que sucede com países da União Europeia com muito menos população do que a portuguesa, como a Irlanda ou a Suécia, ou, no âmbito da pré-adesão, o caso da Bulgária. Esta boa notícia pode ser, no entanto, um sintoma negativo de fraca mobilidade dos quadros portugueses e de menor aproveitamento das vantagens dos circuitos internacionais de recursos humanos qualificados.

Portugal estará, assim, a contracorrente do que acontece na Europa, onde a Comissão Europeia acaba de lançar um alerta, com a divulgação do estudo "Brain Drain - Emigration Flows for Qualified Scientists", coordenado pelo MERIT-Maastricht Economic Research Institute on Innovation and Technology, da Universidade de Maastricht, na Holanda, em conjugação com duas entidades, uma em Roma e outra em Budapeste.

A fuga de cérebros para os Estados Unidos parece, assim, não afectar o nosso país, ao contrário do que sucede com países da União Europeia com muito menos população do que a portuguesa, como a Irlanda ou a Suécia, ou, no âmbito da pré-adesão, o caso da Bulgária. Esta boa notícia pode ser, no entanto, um sintoma negativo de fraca mobilidade dos quadros portugueses e de menor aproveitamento das vantagens dos circuitos internacionais de recursos humanos qualificados.

Os quadros de origem europeia passaram de 10,5% do total de vistos H-1B norte-americanos em 2001 para 16% no ano seguinte, afectando, em particular, o Reino Unido, Alemanha, França, Rússia e Turquia. A fuga de cérebros europeus está muito distante do que ocorre com a Índia (mais do dobro de toda a Europa do Atlântico aos Urais em conjunto) e países como a China, Canadá e Filipinas estão muito à frente do "líder" europeu em exportação de cérebros, o Reino Unido. Sublinhe-se, contudo, que o Reino Unido é um pólo atractivo de cérebros de todo o mundo - 20% oriundos da Índia e dos próprios Estados Unidos - e é um ganhador liquido em termos de fluxos internos europeus.

 "TOP" DOS "EXPORTADORES" 
DE CÉREBROS (2002)
(milhares de vistos H-1B)
 Índia 65 
 China 19 
 Canadá 12 
 Filipinas
 Reino Unido
 Coreia do Sul
 Fonte: Bureau of Citizenship
 and Immigration Services

No entanto, o estudo da Comissão Europeia sublinha que dos 15600 cidadãos da União Europeia que se doutoraram nos EUA entre 1991 e 2000, 32% ficaram lá, no ensino ou na investigação, e 71% haviam manifestado a intenção de permanecer depois dos estudos de graduação. A média de idades destes doutorados rondava os 32 anos em 2000. Dos mais de 30 mil beneficiários europeus anuais do visto H-1B, o estudo da Comissão Europeia afirma que 25 a 30% ficam nos EUA com residência permanente.

Para contrabalançar esta fuga, a União Europeia pretende incentivar a localização de quadros qualificados de todo o mundo no seu território, indo abrir em 2004 um serviço na Web visando o lançamento de uma rede europeia de 400 centros de "mobilidade" disponíveis para prestar toda a informação a quem queira fazer carreira na Europa.

QUADROS GLOBAIS

Beneficiários europeus de vistos H-1B nos EUA (2001)
 Milhares Países
 9 a 10   Reino Unido
 4 a 5   Alemanha e França
 2 a 3   Turquia
 1a 2   Itália, Roménia, Espanha, Holanda, Bulgária, Suécia e Irlanda  
 0,1 a 0,2   Portugal (179 vistos), Chipre e Letónia
 Nota: Total de beneficiários em 2001 provenientes da Europa - 33 mil

Beneficiários europeus de vistos H-1B nos EUA (2002)
 Milhares Países
 7 a 8   Reino Unido
 3 a 4   Alemanha e França
 2 a 3   Rússia, Turquia
 1 a 2   Roménia, Itália e Espanha
 0,1 a 0,2   Lituânia, Eslováquia, Finlândia, Croácia, Portugal (167 vistos),
  Arménia, Rep. Checa e Geórgia
 Nota: Total de beneficiários em 2002 provenientes da Europa - 31 mil
 Fonte: Bureau of Citizenship and Immigration Services

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