Portugal face ao investimento externo

Um país sem diferenciação
... mas Brasil, Polónia e Espanha continuam na moda

Portugal continua a ficar de fora dos 25 países mais procurados mundialmente pelo Investimento Directo Estrangeiro, segundo o Índice de Confiança divulgado em finais de Setembro pela consultora A. T. Kearney. Na Europa, os países de Leste (particularmente a Polónia) e a Espanha são escolhas prioritárias. O Brasil e o México surgem claramente como destinos, novamente, na moda.

Jorge Nascimento Rodrigues, editor de www.janelanaweb.com, Setembro 2003

Versão mais reduzida publicada no semanário português Expresso

Sítio da ATKearney

O nosso país não ocupa nenhuma posição no "top" mundial de 25 destinos escolhidos pelos decisores internacionais de investimento directo estrangeiro (IDE), segundo o relatório anual hoje divulgado pela consultora norte-americana A T. Kearney relativo ao "Índice de confiança do IDE" (no original, FDI Confidence Index). Apesar de algum "entusiasmo" manifestado por decisores da União Europeia - sobretudo de Itália, França e Alemanha -, a maioria das 1000 empresas entrevistadas pela A T. Kearney à escala mundial continuam a olhar sobretudo para a fraca dimensão do nosso mercado e para a fragilidade do crescimento do PIB. Os decisores estrangeiros não vislumbram qualquer diferenciação "em relação a outros destinos de custos baratos na Europa", frisa o relatório.

Os "tigres" do Leste

Em termos de confiança, os investidores internacionais classificam, dentro da União Europeia, a Espanha e a Itália como destinos do IDE preferíveis a Portugal, e sobretudo valorizam o grupo dos quatro que já designam por "novos tigres" da Europa de Leste - Polónia, República Checa, Hungria e mesmo Roménia - e a Rússia.

No conjunto, toda a Europa de Leste mais a Rússia deverá mobilizar 32% do investimento estrangeiro estreante à escala mundial nos próximos três anos.

Refira-se inclusive que o inquérito deste ano detectou um "crescente optimismo" dos investidores europeus por uma "franja" de futuros "pequenos tigres" do Leste - Eslovénia, Estados Bálticos, Croácia e mesmo Sérvia. Conjuntamente com a Roménia, esta "franja" deverá mobilizar "10% dos investimentos estreantes (primeiro investimento directo que um dado investidor realiza numa nova localização) nos próximos três anos", sublinha o relatório da A T. Kearney. No conjunto, toda a Europa de Leste mais a Rússia deverá mobilizar 32% do investimento estrangeiro estreante à escala mundial nesse período.

A Polónia tornou-se mesmo um destino da moda, subindo do 11º lugar em 2002 para a 4ª posição no Índice de Confiança de este ano, e a Rússia, apesar dos enormes riscos, passou do 17º lugar no ano passado para o 8º destino escolhido pelos decisores mundiais este ano. A República Checa subiu para 13º lugar e a Hungria ficou em 17º.

O Índice de Confiança do IDE foi lançado por aquele consultora em 1998 e baseia-se num inquérito a membros da direcção de topo das 1000 maiores empresas do mundo, pretendendo medir as preferências de localização de investimentos futuros e do tipo de operações de IDE. É um barómetro do "sentimento" e do "clima psicológico" na comunidade investidora mundial.

Mudanças geopolíticas

O relatório deste ano é particularmente importante em termos do contexto geo-estratégico do IDE no mundo. Os resultados do inquérito feito pela A T. Kearney reflectem, uma vez mais, três mudanças geo-políticas.

A China conservou o primeiro lugar das intenções de investimento dos decisores. Tornou-se o principal recipiente de fluxos de IDE globais pela primeira vez em 2002, desalojando os Estados Unidos do lugar cimeiro.

Primeira mudança: chama-se liderança da China. Apesar da pneumonia atípica e da desconfiança política face ao regime formalmente ainda comunista, a China conservou o primeiro lugar das intenções de investimento dos decisores. Tornou-se o principal recipiente de fluxos de IDE globais pela primeira vez em 2002, desalojando os Estados Unidos do lugar cimeiro. A adesão à Organização Mundial do Comércio e a continuação das reformas económicas já catapultaram a China para o lugar de "fábrica do mundo".

A China substituiu definitivamente o Japão como "locomotiva" psicológica da Ásia e arrasta positivamente na sua esteira a Coreia do Sul e Taiwan, apesar da grave instabilidade da Península Coreana e dos choques políticos regulares com a Formosa. Por outro lado, um novo grupo de emergentes asiáticos - Índia, Tailândia, Vietname, Malásia e Indonésia - conquista progressivamente posições face a alguns "tigres" tradicionais (como Hong Kong que caiu para 22º lugar no Índice de Confiança e Singapura que saiu mesmo do "top" 25).

A segunda mudança: tem a ver com a subida consistente do que é designado como bloco dos "países emergentes". Temporariamente, em 2002, os "emergentes" tinham sido ofuscados pelo clube dos ricos da União Europeia. Mas a tendência de fundo gerada pela globalização, observável no Índice de Confiança da A T. Kearney desde a primeira edição em 1998, voltou à tona. Os "emergentes" são 60% do "top" 5 e do "top" 10 e 52% do "top" 25.

Refira-se que 30% dos inquiridos classifica a retoma do Mercosul como importante e o relatório elogia a governação Lula no Brasil. No caso do México, trata-se do destino que os investidores europeus elegem em 2º lugar, logo depois da China.

A terceira mudança: tem a ver precisamente com os espaços em que a atenção dos investidores se concentra. Quatro áreas estão em alta - a Ásia (11 países emergentes no "top" 25), a Euro-Asia (abrangendo a União Europeia, a Europa do Leste, mais a Rússia e a Turquia, totalizando 10 países no "top" 25), a NAFTA (com particular destaque para o México, como "ponte" para os EUA), e o Brasil, como alavanca do Mercosul. Neste último caso, refira-se que 30% dos inquiridos classifica a retoma do Mercosul como importante e o relatório elogia a governação Lula. No caso do México, trata-se do destino que os investidores europeus elegem em 2º lugar, logo depois da China.

Deslocalizações em alta

O relatório da A T. Kearney revela, ainda, que a deslocalização de processos de negócio por razões de minimização de riscos operacionais está a levar a dianteira ao tradicional "outsourcing" de fabrico e montagem nas intenções dos decisores.

A deslocalização de processos de negócio por razões de minimização de riscos operacionais está a levar a dianteira ao tradicional "outsourcing" de fabrico e montagem nas intenções dos decisores.

A prioridade que está a ser dada ao designado "offshore de processos de negócio" envolve 79% dos inquiridos - 21% falam da deslocalização das funções de suporte na área das Tecnologias de Informação (com destaque para a Índia como local prioritário), 14% em operações de "back office", 13% em deslocalização da própria Investigação & Desenvolvimento (sobretudo para os EUA, Irlanda e Reino Unido), 11% nos "call centers" (com destinos prioritários na Polónia, Eslováquia, Costa Rica e Filipinas), 10% nas funções ligadas a contabilidade e tesouraria, e outros 10% no logística (para Eslováquia, Singapura, Malásia e Hong Kong).

No campo do IDE ligado à deslocalização de fabrico e montagem os países em alta são a China (para todo o tipo de "commodities"), o Brasil e a República Checa para o "cluster" automóvel, e mais um lote de países para todo o tipo de fabricos de baixo custo como a Eslováquia, Rússia, Croácia, Roménia, Ucrânia, México e Malásia.

TOME NOTA
O que afecta as decisões de IDE (segundo a opinião da maioria dos entrevistados)
  • Sinais de retoma ou não da economia americana: 84%
  • Bloqueios ao comércio internacional (lentidão das iniciativas da OMC), ascensão do bilateralismo norte-americano (multiplicação de acordos comerciais bilaterais), reforço do proteccionismo nos blocos regionais: 63%
  • Medo psicológico de situação de deflação global no actual período de depressão (ciclo vicioso de quebra de preços e erosão das margens de lucro): 62%
  • Desvalorização excessiva do dólar: 52%

  • O que pode atrair os investidores estrangeiros
  • Imagem do papel geo-económico desempenhado: revalorização do México como "ponte" para os EUA; revalorização do papel do Brasil no Mercosul; revalorização da Europa de Leste no quadro do alargamento da União Europeia e da emergência do espaço euro-asiático
  • Promoção da atracção de investimento estrangeiro nas áreas em alta de deslocalização de processos de negócio
  • Oportunidades das privatizações na União Europeia actual e alargada (Alemanha, França, Espanha, Europa de Leste)

  • «Ranking»
    Índice de Confiança do Investimento Estrangeiro
    TOP 10
    2003: China; EUA; México; Polónia; Alemanha; Índia; Reino Unido; Rússia; Brasil; Espanha
    2002: China; EUA; Reino Unido; Alemanha; França; Itália; Espanha; Canadá; México; Austrália
    2001: EUA; China; Brasil; Reino Unido; México; Alemanha; Índia; Itália; Espanha; França
    2000: EUA; Reino Unido; China; Brasil; Polónia; Alemanha; México; Itália; Espanha; Austrália

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