A aterragem forçada

O outro cenário do FMI para 2001 de que não se fala

Nem analistas, nem políticos falam do cenário de «aterragem forçada» que
o FMI lançou nas suas projecções do crescimento mundial para o primeiro ano do século XXI. O preço do crude em alta e a correcção nos mercados
de capitais estão a empurrar a economia mundial para um período de nítido abrandamento, que poderá chegar à beira da recessão se o preço do crude ultrapassar a barreira dos 50 dólares por barril e se o clima psicológico
de pânico se apossar dos investidores e dos decisores

Adaptações publicadas na edição de 21 de Outubro de 2000 do semanário português Expresso a propósito do debate sobre o Orçamento de Estado (português) para 2001

Apontamento de Jorge Nascimento Rodrigues

O nome é sugestivo sobre o outro cenário da conjuntura internacional para 2001 recentemente divulgado pelo insuspeito Fundo Monetário Internacional (FMI) e de que o relatório semanal - Global Economics Weekly - da Goldman Sachs (edição de 27 de Setembro de 2000, nº 00/34) se faz eco.

Esta «aterragem forçada» da economia mundial, e particularmente das economias dos países da OCDE, implicaria uma moderação da taxa de crescimento mundial no próximo ano que seria «corrigida» de 4,2%, no cenário oficial, para 3,1%.

O «desvio» seria mais acentuado nos Estados Unidos - com uma economia actualmente «sobreaquecida», segundo a maioria dos analistas - com uma redução em 1,9% do crescimento e na Europa com um «corte» de 1,3%.

Essa moderação forçada implicaria que a taxa de crescimento nos Estados Unidos baixaria drasticamente em 2001 para a casa dos 1% e na Europa para a faixa dos 2%, o que baralharia completamente todas as projecções feitas pelos países da Comunidade Europeia, e nomeadamente em Portugal, onde o patamar dos 3% de crescimento anual continua a ser a referência oficial.

A «aterragem forçada» seria originada por duas principais ordens de razão: a inversão do clima nos investimentos e fluxos de capitais - motivada pela mudança no comportamento psicológico dos agentes do mercado de capitais -, e a incerteza sobre o patamar em que flutuará o preço do barril de crude.

A quebra no mercado de capitais a que temos assistido desde Abril de 2000 prosseguiria no próximo ano. Estima-se que os mercados de capitais necessitam, ainda, de uma «correcção» adicional de 20%. Por outro lado, os estudos do FMI apontam para um impacto do aumento do preço do petróleo na ordem de uma quebra de 0,2% do PNB real por cada 5 dólares acima da faixa inicial oficialmente estabelecida pela OPEP na banda dos 22 a 28 dólares por barril de crude.

Como pano de fundo está o amadurecimento da terceira vaga ligada à informática e à Internet e o findar de um longo ciclo económico de Kondratiev iniciado nos anos 40, que está a dar lugar a um novo ciclo, passando, transitoriamente, por um período de crise.

Paradoxalmente, a situação no quadro da OCDE inverter-se-ia temporariamente, com a Europa, pela primeira vez desde a emergência da terceira vaga, a crescer mais um ponto percentual do que os Estados Unidos. Estes veriam o dólar entrar numa curva de correcção da sua actual sobrevalorização. O cenário do FMI aponta para uma desvalorização do dólar norte-americano da ordem dos 10% e uma valorização do euro na mesma ordem de grandeza.

Contudo, há factores adicionais a tomar em linha de conta que podem jogar em direcções contrárias. Caso o disparo nos preços do petróleo suba acima de um patamar dos 40 dólares por barril e se aproxime da barreira dos 50, por razões imprevisíveis da conjuntura política, particularmente no Médio Oriente, o FMI antevê, então, um «sério choque petrolífero» seguido de «uma provável recessão» (o comportamento do crude é assunto que desenvolvemos abaixo.

Contudo, apesar da «aterragem forçada» para que poderão ser empurrados, os Estados Unidos têm uma situação estrutural mais favorável do que a Europa. No Novo Continente o amadurecimento da indústria da Web está em fase muito mais adiantada e assiste-se a uma clara emergência de uma nova vaga tecnológica associada à biotecnologia e aos novos materiais, que, segundo os analistas, será o motor do novo longo ciclo económico de Kondratiev em que entrámos neste virar de século.

A TEIMOSIA DO CRUDE
O comportamento do preço do barril de crude transformou-se no principal «partido» de oposição aos governos da OCDE, desde que, em finais de 1999, o ciclo do petróleo barato a valores de 9 a 10 dólares por barril terminou subitamente.
A sua evolução desde que ultrapassou a barreira dos 20 dólares apanhou os políticos ocidentais de surpresa, os quais foram flexibilizando, ao longo destes últimos meses, o seu discurso sobre um «preço alto aceitável».
O disparo destes preços em 2000 para valores que já atingiram uma média anualizada de 28 dólares por barril para o crude de Brent (referência para a Europa) retirou todas as esperanças de um regresso a preços baixos e mesmo ao patamar dos 20 dólares.
As projecções foram, então, sendo «puxadas» para cima e muitos dos cálculos para 2001 já são feitos com um preço de referência na ordem da banda oficial dos 22-28 dólares ou mesmo acima na fasquia dos 30 dólares.
Mas mesmo esta «correcção» foi apanhada de surpresa pelos acasos da política. Quando se esperava um arrefecimento gradual, fruto da boa vontade da OPEP, uma provocação inesperada numa esplanada desencadeia um estado de pré-guerra na zona sensível do Médio Oriente e os preços do crude rapidamente ultrapassaram os 35 dólares nesses dias de sangue. Mesmo depois do frágil acordo desta semana, os futuros para Novembro e Dezembro estão acima dos 30 dólares e no mercado «spot» diário continuamos a assistir a uma dança de preços acima dos 32 dólares..
Se o acaso voltar a fazer das suas, o disparo pode «chutar» o crude para o patamar dos 40 dólares ou mesmo dos 50, o que aproximaria a situação dos valores reais atingidos aquando da Guerra do Golfo. Alguns analistas não descartam esta possibilidade chamando a atenção para o perigo de guerra no Médio Oriente provocado por algo imprevisível ou mesmo fora do baralho. Richard Duncan, do Institute on Energy and Man, em Seattle, nos Estados Unidos, afirmou premonitoriamente no último forum do Petroleum Technology Transfer Council, em 22 de Setembro passado, que «o caminho adiante conduz directamente à guerra no Médio Oriente num prazo de meses, e não necessariamente de anos».
Paul Krugman, o polémico economista do MIT, chamou a atenção no New York Times para muitas «semelhanças» de comportamento no desenrolar da actual crise petrolífera e da crise financeira asiática dos anos 90. «A crise surge sempre subitamente, apanhando de surpresa muita gente respeitável», escreveu Krugman. Os políticos e os decisores são surpreendidos dada a dificuldade de olharem para fora do cenário oficial e pelo facto de rejeitarem, até à última, a possibilidade de «um equilíbrio ter sido substituído por outro», na linguagem pura e dura dos economistas.
O que ainda continua a ser escondido é o efeito deste «choque» no crescimento económico e no comportamento psicológico dos decisores, investidores e consumidores. Preços do barril superiores a 30 dólares terão um impacto real no crescimento, provocando um nítido abrandamento, em maior ou menor extensão, consoante as projecções (vide o cenário do FMI de «aterragem forçada», em cima. Mas, se o preço chegar aos 50 dólares, os analistas são unânimes em falar de um caminho que rapidamente conduz à recessão.
A gravidade económica desta situação deve-se ao facto do crude ter ainda uma influência crítica na economia mundial. Apesar da redução global do grau de dependência do petróleo nas economias da OCDE, há sectores nevrálgicos em que essa dependência se reforçou inclusive - o caso da logística, em particular do transporte, viu o aumento da percentagem de consumo de combustíveis subir em 30 anos de 45% para 60%.
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